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OS CISNES E A PÓS-MODERNIDADE

VALÉRIA CRUZ

OS CISNES E A PÓS-MODERNIDADE

 

                        Por avenidas de água e gelo, nadam os Cisnes, alvos como o luar, as pérolas, e os corpos que desconhecem o sol, entoando seu canto de morte no alvorecer de um novo tempo, de uma pós-modernidade que assiste o definhar da arte, a transmutação da beleza em vulgaridade, e da rebeldia em espetáculo de consumo.

                        Suas plumas se eriçam tristes na paisagem invernal, esparzindo as gotas cristalinas de um lago túmulo, alentando purificações utópicas, e gestando epitáfios para inúmeras obras artísticas, que apodrecem nas morgues abandonadas, sinais de uma era de trevas e desinteresse.

                        Pálidos augúrios, lenços de linho branco perdendo-se na neve, plenos de lividez e frio, auscultando o coração petrificado da sensibilidade, cujo pulsar, agora, é apenas o mistério do inânime, do tédio e do marasmo, revelam os livros sibilinos há muito esquecidos, com suas profecias dos muitos fins de épocas e culturas.

                        Alaúdes consternados soam acordes no vazio, e a melancolia espreita por detrás das colunas de um templo em ruínas, enquanto os Cisnes, em seu movimento harmonioso, deslizam, enfim, para a garganta abissal da morte.

 

       סּ☼סּ

 

                        A cultura de massa, aos poucos, foi tomando o lugar das verdadeiras manifestações artísticas, inserindo no cotidiano as suas unhas esmaltadas de cores kitsch, sob a capa de um populismo que visa mais a venda de sua mercadoria, do que difundir conteúdos de relevo.

                        A falsa preocupação com o povo, no sentido de contemplá-lo com uma arte que o alcance, esconde, na verdade, a ânsia de lucro de alguns poderosos, que controlam os meios de comunicação de massa, e as cabeças não pensantes.

                        Tudo se tornou barroco, gongórico, exagerado, necessitando ser posto de lado, ceder espaço ao clean, limpo, claro, sem rugas, como o rosto ascético de u’a mulher recém saída de uma plástica, ou, uma tela com dois pontos inscritos, significando masculino e feminino...

                        Pingüins na geladeira eram bem melhores do que a deturpação do samba... Negras de saias rodadas, carregando seus estandartes e seus belos sorrisos, desaparecem nas portas do ontem, deixando passar, através do presente, as moças desnudas, de corpos esculturais, fingindo que cantam, enquanto os Olhos, devassam suas pernas, e os ouvidos  não prestam atenção a pseudomúsica, em um exercício meramente cotidiano, prendendo-se mais aos beijos que são enviados à platéia que, em delírio, deplora o sorriso da Mona Lisa, augúrio de ironia e sapiência.

                        Bach, Vivaldi, Beethoven, Beatles, Rolling Stones, Elis Regina, Noel Rosa, Caetano Veloso, não importa, a galeria é imensa, e está prestes a virar um museu com poucos visitantes, substituída por frivolidades que se intitulam arte, e que juraram ter conseguido, como Alice no País das Maravilhas, que o valete pintasse as rosas brancas de vermelho, fazendo de conta que eram dessa tonalidade.

                        Quando Alice imigrará para o outro lado do espelho? Urge uma inversão de imagens, e um entendimento de que a arte não pode ser apanágio de uma elite, deixando de lado preocupações de cunho mais social, servindo de jogo e brincadeira para personagens como Maria Antonieta e os czares da antiga Rússia, tampouco um objeto de consumo, esvaziado e supérfluo.

                        A arte tem como fito a beleza.  Mas esta não deve ser compreendida no sentido corriqueiro, pois pode demonstrar até mesmo o que habitualmente se considera como fealdade, de modo belo e profundo, como, por exemplo, a fome, sob a figura de u’a mulher esquálida, sem dentes, com as mãos estendidas em direção ao alto, aguardando uma chuva de sementes que nunca vem.      

                        A imagem acima destacada é ilustrativa de uma arte comprometida com o social, distante da vulgaridade e dos interesses dos poderosos, e que não descurou da parte estética que lhe é atinente.

                        Sem dúvida alguma, a arte deve tanto denunciar as injustiças e a hipocrisia de seu meio, até porque é um reflexo do universo no qual se vive, e não poderia deixar de fazê-lo (o que comprovam tantos Lorcas, Picassos e Chico Buarques ao longo dos tempos), como desenvolver seu trabalho dentro de uma estética capaz de tocar corações, olhos e mentes.

                        Resumindo, podemos assertivar que a arte pode ser encarada, dentre outras coisas, em termos de seu papel, como reflexo e crítica do mundo; como desveladora de ideologias; como revelação; como mensagem no caminho do autoconhecimento e da sabedoria; como transmissora de mitos, símbolos e arquétipos; como fonte de prazer, emoção e sensibilidade.

                        Baudelaire, in Escritos sobre Arte, afirmou que a arte pura implicava em uma magia sugestiva contendo, ao mesmo tempo, o objeto e o sujeito, o mundo exterior ao artista, e o próprio artista.  Pregava o moderno em contraste com os parâmetros da Antiguidade Clássica, sendo, inclusive, tal termo, devedor de seu artigo de 1863, O Pintor da Vida Moderna, que o definia como o transitório, o fugidio, o contingente, configurando uma metade da arte, sendo a outra, o eterno e o imutável.

                        Rimbaud dizia que era preciso ser moderno, e para o Surrealismo, a modernidade significava a destruição das formas cristalizadas que impediam a evolução das artes, dos sentimentos, das idéias e dos costumes.

                        Mais ou menos por volta de meados do século XX, contudo, a problemática que envolve as transformações em curso no mundo atual, levaram uma série de pensadores a equacionarem o fim de um período histórico, chamado modernidade, e o início de outro, intitulado de pós-modernidade. A despeito das diferenças entre os vários autores, o assunto não merece ser relegado, pois configura críticas e reflexões a respeito da existência humana, do universo circundante da cultura e de valores.

                        Em tal panorama, despontam a globalização, a sociedade pós-industrial, o capitalismo tardio, a economia de mercado, e a contestação do pensamento típico da ciência e da filosofia do passado, tais como o positivismo, o empirismo e o racionalismo, e a arte e a estética, como exemplificadoras eventuais de ideologias perniciosas.

                        Terry Eagleton, in As Ilusões do Pós-Modernismo, acentuou que a palavra pós-modernismo remete, em geral, a um tipo de cultura contemporânea, enquanto o termo pós-modernidade vincula-se a um período histórico específico.[1]

            O pós-modernismo, ainda segundo o autor, seria um estilo de cultura que reflete um pouco essa mudança, por meio de uma arte que, evidentemente, não podia deixar de fazê-lo;  enfim, personificaria a cultura da sociedade capitalista avançada.

                        Já a pós-modernidade pode ser entendida como uma linha de pensamento que questiona as noções clássicas de verdade, razão, identidade e objetividade, a idéia de progresso ou emancipação universal, os sistemas únicos, as grandes narrativas ou os fundamentos definitivos de explicação.

                        Continuando, ressalta o caráter efêmero e descentralizado que permeia essa pós-modernidade, que, diferentemente do niilismo, encara o mundo como gratuito, contingente, imprevisível, instável, englobando várias culturas em uma diversidade que implica em interpretações desunificadas, e em um ceticismo no que tange à objetividade da história, da verdade e das normas.

                         Steven Connor, tanto em Cultura Pós-Moderna, como em Teoria e Valor Cultural defende a auto-reflexão, avaliando não apenas aspectos artísticos, mas também políticos e culturais, tentando estabelecer uma ética que dê conta dos dilemas atuais, repondo a discussão sobre os valores em tal enquadramento.

                         Desde os finais da década de setenta, que a polêmica filosófica sobre a modernidade tem atraído o interesse de nomes de importância, dentre  os quais os de Jürgen Habermas e o de Jean-François Lyotard.

                        Habermas, que se notabilizou através da Escola de Frankfurt, onde vicejou a Teoria Crítica, e responsável por uma extensa obra, entende que a modernidade é um projeto inacabado que é preciso continuar, repensando-o, e avaliando seus erros, para inseri-lo em condições mais adequadas à sociedade e a cultura de hoje.

                        De maneira antagônica, posicionou-se Lyotard, célebre autor de A Condição Pós-Moderna, publicado em 1979,  defendendo que a modernidade é um projeto esgotado, cujos fundamentos se subsumem nas idéias iluministas, propugnadoras da verdade, do progresso, da liberdade e outros tópicos similares, as quais são de se desconfiar, haja vista o seu não cumprimento, ou eventuais conseqüências negativas, como o niilismo.

                        Adicionou que teve início um período de experimentação na filosofia, na arte e na cultura em geral, e que as metanarrativas que legitimavam as idéias nucleares da modernidade, no máximo produziram um sentimento incrédulo ou desconfiado.

                        Tanto Richard Rorty, devedor do pragmatismo, como Gianni Vattimo, tentaram posições mais moderadas, ou ir além dos dois anteriores.  Enquanto Rorty pretendeu, mais do que anunciar o fim da filosofia, reposicioná-la na conjuntura dos saberes e atividades humanas;  Vattimo, sobretudo em O Fim da Modernidade, acreditou que o que está ocorrendo é uma espécie de crepúsculo de uma época, onde outra, ainda informe, principia a brotar, deixando entrever algumas peculiaridades.

                        Michel Foucault constitui outra influência de relevo, e de teor niilista, no questionamento da razão, item caro à modernidade, como já vimos. Em seus estudos avaliou a loucura, a saúde mental, as formas jurídicas, os discursos, o intelecto, a ciência, o saber enquanto um instrumento do poder, autoritário e manipulador.

 

                        Fredric Jameson, em Pós-Modernismo: A Lógica Cultural do Capitalismo Tardio, fala em modernismo (vanguardas e revoluções culturais), alto modernismo (ou decadência das vanguardas, a partir de meados do século XX) e de pós-modernismo (revisionamentos do passado, os quais começam a influenciar no fim dos anos cinqüenta ou começo dos sessenta).[2]

                        Ao frisar questões de teor político, econômico, social e artístico,  sustentou a crítica da cultura, e a inserção desta em um contexto histórico informador, tentando avaliar as produções de que o mais recente capitalismo foi ensejador.

                         Humberto Mariotti, por sua ocasião, situou o início da pós-modernidade mais ou menos em fins dos anos sessenta e início dos setenta, assinalando a importância da complexidade para tal estado de coisas,[3] entrementes, Jean-Marie Domenach, in Abordagem à Modernidade, recordou que a maior parte dos historiadores data o início da Era Moderna em 1453, quando caiu Bizâncio, sendo seu fim em 1789, marco da Era Contemporânea e da Revolução Francesa[4]; acrescendo que o lema da modernidade é o de que nada deve escapar à investigação e às conquistas da ciência, da arte e da técnica.

                        Contudo, há aqueles que preferem situar o começo da contemporaneidade durante o advento da Primeira Guerra Mundial, existindo muita controvérsia e variantes sobre a temática.  No que tange à arquitetura, por exemplo, Charles Jencks datou o final simbólico do modernismo e a passagem para o pós-moderno de 15h32m de 15 de julho de 1972, quando o projeto de desenvolvimento da habitação Pruitt-Igoe, de Saint Louis (uma visão premiada da máquina para a vida moderna de Le Corbusier) foi dinamitado como um ambiente inabitável para as pessoas de baixa renda que abrigava.

                        Paul Cilliers, in Complexity & Postmodernism, descreveu a sociedade pós-moderna como um sistema complexo, ratificando que as características do mesmo nela subjazem presentes e atuantes;  e Manuel Maria Carrilho, in Elogio da Modernidade, grifou que não assistimos ao fim da cultura, mas ao fim de uma época da cultura.  De tal desintegração nos apercebemos parcialmente;  e, em curso,  já se promove um certo recompor.[5]      

                        No palco desse período pleno de transformações,  porém, espreita o fantasma das desigualdades, da pobreza, da pseudodemocracia, até como a entendeu Noam Chomsky, autor de Segredos, Mentiras e Democracia.

                        Podendo designar um embuste, a democracia, dada a sua aplicabilidade, que não atinge os mais desfavorecidos, costuma servir aos ditames dos mais poderosos, à economia de mercado e ao imperialismo norte-americano. Em tal sentido, colabora a imprensa cujo papel é ambíguo, ensejando tanto alienação como consciência.

                                   Portanto, para o mencionado Chomsky, a democracia pode ter o aspecto formal da democracia e não ser democrática, não participando o povo, ou muitos segmentos da sociedade, das decisões políticas dos governos, via de regra sob a influência das grandes empresas e da plutocracia.  Da mesma forma, o imperialismo, contaminando o processo de globalização, pode transformar esta em domínio e manipulação dos povos sob a égide dos detentores do poder maior.

            Anthony Giddens, em O Mundo na Era da Globalização, considerou  que estamos vivendo em um período histórico de transição, onde a globalização se manifesta como um fenômeno que produz abalos e reestruturações em nossa maneira de viver, tanto coletiva como individual, e em vários níveis, econômico, social, cultural, sexual, político etc.[6]   Na mesma esteira que Chomsky, disse que há o risco da globalização se tornar apenas norte-americanização, pontuando a primeira como uma difusão das instituições ocidentais através do mundo, onde outras culturas são esmagadas, consistindo em um processo de desenvolvimento desigual, que tanto pode fragmentar quanto coordenar.[7]

         Rememorando que, na França, a palavra similar é mondialisation;  na Espanha e na América Latina, globalización; e, na Alemanha, Globalisierung, destacou em As Conseqüências da Modernidade,  que  ingressamos em um período de alta modernidade, e que o revisionismo deve ser exercido.

                        Feitas tais considerações, julgamos lícito realçar que o canto dos Cisnes pode ser interpretado como uma previsão do fim da modernidade, ou de sua agonia, como preferirem, no seio de uma, ainda informe, pós-modernidade.

                        Tal desfazer-se, todavia, não deve ser avaliado como um término absoluto da cultura, da arte, da razão, e da possibilidade de  uso das mesmas para efetuar críticas e esclarecimentos, mas apenas como uma era de transição, de mudanças, como já ocorreram outras, como, por exemplo, do Paganismo e do Mundo Antigo, para o Medieval, deste para a Renascença, que rumou para o Modernismo, que, hoje, é estudado como algo que se desintegra para, com certeza, compor algo novo, e ainda não conhecido de todo.

                        O pós-modernismo é uma faca de dois gumes, produz reflexões e críticas, o que sempre é útil, mas, ao mesmo tempo, constrange, aliena, aceita o mero dar de ombros, ou a omissão como lema, esquecendo-se da ética e dos valores, e condenando a arte a objeto de consumo, desconfiando de tudo, e desenvolvendo uma persecutoriedade impeditiva e indesejável.

                        A dialética, mais uma vez, surge e oferta sua contribuição, convidando à síntese de opostos.  Então, Cisnes brancos e negros, Eros e Tanatos, flutuam nos lagos já de todo cobertos de neve e escuridão, entoando seu canto fúnebre à arte que desfalece nos braços da indiferente sociedade pós-industrial, e suas penas se agitam, débeis, na imensa morada do silêncio.  Às aves ainda não foi dado o poder da ressurreição.

   סּ☼סּ 

                                                                                    Valéria Cruz

 

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OLHOS

                   

                                                     I   

OS REIS

 

                        Ainda que desejem nos derrubar, ali estaremos nós, os Olhos, abarcando as planícies em fogo, a noite que morre nos alvos braços da madrugada, os tesouros ocultos na terra, as mentiras, e as ilusões humanas.

 

                        Nadando como peixes nas águas da existência, vítreos, quelônios ancestrais, víboras, estrelas, lanternas, invadindo os confins do incognoscível, desvelando, desvelando, desvelando...

                        

       סּ☼סּ

  

                        Jim Morrison escreveu um texto para a Revista Eye, onde destacou que o olho é Deus e mundo, um tirano frente a outros sentidos, sobretudo o tato.  Acresceu que, na penumbra, a forma é sacrificada pela luz, e que, em plena luz, esta é sacrificada pela forma.[8]

 

                        De fato, a visão tem sido, dentre os cinco sentidos, o mais utilizado pelo ser humano, permeando todo o decorrer da História, e exercendo sua influência, inclusive, no que tange a padrões sócio-culturais, alguns de caráter um tanto restritivo.

 

                        No jogo de contrários, se inserem os Olhos, ao gosto de Heráclito e da dialética, brincando com as imagens, ofertando-lhes notas, como se o mundo pudesse ser circunscrito a um boletim escolar, decidindo acerca de eventuais enquadramentos ou reprovações de pessoas frente a seus modelos.

 

                        Ser alto, baixo, magro, gordo, bonito, feio, desejável, regular, e assim por diante.  Os Olhos, monarcas de uma corte refletora de tantas expectativas, plenas de ideologias fortes, agem de modo taxativo, dizendo quem se enquadra, ou não, nos rótulos e estereótipos de uma cultura de consumo e decadente.

 

                        Então, os Olhos contribuem com sua porção de negatividade, que, por seu lado, realça, em uma enantiodromia veloz, outras faces, mais positivas, que implicam em uma rede complexa e plena de contradições.

 

                        Dessa maneira, os Olhos, ao mesmo tempo que constrangem, desvelam, calando vozes tão somente niilistas, que pretendem fazer uso da ideologia, em sua acepção pejorativa.  Sim, pois, até mesmo se colocando contra suas próprias assertivas, acabam restando aprisionados em uma teia pessimista, que impede a consciência crítica de atuar no tocante a descerrar ilusões, engodos,  falseamentos, e outros conteúdos de teor manipulatório, amiúde objetivadores de vantagens e domínio por parte de elites interesseiras, inescrupulosas e dotadas de poder. 

 

                        Referente a tal noção, os linces e as moscas; os primeiros, afetos aos Olhos enquanto consciência crítica, e ferramentas reveladoras; e as segundas, personificantes de suas aplicações indevidas.

 

                        Gaston Bachelard, em A Filosofia do Não,  posiciona-se contra os niilismos, aludindo a uma atividade construtiva, salientando que pensar corretamente o real, é aproveitar suas imprecisões para modificar, e alertar o pensamento, que deve ser dialetizado, e possuir um caráter regenerador. [9]

 

                        Interessante citar a esta altura Noam Chomsky, que assertivou o quanto é importante dispersar as nuvens de falácias e distorções, e aprender a verdade sobre o mundo, organizando-se, e agindo para mudá-lo.  Sustenta um trabalho contra a alienação, propondo lutas, protestos, e atos, ainda que em diminuta parcela, nas principais questões da época. [10]

 

                        Adita que se nos unirmos a outras pessoas, poderemos provocar mudanças, sendo muitas coisas possíveis, dependendo do esforço empregado para consegui-las. [11]

 

                        Gostaríamos aqui de relembrar Barbara Freitag, cujas afirmativas remetem à idéia de participação defendida por Chomsky.  A esse respeito, ela se manifestou em seu livro, Itinerários de Antígona - A Questão da Moralidade:

 

 “Furo o sinal, como todos fazem, ou aguardo a luz verde?  Devolvo, ou não, os mil cruzeiros que a moça do caixa deu a mais de troco?  Recrimino o estudante que está plagiando livros e trabalhos de colegas, mesmo que seja filho de um deputado ou senador conhecido, que poderá prejudicar-me? Ajudo a pegar o ladrão que roubou a bolsa de uma velhinha, em pleno shopping, sob risco de levar uma facada?  É a moralidade que está em questão a cada passo que damos, em cada ação que executamos.  Em suma, o mundo vivido está cheio de dilemas morais, que nos impõem uma tomada de partido, fazem-nos decidir a favor ou contra uma certa opção, tornando-nos culpados ou inocentes, de acordo com certos padrões de avaliação e julgamento. (...) Viver significa agir, mas agir é perigoso, pode custar-nos (ou a outros), até mesmo a vida. É essa a lição de Antígona.[12] E, no entanto, é preciso agir, é preciso optar, e assumir a responsabilidade pela nossa vida individual e coletiva.  Assim sendo, somos todos co-responsáveis pelo nazismo, pelas guerras, pela miséria do Terceiro Mundo, pela crise no Brasil, pela catástrofe ecológica. (...) O sentido da vida e da ação do indivíduo no coletivo é assumir essa responsabilidade e agir de acordo.[13]

 

                        Também Marguerite Yourcenar, em Fogos, abordou a personagem de Antígona, realçando que:

                       

 “Em plena noite ela se transforma em lâmpada. Sua dedicação aos olhos perfurados de Édipo reflete-se sobre milhões de cegos;  sua paixão por seu irmão putrefato reaquece para além do tempo milhares de mortos;  não se mata a luz, pode-se apenas abafá-la.  Não se pode esquecer a agonia de Antígona. (...) O dia escurece sem transição, como uma lâmpada queimada que não reflete nenhuma luz.  Se o rei levantasse os olhos nesse momento, os revérberos de Tebas ocultar-lhe-iam as leis inscritas no céu. (...) De que fala o meio-dia profundo? O ódio cobre toda Tebas como um sol atroz. Após a morte da Esfinge, a cidade ignóbil já não possui segredos. Todas as coisas vêm à luz do dia. (...)  As radiografias do sol corroem as consciências sem extirpar-lhes o câncer.  Édipo ficou cego à força de manipular esses raios escuros.  Só, Antígona suporta as flechas arremessadas pela lâmpada em arco de Apolo, como se a dor lhe servisse de óculos escuros”. [14]

 

                        O texto acima demonstra, nitidamente, o que estávamos afirmando acerca dos Olhos constituírem instrumentos tanto de ocultação como de esclarecimento, guardando em seu bojo ambigüidades, incoerências, e os já aventados opostos.

 

                        Édipo furou seus olhos em uma atitude indicativa de evitamento de confrontar um tabu, no caso, o do incesto com sua mãe Jocasta;  Tirésias, o famoso adivinho e conselheiro, por sua vez, era cego, para denotar a importância da visão interior;  assim como o chifre na testa do unicórnio remonta ao terceiro olho, e aos dons proféticos, grifando-se que o termo vidente se prende a estas peculiaridades.

 

                        O mito de Eros e Psique (= amor e alma), a seu tempo, relatou a história desta última que, apaixonada pelo anterior, não podia vê-lo, sob o risco de  incorrer em sua perda.  Entrementes, confundida por suas irmãs invejosas, com receio de que ele se tratasse de um monstro, iluminou-o, certa feita, deixando cair sobre seu ombro uma gota de óleo quente, que o acordou, banindo-o para longe.  Somente após muitas provações, pode se unir ao mesmo, vivendo, então, feliz.

 

                        Tal lenda evidencia não só a problemática das emoções, amores, sentimentos, desejos, instintos e paixões poderem cegar, como também recordam a antiga máxima de quem vê Deus, ou a verdade,  cega, ou morre. 

 

                        No Egito, o Sol, símbolo básico da luz, era a divindade responsável pela visão, isto é, Ra, ainda conhecido como O Olho do Sol. Todos os deuses de cunho solar, todavia, estavam associados aos Olhos, tal como Hórus (=o zelador do Olho do Sol, com cabeça de falcão), e sua variante Haroéris (=deus dos oftalmologistas).  Osíris, por seu turno, o grande senhor e juiz dos mortos, era representado por um olho sobre um trono, sendo seu nome atinente à expressão lugar do olho.

 

                        Para os gregos, Hélios, o deus Sol, tinha o epíteto de Panóptes, ou aquele que tudo vê, sendo Apolo, outra deidade correlacionada a temática em pauta.

                       

                        Mencionando as palavras de Goethe, de que a clareza é a distribuição correta de sombras e luz, rememoramos que os Olhos, que tanto ocultam como des-ocultam, dogmatizam como des-dogmatizam, constroem como des-constroem, conduzem a uma síntese intrincada e repleta de nuances antagônicos, que revela seu dúplice papel.  

 

                        Assim, a ideologia é um dos tópicos relevantes para os Olhos.  Na ótica de Norberto Bobbio:  

 

“Não existe, talvez, nenhuma outra palavra que possa ser comparada à ideologia, pela freqüência com a qual é empregada e sobretudo pela gama de significados diferentes que lhe são atribuídos.” [15] 

 

                        O mesmo supracitado autor distingue, porém, duas tendências gerais de concepções, a que já nos referimos neste volume, e que são o significado fraco, onde ideologia designa um sistema de crenças, por vezes políticas, sendo um  conceito neutro, que prescinde do caráter enganador e mistificante;  e o significado forte, que se origina de Marx, e que supõe ideologia como falsa consciência das relações de domínio entre as classes, trazendo à baila a noção de falsidade, e de ideologia como sinônimo de falsa crença, sendo um conceito negativo.

 

                        Terry Eagleton, por seu turno, in Ideologia- Una Introducción,  relaciona uma lista de significados que a ideologia costuma assumir, quais sejam:  a) o processo de produção de significados, signos e valores na vida cotidiana;  b) conjunto de idéias característico de um grupo ou classe social;  c) idéias que permitem legitimar um poder político dominante;  d) idéias falsas que contribuem para legitimar um poder político dominante;  e) comunicação sistematicamente deformada;  f) aquilo que facilita uma tomada de posição ante um tema;  g) tipos de pensamento motivados por interesses sociais;  h) pensamento da identidade;  i) ilusão socialmente necessária;  j) união de discurso e poder;  l) meio pelo qual os agentes sociais dão sentido a seu mundo, de maneira consciente;  m) conjunto de crenças orientadas à ação;  n) confusão da realidade fenomênica e lingüística;  o) fecho semiótico; p) meio indispensável no qual as pessoas expressam em sua vida suas relações em uma estrutura social;  q) processo pelo qual a vida social se converte em uma realidade natural. [16]

 

                        Conforme o seu ponto de vista, em termos gerais, há uma tradição que se interessou mais pelas idéias de conhecimento verdadeiro ou falso, pela noção de ideologia como ilusão, distorção e mistificação, e outra, menos epistemológica que sociológica, mais envolvida com a função das idéias dentro da vida social que pela sua irrealidade ou realidade.  Acredita que ambas as citadas tradições são importantes, devendo ser levadas em conta.

 

                        Ademais, defende, primordialmente em La Función de La Crítica, a necessidade de que a crítica contemporânea redescubra sua função original, relacionando novamente cultura e política, discurso e prática, com o fito de conseguir uma transformação da sociedade como um todo.

 

                        Portanto, há ideologias e ideologias.  O que pretendemos destacar coaduna-se com a definição de Bobbio, útil, pois nos possibilita discernir ideologias positivas, neutras e negativas, prendendo-se tais valorações aos critérios de benefícios ou malefícios ocasionais para o ser humano e o planeta terra como um todo.

 

                        Sofistas, céticos, niilistas, poderiam obstar que tais critérios acima  talvez se encontrassem eivados de subjetividade, ou abrangessem o uso da razão, tão em descrédito.  Enfim, não nos parece que se um grupo de racistas decidisse espancar até a morte um jovem que discriminassem, deveria haver alguma dúvida a esse respeito.  Não estariam, com seus postulados, tais filósofos, se escudando na omissão, e eles próprios lançando mão de um intelecto medroso, esvaziado, e bem ao gosto do que se convencionou chamar de sociedade pós-moderna, no que ela tem de menos louvável?

 

                        A razão não é tudo, já enfatizamos antes.  As emoções, as intuições, a sensibilidade, e, uma série de fatores devem ser levados em conta, mas não autorizam a um agrilhoamento das capacidades intelectivas, fruto da argumentação de que podem errar, ou colaborar com o mal.  Qualquer coisa pode contribuir para o mal, desde o amor até a bomba atômica, e um beijo. 

 

                        A nosso ver, o mau uso da razão é que deve ser combatido, bem como o dos Olhos, que podem ser reprodutores, ou não, de ideologias.  É necessário enxergar além.  Ver não é enxergar.  Não é preciso apenas ver, é preciso desvelar.         

       סּ☼סּ

  

II

AS CÂMERAS

 

                       

                        Extraímos imagens da escuridão com as pinças dos Olhos.  Laboratório fotográfico, o cérebro revela fotos dentro dos seres.  Depois, tudo é só memória, constante folhear de álbuns, revisão de arquivos, anseio de durabilidade...

                       

                        Nitrato de prata, neurotransmissores, velhos rolos de filme e, a prestidigitação ocorre, transmutando a vida em linguagem visual, simbólica, pendurando nos varais da existência as películas tecidas em suas entranhas...

  

סּ☼סּ

 

                        Já disseram que os Olhos são janelas para o mundo, espelhos da alma, e de tantas outras coisas mais.  Para nós, sobretudo, são máquinas  fotográficas, onde o diafragma é a pupila;  o cérebro, a câmera escura;  e os filmes branco e preto, e coloridos, respectivamente, os bastonetes e os cones, isto é, os receptores para a visão dos dois tipos.

 

                        Na retina, os detectores da luz apreendem as imagens, com suas garras foto-eletrônicas, transmitindo-as ao cérebro, para que as leia, compondo os alfarrábios da visão, os arquivos da memória, as enciclopédias de tantas existências. 

 

                        Muitos são míopes, alguns, hipermétropes, e outros, sofrem de astigmatismo, ou de cegueira, em suas mais diversas gradações.  Diminuem, aumentam, não focalizam bem, evitam enxergar, ou, simplesmente, nada vêem.  Ora, nem toda ideologia é clarificada, enevoando os caleidoscópios  da realidade com seus leques e jogos enganadores.

 

                        No pátio do conhecimento, Maia brinca com Aletheia, atirando sobre esta seus véus de ilusão, cobrindo-a de noite e trevas, aguardando que os indivíduos não acendam fogueiras, não utilizem lanternas, e que Thomas Edison não tenha existido.

 

                        Ao longe, alguém se debruça sobre a história de Hans Christian Andersen, A Roupa Nova do Imperador, lembrando que este se acreditava vestido de forma magnífica, estando, na verdade, nu, o que foi constatado apenas por uma criança, que o alertou em tal direção, apontando o terrível equívoco.  [17]

 

                        Infantis os Olhos que, além de ver, falam, contando os segredos e mentiras das melhores famílias, dos mais supostamente bem intencionados políticos, daqueles que esperam se ancorar em propagandas fabulosas e manipulatórias.

 

                        O marketing da imagem dança com os arlequins, as quimeras, os carnavalescos de Veneza, os cantores da Ópera Chinesa, e as personagens do teatro greco-latino, em uma cerimônia de homenagem a Persona.

 

                        Gesso, papel machê, plástico, prata, ouro, não importa o material, as máscaras se sucedem no grande baile da hipocrisia, com suas artimanhas, sua purpurina e seus truques enredatórios.

 

                        As alianças em muitos dedos anulares, sinais de casamento ou de infidelidade? Os anéis de formatura, competência, ou apenas insegurança?  O  canto deixou de ser uma arte vocal para se tornar uma exposição só da aparência e do estilo, amiúde vulgar, do intérprete? E a falsa caridade, compra terrenos celestiais para o além-túmulo, garantindo um post-mortem tranqüilo?

                       

                        Perigosamente, os Olhos fotografaram o mundo, realizaram suas reportagens, às vezes como jornalistas brilhantes, outras, como seres comprometidos com um sistema dominante e alienador, esquivando-se de denunciar que muitos podem ser impostores, fingidos, artificiais, e não desejarem  reconhecer tal situação.

 

                        Ainda que tragam vendas, os Olhos  ali hão de permanecer, aconchegados na obscuridade, ostentando com sua condição que a liberdade está em falta, e precisa ser redescoberta.

 

                        Não obstante, inúmeros pregam que há liberdade demais, confundindo-se com o fato de que seus posicionamentos a respeito das coisas, o mor das vezes, estão contaminados por ideologias (em seu sentido forte), e opiniões majoritárias, mais fáceis de serem repetidas do que contestadas, até para se obter u’a melhor aceitação social.

 

                        Televisão, cinema, publicidade, padrões culturais, tudo converge para o picadeiro do circo, onde os palhaços riem lágrimas escondidas, a mulher barbada e os anões, obtêm o público com a exibição de sua desgraça, e os trapezistas andam na corda bamba como a maioria dos trabalhadores.

 

                        Chamem os Olhos, não apenas para que vejam, mas para que, depois de o fazerem, exibam suas fotografias, as coletâneas de imagens capazes de desnudarem as distorções e ardis subliminares do pré-estabelecido.  Afinal das contas, o rei pode estar nu...

           

                       

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                                                                 III

                                                OS DEVORADORES

 

 

 

                        Os Olhos são as bocas da mente, se abrem para o mundo externo, engolem imagens, e armazenam o que viram, como se fosse comida, no estômago de seu interior.

 

                        Estomâmago? Armazém eterno de alimentos, seiva nutritiva, fotossíntese misteriosa, da visão provém a vida...

 

 

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                        Sentados ao redor das mesas da existência, os Olhos devassam as bandejas repletas de doces, salgados e outros alimentos, atrativos, ou não, agradáveis, repugnantes, socialmente adequados a serem escolhidos, etiquetados, naturais, e uma gama de possibilidades se lhes apresentam.  Comer, comer o mundo que penetra na via ótica com suas cores, bênçãos e maldições, atapetando o sistema digestivo cerebral, com suas imagens a serem deglutidas/interpretadas, valoradas, absorvidas, excretadas.

 

                        Ansiosas em agarrar com seus caninos visuais tudo o que se oferece à sua frente, os Olhos são como vampiros, aspirando injetar seus ferrões nas veias do cognoscível, e sugar o sangue vermelho da emoção contida nas cenas que desfilam na retina , quiçá devorar o universo, como se o mesmo fosse um bolo passível de ser cortado em fatias.

 

                        Prisão de ventre, as mães querem possuir seus filhos; os amantes, namorados, maridos, e esposas, a seus parceiros; os indivíduos, em geral, um excesso de bens materiais e dinheiro, arrastando seus cifrões e insígnias de poder financeiro por entre as ruínas de uma civilização cujos recursos, para muitos, não passam de ossos e detritos em um verdadeiro cemitério abandonado à margem do sucesso.

 

                        Futuras caveiras comendo futuros excrementos, trazem à tona a lembrança da morte, da decomposição, de que tudo se transforma, é roda a girar, carroussel, enantiodromia, serpentes trocando de pele...  Desinteria, e a premência de abrir mão, de doar, de aprender o desapego, de que a partilha pode ser uma dádiva para a conjuntura social. 

           

                        Os  Olhos mastigam, estraçalham as carnes do real, como lobisomens furiosos, ávidos, vorazes, tentando tornar seu o alheio, em processos de introjeção e metamorfose.  Suas unhas, compridas e finas, arranham o dorso das ideologias, mas, certas vezes, temem ingressar em seu corpo quente, caloroso demais até para um ser híbrido, metade homem, metade animal.

 

                        Recobrar a forma original pode ser uma saída, e uma antiga música na voz de Ney Matogrosso, da época dos Secos e Molhados, ecoa em algum aparelho de som, O Vira, e suas palavras se elevam no ar repleto de pirilampos e estrelas: “vira, vira, vira homem, vira, vira, vira, vira, lobisomem”.

 

                        Quem sabe seja urgente toda uma iniciação, todo um caminho a ser percorrido pelo lobisomem, como o que trilhou o Lúcio, quando transmutado em burro.  Graças a uma feiticeira, perdeu sua aparência humana, vindo a obtê-la de novo através da deusa egípcia Ísis, em um ritual mágico.

 

                        Reconhecer o verdadeiro teor nutritivo dos alimentos, ingerindo mais os melhores, e deixando de lado aqueles mais artificiais, ou maléficos à saúde, pode ser outra oportunidade de inverter as compulsões e ignorâncias ideológicas, despertando Brancas de Neve adormecidas com maçãs envenenadas, e sentimentos aprisionados em caixas não televisivas.

 

                        Mudemos o canal, os programas culinários, e os livros de receitas por eles veiculados, não foram feitos para as pessoas comuns, mas remetem às celebridades freqüentadoras de restaurantes finos e requintados, onde duas colheres de café de creme de kiwi valem mais do que um prato de feijão e arroz.

 

                        A macarronada da mama se esvai no bueiro, e um  rattus norvegicus a corrói, enquanto embalagens com valores de calorias, intentando a manutenção de corpos para executivos e plutocratas, povoam as prateleiras do esperado, convidando à economia, abençoando a fome e a pobreza. 

 

                        Os recursos naturais, a riqueza, a comida... Antes poupar do que dividir, e quarenta quilos, dentro de tal enfoque, é muito mais desejável do que oitenta ou noventa, assim como o sofrimento pode ser uma passagem para um céu que só sabe recompensar quando a pele se transformou em esqueleto, e a morte sorriu agradecida por ter devorado mais alguém, apenas um número no livro de contas do incognoscível.

                       

 

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                                                                    IV

                                                    OS ILUMINADORES 

  

 

                        Reis de tantos palácios, fotógrafos e repórteres de várias épocas e lugares, lobos vorazes e esfomeados, benfazejos, malévolos, não importa, os  Olhos são sempre os iluminadores, as luzes da ribalta sob as quais o teatro da vida passa, com suas múltiplas faces coloridas, desbotadas, sépia, adejando caudas de pavão, de seda, filó, ou trapos. 

 

                        Charles Chaplin/Carlitos, filmes mudos, as imagens falam através de silêncios, de tonalidades e nuances insuspeitos, desocultando, ainda quando não pretendiam fazê-lo, o que se aninha nos cantos empoeirados dos esquecidos corações, lançando ao solo penas de pássaros que alçavam vôo para os castelos de areia das ideologias.

 

                        Desponta na memória, então, Um Dia Um Gato, um filme tcheco de 1963, dirigido por Vojtech Jazni, no qual um pequeno felino é capaz de, ao fixar seus olhos nas pessoas, torná-las coloridas, representando cada cor algo diferente, positivo ou negativo, demonstrando quem verdadeiramente elas são, e desfazendo uma série de enganos, inclusive de fundo político.

 

                        Será que precisamos convocar um exército de panteras mágicas, para que descerrem as portas de sono e alienação?  Devemos organizar um congresso de vagalumes  no intuito de invadir os ares com archotes e lanternas indizíveis?

 

                        O linho ideológico precisa ser lavado.  As lágrimas que escorrem dos Olhos poderão fazê-lo antes que o sol esmaeça as paredes celestes, jorrando suas luzes agonizantes nas ruas da cidade pós-moderna, para onde fluem e convergem tantos rios e destinos, pernas e pés, dos andarilhos do nunca, correndo para a segurança, o conforto e a resignação? Às vezes, ignorar é melhor, dizem, incentivando o marasmo , e evitando riscos que julgam desnecessários, e que poderiam lhes ocasionar problemas indesejáveis.

 

                        Breve, no entanto, a manhã cairá sobre a terra.  Como pedra de fogo, topázio, rubi, e incendiará os telhados, as casas, as mentes, os corações, e os Olhos, despertando auroras, esperanças e anseios de aprimoramento e sabedoria.

 

                        Voltando-se para o alto, os Olhos invocam os ventos para que levem para longe toda a angústia, o suor noturno e os pesadelos, como um negro corvo flutuando em direção a horizontes desconhecidos, para que, plenos de eternidade, possam caminhar no infinito azul onde alguma porta há de saudá-los, murmurando baixinho Ave, aqui estiveram Os Iluminadores...

 

 

 

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                                                Valéria Cruz 


[1] p.7

[2] p.27.

[3] As Paixões do Ego, p. 106-107

[4] p.21-30.

[5] p.57-60.

[6] p.23.

[7] p.173-177.

[8] In: Uma Oração Americana e Outros Escritos, p.155-163.

[9] p.18.

[10] In: Os Caminhos do Poder, p.145.

[11] In: Segredos, Mentiras e Democracia, p.134.

[12] Mito de Antígona:  Filha incestuosa de Édipo com sua mãe Jocasta, era irmã de Ismena, Etéocles e de Polinice.  Acompanhou o pai ao exílio, confortando-o, e ajudando-o.  Mais tarde, seus dois irmãos brigaram, falecendo ambos durante o combate, tendo se assassinado mutuamente. Creonte, tio dos jovens, dá sepultura somente a Etéocles, desejando expor o corpo de Polinice às aves carnívoras do céu,  uma vez que havia trazido um exército inimigo para lutar contra o seu irmão e a cidade de Tebas.  Inconformada, Antígona infringiu a ordem de seu tio Creonte, segundo a qual a pena seria a morte, para quem desse sepultura a Polinice, sendo enterrada viva em um cárcere subterrâneo. Hêmon, filho de Creonte, matou-se de desespero, pois amava Antígona. Há uma tragédia grega de Sófocles, muito famosa, a esse respeito.

 

[13] p.275 e 276.

[14] p.71-76.

[15] In: Dicionário de Política, v.1, p. 585.

[16] p.19-20.

[17] In: Histórias e Contos de Fadas: Obra Completa, p.140.145.