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LUIZ VILELA: DA SÁTIRA AO RISO

RAUER RIBEIRO RODRIGUES

Jornal Diário Regional, página LITERATURA, Ituiutaba, 30 de maio de 2003.

 

Luiz Vilela: da sátira ao riso,

entre a ironia e o compassivo

 

Estudos sobre a obra ficcional do ituiutabano Luiz Vilela estão sendo realizados em várias universidades, no Brasil e no exterior. O escritor foi convidado e está ministrando, em Belo Horizonte, uma Oficina Literária. Seu livro Tremor de terra foi selecionado para o vestibular da UFMG, e uma nova edição, revista pelo autor, será lançada em breve pela Editora Publifolha.

Na edição de hoje de LITERATURA o escritor e ficcionista Rauer, que é mestrando em Estudos Literários, publica artigo no qual destaca a presença do riso literário na obra de Luiz Vilela, mostrando que nela a sátira é construída entre a ironia e a compaixão, mesmo quando os personagens são apresentados de forma caricatural. Trata-se de texto, revisto pelo articulista, que foi inicialmente publicado pelo Grupo de Estudos Lingüísticos do Estado de São Paulo a partir de comunicação feita no 50o Seminário do GEL, realizado em maio de 2002, na USP, maior evento do país nessa área de estudos.

Rauer entende que os elementos da sátira, tratados na lição estética dos grandes mestres do humor ¾ um Jonathan Swift, um Machado de Assis, por exemplo, ¾ fazem o cômico transcender a transitoriedade na obra de Luiz Vilela, o que pode ser constatado numa visão panorâmica dos seus contos. 


LUIZ VILELA:

Riso, ironia e sátira.

 Rauer *

    

“É preciso verificar em que grau e em que condições um mesmo fenômeno possui, sempre ou não, os traços da comicidade”. (Propp)

  

 

Em literatura, as manifestações do riso podem apresentar gradações extremas ou sutis. Entre outras, as formas do riso podem variar da sátira desbragada ao humor de fina ironia, podem se manifestar numa piada ou num chiste ou apresentar-se como paródia, podem ser cômicas através de trocadilho ou podem ser caricatura, podem ser de escárnio, de exclusão, ou podem ser de simpatia, de aceitação. As definições sobre o riso literário estão condicionadas à recepção da obra, uma vez que a comicidade, se inerente ao texto literário, depende da reação do leitor para se estabelecer como riso.

A ironia, por exemplo, é definida por Cherubim (1989: 41-42) como sendo uma afirmação que na verdade quer exprimir o oposto do que aparentemente está afirmando. A decodificação cabe ao leitor. Se o leitor não proceder à decodificação, a mensagem muda de sentido. E se o leitor entender como ironia uma afirmação que o autor não pretendia irônica, o leitor constrói um texto oposto ao pretendido pelo autor.

Não bastasse essa ambigüidade latente, poderíamos dizer que quase genética, uma outra questão se coloca hoje diante do estudioso: a questão da autoria. Conhecer o autor torna-se uma pista que auxilia a discernir o riso presente no texto. Ao incorporar a paródia, o pastiche, a colagem e a cópia como estratégia textual, a literatura contemporânea criou questões teóricas difíceis. Tornou cotidiana a discussão de conceitos como os de originalidade, de autoria e de propriedade intelectual. Discutir o conceito de autor, quando a ambigüidade do texto poderia ser dirimida examinando-se a autoria, torna-se, portanto, um problema adicional.

No entanto, não nos ocuparemos aqui nem dessas dificuldades ¾ aliás, fértil espaço para o riso ¾ nem daquela ambigüidade. Procuraremos definir algumas das formas do riso em Luiz Vilela, uma vez que os seus contos as apresentam em diversificada gama. Consideraremos, conforme Propp, que o cômico nem sempre é risível e que as formas literárias do cômico se mesclam, dificilmente encontrando-se puras.

Luiz Vilela já publicou seis coletâneas de contos, duas novelas, quatro romances e onze antologias. Graça, romance de 1989, se apresenta, desde o título, como uma visão panorâmica do riso literário. Nele, faz citações (que podem ser entendidas como homenagens) e paródias, ridiculariza as máscaras e convenções sociais, satiriza instituições, brinca com as palavras, apresenta o grotesco da comédia humana.

No conto “Tarde da noite”, do livro homônimo, encontramos o seguinte diálogo, carregado de ironias, chistes e piadas:

 

“Humor negro.”

“Humor o quê?”

“Negro”, falou a voz mais alto e com uma certa irritação. “Não sabe o que é isso? Humor negro?”

“Sei”, ele falou meio sem-graça diante daquela súbita irritação.

“Então quê que é”, perguntou a voz com ar de quem desconfiava que ele não soubesse.

“Humor negro é um humor macabro, é... um humor pessimista...”

“Que humor não é pessimista?”

“Como?”

“Estou perguntando: existe humor que não seja pessimista?”

O homem pensou um pouco: “Existe. Existe um humor sadio.”

“Sadio? Quer dizer que sadio é o que não é pessimista, e pessimista o que não é sadio?” (p. 189.)

(...)

“Pode ter essa grata fineza de me dizer o que é humor negro?”

“É o humor que se faz na África.”

“Na África”, ele repetiu, no tom de quem prossegue a brincadeira ¾  e de repente é que percebeu o trocadilho. (p. 190.)

 

Ou seja, Vilela não só introduz o riso em sua literatura, como sobre ele trata metalingüisticamente. E exatamente esse conto foi adaptado, em 2001, para a série “Brava gente”, da Rede Globo, que privilegiou suas características cômicas. O tom de comédia, que, aliás, pode passar desapercebido em uma primeira leitura, é dado pelo desencontro entre o que um personagem fala e o que o outro entende, e é realçado no final do conto quando o personagem, aflito, atende, ao telefone, a uma moça que imagina linda, sensual, e sua mulher ¾ uma megera, desgrenhada, cara cheia de creme ¾ o acorda: “você está sonhando?”

Esse questionamento sem tréguas dos conceitos, como vimos na citação, e que pode chegar às margens do niilismo, é constante em Vilela. Inclusive muitos dos títulos de seus contos são irônicos e até mesmo auto-irônicos. Eis alguns: “Nosso dia”, “Espetáculo de fé”, “Deus sabe o que faz” e “Enquanto dura a festa”, na coletânea Tremor de terra (doravante abreviada TT); “Filosofia”, em No bar (NB); “A pátria precisa de você”, em Tarde da noite (TN); “O monstro”, em O fim de tudo (FT); “Feliz natal”, “Os tempos mudaram”, “Para vocês mais um capítulo”, e “Boa de garfo”, na coletânea Lindas pernas (LP).

Antes do niilismo, no entanto, o questionamento instaura-se como sátira. Alfredo Bosi vê a sátira como crítica à “desordem estabelecida”, ou seja, uma espécie de utopia (1977: 145). Vê ainda que a paródia nasce da crise, crise essa que faz uma estética sobreviver “como disfarce, véu ideológico” (p. 164). Essa crítica à desordem estabelecida é o móvel de toda a obra de Vilela. Em entrevista a Rosângela Ribeiro (1989), ele afirmou: “Minha literatura sempre foi essencialmente crítica”.

No conto “Domingo” (TN: 23-25) as menções e o pastiche de anúncios publicitários, a nomeação de produtos industrializados, o recortar desconexo de canções das rádios, a ironia com as convenções da língua, o sufocamento do indivíduo que se encontra em solidão existencial num mundo onde impera a comunicação ¾ todos esses elementos, apresentados no turbilhão de um fluxo de consciência, denunciam e criticam, em paródias de ritmo alucinatório, o “véu ideológico” que massacra o homem comum.

Nesse conto, se consideradas as concepções de Bosi, verificamos que o ímpeto crítico tem uma função regeneradora, a denúncia se faz para que seja construída uma nova ordem, a obra literária transcende a função estética e a catarse momentânea, apontando para possibilidades humanas e sociais além daquelas da verossimilhança da ficção. Ou seja, a literatura pode ter um papel de provocar mudanças sociais, mudanças religiosas, mudanças culturais, não sendo somente fruição estética, prazer, emoção, riso.

A caricatura também tem espaço na obra de Luiz Vilela. No já citado “Tarde da noite” um homem que dorme ao lado da sua mulher acorda com o telefone tocando. É uma moça, que ele imagina ser “uma moça delicada e bonita, extremamente simpática e inteligente” (p. 183). A moça anuncia que está preste a se suicidar. A esposa tenta fazer com que o homem desligue o telefone e volte a dormir. Eis como a mulher é descrita:

 

os cabelos desarranjados (p. 181); ele observou-a e achou aquele gesto feio, grosseiro, masculinizado. Observou-lhe também o rosto, lambuzado de creme (p. 184); arrancava o esmalte das unhas (p. 185); a cara azeda de raiva (p. 185); A mulher bocejou abrindo toda a boca e os braços (p. 185); ouviu com satisfação um pequeno e súbito ronco (p. 186-187); ela dorme feito um... um animal (p. 194); Gorda? Ela é uma bola. E está cada dia mais gorda (p. 194).

 

João Adolfo Hansen, em A sátira e o engenho, trata dos topoi que constituem a sátira. Entre outros, eles podem se dar através da constituição física e da aparência do satirizado. Sobre a caricatura, Sylvia Telarolli Leite diz que ela exagera traços, distorce, provoca rebaixamento, degrada, enfatiza o mecânico, o grotesco, o ridículo, expondo-os de forma depreciativa, sendo um dos componentes centrais da sátira (Leite: passim).

A citação compõe uma imagem caricaturesca e satirizada da mulher. Ela é rebaixada a animal e a objeto geométrico, é apresentada lambuzada, masculinizada, decomposta, azeda, bocejando (a boca toda aberta) e roncando.

No conto “Olhos verdes” (NB: 40-42) temos um estereótipo de homossexual; em “Velório” (TN: 63-72), alguns personagens apresentam-se grotescos e animalizados; em “Pais e filhos”(FT: 123-135) tudo é grotesco, inclusive o enredo; em “Boa de garfo” (LP: 115-125) uma cachorra é antropomorfizada; em “Os tempos mudaram” (LP: 51-58) a descrição da igreja, do padre modernoso e da moça rebolante mescla comicidade e nostalgia; e em “Para vocês mais um capítulo” (LP: 59-64) surge um guia satírico que discerne e critica o que o outro personagem não é capaz de perceber sozinho.

No conto “A feijoada” (FT: 103-114) temos vários aspectos que constituem a sátira e a caricatura, do rebaixamento do “doutor” à elevação de subalternos (o garçom, “lacaio real” - p. 108). A tragicomédia do pequeno-burguês solitário que todo sábado se empanturra numa feijoada, entre arrotos e flatulências, tem ares de farsa, tangencia o grotesco, termina em autoflagelação que poderia ser irônica, não revelasse um drama existencial sincero e que parece contaminar a alma do leitor.

Outra característica da obra de Luiz Vilela é o diálogo intertextual com obras e autores da literatura ocidental. Em Entre amigos, o alter-ego do autor (cf. Rauer, 2001) cita Oscar Wilde e Voltaire (p. 20), reconhecidos mestres da sátira, e cita Camões para elogiar os seios da mulher que pretende seduzir (p. 105). Em Graça, o morcego que atormenta a personagem-título recebe o nome de Jonathan, numa alusão a Swift. Os autores russos dominam a cena em O choro no travesseiro, e um dos personagens, alcoólatra, morre lentamente, lembrando os personagens patéticos de diversos autores russos.

O conto “As neves de outrora” (FT: 115-122) deve seu título a François Villon, poeta que passou para a história como crítico mordaz da sociedade que o marginalizou. Nesse conto, um sobrinho faz jogo de palavras sem sentido e a tia não lhe dá atenção. O saudosismo do conto, defendido pela senhora esclerosada, fica, então, imerso numa aura de ironia, enquanto o moralista que critica a atualidade e prega a volta ao passado parece implicitamente perceber que, se melhor do que hoje, o passado também não era lá essas coisas.

No conto “Uma lástima” (FT: 175-184), um personagem ensina o que é dignidade, mas a sua barriga parece isolada do resto do corpo: “Era uma coisa engraçada: é como se ele fosse uma coisa e a barriga dele outra, e a barriga estivesse rindo dele”. Em “Surpresas da vida” (FT: 41-50), um jovem se reencontra com seu ex-professor e comemoram a casualidade em um bar. Aí, o professor manifesta extremada gula, mas deixa a despesa do que fartamente comeu e bebeu para o ex-aluno. O professor promete que de uma próxima vez a conta será dele e fala que aquele reencontro “foi um grande prazer”. Tem por resposta um arroto. É o excesso e o grotesco ¾ características normalmente associadas à sátira ¾  manifestando-se.

A exploração do nonsense surge no conto “O fantasma” (TT: 95-100). Trata-se do diálogo, com passagens hilárias, em que a razão domina o sentimento quando o normal, na situação, seria o medo abafar a inteligência. No final, aterrorizado com o homem, que tranqüilamente vai dormir no casarão abandonado, o fantasma desaparece. Em “Nosso dia” (TT: 41-42), o pedido de atenção da mulher termina num arroto do marido grosseiro.

Em Tarde da noite, diversos contos utilizam-se de elementos do riso literário. É o grotesco do pedófilo em “Com seus próprios olhos” (p. 5-12); é a constatação de que “depois de velho todo retrato da gente parece caricatura”, do tragicômico. “Os sobreviventes” (p. 45-58); é o grotesco strip-tease de “Bárbaro” (p. 81-92); são as piadas em diversos contos; é o conto-piada (“Suzana”, p. 145-148), no qual a verdade, surpreendente, que quebra todas as expectativas, é revelada apenas na última linha.

Em “Meus oito anos” (NB: 7-12), a santa no altar da igreja é vesga e o grotesco, o exagero, a exploração do baixo-ventre e a caricatura estão presentes:

 

Deus do Antigo Testamento era meu avô barbudo (...) matara cobras e onças (...) dobrava barras de ferro (...) vi ele abraçar a preta por trás (...) começou a relinchar feito burro (...) vi que ela era desdentada (...) espichou a barba para frente feito um bode (...) raspou o chão feito um boi (...) deu uma corridinha feito um porco (...) segurando o seu traseiro, gemia (p. 9).

 

Meninos que ridicularizam a pessoa diferente estão no conto “Um caixote de lixo” (NB: 26-30). Em “Sofia” (NB: 55-57), o personagem morre “de tanto comer”. Também de NB, “Filosofia” (p. 85-98) tem humor sutil e tem compassiva ironia na crítica à faculdade de filosofia, ao professor dedicado e à professora fútil.

Aliás, caberia todo um estudo das personagens femininas de Vilela: numa primeira impressão, a maioria delas é fútil e rancorosa; nesse estudo, a única supostamente bonita e inteligente parece mal-amada e anuncia o seu suicídio. Parece interessante, também, levantar o diálogo, mesmo implícito, que Vilela estabelece com autores da literatura brasileira e da literatura universal. Estimulante também seria rastrear de que forma o riso em Vilela reflete a sociedade brasileira, estudar a intertextualidade carnavalizada do romance Graça (1989).

Aliás, se esse romance, através do narrador em primeira pessoa, Reginaldo Carvalho, por alcunha Epifânio, faz centenas de citações e alusões, entre homenagens que presta e ironias que aniquilam, é interessante observar que o conto “A arte de andar nas ruas do Rio de Janeiro”, do livro Romance negro e outras histórias, de Rubem Fonseca, lançado em 1992, apresenta também um personagem escritor de nome Epifânio, Augusto Epifânio, numa narrativa em que o rebaixamento dos personagens através da fome - seja sexual, seja de comida, seja de escritura, - constitui um dos aspectos marcantes do texto.

Também importante seria levantar, na obra contística de Luiz Vilela, a crítica onipresente ao catolicismo ¾ aliás, diversos contos se opõem ao Deus da Igreja, mostrando-o cruel e dispensável. Também parece estimulante, e não só, evidentemente, para a leitura de Vilela, acompanhar e ampliar as considerações de Mário Gonzáles sobre o neopícaro. Mas todas essas inquietações extrapolam os limites traçados para esse trabalho, que deve se ater ao riso, à ironia e à sátira em Vilela.

E quanto ao riso literário, ele também, à semelhança do que ocorre nos contos, permeia os romances e as novelas de Vilela, da mesma forma comparecendo em seu mais recente livro de contos. O romance Entre amigos é pródigo em ironias, em relatos de humor sádico, em piadas e em chistes. A novela O choro no travesseiro tem uma tia, beata e solteirona, que é uma caricatura ambulante. O romance O inferno é aqui mesmo tem personagens que fazem jogo de palavras e trocadilhos, que contam piadas e se agridem, que se tratam e se magoam com palavras, com ironias, e com mútuo descaso. A novela Te amo sobre todas as coisas transforma a polifonia de vozes de O inferno é aqui mesmo no diálogo de rompimento de um casal, diálogo que mescla agressividade, chistes e silêncios. No livro A cabeça, diversos contos trazem a marca do satírico, incluindo agora o universo da política, com o conto “Más notícias”. A sátira é construída, em A cabeça, através de marcas lingüísticas que denunciam a face do narrador aparentemente ausente da narrativa, face essa que permite intuir, na obra, a visão de mundo do autor. Em Os novos, primeiro romance de Vilela, o panorama histórico do início da ditadura militar, nos anos 60, possibilita reflexões satíricas e gozações, entremeadas de auto-ironia diante da inação dos personagens.

Esse trajeto panorâmico pela obra de Vilela nos permite algumas conclusões. A primeira, é que existem alguns temas recorrentes: o amor, o sexo, a velhice e a loucura são alguns. A segunda, é que a ficção de Vilela se assenta sobre um compassivo humanismo, conforme amplamente estudado por Wania de Sousa Majadas em O diálogo da compaixão na obra de Luiz Vilela (2000). A terceira, é que o espaço da narrativa pode ir de um bar ao aeroporto, da alcova ao alpendre, da redação de um jornal em uma grande cidade a uma casa perdida no sertão, mas não é somente o meio que faz o homem. Uma quarta conclusão é que a estratégia narrativa do diálogo permite a Vilela discutir de literatura a acidentes aéreos, fazer de tiradas filosóficas a gozações “cabeludas”, permite, enfim, ir num átimo do chulo ao lírico, do grotesco à ternura, do sério ao cômico.

Dessa forma, chistes e piadas, caricaturas e trocadilhos, metalinguagem e paródias, formam um quadro de crítica à sociedade brasileira e ao homem contemporâneo e constituem o “espelho implacável” entrevisto por Wilson Martins (2000). Essa crítica impiedosa e abrangente, não seria, por si só, classificada como sátira. Mas como ela é contínua, sistemática, implacável, poderíamos dizer que se trata de uma sátira a la Luiz Vilela, sátira que se constitui, assim, em uma crítica ampla, contínua, sistemática, implacável e auto-irônica da sociedade brasileira e do homem contemporâneo. Se a conceituamos dessa forma, o fazemos com a liberalidade concedida pela lição de Propp que está na epígrafe. Conceituação sujeita a polêmicas à parte, embora ela possa servir como uma luva à obra de um Machado de Assis, por exemplo, o que é inegável é que muitas das formas do cômico estão na obra de Vilela.

Efetivamente, o riso é um dos elementos marcantes da obra do ficcionista: da gargalhada inopinada ao sorriso amarelo, desconsolado, assim como da ironia sutil à caricatura, a sátira, em Luiz Vilela, se veste de verossimilhança e o ataque virulento transcende ao momentâneo e ao transitório.

Trata-se de um cômico que absorve as lições dos clássicos do humor e as transmuta, trata-se de sátira que rompe os limites da estreiteza temporal e incorpora as qualidades perenes do estético, trata-se de caricatura que deforma, mas é absolutamente verossímil, trata-se de ironia cruel e demolidora, ironia que é, no entanto, temperada pela compaixão. Eis o grande feito da poética de Luiz Vilela: o riso não é gratuito, a crítica não se esgota no episódico, e muito embora sua ficção não seja nem panfletária, nem militante, nem partidária, é uma ficção contundente e sem concessões, é niilista diante das convenções humanas, têm asco diante das máscaras sociais, abomina as formas coercitivas de organização da sociedade. É ficção que vai ao cerne, ao coração do problema: o homem ¾ o homem que, apesar de seus instintos baixos, obscuros, tem uma grandeza inerente à sua própria existência, não precisando de Deus para erigi-la.

  

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

 BOSI, Alfredo. O ser e o tempo da poesia. São Paulo: Cultrix/Edusp, 1977.

CHERUBIM, Sebastião. Dicionário de figuras de linguagem. São Paulo: Pioneira, 1989.

GONZÁLES, Mário. A saga do anti-herói. São Paulo: Nova Alexandria, 1999.

HANSEN, João Adolfo. A sátira e o engenho. São Paulo: Cia das Letras, 1989.

LEITE, Sylvia Helena Telarolli de Almeida. Chapéus de palha, panamás, plumas, cartolas: a caricatura na literatura paulista (1900-1920). São Paulo: Unesp, 1996.

MAJADAS, Wania de Souza. O diálogo da compaixão na obra de Luiz Vilela. (Dissertação de Mestrado.) Uberlândia: Rauer Livros, 2000.

MARTINS, Wilson. “Música de câmara”. In: VILELA, Luiz. Os melhores contos de Luiz Vilela (introdução). 3ª ed., São Paulo: Global, 2000.

PROPP, Vladimir. Comicidade e riso. São Paulo: Ática, 1992.

RAUER. (Rauer Ribeiro Rodrigues.) O gênio e o urubu: comentários à recepção jornalística do romance Entre amigos, de Luiz Vilela. (Monografia de especialização; orientadora: profa. Dra. Joana Luiza Muylaert de Araújo.) Uberlândia: Universidade Federal de Uberlândia, 2001. Não publicada.

RIBEIRO, Rosângela. “Em estado de Graça”. In: Estado de Minas, caderno 2ª secção, 1ª capa. Belo Horizonte: 9 nov. 1989.

VILELA, Luiz. A cabeça. São Paulo: Cosac & Naify, 2002.

¾ ¾ . O Choro no travesseiro. 8a. ed. São Paulo: Atual, 1994.

¾ ¾. Entre amigos. São Paulo: Ática, 1983.

¾ ¾. O fim de tudo. Belo Horizonte: Liberdade, 1973.

¾ ¾. Graça. São Paulo: Estação Liberdade, 1989.

¾ ¾. O inferno é aqui mesmo. São Paulo: Círculo do Livro, 1988.

¾ ¾. Lindas Pernas. São Paulo: Cultura, 1979.

¾ ¾. No bar. 2a. ed. São Paulo: Ática, 1984.

¾ ¾. Os novos. 2a. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.

¾ ¾. Perdição. (Novela.) Lançamento previsto para 2003.

¾ ¾. Tarde da noite. São Paulo: Vertente, 1970.

¾ ¾. Te amo sobre todas as coisas. Rio de Janeiro: Rocco, 1994.

¾ ¾. Tremor de terra. 4a. ed. São Paulo: Ática, 1977. 


* Rauer Ribeiro Rodrigues faz pós-graduação em Estudos Literários na FCL-Ar/Unesp, tendo por orientador o prof. Dr. Luiz Gonzaga Marchezan. É bolsista do CNPq. Com o título “As muitas formas do riso em Luiz Vilela”, este artigo  ¾  revisto para a página LITERATURA  ¾   foi originalmente apresentado, como comunicação, no 50o. Seminário do Grupo de Estudos Lingüísticos do Estado de São Paulo – GEL, em maio de 2002, na USP, tendo sido publicado no cd-rom referente ao evento.