“Me ENTERREM coM a MinhA AR 15 (Scherzo – Rajada)” O
fuzil-livro de Marcelo Ariel corroborando com o tráfico de
versos
A AR-15 é uma carabina criada no
início dos anos 50 por Eugene Stoner e fabricada pela Colt. As letras "AR"
procedem de ArmaLite, e não de Assault Rifle, como muitos acreditam. É uma
versão aperfeiçoada do AR-10, rifle de assalto cuja concepção baseou-se na
necessidade de dar maior mobilidade aos soldados nas guerras modernas
(pós-Primeira Guerra Mundial). Efeito colateral: hoje esse fuzil
semi-automático tem grande aceitação no mercado civil e em guerrilhas pelo
mundo afora, tornando-se conhecido nacionalmente devido à sua utilização
ilegal pelos bandidos do tráfico de drogas. Mar
(celo) surge em um beijo azul na maior cidade litorânea de São Paulo. E
convive com o escarro industrial no município de Cubatão, território
ocupado pelo Homem do Sambaqui há aproximadamente 7.000 anos. Essas
populações seminômades sobreviviam do mangue fazendo trabalhos manuais com
peças líticas e orgânicas. Sambaqui vem de um termo hindu “tamba-a-aqui”
que significa “monte de conchas”. Eram “lixões”, depósitos de sobras de
alimentação – restos de crustáceos, siris, conchas bivalves, moluscos,
peixes e pequenos mamíferos. Posteriormente, tornou-se um lugar em que se
faziam enterramentos humanos. Devido às intempéries, o sambaqui foi sendo
dissolvido na parte superior, iniciando assim o processo de calcificação
desses esqueletos em seu núcleo. No tempo das
fabulações de terras acima, Marcelo Ariel deseja estar com sua AR-15.
Carregador de suas mortes que são todas as mortes que cabem num EU
dilacerado pela miséria e degenerado pela corrupção sócio-política, pela
perversão humana. Pretende encontrar no desfazimento de egos (na arte) o
que lhe integraria. Advém de um ambiente em que escola já foi necrotério e
crianças nasciam sem cérebro, uma alma que trafica versos em troca de
apelos contra a violência.
Ariel dispara com seu fuzil-livro
“Me ENTERREM coM a MinhA AR 15 (Scherzo – Rajada)” - Editora Dulcinéia
Catadora, 2007 - os primeiros versos de uma trajetória de arrebatamento
lírico, letal ao entendimento do processo poético enquanto acomodação de
belas palavras. O que pretende o poeta é atirar sua revolta como que uma
tempestade sinfônica de compasso ternário em convite à dança selvagem da
poesia que destrona o descaso e a
hipocrisia:
1.
ME ENTERREM COM A
MINHA AR 15
A rajada volta a
soar
como a onda da vida
Fica frio...É só
mais um número-fantasma na área...
O urubu no
esqueleto do leão
escapando da
arena...
Quem atira é o pseudo-morto, meu
irmão...
Maluco...Acabou a munição...Foda-se continuo
atirando...
Para cima...Beleza...é só isso...a
fumaça
que sai do cano e sobe até as
nuvens...
Exu me guia no vermelho dessa
mira
Laser no meu peito...Tá ligado...na sequência..O
coração...explode...
e estou livre da
boca
que se abre pro mar...
Quer
saber...Morrer não dói...
primeiro o tempo fica bem
devagar...Tipo sonhando...
Aí vem um clarão...Você vê o Morro
por todos os lados...
E
então...
CARTA PARA A
MORTE
Imagino Camões, a vala onde morto
estava;
O quarto onde encontraram o cadáver
de João Antônio;
O sapato que
Antonin Artaud segurava;
No paletó de
Garcia Lorca a flor intacta;
A cama molhada de
suor do último sono de Caio F.;
O prato vazio que
caiu das mãos de Óssip Mandelstam;
Os círculos na água provocados pelo corpo de
Paul
Celan...
Devo parabenizá-la por estes
momentos de uma estilística
sempre
surpreendente,
somente às vezes ofuscada pelos
lampejos precários desta
luz fraca que
caminha nas capas... (pp.7-8)
A palavra fantasma é uma constante
na obra de Marcelo Ariel, que passeia pelos maus trilhados caminhos que
desembocam em papéis anônimos de mãos resistentes à amputação. Ariel, que
engole o mar, esboça com sua escrita úmida e porosa uma carta à morte,
esta que é sempre amparada pela dissimulação contra a chuva do poeta
autodidata, que se mune de balas amargas sim, mas que não se furtam de
alcançar da boca, o céu. Assim é o espaço povoado pela lírica assombrosa
que busca o inabitado trajeto em “No deserto com Paul
Bowles”:
[...]
Se a febre retornar
poderei ver a
manhã
dos Santos
caminhando dentro da
fome?
Ser o ar na voracidade das últimas
florestas?
Sorver o vinho do silêncio e seus meses e anos dentro
do vento?
E na febre sentir a lenta
explosão
do corpo
no deserto de dentro...
(p.13)
Seu concerto apocalíptico, em que se
encenam estrofes na extensão adequada ao contemporâneo desespero de
utilização de máscaras que abafam os medos e ignoram as humilhações
humanas entre as doenças corrosivas e tóxicas da sociedade plastificada,
tem a medida de todos esses silêncios e canta os odores, as cores, as
dores e as páginas jornalísticas atuais que não foram impressas à
população, mas que embrulharam suas almas como a dos peixes nas feiras do
dia seguinte em que se sobrevive da xepa.
14.
BECKETT-CELULAR
Vida Guerra
atirou o recém-nascido do quarto andar e antes que
aquele boneco do
Farnese chegasse ao chão ele explodiu e de
dentro do
recém-nascido saíram celulares com mp3 e
câmara digital...
antes que eles... os celulares tocassem o solo e
se transformaram
em mendigos do futuro formados na PUC,
USP, UNICAMP,
MACKENZIE etc... mendigos e outros fantas-
mas invisíveis...
visíveis por 30 segundos por causa das 9000
câmeras da
Avenida Central (Ex-Avenida Paulista).
Um dos mendigos
com mestrado em física antes de desaparecer
ouviu o poema
dizer:
— Basta você não ter dinheiro para ser um fantasma
invisível
lendo isto ou
— Basta você ter muito dinheiro para
ser um fantasma vivo
lendo isto
— Não há nenhuma
indiferença disse o vento de 300 km por
hora
— Não nenhuma diferença disse o celular escondido
dentro da
buceta da menina de 17 anos que acabou de entrar no
presídio-
escola para foder sem camisinha com o interno FunK-Show
que
ela conheceu no msn-3.000 do
Google-zone
Ela vai ficar grávida... “Ele vai desligar o celular...
O ex-presi-
dente vai mandar desligar os aparelhos... O presidente
vai
aparecer na tv digital de 11 milhões de canais... O
mendigo que
estava lendo Voltaire vai encontrar outro recém-nascido
no
lixo... O ex-mendigo agora pseudo-terrorista simbólico
vai es-
crever no muro do
presídio-escola:
“Não no Brasil... O Não no Brasil...
O Não nunca no Brasil... Sem
o nunca... Sim jamais no
Brasil...
Nunca no sim... O Brasil no nunca... sempre para o
nunca...
Amém!”
E aqui onde estamos ‘GANHEI’ foi o
que ele disse para o mi-
nistro antes de cair... antes de
cair na poltrona... do corpo do
presidente saíram vários celulares e
todos vibraram enquanto
ele dormia
num deles... o
fantasma do ex-presidente tentava em vão falar
com o
presidente-fantasma... O ex-mendigo do meio do poema
segurando o
recém-nascido tirado do lixo disse como se rezasse:
— Seja bem vindo
GODOT. (pp.19-20)
Há sempre uma vida que explode
entre/por/a a poética de Ariel. Versos que escorrem de sua arma de guerra
— a poesia — contra o embrutecimento humano. O poeta não acredita que sua
literatura seja marginal, haja vista que marginalidade, para ele, ocorre
em Brasília. Trabalha-se, sim, com um núcleo solvente e solúvel, que se
dissipa e transcende no tempo que não tem fim, que se alastra no não-lugar
onde mora o silêncio profundo do que é incolor. Com
mira certeira de estilhaçar as verdades inteiradas, Marcelo Ariel atira
aos lados que se enclausuram e a leitura de “ME ENTERREM coM MinhA Ar 15
(Scherzo-Rajada)” é flagrante instante de extraordinário espanto, êxtase
frente à apreciação da chuva que cai sobre a aridez dos arcabouços
humanos.
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