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leonardo de magalhaens

Trilhando o asfalto cotidiano

Sobre a obra TRILHAS* (Belo Poético-2007)

do Poeta Rogério Salgado

                                                                         Por Leonardo de Magalhaens

          Temos hoje notado que a Poesia tem se metamorfoseado em múltiplas vertentes e remontada em perspectivas as mais variadas, como uma forma de explicitar em mil e um prismas a 'pluralidade' do mundo ao redor. Chamamos de 'diversidade' como se notássemos apenas agora que o mundo não tem uniformidade (e "toda unanimidade é burra", dizia Nelson Rodrigues) e muito menos 'coerência'.

          A Escrita como forma de pinçar esta pluralidade é vista como 'politicamente correta' pois discriminar quem quer que seja é visto como 'preconceito', 'racismo', 'discurso anti-social', et cetera, como se a 'humanidade' fosse um conceito plural ad priori - o que não é. Só recentemente passamos a aceitar/tolerar o Outro, o Diferente. Desde o Iluminismo (sec. 18) passamos - enquanto 'civilização ocidental' - a tolerar os credos e visões dos Outros. E a poesia foi (e é) fundamental para esse processo de "Tolerância".

          Fragmentar a Poesia não é o meio único de 'representar' todos e todas as 'perspectivas'. A poesia para ser aceita não precisa ser feita para um grupo ou outro. Mas que cada grupo lendo, ali se identifique. Um poeta não vem para agradar/representar um grupo ou outro, mas para visualizar peculiarmente todo um leque de vivências e situações. O Poeta é o visionário-mor por excelência.

          Assim, encontramos hoje, aqui mesmo em BH, um Poeta que sem pretender 'representar' X ou Y, está simplesmente esboçando sua opinião/versão sobre TUDO. Não enquanto pretensão, mas porque sendo um 'flaneur' pelas ruas do bairro Padre Eustáquio este poeta medita/vivencia o que acontece ao redor e no distante - seja no presente e no passado.

          Quando descobrimos a Poética de Rogério Salgado não somos tocados por uma peculiaridade ou originalidade, mas por sua 'multiplicidade de temas', seu olhar atirado sobre TUDO e TODOS. Um poeta que deseja denunciar, mas também amar, que quer despejar amargura, mas também quer transar!, quer abraçar os vultos saudosos e incendiar os templos da religião mercenária!

          Seguindo estas 'trilhas' em companhia dessa miríade de versos, sem artificialismos e pretensões, vemos que uma Poesia 'pluralista', como hoje se apregoa, não passa de artificialismo e 'guettização'. Não há poesia para cada grupo/classe social, mas uma POESIA PLURAL. Falemos, portanto, dessa Poética.

          A ironia do poeta Rogério Salgado diante da realidade social é ácida e certeira. Ele não vem 'falar bonito', ele vem enfrentar as feras e fuligens! Ele cita notícias de jornal, ele rememora crimes hediondos, ele tece referências aos casos e descasos da sociedade. Um exemplo? Eis o poema Ode ao Planet Hemp (ou Réquiem para Galdino): “Proibido queimar fuminho./Permitido queimar índio.”

          Aqui em brutal referência ao caso do índio Pataxó em Brasília, em abril de 1997, que foi vítima de um grupo de filhinhos-de-papai que nada tinham para fazer para 'matar o tédio'. Então resolveram queimar um 'mendigo', e acabaram nas manchetes!Uma sociedade que denunciada mostra o quão incoerente e mesquinha. Não uma crítica 'marxista' ou 'liberal', mas um anseio de quem busca a 'liberdade'. Daí sua crítica a todo tipo de discurso ou ação que venha limitar o ser livre pensante (se ainda sobraram alguns...) É uma crítica ao 'autoritarismo' que encontramos no poema 1o de abril (parceria com Virgilene Araújo): "não havia mocinhos fardados naquele momento/ havia sim, facínoras que nos roubariam/ todas as possíveis liberdades" retratando liricamente (dentro do possível) a 'ditadura militar' de 1964 a 1985, sob um olhar de denúncia verbal, enfática e imagética. Vemos as fardas e ouvimos o ressoar das botas. Até porque, segundo o escritor Luís Mir, em seu volumoso livro "Guerra Civil - Estado e Trauma", Exército no Brasil só serve mesmo é pra bater em civil, impor um 'terrorismo de Estado'. "Nas palavras de minha avó/ ocultavam-se gemidos/ nos porões do DOI-CODI/ coronéis torturando/ brancos idealistas pela liberdade." (Poema 1964).

          Enfrentando o cotidiano áspero, em suas andanças, o Poeta quer fugir ao tédio da mesmice num movimento de abrangência onde sua expressão do 'real' torna-se a 'realidade' para ele, ou seja, os versos são mais 'reais' que o mundo denunciado: “Meu tédio/ é feito de bocejar poesia/ por essa razão/ jamais me sentirei de saco cheio.” (Cotidiano).  

Evidencia-se mais numa crítica a alienação cotidiana, o poema Brasil Moderno (mais um poema pro Natal) (parceria com Virgilene Araújo): (...)/a fome financeira alimenta igrejas/ mas não alimenta a solidariedade./ Nas ruas, crianças choram/ faltam seios/ e o homem cada vez mais frio/ congela seus sentimentos/ caminhando em busca de tudo/ sem saber que no final do juízo/ só encontrará o nada/ absolutamente nada./ (...)”

          e mais ainda no poema Cotidiano, que desce o olhar no calendário do dia-a-dia: “Nasce janeiro e morre dezembro/ e sempre a velha hipocrisia de sempre/ imperando entre os humildes” - apenas para constatar a mesmice galopante: "a vida continua / e a mesma velha história"

          Também se percebe a crítica à exploração religiosa, quando Rogério lançou o libelo Quermesses (Belô Poético-2007), que abalou as mentes medievais que ainda transitam ao nosso redor em pleno século 21 (o que quer que isso signifique!) O poema-título Quermesses (na p. 31) aponta as incoerências entre um sistema religioso que se diz 'fraternal' e um sistema econômico 'mercenário': "Amai o próximo como a ti mesmo"/ frase perdida no tempo/ agora o tempo presente/ se faz de egoísmo e posses/ enquanto o mundo caminha/ tranqüilo esperando o juízo final.” E o poema Cordel Urbano, na p. 32, cujo início é: "No exato momento da orgia / econômica das igrejas de Jesus / o capitalismo exacerbado e egoísta / fode conosco, que carregamos nossa cruz", já denunciando sem literatices o que seja um contra-senso nesta absurda contradição de um sistema religioso que não hesita em apoiar os donos do poder (qualquer estudo sobre o cristianismo e o fascismo evidencia isso...). Daí o tom 'iconoclasta' e 'escatológico' que notamos no poema Apocalipse:”(...)/ em cada poesia/palavras perecerão nas fezes/onde o carcomido e o não comido/apenas no apetite perpétuo/será palavra compacta./A paz em parábolas/perde-se-á na miséria/nesse final dos tempos/ pois na pedra há de ser gravada/pela palavra, porque assim será.”

A METALINGUAGEM

          Outra característica do Poética salgadiana é a metalinguagem. Quando o poeta fala abertamente (e obscenamente) do ato de 'poetar', ao deitar um olhar sobre a própria escrita: “Escrever difícil é simples./Difícil é escrever simples.” (Questão de lógica) E também:“Tudo me fascina/se a poesia alucina./Tudo me diverte/se de amor, o coração derrete. (Quadrinha ridícula de rima fácil). E ainda: "Minha vida sempre perde./ Minha poesia sempre ganha./ Não sei se vivo/ ou se escrevo." (Impasse, p. 58), onde a poesia se confunde com o próprio existir. Ao imergir em questões tantas ao ser poeta. Mas - o que é ser um Poeta?

          (Autodefinição p. 60) “O que causa solidão/é o fato de ser diferente/ por isso observo flores no concreto/a lua de dia e o calor da noite/da maneira mais trágica e poética/do que não desejaria ser:/ inconcebivelmente um poeta.” (Um quarto de ofício p. 69): Um poeta num quarto qualquer/constrói o ofício de seu verbo/moldando palavras e sentimentos/como sofrida solidão de compor.”

          Os leitores e os ouvintes não percebem que o poema nasce da dor do poeta, a dor de perceber-se deslocado no meio da multidão, a dor de desejar ser além do que se é permitido ser. Vejamos Poética (p. 70) “Meninas lêem meus poemas/ e põe-se a sonhar/com a poesia gestada dos meus versos/Palavras fúteis, pronunciadas ao vento.../ Se soubessem a dor da feitura/na hora de parir a poética/talvez perdessem mais seu tempo/observando tais versos./Palavras fúteis, pronunciadas ao vento.../ mas que para o poeta, valem uma vida.”

          Epitáfio (p. 70) “Aqui nasce um poema/enquanto o poeta/falece na composição amarga/de rasurar sua dor.”

          Diálogo poético e paródia se misturam quando o Poeta eleva a voz ao Poeta Mineiro das Itabiras, no Poema por apenas ter dito... (Com sua licença, Drummond) (p. 71) “Quando nasci/alguém deve ter dito:/-Vai cara, ser poeta na vida!/Passaram-se dias, meses, anos/e entretanto a sina se profetizou” -  Ou quando relembra os versos e ambiências de Fernando Pessoa e seus heterônimos (o poeta é fingidor e o 'guardador de rebanhos') em Errante (p. 81) (a 3a estrofe), "Tenho revisto Pessoa / sendo fingidor todos os dias / pastoreando poemas e ovelhas."

           O que é a Poesia em si-mesma? Poemia (p.73), "Sou o retorno do que não fui/ por isso a poesia me acompanha/ dorme na minha cama/ convive comigo" - A palavra (p. 74), "E além da vida / sobrevive a palavra / mas o poeta / acaba" - Poema Mundi (p. 76), "Meu poema é livre / pé na estrada, poeira / e não deve satisfação / a quem quer que seja." - Questão de Linguagem (p. 82) “O poema é isso:/descompromissado/por isso surge lúcido/ou alcoolizado/(depende das circunstâncias)/sendo impresso em papéis/ e distribuído entre tantos/que nem atentos percebem/a fragilidade do poeta.”

Poema na Pessoa (p. 152), que inicia "O poema é aquilo / que comumente é impossível / mas que é passivo de ser possível / quando brota da emoção." E finaliza "O poema não são meras palavras / ou meias palavras cortadas. / O poema é a pessoa." - O último poema (p. 163-64): “A noite é tapete estrelado/onde, sob essa luz que brilha/o poeta aguarda a vida e a morte/rasgando seu peito febril/e, na dor de rasurar papéis/compõe com versos livres/seu último poema.”

          O poeta se embebeda em solidão nos bares noite adentro em lírica boemia, sofrendo a insensibilidade da cruel indiferença dos leitores, como lemos em Prelúdio por um momento de vazio: “Depois de dois copos de conhaque/só resta compor versos/e rabiscos na mesa do bar/para que os insensíveis leiam.”  

          O antídoto para a solidão ensimesmada do Poeta é um mosaico de imagens familiares, de recortes da infância, de saudosas figuras de amigos falecidos, ou pessoas que se afastaram de um costumeiro convívio, ou de vultos despersonalizados que servem como receptáculos dos desejos do eu-lírico. A família se afigura um referencial, uma raiz, um abrigo na adversidade. Socialmente disperso, mas familiarmente enraizado, o poeta ainda encontra um lugar no seio da família, primeiro lar, depois lembrança.Enquanto

lembrança do lar, a infância a ressurgir como uma 'busca ao tempo perdido', ora idealizada, ora remodelada pelas saudades do eu-presente. Uma infância feita de comparações tecidas entre o que se esperava dele e o que ele se tornou hoje: Eu era feliz na inocência/ porque era ainda menino./ A barba hoje marca esse rosto/ os cabelos enevaram-se/ e os olhos lacrimejaram/ e o que era ainda menino/ amadureceu na rudeza da vida./(Ainda menino) – Quando criança/ imaginava que o mundo/ era só fazer peraltices/ depois ser embalado docemente/ pelos braços de minha mãe./ Hoje vejo que o mundo/ é poesia e solidão/ e uma vontade louca/ de fazer peraltices/ e depois refugiar-me sozinho/ longe deste mundo adulto/ com vergonha de chorar...” (Infância).

          A solidão do eu-presente somente é aliviada por uma busca nas brumas do passado, como a reconstituir uma identidade já perdida ou transviada. A menos que uma substituta da imagem materna se aproxime. É a figura da Amada, da Musa. Com o advento de sua 'cara-metade' Virgilene Araújo, a esposa/musa, o Poeta Rogério Salgado pode instrumentalizar seu lado Eros após toda uma fase de crítica e amargura, como demonstra um poema 'a quatro mãos'. Transformar a pedra/ em poema/verso/ é um trabalho que nos parece/ comum/entanto, a jornada das horas/carece de que sejamos/operários da palavra/labutando com a semente macia/macerada e sofrida/que poderia ser somente/mais. uma por que não?” (Ofício poesia).

          O tema amoroso aflora na poética de Rogério Salgado, ainda que destoando do seu estilo árido e cínico, uma vez que para abordar o tema 'romântico' falta ao poeta uma real singeleza. O poeta é sarcástico demais para soar amoroso (tal um Neruda, por exemplo) Não que seja uma 'deficiência do autor' mas não emociona. Exceção para os poemas de teor basicamente erótico. É singelo um poeta que escreve "Meu amor / só quer / me ter... " (Egoísmo)? Ou "Não, baby/ não me venha / com esse papo de amor / nem de que sou sim / tão importante pra você. / Prefiro mesmo é falar de futebol." (Papo de jogar conversa fora), ou "O amor só vale a pena / se a cama não for pequena." (Parafraseando Fernando Pessoa) ou ainda: Enquanto a comida queima/no fogão/você me abraça, me beija/ me alisa e toca no meu sexo/dizendo que me ama./O salário é curto/e nem temos ainda/grana pra pagar o gás...” (Vida a dois)

          Então parece mesmo que o Erotismo fascina mais que o tom romântico a se esperar de um poeta singelo e apaixonado. O Eros tem uma carga de 'sacanagem' que dispensa a singeleza. Vejam só: "Não quero te ver verde: / quero-te amadurecida em minhas mãos / feito fruta boa no verão / branca feito alvidez no inverno / caindo em meus braços / em noite de lua clara em primavera / como se fosse outono dentro de mim." (Estações, p. 41), e "e pela cortina de seda / que filtra a luz pela manhã / seremos plenos em nossos caprichos / seremos seres humanos / seremos bichos.", e também: Queria tocar o bico do seu seio/carinhosamente como quem toca/uma cereja/mas você jamais entenderia/ que no bico do seu seio/possa existir tanta pureza/por isso, antes que você diga/que sou um maldito pornográfico/imagino o bico do seu seio/na minha mais completa inocência.” (Poema inocente para ser recitado) . Poema Transa (p. 49), "A menina dos meus olhos / é uma prostituta louca / que transa todas as noites / com meus cílios / dando-se toda / deixando derramar espermas / que serão colírios / que me farão enxergar o mundo / mais obsceno do que ele é."

          Parece que o Erótico surge como outra 'válvula de escape' diante das pressões, mais do que um 'relaxamento' do eu-lírico, como se agora depois da amargura, o poeta apaixonado se reconciliasse com o corpo, o Outro e o mundo.

          Relembro que TRILHAS do Poeta Rogério Salgado é uma obra múltipla que requer atenção e um olhar também múltiplos, uma vez que 'rótulos' e 'imagens' aqui pouco valem, sendo mais uma constatação de que a real poesia é nada mais nada menos que a irreal vida do Poeta.

*trata-se de uma coletânea de poemas em seleção organizada por Virgilene Araújo, esposa do Poeta. Poemas de 1984 a 2007
          Leonardo Magalhaens é poeta, escritor e filósofo. Secretário da OPA – Oficina de Produção Artística de Belo Horizonte. leonardo_de_magalhaens@yahoo.com.br