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Recado impessoal |
Marcelo Azevedo |
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Sobre A Outra Morte de Haroldo
Maranhão
[Marcelo
Azevedo]
Este livro disputa à morte e ao
tempo imagens que eles precipitam no esquecimento e na obscuridade. Para o autor
dessa disputa não há descanso nem livro sem alcançar a surpresa da descoberta,
em seus desvios, de uma persona real, arrancada à sua primeira morte,
ressuscitada sob a forma de livro. Assim, que nome dar, com efeito, a esse
espécie de duplo que por toda a parte nos contos acompanha cada personagem,
seguindo-os, e que no entanto os deixa a sós consigo mesmo? Não tendo à sua
frente ninguém para quem olhar, falar e ser, resta-lhes então o caminho que se
abre à fala do impessoal: a ele que caminha furtivamente atrás de suas costas;
às vezes antecede a sua chegada ou mesmo a sua saída em um lugar qualquer; e
ele, o autor, está preocupado: pelas suas costas alastra-se a sensação de que
outros entraram através delas, como que através de uma porta.
Ao agir desse modo, cada personagem
verídico, o populista, a neutra, o falado, impossível em sua identidade,
pretende recuar em sua diferença para provar ares de pensamentos estranhos. Nem
maturação, nem crise, muito menos a agonia da memória. Outra coisa. Contar em
segredo com a potência de acolhida das imagens mais inumanas estilhaçadas entre
o inferno, a infância, o primeiro solo, a velhice, a loucura. Sem ambiente em
nosso viveiro antropológico, essa matéria pura vem de outra parte do livro
abandonado. Desconcerta e ultrapassa qualquer fácil inspiração recebida. A
vontade espontânea de escrever separa-se de quem a dá para não ser mais, ou não
ser ainda, por si só. Cada personagem vem ou fica por vir singularmente do outro
do livro. Só por ele se enfrenta a força dessas imagens, se refere realmente às
condições selvagens do ato de escrever, que ele afeta e que o afetam na criação
literária.
Como se verá, o livro lhes reserva
uma nova origem e a um só tempo suas vidas ganham um outro sentido. Então como
reunir, a partir dos livros dos personagens, seus restos sempre ausentes, que a
todo instante ameaçam voltar por causa da fadiga, da desatenção e dos ardis da
posteridade que ainda persistem? Decifrar e dedicar-se a esta tarefa que, não
obstante já ter visto outros a ela recolhidos, Nilson Oliveira retoma uma vez
mais, creio, sozinho em uma mesa no terraço do Grande Hotel, por sua vez sob os
olhares velados de Paulo Plínio Abreu, Henry Michaux, Oswald Goeldi, José
Veríssimo, Dalcídio Jurandir, Ismael Nery, Robert Stock e outros, desconfiado de
que pudesse haver uma relação entre aqueles homens desconhecidos entre si e o
livro que procurava. O autor, em seu livro, traça da vida de seus personagens a
imagem desaparecida e salva da morte de uns poucos da região que chegaram a
habitar o presente da escrita. A fina linha de atualidade em que cada um deles
vive à medida que distorcem para o lado de sua própria imagem
literária.
O que se segue então é a paciente
transferência para a escrita, para o livro, e para a imagem sem verdade, da
responsabilidade de revolver a memória da literatura. Escritores reais e alguns
de seus personagens serão deslocados para fora de si a fim de ocupar desta vez o
lugar de destinatário exterior do que eles próprios dizem ao repetir, é claro, o
que escutam de outros, duplicados alhures. O jogo que se impõe ao leitor é um
jogo de sombras, indistintas. Amigos, parentes ou a fortuna póstuma não poderiam
oferecer senão informações escassas e pouco elucidativas; confiáveis mesmo,
apenas as informações que vêm do livro para o livro, e através do ciclo
reaberto, que é aonde A Outra Morte de Haroldo Maranhão se insere, assistimos a
antigos rostos conhecidos regressarem pouco a pouco a si... como estranhos
desfigurados pelas conseqüências do seu próprio ato de escrever. Aí sim nos são
oferecidas, indissoluvelmente ligadas a escrita, a vida e a outra morte do
herói.
Estes são como que roteiros
potenciais por onde A Outra Morte encaminha o jogo de sua escrita a partir da
desmontagem e cruzamento de fragmentos de conversas sem interlocutor definido,
de excertos de livros enterrados pela metade nos escombros da cidade com
passagens inventadas de reservas inconfessas. O que é a biografia, desde então,
nessa disputa? Quem se vê invocado a narrar senão ele como imagem de força
anônima que se faz ouvir? Pois há algo no tom de voz... certa inflexão ou
ênfase, um tal brilho na monotonia emanada da atmosfera inapreensível dos contos
que existe, cresce e se faz sentir além das palavras, chega à respiração do
leitor ameaçando sobrepor-se até mesmo ao livro. Logo, o que vem é como ponta
intempestiva de uma renovação, acontece se debatendo contra o tempo, mas em
absoluto acontece a tempo – e jamais de acordo com ele – de todos poderem
testemunhar, reconhecer, aprovar ou a ele resignar-se.
Marcelo Azevedo é
filosofo