|
|
“Para amar/
morrer os corpos falam/ falham// Um masturba o outro – confabulam// e se
simulam// não se assimilam// Pois que a palavra é palha combustível// os
corpos// com seu púbis, seu discurso e chamas/ se consomem// – não se consumam”
"A Fala entre Parêntesis", Max Martins.
Agora sabemos, Dalcídio Jurandir voltou a Belém e aqui
morreu. Ele, que todos acreditavam exilado no Rio de Janeiro desde 1941, estava
entre nós, anônimo, residindo, não se sabe há quanto tempo, na Benjamim Constant
nº 34. Esse e outros enredos desconcertantes compõem o livro de estréia de
Nilson Oliveira “A Outra Morte de Haroldo Maranhão”. São 16 pequenas histórias
que se efetuam sem que de fato alguém as conte; elas se exercem num mistério de
escrita, se investem dentro do espaço literário, mas não de sua categoria e
codificação (“Não sei se o que escrevo é literatura. Talvez a literatura passe
alhures”), para aí fazer soar a voz incerta e errática que “não passa mais pelos
caminhos do som, mas pela chaga da palavra”.
Sem que sejam feridas
superficiais, o que dói mais que tudo, aqui, é a palavra, seu uso e o silêncio
que corre por trás: o inominável, tornando o livro uma pequena lacuna – pelo que
vai sufocando, dilacerando as expectativas, as adequações e até mesmo as boas
intenções do leitor incauto, este que tantas vezes almeja encontrar diante de si
um texto delineado em tantas e exaustivas ações e sentimentos irrefreáveis;
aqui, o leitor é ninguém, ele é levado a pensar a escrita num vislumbre de
impressões e fragmentos, como um campo intensivo de simulações e descrições
irreais, de desnaturadas imagens: “E ele, na medida em que caminha, aos poucos
vai compreendendo que essa voz existe para lhe acompanhar, por uma espécie de
amizade ou uma quase loucura, na verdade uma falha, uma conversa que nunca se
consolida”.
O trecho acima pertence ao conto (na verdade, uma fábula
beckettiana) “até o fim”: um caminhante tenta desempedir-se de suas rotinas,
avança em meio ao que desconhece de si, sem, no entanto, nada almejar além do
fato de seguir caminhando; caminhar sem os sinais de orientação – “Esse é o
caminho que, ao ser percorrido, não se tem volta”. Não se trata mais de seguir a
um lugar de autoconhecimento, de inquerir ao ser de sua origem e função, mas de
combater os idealismos externos à existência, e a toda e qualquer sublimação (“A
morte é essa preocupação de limitar o que introduzimos no ser, é o fruto e
talvez o meio pelo qual fazemos de todas as coisas objetos, realidades bem
fechadas, bem famintas, totalmente impregnadas de nossa preocupação com o fim”).
O caminhante envereda, embrenha-se em suas escolhas e tudo que acontece, sem que
se dê conta, é seu desaparecimento. Seja uma figura humana anônima, em trânsito
pela noite; seja a figura emblemática, quase lendária de Dalcídio Jurandir,
Robert Stock, Maria Lúcia Medeiros, Haroldo Maranhão, todos desvanecidos e
esvaziados pelo silêncio – para escritores, o mais sórdido percurso.
Aqui
estamos entre o mote escatológico “Falhar, falhar melhor”, de Beckett, e a
mitologia verbal (“Farfalhamos”) de Mário Faustino: enfronhados numa saturação
que só a linguagem talvez possa resolver, a dos espaços de criação, pensamento e
cultura tão entrevados que estão e que assistimos transcorrer para daí
recolhermos tão pouco, embora, muito prometam. A textura de Nilson Oliveira é
estreita, formalmente pequena porque assim decide que seja, é seu projeto de
escrita (“Aquele que escreveu essas narrativas o fez atraído pelo desejo, pela
ignorância, por uma insólita curiosidade, não em desvendar, mas tão somente
acompanhar, pela lente da escritura, alguns instantes dessas vidas enredadas por
entre a sombra e a ficção”); uma escrita que pouco promete do muito que pode
dar, e sua entrega é lenta, dissuasiva, escassa, vai se distanciando, para em
seguida voltar àquele quarto asfixiante de que Proust (também uma escolha
beckettiana) era retirado e levado ao jardim, para uma golfada de ar. Quanto
menos longe se vai mais difícil é a respiração. Em “casa velha” há essa alegoria
recorrente da escrita, a casa, “cujo lugar e direção não são precisos”, de que
não se sabe o número exato de quartos (“Certa vez ao abrirmos um desses quartos
tivemos uma estranha revelação”), e de onde não há fugas parciais.
À
espreita, uma estranha voz, sem nome, a que todos estão presos, vai consumindo o
que está a seu alcance, simulando descrições intensas, agressivas, nada
convencionais: não há lembrança, há invenção – uma consciência canibal. Essa
subjetividade total prolifera ainda pelo diálogo exigente e doloroso de “a
escritora do casa blanca”, em que tudo é dito e imediatamente negado uma vez
mais pela voz narrativa, em sua força autônoma, sem que se imprima aí um
inventário sobre o parentesco involuntário da escritora Maria Lúcia Medeiros com
Virginia Woolf, e o outro tipo sangüíneo que se pressupõe à ela: Jorge Luis
Borges. Ao longo do conto, as personagens “observam”, meticulosas, a conversa:
não mais operam a máquina verbal, emperrada de suas oposições, falsas noções de
identidade, tempo e espaço. Sintaxe, enunciação, discurso se estreitam ainda
mais; a velha ficção realista sucumbe à inércia e à desintegração, à vidência
algo próxima ao estilo narrativo de Sylvia Plath. Sem negociação possível com o
que não se tem afinidade, estamos fechados num lugar onde só a linguagem visual
prospera, indócil, pesada, sem fazer fruir mais que as imagens
finais.
Desse modo lacunar de escrita vem a referência ao escritor
Haroldo Maranhão, que desde o título atravessa todo o livro como um morto
ambulante. E de que morte se está falando aqui, já que outra? Da morte do
romance? Da poesia? Da morte das palavras? Ou pior: da morte de Eros, que também
sabíamos combalido? Talvez não haja resposta; trate-se de um enigma; ou quem
sabe se possa resgatar alhures alguma evidência. Sabe-se que Haroldo Maranhão
morreu em 2003; que ele já não voltava a Belém, sequer nos meses derradeiros,
assim como Dalcídio Jurandir renunciou voltar por quarenta anos. Morre-se,
apenas isso; e depois a escrita se povoa desses tempos.
Ney Ferraz Paiva,
autor de “não era suicídio sobre a relva” (2000) e “nave do nada” (2004). Mora
em Palmas, Tocantins. E-mail:
neyferrazpaiva@gmail.com
|