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POEMAS COM ALZHEIMER

 “A minha alma inteira é um grito e a minha obra é um comentário a esse grito” Nikos Kazantzakis

Ao ler o livro, a sensação que me visitara foi a mesma sentida ao entrar em uma exposição da Paula Rêgo, no bairro de Belém, em Lisboa. Ambos me deixaram paralisado. As imagens de Paula Rêgo, no centro do salão de exposição; o poema de Alberto, na varanda de casa.

Poderiam me perguntar: mas o que há de similar nas imagens da artista e nos poemas do Alberto?
Arrisco dizer que foram os volumes e as tortuosidades, tanto das imagens quanto das palavras, que me tocaram profunda e intensamente, como se brotassem de ambos um outro modo de tocar e dizer o barroco, sem perder o contato com a realidade do humano e denunciá-la onde impregnada de sofrimento e injustiças.

Como não sou afeito ao conhecimento profundo das artes, apenas deixo aqui registrada a experiência do que em mim sensível, sem qualquer desejo de voos mais altos, não teria suporte teórico para tanto.

Alberto Pereira carrega no título da obra a doença da moda e, na referência a Nikos Kazantzakis, o comentário ao grito que habita a alma inteira do poeta.

Toda a obra é uma lúcida reflexão sobre o modus operandi de uma sociedade que, ao renunciar ao humano, depara-se com a perda das próprias funções cognitivas, a reduzir as capacidades de trabalho e as relações sociais. Não por menos, as consequências sobre o corpo social, uma multiplicação de sujeitos sem memória, atenção e orientação, cada vez mais dependentes da ajuda dos outros, até mesmo para as necessidades básicas como moradia, alimentação e higiene.

Poema com Alzheimer procura ser o alter ego, esse ser o outro enquanto eu, um canto ao insano imposto pelo poder: No parlamento barbeia-se o pus. Mas para quê, se as veias só têm flores enforcadas. Nesse aparente delírio, o autor segue a apontar pelas ruas os seres invisíveis, os que compravam anjos que metiam nas seringas. Havia também os que chegavam ao paraíso por um gargalo, corriam a salivar tabernas.

A dúvida: Não era aqui meu destino. Não era isso que se esperava de uma sociedade justa. Dá então um novo rumo ao peito foi apregoar nuvens para a feira. Mas diante dele um teatro, um fingimento, uma mentira, o Rendimento Mínimo Garantido, lugar de homens com calos nos braços, onde A garganta era um revólver. Nesta vivia um cão. Quando o dedo dava ordens, erguia as orelhas. Todos evitavam que ladrasse pólvora.

Segue então o poeta por onde os olhos podiam, dobrei a esquina. Corpos agitados esbracejavam suas gruas. Coloquei-me naquele rio, deixei-me ir. A foz era uma porta estreita. Entrei. À pergunta do desejo, a resposta: Trabalho. Disseram: Vai para a margem. Em tal ida havia de tudo. Inventores de depressões, piegas sensuais, criadores de febres, projetistas de maleitas e até advogados do tédio. Tanto insistiu que encontrou trabalho: O patrão disse-me, pago-te se produzires sol e declararmos naufrágios. Recusei. Tornei-me ilha. O patrão com pústulas foi à falência. Eu vi quem o devorou. O meu país chama-se subsídio.

Trata o primeiro poema do prontuário de uma sociedade que nos recebe como um diamante e que aos dez anos as asas envelhecem. No céu pousam as primeiras rugas. O corpo começa a curvar-se para a terra. Vagarosamente, a cabeça fratura as pernas. Os caminhos são um cadáver anunciado e quando os olhos fazem a pino e descobrem, somos duas sílabas próximas de chegar. MOR TE.

Entre o primeiro poema e o último há um continuum, é todo o conjunto um extrato sólido da realidade e do sonho de um povo a ter vinho no lugar do sangue e onde as mulheres cheiravam a um velório eterno. Quando me perguntavam onde morava, dizia, Nova Iorque. Quanto ao poder: Os políticos são cartas sem código postal. Os economistas, esses passavam o tempo a trocar as moedas lá de casa por vazio.

O não-lugar é presença A cidade é uma casa de putas. Deus ensinara às aves, o mundo não é ali. Não há esperança, O horizonte é de grades; A infância adormeceu no assoalho; O homem é uma igreja sem nenhum céu.

O cancro e a ferida estão a acentuar a degradação social, questão que o autor, com certeza, pela formação em enfermagem, trabalha de um modo sensível e com tal sutileza que dá às palavras cheiros de outra ordem que não a técnica: Vai um tumor a passear um homem; O rio é a casa onde vive o sangue; os homens avançam, a lepra foi o ofício do tempo; Nunca digas amor, sem saberes que os vermes nascem na ressaca do paraíso.

O esquecimento é a necessidade cotidiana, está atrás do balcão onde o coveiro de feridas pega na garrafa. O gargalo vai troteando gorjetas para a garganta. Vodka para aquecer falésias; é tarde. Os minutos gastaram-se na amnésia; O cocktail chama-se abismo.

O que é da linguagem em tempos de falta? Só Pessoa numa estátua é celibatário; Cansado silencio-me junto à estante. Os dedos sorriem num livro, “Confesso que vivi”.

Para onde pode viajar um homem que não sabe chegar à pele?; para os que não tocaram o meu sangue, serei sempre um poema com Alzheimer...

 

Do mesmo autor: Bairro de Lata - pelo Coletivo Dulcinéia Catadora - lançamento 18/3/2017 na Feira Plana no Pavilhão da Bienal.