| Meiotom - resenhas |
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Entrevista David Levisky |
POR: ângelo Caio Mendes Corrêa Jr |
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O monge e
o psicanalista
Nesta
entrevista concedida a Angelo Mendes Corrêa, o também ex-vice-presidente do
Instituto São Paulo Contra a Violência, além de falar sobre o processo de
elaboração de seu novo livro, faz
uma retrospectiva de sua trajetória profissional e intelectual e da situação do
jovem em nossa sociedade.
AMC: Como
se deu sua passagem da psiquiatria para a
psicanálise?
Meu interesse pela
psiquiatria, na verdade, começou pela pediatria, no trabalho desenvolvido na
Casa Maternal Leonor Mendes de Barros e no ambulatório de Saúde Mental da Escola
Paulista de Medicina, hoje integrada à Universidade Federal de São Paulo. Lá
conheci o saudoso Prof. Stanislau Krynski, fundador da Psiquiatria Infantil no
Brasil, que me introduziu na Psiquiatria Infantil através do estudo da
Deficiência Mental, realizado no Centro de Habilitação da APAE de São Paulo e
como estagiário do serviço de psiquiatria da EPM. Diante da escassez de recursos
para a formação como Psiquiatra da Infância e da Adolescência e interessado no
diagnóstico diferencial das psicoses infantis, obtive, graças à Fapesp, à APAE
de São Paulo e ao governo francês, bolsa de estudo que me permitiu avançar em
minha formação e investigação. Pude freqüentar os serviços do
H
'f4pital de la Salpétrière e do Centro
Alfred Binet, com os professores Jean Didier Duché, Sierge Lebovici e René
Diatkine, e confrontar a psiquiatria de base fundamentalmente organicista com um
serviço capaz de integrar psiquiatria e psicanálise como áreas complementares do
conhecimento do psiquismo humano. Se o aparelho psíquico depende da estrutura e
da fisiologia adequadas do sistema nervoso, este depende também das atividades
relacionais e afetivas para o seu desenvolvimento, as quais estimulam certas
funções do sistema nervoso. As atividades representacionais do mundo mental
dependem do entrosamento de funções orgânicas, de experiências emocionais e de
influências do meio exterior na construção do sujeito psíquico e sua
subjetividade. A partir dessa percepção aprofundei meus estudos de psicanálise.
Pude ampliar minha percepção sobre a importância do inconsciente, sua estrutura,
dinâmica e eco nomia. Submeti-me durante longos anos à análise e supervisão
clínica pessoal, vindo a me tornar membro efetivo e professor de psicanálise
geral, da infância e da adolescência pela Sociedade Brasileira de Psicanálise de
São Paulo. Nos últimos anos senti a necessidde de compreender o que é constante
e o que é mutável no psiquismo humano consciente e inconsciente, para ampliar o
entendimento das transformações que estão ocorrendo na contemporaneidade. Esta
preocupação me levou a desenvolver um profundo estudo na área de História Social
e que resultou no trabalho: “ Um Monge no Divã”, orientado pelo Prof. Hilário Franco
Júnior, especialista em história medieval.
AMC: E seu
interesse em trabalhar com adolescentes?
Meu interesse pela criança e pelo
adolescente antecede minha formação profissional. Desde adolescente estive
envolvido em atividades juvenis esportivas, artísticas, no movimento escoteiro e
como coordenador de colônia de férias. Como se sabe, a adolescência é a parte
mais ativa de uma sociedade. São eles os que mais mobilizam mudanças sociedade
enquanto vivem suas próprias transformações físicas, psicológicas e
sócio-culturais. Isto me fascina pelo novo, pelo imprevisível e pelo desafio. A
adolescência, do ponto de vista psicológico, é o segundo desafio, visto que, o
primeiro foi sobreviver e se construir por ocasião do nascimento; agora, depende
dele e do que a sociedade lhe oferece para a conquista de sua autonomia. Aprendo
constantemente com eles a me conhecer e a conhecê-los melhor e na medida em que
estão em busca de sua identidade, espontaneidade e autenticidade. Vivem a luta
para se desvencil har do falso no encontro do verdadeiro de si
mesmo.
AMC: Que
experiências mais marcantes destaca ao longo sua vida
profissional?
Vivo tudo com muita intensidade. Não
gosto de me sentir ocioso e menos ainda omisso. Assim, o que faço é marcante
para mim. Ter entrado na faculdade, ser filho de pais judeus imigrantes e
refugiados da primeira guerra mundial, lutado pelas coisas que acreditei, pela
implantação de um projeto social chamado Abrace seu Bairro, meus livros. Mas, as
coisas que ao longo do tempo tenho descoberto e que mais me encantam são: minha
mulher, meus filhos, meus amigos e, de forma especial, minhas netas. Elas que
não saibam, mas representam o elixir da longa vida.
AMC: Quem
foi Guibert de Nogent e qual a importância da autobiografia que
deixou?
Guibert de Nogent é hoje meu amigo mais
idoso. Ele tem contribuído para o meu desenvolvimento cultural e especializado
dentro da relação histórico- psicanalítica ao permitir-me alcançar a
estruturação das mentalidades ocidentais e suas transformações. Nestas,
observa-se movimentos de curta, longa e longuíssima duração. Apesar dos 882 anos
que ele tem a mais do que eu, ambos escrevemos sobre nossa percepção da
juventude ao redor dos 60 anos. Ele foi um profundo estudioso do pensamento
agostiniano, como era comum estudá-lo entre os religiosos daquele tempo, séculos
XI-XII. Sua vida foi destina ao mundo monástico no dia do seu nascimento como
prova da gratidão de seus pais e família a Deus por tê-lo salvo e à mãe da morte
durante o parto. Era Sábado de Aleluia e, na impossibilidade de se fazer missa
nesse dia, proibida pela liturgia da época, Guibert foi destinado a servir a
Deus. Em sua narra tiva confessional e de caráter autobiográfico ele revela
aspectos do contexto feudo-vassálico, das relações de poder presentes no
contratualismo que permeava o mundo laico e religioso, a estrutura social
dividida em classes de trabalhadores, religiosos e guerreiros. Graças à sua
sensibilidade, sinceridade e retidão de caráter realizado nesse provável acerto
de contas com Deus, ele evidencia o papel da Igreja como regente da vida social,
política e econômica da sociedade aristocrático-clerical em meio à denuncia de
simonias, da hipocrisia na distribuição de cargos e na usurpação de bens. A
Igreja esforça-se para controlar a sexualidade terrena deslocando-a para uma
sexualidade supostamente sublimada nos valores religiosos. Guibert surpreende ao
revelar sua mãe, jovem viúva e atarente, seduzida por cavaleiros e cavalheiros
interessados nos seus dotes físicos e bens materiais. A Igreja dessa época, em
nome da preservação dos valores do
mundo eclesiástico exerce poder e controle sobre a vida familiar, social,
política, econômica e transmissibilidade dos bens. Age sobre o público e o
privado e na comunicação através de sua rede de paróquias espalhadas pelo
território europeu.. Guibert revela, num dado momento, como a devoção religiosa
levou multidões a abandonarem seus filhos, castelos e bens em nome do amor a
Deus e diante do temor ao Juízo Final. Mais importante do que a vida, para o
medievo era o destino da alma no Além, no pós-morte, e a ameaça aterradora
estava no Juízo Final que a direcionava para o Paraíso Celestial ou para o
Inferno.
AMC: De onde veio a idéia da pesquisa que
resultou em “O monge no
divã”?
A história dessa pesquisa é bastante
curiosa e eu a relato na apresentação do livro no item: Uma história de muitas
questões. Tudo começou diante de minha dificuldade em compreender o que levava
os adolescentes a mudarem de comportamento quanto ao vestuário, linguagem,
hábitos a cada tanto tempo a ponto de uma geração de adolescentes não se
reconhecer numa geração próxima. Parecia-me, também, que a velocidade de
mudanças comportamentais estava aumentando. Se na minha adolescência as
diferenças ocorriam a cada 15 anos, hoje a cada 5 observam-se mudanças. Philip
Áries afirma em seu livro que a adolescência é um fenômeno relativamente
recente, originário do romantismo.
Outro fator de inquietação ocorreu quando fui procurado por uma empresa
de marketing querendo saber oque está acontecendo com o comportamento dos adolescentes. E,
ainda mais, quais seriam as relações entre os ritos de passagem de outras culturas e a
adolescência atual. Esse conjunto de questões, entre outras tantas,
estimularam-me a buscar no longo tempo da história do mundo ocidental,
documentos que me permitissem identificar aspectos da subjetividade individual,
privativa e coletiva capazes de possibilitar um trabalho interpretativo de
características não apenas sociais, mas reveladoras do inconsciente individual e
coletivo presentes no imaginário, na utopia e na mentalidade de uma dada época e
que eu tivesse meios de identificar. Com a preciosa colaboração do Prof. Hilário
Franco Júnior, especialista em História Medieval da USP e professor convidado da
École d’Hautes Études de Paris, pude ter acesso à Autobiographie de
Guibert de Nogent. Obra surpreendente pela clareza como o autor transmite suas
idéias, revela fatos históricos e deixa transparecer sua subjetividade, seguindo
os passos de seu mentor espiritu al, Santo Agostinho, inspirado em suas
Confissões. A aplicação do método histórico-psicanalítico que desenvolvi,
inspirado nos conhecimentos da História das Mentalidades, nos princípios
psicanalíticos gerais e atuais da psicanálise de crianças e de adolescentes, dos
pensamentos de Foucault quanto à análise do texto e do contexto,
possibilitaram-me desenvolver esse projeto de
investigação.
meu projeto de investigaxtoamentos de Foucault quanto os passos de seu mentor espiritual, Santo Agostinho, inspirado nas
AMC: Ao
fazer o trabalho psicanalítico com Guibert de Nogent, o que mais lhe chamou
atenção?
O que mais me chamou a atenção diante do
trabalho psicanalítico com Guibert foi perceber a sensibilidade e lucidez desse
homem enclausurado nos desejos da mãe e da santa mãe Igreja e que, apesar disso,
a força das pressões pulsionais levaram-no a vencer as barreiras das repressões
psicológicas internas e externas e publicar sua Monodiae , ou seja, canto
solo, no qual consegue, sem o saber, colocar algo de sua subjetividade,
espontaneidade e autenticidade. Deixa viver o lado vivo do seu ser. Ele
contribui para que se desmonte a falsa idéia do obscurantismo medieval,
provavelmente fruto, pelo menos em parte, de manipulações e distorções reais ou
patrocinadas pelo fanatismo e fervor religioso daqueles que de tinham os poderes
sobre a mídia da época.
AMC: Que
paralelo podemos fazer entre o adolescente Guibert e o adolescente de
hoje?
Guibert foi um adolescente como todos os
demais adolescentes do mundo civilizado descrito por Aristóteles, Santo
Agostinho, ele próprio e nós mesmos, ao enfrentarmos as questões inerentes ao
surgimento da sexualidade adulta, das mudanças corporais, do término da
“ingenuidade” e “falência” dos recursos infantis,. São lutos que levam todo
jovem na passagem para a vida adulta a ter que lidar com perdas psicológicas e
com os desafios inerentes ao surgimento de novos objetos de amor e de recursos
pessoais até então emocionalmente desconhecidos enquanto vivência e que são
postos à prova diante das necessidades e solicitações externas e internas
mobilizadas pela entrada na vida adulta. Vida esta que implica uma conquista da
emancipação em função dos próprios recursos e daqueles promovidos pela(s)
cultura(s) de cada sociedade.
AMC: No
prefácio de “Um monge no divã”, Renato Mezan destaca sua severidade com a
ideologia religiosa da época, a que chama de “fonte das graves mutilações
psíquicas “ de Guibert. Como interpreta a questão da culpa impingida pelas
religiões tanto no passado quanto no presente?
Este é um tema complexo que tentarei
simplificar com o risco de prejudicar a essência da questão e de minha
exposição. Penso que a culpa acompanha o homem desde seus primórdios.
Maimônides, pensador judeu nascido
em 1135, portanto dez anos após o ano provável do falecimento de Guibert
escreveu em seu livro Guia dos Perplexos que: “o homem deixou-se ficar à
mercê dos prazeres de sua imaginação e dos deleites de seu corpo” inspirado num
trecho do Gênesis 3:6, e sugere que “ Agora o homem se dá conta do que
perdeu e do estado de degradação pessoal a que chegou. Por isso está escrito “E
sereis como Deus, conhecendo o bem e o mal” e não “ o verdadeiro e o falso”, ou
percebendo entre o verdadeiro e o falso” ”. O filósofo prossegue, referindo-se a
Adão e Eva dizendo que após a experiência, a mbos sofreram uma mudança de estado
mental, já não eram mais os mesmos que anteriormente, enquanto se viam nus e
nada sentiam e depois, continuavam a se ver nus “[após o pecado]”, mas mudanças
internas haviam ocorrido pelas vivências emocionais, e jamais seriam os mesmos.
O prazer desfrutado leva a querer mais e a prosseguir contrariando o desejo
divino. A dor mental provém da frustração imposta ao desejo, preço que o homem
paga para civilizar-se diante da transformação das pulsões em cultura. As
religiões tentam controlar e direcionar os desejos que, sublimados, se acalmam.
Parte da pulsão se transforma em cultura sublimada e transformada em afetos,
sentimentos e pensamentos, parte se extravasa na realização da ação adequada à cultura
ou é descarregada no corpo ou em ações que tem por finalidade aliviar a pressão
interior. Em muitas ocasiões, tais pressões internas transformam -se em sonhos,
pesadelos ou em projeções diabólicas aterrorizantes que se tornam elementos da
cultura, como e encontrado em relatos medievais, nas histerias da fase vitoriana
ou em outras manifestações patológicas da vida afetiva ou da alma.
AMC: A que
atribui os recentes e freqüentes casos de violência cometidos por jovens de
classes sociais privilegiadas contra
pessoas de condição social mais humilde?
Penso que a violência da atualidade tende
a não discriminar classe social, gênero, religião ainda que existam fatores
específicos para isso. Vivemos um quebra de valores éticos tradicionais nos
quais o público se confunde com o privado, o coletivo invade o individual, as
diferenças sexuais diminuem, o sexo como elemento reprodutor caminha para ser
dispensado, haja vista outras formas eficientes de procriação e preservação da
espécie. A intensidade de estímulos tende a levar o homem a uma saturação ou o
contrário, a um afastamento e negação da realidade interior e coletiva. Este
fenômeno gera uma necessidade interior e inconsciente de novos estados de
equilíbrio das tensões internas. Surgem descargas agressivas internas(suicídio e
doenças psicossomáticas) ou externas, crimes e uma série de violências morais
que denigrem e desconsideram o homem como sujeito. O problema é ainda mais comp
lexo graças à velocidade de transformações tecnológicas, à presença do ilícito e
da corrupção nos poderes públicos e institucionais, assim como na mídia, de modo
a favorecer um processo de identificação com o prazer imediato, distorcendo os
processos identificatórios mais elaborados e profundos regidos pela ética. Este
conjunto de fatores invade todos os níveis sociais e culturais e ameaça os
valores democráticos e de respeito ao homem. Troca-se a liberdade interior por
uma liberalidade exterior desestruturante, enquanto novos patamares éticos de
convivência humana não são encontrados. São processos históricos lentos e de
longa duração que transformam as mentalidades.
AMC: Que
papel pode ser exercido pela sociedade no sentido de formar jovens mais
identificados com algum tipo de consciência social que vise um país melhor
?
Esta pergunta liga-se à anterior. Penso que um caminho mais esperançoso depende do envolvimento de todos os segmentos da rede social capazes de contribuir para o desenvolvimento da auto-estima e identidade individual, familiar, coletiva, regional e nacional. Isto se dá basicamente pelos vínculos afetivos de boa qualidade e pela educação. Amor pelo país, articulação, integração de todas as instâncias sociais responsáveis, como a classe dos políticos, instituições públicas, mídia, entidades com poder de formação de opinião pública. Não adianta apenas denunciar, é preciso agir com determinação e vontade política, mas sobretudo com amor e dedicação ao trabalho com vistas não só para o imediato, mas olhando para as crianças, jovens e futuras gerações.
Ângelo C. M. C. Jr: Professor e mestre em Literatura
Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP)
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