Meiotom - resenhas


 

Entrevista David Levisky

POR: ângelo Caio Mendes Corrêa Jr

   

O monge e o psicanalista

 

 David Levisky, médico psiquiatra, psicanalista e professor, com quase quatro décadas de trabalho voltado para a psicanálise da adolescência e doutor em História Social pela USP, acaba de publicar um livro de originalidade ímpar - “Um monge no divã: a trajetória de um adolescer na Idade Média Central” , no qual, a partir da autobiografia do monge beneditino Guibert de Nogent,(1055-1125), faz com ele um trabalho psicanalítico,  transcorridos oito séculos das anotações deixadas pelo religioso.

Nesta entrevista concedida a Angelo Mendes Corrêa, o também ex-vice-presidente do Instituto São Paulo Contra a Violência, além de falar sobre o processo de elaboração de seu novo livro,  faz uma retrospectiva de sua trajetória profissional e intelectual e da situação do jovem em nossa sociedade.

AMC: Como se deu sua passagem da psiquiatria para a psicanálise?

               

Meu interesse pela psiquiatria, na verdade, começou pela pediatria, no trabalho desenvolvido na Casa Maternal Leonor Mendes de Barros e no ambulatório de Saúde Mental da Escola Paulista de Medicina, hoje integrada à Universidade Federal de São Paulo. Lá conheci o saudoso Prof. Stanislau Krynski, fundador da Psiquiatria Infantil no Brasil, que me introduziu na Psiquiatria Infantil através do estudo da Deficiência Mental, realizado no Centro de Habilitação da APAE de São Paulo e como estagiário do serviço de psiquiatria da EPM. Diante da escassez de recursos para a formação como Psiquiatra da Infância e da Adolescência e interessado no diagnóstico diferencial das psicoses infantis, obtive, graças à Fapesp, à APAE de São Paulo e ao governo francês, bolsa de estudo que me permitiu avançar em minha formação e investigação. Pude freqüentar os serviços do H

 'f4pital de la Salpétrière e do Centro Alfred Binet, com os professores Jean Didier Duché, Sierge Lebovici e René Diatkine, e confrontar a psiquiatria de base fundamentalmente organicista com um serviço capaz de integrar psiquiatria e psicanálise como áreas complementares do conhecimento do psiquismo humano. Se o aparelho psíquico depende da estrutura e da fisiologia adequadas do sistema nervoso, este depende também das atividades relacionais e afetivas para o seu desenvolvimento, as quais estimulam certas funções do sistema nervoso. As atividades representacionais do mundo mental dependem do entrosamento de funções orgânicas, de experiências emocionais e de influências do meio exterior na construção do sujeito psíquico e sua subjetividade. A partir dessa percepção aprofundei meus estudos de psicanálise. Pude ampliar minha percepção sobre a importância do inconsciente, sua estrutura, dinâmica e eco nomia. Submeti-me durante longos anos à análise e supervisão clínica pessoal, vindo a me tornar membro efetivo e professor de psicanálise geral, da infância e da adolescência pela Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. Nos últimos anos senti a necessidde de compreender o que é constante e o que é mutável no psiquismo humano consciente e inconsciente, para ampliar o entendimento das transformações que estão ocorrendo na contemporaneidade. Esta preocupação me levou a desenvolver um profundo estudo na área de História Social e que resultou no trabalho: “ Um Monge no Divã”,  orientado pelo Prof. Hilário Franco Júnior, especialista em história medieval.

AMC: E seu interesse em trabalhar com adolescentes?

                Meu interesse pela criança e pelo adolescente antecede minha formação profissional. Desde adolescente estive envolvido em atividades juvenis esportivas, artísticas, no movimento escoteiro e como coordenador de colônia de férias. Como se sabe, a adolescência é a parte mais ativa de uma sociedade. São eles os que mais mobilizam mudanças sociedade enquanto vivem suas próprias transformações físicas, psicológicas e sócio-culturais. Isto me fascina pelo novo, pelo imprevisível e pelo desafio. A adolescência, do ponto de vista psicológico, é o segundo desafio, visto que, o primeiro foi sobreviver e se construir por ocasião do nascimento; agora, depende dele e do que a sociedade lhe oferece para a conquista de sua autonomia. Aprendo constantemente com eles a me conhecer e a conhecê-los melhor e na medida em que estão em busca de sua identidade, espontaneidade e autenticidade. Vivem a luta para se desvencil har do falso no encontro do verdadeiro de si mesmo.

AMC: Que experiências mais marcantes destaca ao longo sua vida profissional?

                Vivo tudo com muita intensidade. Não gosto de me sentir ocioso e menos ainda omisso. Assim, o que faço é marcante para mim. Ter entrado na faculdade, ser filho de pais judeus imigrantes e refugiados da primeira guerra mundial, lutado pelas coisas que acreditei, pela implantação de um projeto social chamado Abrace seu Bairro, meus livros. Mas, as coisas que ao longo do tempo tenho descoberto e que mais me encantam são: minha mulher, meus filhos, meus amigos e, de forma especial, minhas netas. Elas que não saibam, mas representam o elixir da longa vida.

AMC: Quem foi Guibert de Nogent e qual a importância da autobiografia que deixou?

                Guibert de Nogent é hoje meu amigo mais idoso. Ele tem contribuído para o meu desenvolvimento cultural e especializado dentro da relação histórico- psicanalítica ao permitir-me alcançar a estruturação das mentalidades ocidentais e suas transformações. Nestas, observa-se movimentos de curta, longa e longuíssima duração. Apesar dos 882 anos que ele tem a mais do que eu, ambos escrevemos sobre nossa percepção da juventude ao redor dos 60 anos. Ele foi um profundo estudioso do pensamento agostiniano, como era comum estudá-lo entre os religiosos daquele tempo, séculos XI-XII. Sua vida foi destina ao mundo monástico no dia do seu nascimento como prova da gratidão de seus pais e família a Deus por tê-lo salvo e à mãe da morte durante o parto. Era Sábado de Aleluia e, na impossibilidade de se fazer missa nesse dia, proibida pela liturgia da época, Guibert foi destinado a servir a Deus. Em sua narra tiva confessional e de caráter autobiográfico ele revela aspectos do contexto feudo-vassálico, das relações de poder presentes no contratualismo que permeava o mundo laico e religioso, a estrutura social dividida em classes de trabalhadores, religiosos e guerreiros. Graças à sua sensibilidade, sinceridade e retidão de caráter realizado nesse provável acerto de contas com Deus, ele evidencia o papel da Igreja como regente da vida social, política e econômica da sociedade aristocrático-clerical em meio à denuncia de simonias, da hipocrisia na distribuição de cargos e na usurpação de bens. A Igreja esforça-se para controlar a sexualidade terrena deslocando-a para uma sexualidade supostamente sublimada nos valores religiosos. Guibert surpreende ao revelar sua mãe, jovem viúva e atarente, seduzida por cavaleiros e cavalheiros interessados nos seus dotes físicos e bens materiais. A Igreja dessa época, em nome da  preservação dos valores do mundo eclesiástico exerce poder e controle sobre a vida familiar, social, política, econômica e transmissibilidade dos bens. Age sobre o público e o privado e na comunicação através de sua rede de paróquias espalhadas pelo território europeu.. Guibert revela, num dado momento, como a devoção religiosa levou multidões a abandonarem seus filhos, castelos e bens em nome do amor a Deus e diante do temor ao Juízo Final. Mais importante do que a vida, para o medievo era o destino da alma no Além, no pós-morte, e a ameaça aterradora estava no Juízo Final que a direcionava para o Paraíso Celestial ou para o Inferno.

 AMC: De onde veio a idéia da pesquisa que resultou  em “O monge no divã”?

                A história dessa pesquisa é bastante curiosa e eu a relato na apresentação do livro no item: Uma história de muitas questões. Tudo começou diante de minha dificuldade em compreender o que levava os adolescentes a mudarem de comportamento quanto ao vestuário, linguagem, hábitos a cada tanto tempo a ponto de uma geração de adolescentes não se reconhecer numa geração próxima. Parecia-me, também, que a velocidade de mudanças comportamentais estava aumentando. Se na minha adolescência as diferenças ocorriam a cada 15 anos, hoje a cada 5 observam-se mudanças. Philip Áries afirma em seu livro que a adolescência é um fenômeno relativamente recente, originário do romantismo.  Outro fator de inquietação ocorreu quando fui procurado por uma empresa de marketing querendo saber oque está acontecendo com  o comportamento dos adolescentes. E, ainda mais, quais seriam as relações entre os ritos  de passagem de outras culturas e a adolescência atual. Esse conjunto de questões, entre outras tantas, estimularam-me a buscar no longo tempo da história do mundo ocidental, documentos que me permitissem identificar aspectos da subjetividade individual, privativa e coletiva capazes de possibilitar um trabalho interpretativo de características não apenas sociais, mas reveladoras do inconsciente individual e coletivo presentes no imaginário, na utopia e na mentalidade de uma dada época e que eu tivesse meios de identificar. Com a preciosa colaboração do Prof. Hilário Franco Júnior, especialista em História Medieval da USP e professor convidado da École d’Hautes Études de Paris, pude ter acesso à Autobiographie de Guibert de Nogent. Obra surpreendente pela clareza como o autor transmite suas idéias, revela fatos históricos e deixa transparecer sua subjetividade, seguindo os passos de seu mentor espiritu al, Santo Agostinho, inspirado em suas Confissões. A aplicação do método histórico-psicanalítico que desenvolvi, inspirado nos conhecimentos da História das Mentalidades, nos princípios psicanalíticos gerais e atuais da psicanálise de crianças e de adolescentes, dos pensamentos de Foucault quanto à análise do texto e do contexto, possibilitaram-me desenvolver esse projeto de investigação.

meu projeto de investigaxtoamentos de Foucault quanto  os passos de seu mentor espiritual, Santo Agostinho, inspirado nas

AMC: Ao fazer o trabalho psicanalítico com Guibert de Nogent, o que mais lhe chamou atenção?

                O que mais me chamou a atenção diante do trabalho psicanalítico com Guibert foi perceber a sensibilidade e lucidez desse homem enclausurado nos desejos da mãe e da santa mãe Igreja e que, apesar disso, a força das pressões pulsionais levaram-no a vencer as barreiras das repressões psicológicas internas e externas e publicar sua Monodiae , ou seja, canto solo, no qual consegue, sem o saber, colocar algo de sua subjetividade, espontaneidade e autenticidade. Deixa viver o lado vivo do seu ser. Ele contribui para que se desmonte a falsa idéia do obscurantismo medieval, provavelmente fruto, pelo menos em parte, de manipulações e distorções reais ou patrocinadas pelo fanatismo e fervor religioso daqueles que de tinham os poderes sobre a mídia da época.

AMC: Que paralelo podemos fazer entre o adolescente Guibert e o adolescente de hoje?

                Guibert foi um adolescente como todos os demais adolescentes do mundo civilizado descrito por Aristóteles, Santo Agostinho, ele próprio e nós mesmos, ao enfrentarmos as questões inerentes ao surgimento da sexualidade adulta, das mudanças corporais, do término da “ingenuidade” e “falência” dos recursos infantis,. São lutos que levam todo jovem na passagem para a vida adulta a ter que lidar com perdas psicológicas e com os desafios inerentes ao surgimento de novos objetos de amor e de recursos pessoais até então emocionalmente desconhecidos enquanto vivência e que são postos à prova diante das necessidades e solicitações externas e internas mobilizadas pela entrada na vida adulta. Vida esta que implica uma conquista da emancipação em função dos próprios recursos e daqueles promovidos pela(s) cultura(s) de cada sociedade.

AMC: No prefácio de “Um monge no divã”, Renato Mezan destaca sua severidade com a ideologia religiosa da época, a que chama de “fonte das graves mutilações psíquicas “ de Guibert. Como interpreta a questão da culpa impingida pelas religiões tanto no passado quanto no presente?

                Este é um tema complexo que tentarei simplificar com o risco de prejudicar a essência da questão e de minha exposição. Penso que a culpa acompanha o homem desde seus primórdios. Maimônides, pensador judeu  nascido em 1135, portanto dez anos após o ano provável do falecimento de Guibert escreveu em seu livro Guia dos Perplexos que: “o homem deixou-se ficar à mercê dos prazeres de sua imaginação e dos deleites de seu corpo” inspirado num trecho do Gênesis 3:6, e sugere que “ Agora o homem se dá conta do que perdeu e do estado de degradação pessoal a que chegou. Por isso está escrito “E sereis como Deus, conhecendo o bem e o mal” e não “ o verdadeiro e o falso”, ou percebendo entre o verdadeiro e o falso” ”. O filósofo prossegue, referindo-se a Adão e Eva dizendo que após a experiência, a mbos sofreram uma mudança de estado mental, já não eram mais os mesmos que anteriormente, enquanto se viam nus e nada sentiam e depois, continuavam a se ver nus “[após o pecado]”, mas mudanças internas haviam ocorrido pelas vivências emocionais, e jamais seriam os mesmos. O prazer desfrutado leva a querer mais e a prosseguir contrariando o desejo divino. A dor mental provém da frustração imposta ao desejo, preço que o homem paga para civilizar-se diante da transformação das pulsões em cultura. As religiões tentam controlar e direcionar os desejos que, sublimados, se acalmam. Parte da pulsão se transforma em cultura sublimada e transformada em afetos, sentimentos e pensamentos, parte se extravasa  na realização da ação adequada à cultura ou é descarregada no corpo ou em ações que tem por finalidade aliviar a pressão interior. Em muitas ocasiões, tais pressões internas transformam -se em sonhos, pesadelos ou em projeções diabólicas aterrorizantes que se tornam elementos da cultura, como e encontrado em relatos medievais, nas histerias da fase vitoriana ou em outras manifestações patológicas da vida afetiva ou da alma.

AMC: A que atribui os recentes e freqüentes casos de violência cometidos por jovens de classes sociais privilegiadas contra  pessoas de condição social mais humilde?

                Penso que a violência da atualidade tende a não discriminar classe social, gênero, religião ainda que existam fatores específicos para isso. Vivemos um quebra de valores éticos tradicionais nos quais o público se confunde com o privado, o coletivo invade o individual, as diferenças sexuais diminuem, o sexo como elemento reprodutor caminha para ser dispensado, haja vista outras formas eficientes de procriação e preservação da espécie. A intensidade de estímulos tende a levar o homem a uma saturação ou o contrário, a um afastamento e negação da realidade interior e coletiva. Este fenômeno gera uma necessidade interior e inconsciente de novos estados de equilíbrio das tensões internas. Surgem descargas agressivas internas(suicídio e doenças psicossomáticas) ou externas, crimes e uma série de violências morais que denigrem e desconsideram o homem como sujeito. O problema é ainda mais comp lexo graças à velocidade de transformações tecnológicas, à presença do ilícito e da corrupção nos poderes públicos e institucionais, assim como na mídia, de modo a favorecer um processo de identificação com o prazer imediato, distorcendo os processos identificatórios mais elaborados e profundos regidos pela ética. Este conjunto de fatores invade todos os níveis sociais e culturais e ameaça os valores democráticos e de respeito ao homem. Troca-se a liberdade interior por uma liberalidade exterior desestruturante, enquanto novos patamares éticos de convivência humana não são encontrados. São processos históricos lentos e de longa duração que transformam as mentalidades.

AMC: Que papel pode ser exercido pela sociedade no sentido de formar jovens mais identificados com algum tipo de consciência social que vise um país melhor ?

                Esta pergunta liga-se à anterior. Penso que um caminho mais esperançoso depende do envolvimento de todos os segmentos da rede social  capazes de contribuir para o desenvolvimento da auto-estima e identidade individual, familiar, coletiva, regional e nacional. Isto se dá basicamente pelos vínculos afetivos de boa qualidade e pela educação. Amor pelo país, articulação, integração de todas as instâncias sociais responsáveis, como a classe dos políticos, instituições públicas, mídia, entidades com poder de formação de opinião pública. Não adianta apenas denunciar, é preciso agir com determinação e vontade política, mas sobretudo com amor e dedicação ao trabalho com vistas não só para o imediato, mas olhando para as crianças, jovens e futuras gerações.

 

 

Ângelo C. M. C. Jr: Professor e mestre em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP)