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Gerald Clarke fez retrato definitivo de um grande escritor atormentado

Chico Lopes*

 

 

“Capote”, biografia de Truman Capote que saiu no Brasil no ano passado pela editora Globo – São Paulo (tradução de Lya Luft, 516 páginas) é um livro minucioso, alentado e que dá uma sensação de profunda honestidade sobre a vida do escritor Truman Capote, tendo vindo complementar o pacote derivado do filme “Capote”, que foi indicado a 5 Oscar e, aparentemente, teve também algum sucesso de público e crítica no Brasil.

Isso é sabido e não importa muito. A meu ver, o filme era apenas razoável, carregado  nas costas pela interpretação de Philip Seymour Hoffmann, que merecidamente levou um Oscar de melhor ator. Mas a produção se limitava aos tempos em que, escrevendo “A sangue frio”, Capote fez suas andanças pelo Kansas, nos lugares onde aconteceu a chacina descrita no livro, e ao seu relacionamento com os criminosos. Possivelmente, quem viu o filme, saiu em busca da biografia e se deu ao trabalho de lê-la, notou que aquele episódio é só um dos recortes passíveis de adaptação para o cinema do imenso livro de Clarke. É preciso fazer mais justiça ao livro, que ficou obscurecido pelo sucesso de um filme que não merecia tantas loas.

Truman Capote foi muito mais que um homem baixinho, desmunhecado, de voz infantil e enjoativa, que chorava de amor por um criminoso infeliz condenado à forca. O cinema é terrivelmente reducionista nessas coisas, já sabemos, mas é essa a imagem que acabou ficando dele para o público frívolo do consumismo cultural que se alimenta só de sinopses e tititis. Pessoas menos dadas aos modismos e que conhecem a literatura americana sabiam, claro, que havia muito mais. O livro de Clarke é para elas.

 

O CAPOTE REAL: PERSONAGEM INSÓLITO

 

O livro é tão forte que eu o li de uma tacada, em dois dias, não conseguindo largá-lo (quando se trata da biografia de uma personalidade que me interessa, minha voracidade não tem limites). A infância de Capote, seus primeiros anos em Nova York, sua luta para ser o escritor grandioso que nele havia em botão, vagando entre os indiferentes e esnobes da revista New Yorker, tudo isso é igualmente dramático e engraçado e poderia valer alguns filmes talvez menos demagógicos.

Que infância! Menino delicado, minúsculo, indesejado pela mãe, que saía em busca de seus amantes e o deixava trancado chorando num quarto, tendo um pai vigarista e indiferente tanto às traições da mulher quanto às fragilidades do filho, obviamente afeminado, criado pelas tias no Sul machista e repressor que já conhecemos muito bem através das peças de Tennessee Williams e romances de Carson McCullers, era uma fiigura rara, e, claro, o homem que sairia dela – fisicamente, manteve-se meio anão – tinha que ser um sujeito pra lá de insólito.

Ao longo do livro, somos forçados a pensar o tempo todo que o Capote real era tão extravagante quanto (ou talvez maior que) qualquer um dos personagens que criou, que era um personagem de si mesmo, talhado para o sucesso e a tragédia. Vamos atravessar o livro assim – entre admiração, pena e, por que não? repugnância.

Porque o sujeito, convenhamos, era uma peste, e é nisso que o livro de Clarke é admirável: não livra a cara de seu biografado – a par do encanto que ele tinha, inegável, e que fazia com que “conquistasse amigos e influenciasse pessoas” sem parar (bastava que jogasse uma conversinha; desarmava qualquer dureza), era um mexeriqueiro doentio, daqueles que, melindrado, não se importava de destruir a reputação de alguém para restituir seu amor-próprio ou ceder a um capricho e a uma invencionice, com uma leviandade terrível.

Por vezes, somos tentados a tipificar – a achar que encarnava perfeitamente o estereótipo da bicha encantadora, o perfeito eunuco versado em Artes que desfila ao lado de madames das colunas sociais (os maridos ficando tranqüilizados pela veadagem patente) e que, com seus chiliques, opiniões, manias e futilidades, desmunheca o tempo todo e ganha a confiança e a intimidade dessas mulheres.

Era um mundano tão brilhante, tão bom conversador e com um gosto tão desenvolvido para esse tipo de frivolidade venenosa e epigramática que é inevitável compará-lo a Marcel Proust, aliás, seu ídolo e modelo. Claro que as alturas literárias de Proust, que eram o seu ideal de escritor, nunca foram atingidas por ele. Mas ele caberia bem num personagem de Proust como o Barão de Charlus, vivendo naqueles salões artísticos de Mme. Verdurin, transpondo-se isso para a Nova York histérica e deslumbrada dos anos 50 e 60. E, como Charlus, um dia o seu brilho teria que se embaçar, sua estrela teria que cair. Com aquela língua, era queda infalível. Quem o tinha tornado um deus em sociedade, quando ele quisesse se impor mais como escritor que como mundano, acabaria por rejeitá-lo.

Capote tinha a verve absurda, cativante e exasperadora (a voz que Seymour Hoffmann imita tão bem no filme vai se tornando insuportável) que se atribui a certas bichas “finas e artísticas”. E o livro toca num ponto importante, visto que ele era de tal modo uma criatura da fama, da publicidade, louco por aparecer e por estar em todas (ninguém mais absurdamente gregário) que acabou por se tornar mais uma caricatura que uma pessoa, e, no entanto, a despeito de todas as críticas que sofreu, seu talento era imenso e verdadeiro. “A sangue frio” é uma obra-prima. Quem leu uma vez e se impressionou, retome: a força da tragédia dos Clutter continua mais viva que nunca. É o livro da vida de Capote. Os outros são encantadores, mas não chegam perto.

 

A TRAGÉDIA DO SUCESSO

 

A tragédia social e pessoal de Capote é mais impressionante por isso: é o perfeito exemplo de como um escritor de grande talento, dado às picuinhas infernais da vaidade, do mundanismo, da badalação, pode se afundar de modo irreversível. Aliás, no seu livro que o tornou maldito entre os ricaços daquele mundo, “Answered prayers” (“Preces atendidas”), ele diz precisamente isso – que há muito perigo em se ter certas preces atendidas. A do sucesso, por exemplo. Quem rezar por isso e tiver sua prece atendida, saberá. A responsabilidade e a dor que podem advir daí não são brinquedo. E, assim mesmo, lúcido como era, sabendo que a solidão é mais conveniente que a badalação para um escritor sério, ele se destruiu. Prova cabal de que nossa lucidez é nada mais que um espectador impotente diante de nossas necessidades emocionais. Tudo que o espectador pode fazer é puxar os cabelos, é lamentar.

E havia os casos homossexuais, que começaram bem cedo, e com aquele padrão masoquista-melodramático que é sinal de tragédia garantida: a atração por homens comuns, heterossexuais, que, por cederem aqui e ali a uma cantada de alguém do próprio sexo, e por falta evidente de caráter, acabam se prostituindo ou, com má fé, deixando-se explorar por gays ricos, cujas vidas vão infernizar, criando relações sado-masoquistas de dar arrepios e por vezes acabar em homicídios. É coisa gasta, arqui-sabida e clichê, mas vive acontecendo sem parar, e não há sinal de que venha a se acabar. Capote teve caso prolongado com um homem mais refinado, como Jack – também um escritor – mas sua grande paixão foi um garanhão casado, profissionalmente medíocre, John O´Shea, que o explorava e batia nele.

Mas, outra grande honestidade desse livro de Clarke pode ser encontrada aqui: Capote, que sabia ser maldoso, não era uma vítima total. Queria esses machões servindo só para a finalidade óbvia e, no resto, subservientes ao seu sucesso, ao seu ego, sem independência, razão de eles ficarem ainda mais fulos da vida. Fez o diabo com John: privou-o do emprego, da mulher, dos filhos, vingando-se a cada vez que o outro o abandonava ou interessava-se legitimamente por uma mulher. A relação era pra lá de psicopatológica. Não é um Capote sem manchas que emerge da pintura desse caso sombrio. É até natural que algum leitor conclua que O´Shea, quando batia em Capote, tinha carradas de razão. E que Capote, quando saía para contratar pessoas que quebrassem os ossos de seu amante, por ódio, não era senão um louco desesperado, digno de pena, mas também perigoso. Os dois se equivaliam.

Outra coisa, que pode ser terrivelmente desagradável para os leitores para quem a homossexualidade não cheira bem, são os detalhes de equipamentos sexuais e orgias e revelações de mictório público com que o escritor se deliciava. Talvez seja melhor para os que sempre gostaram do escritor que se abstenham de conhecer as suas intimidades no livro de Clarke. Delicadeza e poesia andam juntas com uma boa carga de sordidez.

Mas talvez seja precisamente esta a virtude da biografia – o que emerge, no final, é uma personalidade completa, com todos os matizes, indo do angelical ao insano. Capote foi tudo isso, e talvez até um pouco mais. Ninguém vai admirá-lo menos lendo este livro. Talvez até mesmo um novo sentimento - misto de compaixão e compreensão de como o destino de um grande artista está condicionado por suas paixões, vaidades e baixezas - possa surgir naturalmente.

Os grandes artistas não são menos grandes por terem sido monstruosos. Ninguém nunca ignorou que miséria é o que não falta ao ser humano, mesmo que ainda prevaleça certa noção ingênua de que o artista, por mais sensível, seria moralmente superior. É a idealização mais tola que existe. Os artistas não são diferentes dos outros seres humanos – nem inteiramente bons nem inteiramente maus– e, por atormentados, podem atormentar muito os que os cercam, mas os prêmios de suas “temporadas no Inferno”, afinal, são obras que nos dão imenso prazer e nos revelam inúmeras coisas.

Recomendo vivamente essa leitura.

                                   

                                                             

  

 

Chico Lopes: Chico Lopes é autor de "Nó de sombras" (IMS, SP, 2000), e de "Dobras da noite" (IMS, SP, 2004), contos prefaciados o primeiro por Ignácio de L.Brandão e o segundo por Nelson de Oliveira. Tradutor, publicou também nova tradução do clássico "A volta do parafuso", de Henry James (Landmark, SP, 2004). Tem vários livros inéditos de ficção, poesia e ensaio.

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Francisco Carlos Lopes
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