Chico Lopes*
Há obras literárias
que nos marcam, às
vezes, por
um pormenor
expressivo, significativo e abrangente de
tal modo
que se torna o
eixo das lembranças
que a elas se
associam. Quando penso
em “São Bernardo”, de
Graciliano Ramos, o
que primeiro
me vem à mente é
aquele pio de
coruja.
É
o emblema da
narrativa. No começo,
quando nos
fala da decisão de
escrever suas
memórias, o personagem-narrador, Paulo Honório,
menciona: “Na torre da
igreja uma coruja
piou. Estremeci, pensei em Madalena.” E escreve
mais adiante:
“Abandonei a empresa, mas
um dia desses ouvi
novo pio de
coruja e iniciei a
composição de repente,
valendo-me dos meus
próprios recursos,
sem indagar se
isto me traz
qualquer vantagem,
direta ou
indireta”.
As
superstições populares
associam a coruja à morte e à
desgraça, mas
ela também pode
ser representada, em
vertentes esotéricas e filosóficas,
como um
símbolo da
consciência, já
que consegue enxergar à
noite e, com
aqueles olhos
ferozmente atentos,
representaria a vigília e a
sabedoria que dela
pode advir. Em
“São Bernardo”, a
coruja tanto é
Madalena, mulher que
legou a Paulo Honório um
remorso fecundo,
quanto a obrigação de
vigiar, de ter
consciência, de dar
forma racional – a
narrativa -
a uma obsessão.
É
um imperativo do
inconsciente, do atavismo
obscuro que o
cerca, que
ele escreva um
livro, e a Natureza
lhe envia esse
dever de reparação e
lucidez através de
um símbolo
noturno que catalisa
insônia, solidão,
mistério e sabedoria. A
sabedoria não é
mesmo funesta e
estremunhada certeza
noturna, meditação na
clave do irremediável,
inventário de trevas,
ruminação dos erros em
busca de uma clareza
que pode ser
mais desoladora que a
escuridão?
O mistério da
submissão
Paulo Honório me fascina.
Dos personagens de Graciliano
Ramos é o que
me parece mais
trágico, pois
seu ideal de
imobilismo tem a
vontade ferrenha
como instrumento.
Com um
homem assim, pode
ocorrer o mais
simples e trágico dos
argumentos: “Tudo
daria certo se os
outros não fossem
dados a ter
desejos e sentimentos
diferentes dos meus”.
A realidade precisa
ser removida. Mas
ele ficará perplexo
pela resistência do
mundo, pela
opacidade indevassável
de gentes e
coisas.
Lê-se na novela,
tradicionalmente, a tragédia do
patriarca durão
típico do capitalismo
rural brasileiro,
mas a crítica
prendeu-se talvez um
pouco demais àquela
frase – “Fiz coisas
boas que me deram
prejuízo, fiz coisas
ruins que
me deram lucro” –
que, por
sua verdade
básica e extremamente
rude, simbolizaria Paulo Honório.
Como não se
desvia um
milímetro de sua
meta, ele é
monolítico, fácil de ser
tipificado como um
pragmático implacável e vilanizado
como um
símbolo perfeitamente
apropriado para o
ódio fácil das
esquerdas. Seu
niilismo, fundado nessa
primária redução ao
ruim que dá
lucro e ao bom
que dá prejuízo, é
um traço
definido demais
para que
nos prendamos a ele.
Como não conhece
nada além dessa
dicotomia, nada
além de trapaças,
ganâncias, astúcias
mesquinhas, o que o
assombra na mulher
que escolheu é o
interesse espontâneo e
altruísta pelos
outros, um
ideal verdadeiramente
humano.
Mas essa é
só a camada
primeira de sua
personalidade. Na verdade,
ele é um
trágico. Pode-se evocar “As
dores do mundo”, de
Schopenhauer, para uma abordagem
menos rasa de
seu problema:
“Tudo o que procuramos
colher resiste-nos; tudo tem uma
vontade hostil
que é preciso
vencer.” Por
paradoxo irônico, o
mais ferrenho
inimigo de um
homem de vontade
forte, sem
limites, pode ser uma
criatura...
passiva.
É
onde entra Madalena,
personagem que
não se esquece, embora
se delineie ao fundo da
narrativa, e esta, dominada
por um
homem que aspira a
sorver e centralizar
tudo, anulando o
Mundo, a coloca na
condição de sombra. No
entanto, não é
sombra qualquer –
diluída, esmagada em
vida, sem
força para ir
contra a vontade do
proprietário da
fazenda São Bernardo -
o marido egocêntrico e
inalterável na
linguagem da
prepotência - ela terá
a força de um
fantasma, de uma negação
que se afirma quanto
mais veemente o
desejo de entender (e,
portanto, dominar) de
seu senhor se
desenha.
No
entanto, é preciso
observar que Madalena é
um personagem
revelador também por
um lado
menos tocado por uma
crítica obcecada
em tipificar Paulo Honório
como o “capitalista
selvagem” que amamos
deplorar. Quem é
ela? Tão
sensível, aceitou casar-se
com um
homem obviamente rude
sem preliminares de
namoro. Não se menciona
isso, mas a
sensualidade de Paulo Honório deve
ter falado
alto – ele seria,
além de monstro
capitalista, um
fenômeno de sedução
física, o que dá uma
ressonância ainda
mais profunda à
sua odiosidade.
Ela, mosquinha frágil
e trêmula, gostou da
aparência da tarântula.
Graciliano, em Madalena,
pode ter desenhado outro
tipo de personagem
trágico: aquele
que, escrupuloso,
vê-se aliado a um
monstro para dar
continuidade à vida.
Ingênua, ela
acha que a
convivência conjugal pode melhorar Honório. E
não podemos nos
esquecer da tia, a
quem deseja
dar proteção
material.
Há
equívocos de parte a
parte nesse casal
trágico – são,
como muitos, impelidos
para o casamento
por uma série de
wishful thougts destinados ao malogro, caem
no alçapão de uma
instituição infeliz
certos de que os
desejos individuais
podem se sobrepor ao poder de uma
forja arquetípica de
ruínas.
Ele
não pode abrir
mão da
insensibilidade, não
pode ser “sentimental”,
não pode deixar
que ela faça
filantropia na fazenda e se rebele
contra seu
despotismo, não pode
permitir que
fraquezas desse gênero
ponham a perder tudo
que ergueu na base da
força e da
desconsideração. Tem
claro na cabeça
que os homens se
dividem entre cretinos
que podem ser explorados e
inteligentes que é
preciso submeter,
nuances de
comportamento lhe
escapam. A brutalidade é o único
meio com
que se pode proteger de
sua própria
vertiginosa atração
pela fraqueza.Lemos
que não pensou
em amor ao
procurar Madalena, mas sonhou
com um
útero onde engendraria o
seu duplo, o
seu herdeiro.
Em Madalena, há
outra espécie de
ilusão, também
perniciosa: a vontade
de dobrar o Mal
pelo coração. Se Honório é
mostrado como símbolo
de uma direita rígida,
astuciosa e cruel,
ela, por
sua vez, acaba
por parecer o
símbolo da inépcia da
bondade no fechado
mundo capitalista.
Sua reação à
estupidez e à dureza do
marido é a de auto-sacrifício,
não lhe ocorre
fugir da fazenda
ou impor-se como
mulher fora dos
limites de um
casamento fracassado já no
nascedouro. Ela é
um pouco a
tragédia de uma
esquerda sentimental
que quer
fazer justiça a
partir dos quartos de
empregada, tentando realizar uma
impossível conciliação
entre exploração e
solidariedade num esquema
em que a
bondade é conduzida irresistivelmente ao
servilismo.
Nesse ponto, pode-se
até aventar
que Honório seria até
mais honesto e
heróico, pois tem a
convicção desesperada do
inútil de sua
maldade e não mascara
a sua prepotência.
Madalena, como uma
burguesinha, caminha na
corda bamba da
pieguice, com uma
vontade de justiça
que não
encontra
correspondência na ação, e
por isso se imola;
ela aceita a sua
autodestruição, ela
compõe bem a imagem conservadora
que Graciliano devia ter das
mulheres – admiráveis
em sentimento, tolas
na vida prática e na
inteligência.
Mas
seu suicídio,
dentro da lógica
tortuosa dessas
memórias do
fazendeiro, acaba por
ser o seu
grande ato de
demonstração de força –
pois não é a
partir dele, geralmente tido
como medida de
fuga e fraqueza,
que o germe da
dúvida, da decadência,
da consciência, se instalará no
marido? Eis
que o vencido desnorteia
um vencedor porque foi
capaz de levar
sua debilidade a um
extremo que o
poderoso não pôde
compreender. Há uma vida
misteriosa nos objetos
submetidos: eles são
nossos, e, no entanto,
nos escapam.
O aterrador do Mal é
que ele
não oferece saída
para quem,
incauto, dele se aproxime; as boas
intenções viram
caricaturas e a resistência
humana se anula, sob
sua influência. Duas
opções se oferecem: o
contágio e o suicídio. Contagiado,
Honório permanece vivo. A solidão
terminal embalada a pio de
coruja é seu
prêmio.
Guias e
sinais
Em
contos de fadas,
fábulas e parábolas, é
comum que uma
ave apareça como
guia de importância
vital para
um dado
personagem. Materialista
rígido, Graciliano,
escritor, enveredou
pela poesia e o
misticismo, com
sua coruja.
Proust, citando o Chateaubriand de
Memórias do
além-túmulo
em O
tempo redescoberto,
fala da importância de
um pássaro
para o narrador: “Ontem à
noite passeava eu
solitário...tirou-me de
minhas reflexões o
trinado de um tordo pousado no
galho mais
alto de uma bétula. Instantaneamente,
esse som
mágico trouxe-me aos
olhos o domínio
paterno; esqueci as
catástrofes que
acabava de testemunhar, e, transportado de
súbito para o
passado, revi o campo
onde tantas vezes
ouvira cantar o tordo”.
Pássaros e
aves aparecem assim,
áugures repentinos,
como símbolos da
ligação de um
homem a seu
lugar de origem, à
sua pátria de
eleição, mesmo
que, momentaneamente,
ele esteja em
regiões que
lhe sejam hostis. São
laços entre uma
alma peculiar e a
geografia exterior
que conheceu e sob
cuja influência cresceu. No caso de
Paulo Honório, a coruja vem
acentuar ainda
mais o seu
temperamento
solitário, oferecendo, no
hieróglifo musical de
seu pio, uma
tradução da aridez e
da desolação da
fazenda que o
cerca.
As raízes telúricas, vitais,
podem ser odiosas como
um cativeiro. Quantas
pessoas não
assim, filhas
infelizes de um
lugar, escravas de uma
paisagem estrita
que lhes dá a
cor peculiar de
sua individualidade,
mas também
lhes rouba
qualquer possibilidade de variação, de
fuga! Honório tem a
vontade triste,
obstinada, cega e
áspera de sua
terra. Ele
não pode fugir ao
que é, sua
obra – São Bernardo –
ganhou a autonomia do feitiço
oposto ao feiticeiro, e é o
que acontece com os
que persistem numa
única meta egoísta,
excludente. Nossa
persistência num único
objeto é punida com a
limitação escravizadora
que este
mesmo objeto,
aparentemente conquistado,
nos impõe.
Ei-lo, o homem
forte, onipotente,
precisando de um
tremor suscitado por
uma nota musical
noturna, distante,
para começar a escrever.
Lúgubre é seu
apego ao lugar.
Lúgubre, o que
ele fez de sua
vida. Lúgubre, a
sua perda
irremediável da única
mulher que tentou
amá-lo. Tudo que
lhe resta é
um pio. De
alerta e de elegia.
Chico
Lopes: Chico Lopes é autor de
"Nó de sombras" (IMS, SP, 2000), e de "Dobras da
noite" (IMS, SP, 2004), contos prefaciados o primeiro por Ignácio de
L.Brandão e o segundo por Nelson de Oliveira. Tradutor, publicou também nova
tradução do clássico "A volta do parafuso", de Henry James
(Landmark, SP, 2004). Tem vários livros inéditos de ficção, poesia e
ensaio.
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Francisco Carlos Lopes
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