| Meiotom - resenhas |
|
|
A tirania do eufórico e a incompreensão de um público que lê pouco |
|
|
|
Chico
Lopes
Livrarias,
claro, são dos meus ambientes favoritos, sejam elas grandes, espaçosas,
iluminadas e recheadas de stands e cartazes, sejam pequenas, estreitas,
cubículos como certos sebos, onde o cheiro de livros velhos já é um tremendo
excitante. Mas, percebo que as livrarias de maior atração para o público, hoje
em dia, não são exatamente lugares onde se pode conhecer os melhores e mais
refinados leitores.
Como
freqüentador, tenho tido a tristeza de constar que quase não se procura mais
livros de ficção, a menos que sejam daquele gênero que freqüenta as listas dos
best-sellers (que alguns consumidores rebarbativos levam até nas mãos para fazer
suas compras), estrangeiros em maioria e destinados a entreter, tudo bem, mas
dificilmente obras que poderão levar a reflexões maiores e mais interessantes
sobre o mundo. Quando um livro até bem corajoso como “Deus – Um delírio”, de
Richard Dawkins, faz sucesso, percebe-se que é menos pela força e a riqueza da
argumentação do que pelo escândalo que vem suscitando um autor ateu confesso que
e ataca as religiões – isto, grosso modo, é o que chega aos ouvidos do comprador
superficial, um apetite pelo sensacionalismo. As razões que o levam a comprar um
livro não são as melhores, infelizmente.
É
possível (e é mesmo observável) que muitos livros que se vem comprando a esse
preço escandaloso na faixa dos 50 a 60 reais ou mais, acabem sendo pouco lidos e
encostados (há sebos com livros praticamente novos, deixados de lado por
compradores apressados que não encontraram neles a excitação
esperada).
Fala-se
mal dos livros de auto-ajuda, e realmente é quase impossível defendê-los. A onda
de há muito ultrapassou as fronteiras do ridículo, e criou um desvio perverso no
comprador: o objeto livro passou a ser visto como uma espécie de remédio para
esta ou aquela frustração ou de manual de sobrevivência no mundo dos negócios e
empregos, e aí vale até a religião, caiu ao nível mais raso, como uma espécie de
serviço - a mistura de Deus com capitalismo o mais utilitário e calculista é
particularmente intragável. Deus se tornou, grosso modo, o mais óbvio recurso
para fazer sucesso no mundo material, numa total inversão dos valores, já que,
sabem os mais estudiosos e os religiosos mais refinados, que a chegada
verdadeira a Ele demanda caminhos muito mais severos, despojados e
espinhosos.
Mas
o que a onda de livros de auto-ajuda faz de pior é encobrir o gosto pela
Literatura como arte, como ficção. Não se perdoa e não se quer de jeito nenhum
que um escritor seja uma criatura artística, voltada para a criação e a
imaginação. É preciso que o que ele esteja contando seja, de algum modo,
autobiográfico ou apresente alguma utilidade para o comprador. Por isso o grande
sucesso das biografias: é como se as pessoas estivessem procurando o segredo,
por trás da vida do famoso, que o fez se tornar famoso, não importa o que
exatamente ele tenha feito, porque a fama passou a ser um absoluto. Qualquer
vidinha comum pode, assim, alcançar certas elevações heróicas, já que o nível de
exigência se fez tão ralo.
A
boa literatura tem uma tendência natural a apresentar uma visão questionadora
das coisas, valores, sociedades e sonhos, e já chega ao mercado como perdedora.
O autor mais sério é rotulado como um pessimista, um propositor de becos sem
saída, um sujeito que se deleita com o sofrimento e quer fazer o leitor sofrer.
Não
há mais uma valorização da Beleza, no plano estético (o que inclui, claro,
necessariamente, melancolia e sofrimento, porque a vida é isso, independente de
nossos desejos), esquece-se facilmente que a melancolia, o sofrimento e a dor
podem ser indissociáveis da reflexão e que a Beleza é um caminho acidentado, um
caminho de apesares.
Para
concordar com isso, é preciso uma visão madura que as pessoas não parecem ter ou
parecem não querer, ter mais. Assim, não é de espantar que trombemos com
cinquentões pueris obstinados em ler histórias adolescentes de magia. Ou
mulheres solitárias que, a despeito de todas as lições que já receberam da
realidade, continuam à espera de um livro que lhes conte como encontrar seus
príncipes ou amores masculinos idealizados.Desconfio que as pessoas jamais
desistem de certos sonhos, apenas os mascaram e disfarçam habilmente à medida
que vão percebendo que são realmente inexeqüíveis.
Os
livros precisam ter “lições de vida”, serem engraçadinhos, sensacionais (não
importa a inverdade do que estejam proclamando), escandalosos, eufóricos. É
comum que as pessoas perguntem o que a gente está lendo para que sigam nossos
gostos e que fiquem desanimadas ao perceber que não indicamos aquilo que elas
esperam ler: coisas fáceis, humorísticas, leves para serem rapidamente
esquecidas e recicladas no mercado. Dizer de um autor que ele é “pesado”, hoje
em dia, vem até com uma aura de condenação moral, como se o autor, e não o seu
tema, fosse um desmancha-prazeres deliberado
Mas,
quero deixar claro que a crítica que faço não significa que eu ache que os
livros de entretenimento sejam todos desprezíveis; há muita coisa destinada a
entreter, com competência e profissionalismo, no mercado. Há excelentes livros
policiais, de aventura, mistério, magia, infanto-juvenis e de qualquer gênero,
em oferta por vezes até atordoante. O que é preciso é entender que reivindico
para os livros não só o prazer escapista que o leitor deve encontrar ao lê-los,
mas sobretudo o prazer estético, de ler coisas bem
escritas.
O
que quero criticar é essa tendência insidiosa a ir tornando os livros aceitáveis
só na medida em que compactuam com fantasias reles e imediatistas, necessidades
de compensação, riso ou prosperidade material. Comprar só isso acaba sendo um
rito neurótico/obsessivo, a repetição indefinida de um tranquilizante: a maior
parte dessas produções diz que a vida melhor está ao nosso alcance, desde que
rebaixemos nossa inteligência crítica praticando a mais rasteira auto-sugestão
em doses maciças.
ONETTI,
QUIROGA, SCHOPENHAUER E OUTRAS MALDIÇÕES
Diante
da realidade aí exposta, fico pensando na dificuldade que encontram os
escritores de temas malditos, tristes ou “politicamente incorretos” e no que
perde o público leitor ao fazer o pacto fáustico com a Euforia e a Facilidade,
desdenhando certos títulos. Um autor como o uruguaio Juan Carlos Onetti,
difícil, árido, mas cheio de uma beleza compensadora quando bem lido, tem um
livro de contos cujo título, “Tão triste como ela”, deve ser evitado como a
peste. Outro livro onde encontrei contos fantásticos, de uma beleza pungente,
foi “A galinha degolada e outras histórias”, do também uruguaio Horácio Quiroga.
Mas, com um título desses, deve ser desanimador de fato para essa horda.
Já
tive toda espécie de problema por ter escrito um livro, o meu primeiro de
contos, chamado “Nó de sombras”. Certo número de leitores me rotulou como
sombrio e macabro e desdenhou todo o resto que eu mostrava em histórias
sofridas, que propunham um olhar menos concessivo sobre a realidade. Fico
imaginando o que deve pensar o consumidor do tipo descrito ao se deparar com um
livro básico da filosofia de Schopenhauer, “As dores do
mundo”.
Condensado
em edições populares, podendo ser encontrado a preços reduzidos, é um livro que
releio sempre que quero me entender melhor com a vida, o mundo, o sofrimento.
Alguém aí poderá estar pensando que sou um refinado masoquista. Nada disso: o
que Schopenhauer, basicamente, diz, é que estamos presos ao desejo e que o
desejo leva ao sofrimento. Que a vida é sofrimento e que ninguém escapa disso.
Suas reflexões são maravilhosamente lúcidas e dão um prazer único: o de
encontrar uma inteligência que resiste à besteira e às falsificações de
filosofias consoladoras e enganadoras. Para mim, ainda que pareça estranho, um
pessimista radical como Schopenhauer (que, no entanto, apontou ao Ocidente os
caminhos de verdades serenas e desapegadas do Budismo), tem muito mais de tônico
que um otimista que insista em que eu engula sua visão falsa e edulcorada do
mundo.
A
mistificação não me tonifica. A esperança como “urubu pintado de verde”,
parafraseando Mário Quintana, não me interessa; a desesperança exposta com
razões lúcidas, que nos fazem compreender melhor o mundo em que estamos, tem um
efeito serenizador sobre mim. Sinto que fui tratado como um ser humano
respeitável e adulto, quando leio e releio “As dores do mundo”. Porque creio
firmemente que a verdade nos liberta muito mais do que as fantasias
consoladoras, estas sim insatisfatórias e peçonhentas.
Fora
daí, os livros me interessam – independentes se seus temas são alegres ou
sombrios – como fruição estética, a começar pelas capas bem feitas e orelhas sugestivas, que têm um papel fundamental na
minha decisão de adquiri-los. Meu
preceito favorito é “a thing of beauty is a joy forever”, de Keats. A
“coisa bela”, que deve ser “uma alegria para sempre”, tanto pode vir nas
epifanias da prosa de Rosa, que nos remetem à transcendência e à Beleza
redentora, quanto nos duríssimos aforismos de um pessimista que levou as lições
de Schopenhauer a um extremo radical como E.M Cioran.
Livros
terríveis como “Misto quente” do americano Charles Bukowski e “Viagem ao fundo
da noite”, do francês Céline, têm uma beleza especial, feita de uma poderosa
onda de desilusão quanto a coisas, instituições e pessoas, mas é uma desilusão
que, com sua drasticidade, têm um efeito purificador sobre nosso intelecto e
nossas bobas indulgências quanto à vida, que pode ser sim – e é, por vezes –
absurdamente cruel.
Mas,
essa crueldade, esse aspecto trágico da vida, é decididamente pouco comercial,
e, assim - com a finalidade clara de poupar o leitor de coisas mais cortantes e
impiedosas que são umas quantas realidades incontornáveis -, tome desvio,
eufemismo, cuidado, coisas duras apresentadas com atenuantes, suavizações,
despistes, mentiras. A vehicle, a doença, a frustração amoroso, a morte - que
fazem parte de nossa vida de modo decisivo - são embelezadas, mistificadas,
escamoteadas. Decididamente, há uma conspiração generalizada para que
permaneçamos alheios à vida verdadeira.
Quanto
à morte, não faltarão livros sobre as consolações do tipo sobrevivência dos
"entes queridos" em melhores condições no "plano astral" ou sandices quetais,
patético e inútil esforço de, através do sentimentalismo, evitar o aspecto
irremediável e assustador do assunto e criar um Éden muito conveniente e
oportuno para nossas mentiras e fraquezas (já que, em vida, a consideração que
cerca os nossos afetos familiares nunca é isenta de hostilidade e
ressentimento).
O
melhor livro sobre esse assunto é ainda o belíssimo "A morte de Ivan Illich", de
Tolstoi, mostrando um alto funcionário russo que cai doente e descobre toda a
mentira, toda a hipocrisia da família falsamente afetiva que o cerca, todo o
absurdo e o mistério da vida, ao sentir que vai morrer, inexoravelmente. A única
compreensão, ele encontrará num sujeito socialmente desqualificado, um humilde
camponês, que o carrega nas costas, ajuda-o nas suas necessidades fisiológicas,
não se enoja de sua condição.
Em suma, o que há de tônico nos livros deve
nos vir da arte com que são escritos, não de outras fontes. A arte literária de
grande estatura leva em conta o fato de que o ser humano não é coisa pouca, de
que suas alegrias e terrores devem ser registrados com justeza, tocando no nervo
da mistura de exaltação e queda em que vivemos.
O que nos cega para o luto
nos cega para a realidade e até nos impede de ver a luz possível, o que nos faz
evitar a frustração evita que amadureçamos.
Apreciar
os livros esteticamente, independente de eles tratarem de temas desanimadores, é
realizar uma operação muito salutar para o espírito, já que a arte pressupõe,
ela sim, um controle do homem sobre suas limitações e falhas, ainda que seja,
claro, um controle relativo. Os fatos desagradáveis da vida não deixarão de
existir só porque damos as costas deliberadamente para eles e decidimos ser
"positivos" até contra as mais óbvias evidências em contrário. Positivismo algum
nos dota de superpoderes.
Sem que queiramos reconhecer as verdades de nossa
humana condição, tudo que somos é pueris. E manipuláveis por industriais do
torpor que adulam nossas ignorâncias e preconceitos e nos mantém nessa
puerilidade por tempo indefinido.
Chico
Lopes: Chico Lopes é autor de
"Nó de sombras" (IMS, SP, 2000), e de "Dobras da noite" (IMS, SP, 2004), contos
prefaciados o primeiro por Ignácio de L.Brandão e o segundo por Nelson de
Oliveira. Tradutor, publicou também nova tradução do clássico "A volta do
parafuso", de Henry James
(Landmark, SP, 2004). Tem vários livros inéditos de ficção, poesia e
ensaio.