Meiotom - resenhas


 

O POETA SERVE A MORTE NA FORÇA DA PALAVRA VIVA

 

OS MORTOS NA SALA DE JANTAR

Ademir Demarchi

Realejo

Livros&Edições

Santos, SP 2007

 

 

Raros os artistas que se atrevem a tratar do tema

 

M O R T E. Poucos os investidos desse pensar soturno, macabro, escatológico. A morte traz o peso das eras. A morte suja a língua. A morte desfaz alegrias tolas. A morte subjaz ao estabelecido. A morte estraga pic-nics. A morte mata caracóis na horta. A morte mata peixes. A morte mata borboletas. A morte mata passarinhos. A morte mata pinheiros. A morte mata gente. O poeta Ademir Demarchi compõe ópera bufa que só a morte seria capaz. Os poemas -variações sobre o tema morte- pontuam a paisagem do livro. Cadáveres, ditados & pensares sobre a morte, epitáfios, cemitérios, túmulos, ossos, antepassados, sepulturas, finados. Esses os signos que formam o arcabouço da composição tétrica. A morte impiedosa na sala de jantar. Desde a dedicatória “aos cadáveres que a vida nos dá de comer”, à epígrafe/epitáfio de Duchamp “...além disso, é sempre os outros que morrem...” o livro vai enfeixando em esquifes de densa poesia, a morte. Há técnica, precisão do gesto temático e lirismo ou musicalidade intrínseca nos poemas. Claro que isso é fundamental, tanto na poesia de longo caldo, ou na comprimida como é a desse poeta implacável, letal.

Ademir Demarchi é um dos editores da sempre lembrada Revista BABEL de poesia, da qual saíram 6 edições do ano de 2000 a 2003, e foi também o autor de Passagens – Antologia de Poetas Contemporâneos do Paraná, obra que reuniu 26 poetas, e é obra de referência, para o conhecimento da poesia contemporânea no estado. Mas não se afastando do amplo cemitério metafórico e semi-concreto de Os mortos na sala de jantar um humor corrosivo perpassa os versos dos poemas, como um vento frio de noites luas-minguantes. O poeta soube arrojar no tema/morte, compondo um belo ensaio sobre, e espalhando musicalidade ao rigor da linguagem. Indisfarçável na sintaxe poética de Ademir, o exíguo, o necessário, o comedimento técnico. Não se vê os esparramos de versos, aos desrigor dos alucinados (esse caso não me seria estranho) que é uma outra vertente da produção poética universal que se desenvolveu principalmente no Ocidente. Os loucos do flux fluxo incontido de espíritho e palavras, signos, símbolos, sinais. Com Ademir Demarchi a coisa é mortal. Fria, concisa como uma lápide. E tem odor de lírios selvagens ou copos de leite. E a música que toca entre as sepulturas, é de um vento miúdo, persistente. Sonatas apaziguadoras ou súbitos calafrios, depois da meia-noite da vida. Em “Gênesis 1: 28” a vida diz assim, em seco: “sejam férteis/multipliquem-se/e encham a terra/de cadáveres”. O poeta é impiedoso como a dita (morte). Não poupa ninguém: das dezenas de bois que o magarefe abate sobre um cepo esfolado e cuspido de sangue e sebo, como personagens nas batalhas, casas suntuosas e igrejas coloniais. Eis um exemplo pérfido do sopro aterrorizante que entorna e passa por dentro dos poemas em todo poemário negro: “matar é o que melhor/o homem sabe fazer” in “A grande arte”. Um pensar profundo sobre a morte, se depreende dos poemas da obra. E o que é isso?! A vida em seu limite, a vida em seus acidentes de percurso, a vida com suas doenças/flagelos do corpo, a vida na sua finitude de destino, a vida na sua projeção nos tempos, a morte como transcendência e vida-morte, quase confundidas no exercício estético. O livro de Ademir Demarchi, é arquetípico estudo poético sobre a morte. Será referencial, quando se tratar de poesia sobre a danada, a avassaladora, a separante, a irreversível, a que faz desaparecer, a estonteante e aniquiladora do ser/terreno. Indisfarçável o serviço de mesa no jantar, servido pelo poeta. Indisfarçável a morte presente no todo-dia. Só os fortes, os destemidos, os libertários, podem ri-la como diria Jânio (o gramático). Em Jairo e Ademir e em padre e em coronel e em juiz e médico e em professor e jornalista e em senador da República todos podemos apenas teorizar e crescer ante a escatifenta. Mas jamais afastá-la do nosso caminho. Um salto ao desconhecido e a própria origem e fins das linguagens: “rebusco a terra/sob a lápide/cisco a letra/no bico do melro/que procura alimento”. Este é um dos mais belos poemas do livro que atende pelo nome de “No camposanto da floresta de signâncias”. Morte e linguagem. Tudo a ver neste mundo, o que vivemos e nos outros nos quais especulamos. O poema grafa a terra negra da transturforíssima, escarnicídia, e encontra a letra. Enigma da vida ou da morte? Do início ou do fim da existência? O ensaio crítico ou resenha crítica, deve trazer delírios do resenhista, até alguns neologismos. Sãos os desvios de entendimento as vezes que acertam alvos inusitados do ver crítico e somam à poética do autor. O ver crítico percorre eletroneuros complexos e a resultante, do moinho, redemoinho matutado, resulta significâncias interventoras. Perdoados ou não os descabidos críticos, importante a atenção que os poemas de Os mortos na sala de jantar, exigem. Ademir Demarchi insiste em escavar covas, poemas e livros, vide: “num obscuro livro sem onde/há escavado um breve poema/esquecido e por ser estirpado/uma vala, cova comum/a ser por todos dividida e compartilhada”. Grande idéia do poeta, em relacionar a palavra, o verso, o poema-em-si com o corpo que vive e morre e é também enterrado, des-enterrado. Não é só a morte corpórea, humana que alumbra no livro. Mas a morte da palavra, do significado, das linguagens, que assombram a sala de jantar. Em “A morte do poeta” vê-se que “o poeta morre/um fio de voz/percorre o vazio/até o leito do rio”. Do poeta, só um fio de voz é o que fica a percorrer o vazio, no campo terreno. Não se poupa ninguém no livro e até os poetas recebem seu merecido esquife, ou valise de signos finalis. “dois sonetos, diz o profeta,/a cada um em seu esqueleto/lado a lado, as costelas/é o que sobra após a moela/daquele cardume de poetas”. Um livro calcado friamente, na des-cerebrina e cega morte, lógico, não pode poupar ninguém. A pena do poeta Ademir Demarchi, transpassa de gelo nossos corações, pra bem do pensar sobre a que nunca morreu/morrerá de velha neste mundo e noutros que o imaginário nos permitir e as línguas/linguagens denotar. “Epitáfio final” do poeta: “a morte é uma invenção” portanto fique frio.

 

 

jAiRo pEreIrA

 

Autor de Espirith Opéia, Capimiã (livros-poemas)

e outros.