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TÂNIA DU BOIS

POESIA... Quando revelar ou ser reflexo?

por Tânia Du Bois

 

            Jorge Luís Borges escreveu que "...a poesia não é alheia, está logo ali, à espreita. Pode saltar sobre nós a qualquer instante. E a vida tenho certeza é feita de poesia".

            Como fazer para que as pessoas percebam que vivem a poesia e se importam com ela? Que sentem o reflexo de um poema? De onde vem a inspiração, na revelação das palavras? Quando a inspiração permite a revelação?

Devia ser tarefa simples para o escritor que conhece os passos da estrada. Mas, não é assim; Clauder Arcanjo nos revela em seu poema "A dureza de um verso":

 

                        "O verso mais doído
é o verso não proferido.
Aquele que entala,
estrala, arma-se, rala...
mas não se impõe.
O verso mais sofrido
é o verso não escrito.
Aquele que, (mal) criado,
nega-se, cala-se... e silencia.
Espia, se inicia, punge...
contudo não grunhe.
O verso mais fatal
é o verso não lido.
Aquele que, disposto,
se apresenta; arrebenta,
experimenta, inventa...
porém ninguém o lê.
A dureza de um verso, poeta,
é a maciez do seu reverso".

 

Seu poema reclama da "entresafra da criatividade" e da "angústia da não-criação". O escritor reflete que a dureza de um verso é estar "emperrado", com seu discurso entrecortado, mas a luta pela inspiração pode mudar a sua vida, depende da criação e do criador.

            O trabalho de aprimorar e dominar o verso vale para que o escritor exerça o seu amor às palavras, popularize as expressões e se revele como fonte de inspiração. E cortejar a literatura não apenas com a qualidade indiscutível das letras e, sim, consentir que venham a público os poemas.

            Escrever, produzir, poetizar é cada vez mais precioso, por ser o caminho da liberdade. Acredito que existe vida além desta e que ela está em nossos sonhos. Nascemos para esvoaçar a imaginação, como em Mário Quintana:

                                                                         

                                                "Os poemas são pássaros que chegam

                                                  não sabem de onde e pousam

                                                  no livro que lês.

                                                  Quando fechas o livro, eles alçam vôo

                                                  como de um alçapão.

                                                  Eles não têm pouso

                                                  nem porto

                                                  alimentam-se um instante em cada par de mãos

                                                  e partem.

                                                  E olhas, então, essas tuas mãos vazias,

                                                  no maravilhado espanto de saberes

                                                  que o alimento deles já estava em ti..."