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Márcio Almeida |
SORTE SUA LER
SORTILÉGIO
Márcio
Almeida
A poesia tem a vantagem de ensejar várias leituras, o que enriquece muito
sua recepção. E, às vezes, a poesia é uma espécie rara de sortilegium, um tipo de leitura com
interpretação de padrões postos ao acaso sobre uma superfície, no caso, a
linguagem.
Em decorrência dessa acasionalidade advêm a inventiva, o imaginário, o
garimpo, o jogo de palavras e o fascínio heurístico pela descoberta de novas
performances dos signos.
Essa atitude justifica a dicção própria de um poeta e o distingue com
diferencial em meio à robustez de publicações. O reconhecimento desse
posicionamento intencional torna viável o amadurecimento poético e esse, por
conseguinte, estabelece um fluxo produtivo seqüencial que torna então o poeta
uma referência.
A trajetória implicada nesse processo não depende – nem pode, felizmente
– de acasos mallarmaicos, de sorte grande junto à sazonalidade idiossincrática
de uma dada crítica de favor amical, às vezes de uma erudição hermética da
academídia, das jusantes do decorum,
ou de um leitorado blogueiro propenso a loas fáceis para ocupação do ócio
mental-eletrônico.
Convenhamos: internet e imprensa impressa estão saturados desse bazar
literário.
O livro Sortilégio, de Edson
Cruz, insere-se entre exceções livrescas da ilusão lingüística de ser o legado
da sorte resultado de um mero código de direção. O livro se faz. É construído
sem o que representa ou imita, donde garantir estranhamento, portanto o prazer
inusitado com poemas minimalistas em sua quase totalidade, acrescidos de uns
poucos laivos de boa retórica.
O poeta mergulha em busca de hyponoia e sambaquis para revitalizar,
ironizar, desconstruir ou inaugurar significâncias, como em “Feitiço” (“algo
assim não – mais factício – por demais tal coisa feita – que de tão artifício –
vira arte – vira livro – vira ofício”, 22); “Ouriço”, com um posicionamento
iconoclasta (“chega deste papo besunto – arranjo de flores tardias – aulas,
estórias – assuntos”, 28); “Nanquim” (“palavra que não lavra – universos
numerados até o fim...”, 30); “Flor-de-lótus”, questionativo, zen, místico (“o
que escrever com o sangue que goteja?”, 36); “Sambaqui” (“o que fazer então –
com as palavras? – depositá-las aqui – vomitá-las – como se vomita – uma
língua”, 42), entre outros tantos bons exemplos.
Em nível temático, Sortilégio
não tem um ponto de ancoragem definido e o poeta previne: “tal estrada abriga
horrores em seu leito – terríveis desertos, terra inóspita e dardejante”
(“Cidade imaginária”, 46), ele que foi – até por opção – “abandonado de deuses e
de afeto” (“Sinal verde”, 40), em “ofício tão errático” (“Cidade imaginária”,
46), do qual se arroga não ter (uma vez ser estreante) “nenhum ontem em círculo
vazio – e um amanhã que traga algum esteio” (“Tartaruga de um só olho”,
56).
O poeta sabe porque conhece que nesse sortilégio, ou na leitura da sorte,
predomina, maniqueistamente, um “Círculo eterno” no qual os homens, e por certo
os poetas, andam “de caverna em caverna” (66) em busca do que, poética e
existencialmente, os redimam da aporia. Por isso o ato de confissão em “Devir”:
“meu ser derradeiro – ainda está no prelo” (78).
Título da primeira parte do livro, Sambaquis é nome emblemático para
Edson Cruz, que o tem, também, em seu blog (http://sambaquis.blogspot.com):
há nesse recorte coerência poética em relação àquilo que constitui o alicerce
básico da cultura sincrônica e diacronicamente estabelecida na evolução humana,
donde a importância preservacionista, lingüística e referencial, que resiste à
desmemorização contemporânea. Há então um “mar morto” e “um deus absorto” (14);
o “palimpsesto” (16); “anuros” (18); um “rascunho [de ave] que não pousa nunca”
(20); “gonfotérios na Paulista” (24) – alusão perfeita a uma situação
caótico-urbana de uma São Paulo fóssil pós-moderno; “nanquim” (30); “lágrimas
oceânicas” (32) – onde o poeta questiona quanto da riqueza de Portugal “é o sumo
de nossas tristezas”, enumerando possessões ultramarinas, colônias, com a
convicção histórica de a terra de Camões, Pessoa e Saramago (p.ex.) ser o “sal
que corrói a pele de nossas almas”, além do poema “Sambaqui”, quando então
remete ao samba onde “cabem todos os restos”, de que se constrói “uma poética do
débris”, sabiamente lembrado por
Ítalo Moriconi no prefácio. “Raspas e restos me interessam”, antecipou Cazuza.
“Restos que não evaporam” (26), cinge Edson Cruz em “Linguagem.”
Artesão da tessitura de verbos & substantivos, Edson Cruz vem no
tempo para o espaço, de dentro para fora, maiêutico e conclusivo, compondo uma
linguagem que é antes de tudo nobre para uma poesia sensível sem o desgaste que
a entoja numa lírica tautológica e chata.
Um poema muito especial de Sortilégio é “Linguagem” (26). Nele,
linguagem é outeiro, depósito, plástico, coisa, palavras, forno, fábrica =
significância em trânsito, ou, com Barthes, “uma rede organizada de obsessões.”
O poema é o que está prestes a ser linguagem; linguagem é o que está prestes a
ser poema: “lâmina branca de sentidos” (26). É um “querer-dizer anterior”
(Compagnon):”essências exteriorizadas”. O que se identifica pela cristalização
de sentido: “outeiro criado de acúmulos – tegumentos enrijecidos.” É o
“pensamento indeterminado” (Poulet): “palavras não específicas.”
Ao escrever que linguagem é “fábrica de desmundos – mijos de civilizações
– tudo que o tempo não – esquece nem se envaidece”, o poeta tem consciência de
que, barthesianamente “a linguagem é problema”, e de ser preciso, portanto, que
se experimente “sua profundidade, não a instrumentalidade ou a beleza”. A
linguagem é , cf. Barthes, “a obra que se oferece à exploração.” A linguagem
garante à poesia a condição de oposição de mercadoria: “coisas não transformadas
em objetos de adorno.” A leitura desse poema é enriquecida com o discernimento
lúdico implicado no uso do verbo “calcinar.”
Márcio Almeida, poeta, professor
universitário, crítico de raridades.
Poemas: http://www.meiotom.art.br/cruzpo.htm