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ESCORBUTO: Cantos da Costa

carlos pessoa rosa

 

O título do livro de Flávio Viegas Amoreira, recém-lançado pela 7Letras, com nota de Nelson de Oliveira, ESCORBUTO: Cantos da Costa, já nos obriga a um aportamento em cais metaforizante.

 

O autor discorrerá sobre hemorragias e infecções literárias seguindo um canto que tanto pode representar um ponto, uma quina ou um ângulo, como sonoridades encontradas do outro lado da veia poética; costa do que está atrás, escondido, e não apenas do que vemos em um primeiro momento olhando de alto-mar. O poeta aqui é ofício caiçara costeando/ arraias rebuliço corálico ocre/ comendo crases artigos prépositismos/ neutrinos, buracos, fluxosfuscos/ Oceano tão metafórico do Céu semblante!

 

No livro, referência a pontos geográficos, viajantes e deficiência de vitamina C são apenas instrumentos para o fazer poético, para o autor metaforizar a obra: Piratininga e gorgulhos emasculando/ MAR interrompido nas serranias paisagem modelar... Não é por menos que o autor dedica sua “epopéia cósmico-brasileira aos talentos da novíssima literatura brasileira”, aqueles que se permitem à febre duradoura/ grau peregrino da letra malabarismo significal..., algo como Ulysses em Copacabana surfando com James Joyce e Dorothy Lamour, ou escrever mundifica [Dodecafônica Azul]/ Shuva...

 

Estivesse perdido na Biblioteca de Borges, este seria o livro que tomaria emprestado. Recorrendo a Lucrécio, esta seria, dentro do caos, a obra que canta minha ordem natural: Foi por eles próprios, espontaneamente, batendo ao acaso, que os elementos, depois de se terem unido de mil modos, mas em vão e inutilmente, formaram por fim as bases de que sairiam os princípios das grandes coisas, da terra, do mar, do céu, das espécies de seres vivos. (II, 1058-1063)[1].

 

Viegas não nos oferece o mel servido ao consumo, retirado de único fruto, mas o mel selvagem, aquele formado através das viagens de abelhas a estranhezas diversificantes, pomares extravagantes, alucinógenos, e que ao acaso nos brinda com novos encantamentos. Qual seria a função da poesia que não fosse resgatar o canto das palavras, seguir explorando além-poema?

 

Em contato recente, Viegas falou da receptividade de seu livro pela crítica literária. Absorvido ou não por aqueles que se julgam donos do momento literário brasileiro, a maioria ainda presa ao sentido comunicativo das palavras, o que posso dizer a Viegas é que ele Canta a juventude que povoa o futuro, é de lá - como alcança o poeta em eu pretérito e realizador emprestado de um futuro - os cardumes e transcorrimentos.

 

Carlos Pessoa Rosa  



[1] Novaes, Adauto. Poetas que pensaram o mundo, p. 73. Ed. Companhia das Letras. 2005.