ESTAMOS TODOS BEM,
Provocante Romance Ainda
Inédito e já Polêmico de
Vera Helena Rossi
“Todas as vidas dentro
de mim/Na minha
Vida/A vida mera das
obscuras...”
Cora Coralina, Todas as
Vidas
Nunca tinha recebido um
livro para ser resenhado
que ainda fosse inédito,
quero dizer,
xerocopiado, formatado,
encadernado, não
necessariamente nessa
ordem, quero dizer, não
editado ainda... O
inédito Romance ESTAMOS
TODOS BEM, 115 páginas,
de Vera Helena Rossi,
site Palimpsesto –
http://verahelena.blogspot.com/
eu soube por intermédio
do site Cronópios no
qual colaboro
regularmente, tendo
sabido a autora elogiada
em espanhol por Pedro
Amorosos Juan no site
http://pedrosoamoros.blospto.com
e que da obra, num
enunciado inicial, no
link da obra diz:
“Una mujer toma café en
la cocina mientras
siente “na boca do
estômago a bílis ácida
da separaçâo”. Piensa en
la despedida de su
marido y le vienen a la
memoria el Réquiem
de Mozart y la
Novena Sinfonía de
Beethoven. Así se inicia
Estamos todos bem,
la sugerente y, en
ocasiones,
desconcertante - por la
variedad de registros
que manej a- novela de
la escritora brasileña
Vera Helena Rossi.
Estamos todos bem
cuenta el proceso de
degradación mental de
una aspirante a
escritora, los
diferentes caminos – el
azar, las circunstancias
adversas - que la
conducen a la locura (no
es casualidad que la
palabra “louca” se
repita con frecuencia en
la parte final del
relato). La protagonista
– inolvidable por otra
parte- de la historia es
Clara Pereira, una joven
escritora de 33 años
(una cifra mágica y
simbólica que tiene
resonancias religiosas
tal como se pone en
evidencia en el tramo
final de la narración,
cuando el proceso de
degeneración mental de
Clara resulta imparable)
que, abandonada por su
marido, lleva una
patética vida. Solitaria,
soñadora, obsesionada
por la belleza de las
palabras y de las cosas,
Clara es una romántica
que adora la filosofía y
escribe en sus ratos
libres un Livro de
Anotaçôes Inúteis,
una especie de diario
sobre la soledad y la
infelicidad - trasunto
emocional de la
situación que vive la
protagonista y cuyo
personaje principal es
la homérica Penélope -,
en el que se
entremezclan curiosas
definiciones
lingüísticas en una
suerte de “diccionario
fragmentado”.
Curioso por saber do
livro e a partir do
elogio de qualidade do
escritor espanhol,
escrevi à autora pedindo
o trabalho para ler e
assim também poder
tentar manifestar minha
opinião a respeito.
Depois de tantos
percalços pessoais e
tendo ainda e outras
obras para opinar
criticamente a respeito,
finalmente tomei pé do
livro ESTAMOS TODOS BEM,
começando a ler aos
poucos. Logo de cara
fiquei surpreso pela
escrita de qualidade da
autora, impressionado,
depois de ver a obra se
assomando caí de fio a
pavio, de cabo a rabo na
leitura, e, confesso que
gostei do romance
bonito, bem construído,
medida as
experimentações do
contexto, as
intertextualidades
pertinentes, até porque
a autora, falando sério,
é Mestre em Literatura e
Critica Literária pela
PUC,
doutoranda em
Comunicação e Semiótica
também pela PUC – SP,
além de ter
participações na Revista
Língua Portuguesa
(Carlos Drummond de
Andrade, matéria, capa
da edição de setembro de
2007 e 80 anos de
Macunaíma, matéria, capa
de abril de 2008).
A personagem principal,
Clara Pereira, ao
contrário do que o nome
diz, na verdade não é
nada clara, é muito
confusa, e assim vai
pontuando o romance com
suas neuras, seqüelas,
até mesmo certa
desconstrução moral,
narrando os dissabores
urbanos do dia-a-dia,
estando o livro nesse
diapasão, desde a paixão
da personagem, o
envolvimento com Bárbara
– às vezes não se sabe
quem é uma e quem é
outra – ainda assim e
por isso mesmo uma louca
da pá virada,
cervejóloga, amealhando
destemperos, fissuras,
divagações, estados
oníricos aqui e ali,
numa personagem que vai
e volta nesse círculo
vicioso inclusive
narrativo e que às vezes
também “viaja” muito
além dos sentidos, com a
escrita sendo
interessante nesse
propósito, ora uma
romântica, ora uma
feminilidade conturbada,
confrontando interesses,
estados de animus e
outras intimidades
insinuadas ou, curto e
grosso, reveladas.
ESTAMOS TODOS BEM invoca
os mistérios de uma vida
exposta, angústias de
uma mulher moderna,
desesperanças, vontades
íntimas, a descoberta de
sentimentos,
arrebentações, seduções,
triângulos ocasionais,
feito um inventário de
um contemporâneo
mundo-mulher, em que a
feminilidade aqui e ali
se desarranja, como ora
se recompõe, onde há
conflitos de interesses,
a própria cruz da
personagem principal que
é arrumar gavetas
(interiores) dos outros,
estranhos, peça por
peça, como se quisesse,
por assim dizer e por si
mesma, acertar suas
contas pessoais com a
vida, com as etiquetas
sociais, as regras e
convenções que veste,
despe, ora significando
alguma coisa, ou muito
pelo contrário, ora
mostrando que não tem
profundidade, mas pontua
a invocação de prisma,
dá uma metáfora à vida
amarrada de uma mulher
moderna caindo em si e
às vezes se perdendo de
si. Entre um dia e outro
dia, agressões, buscas,
perdas, tiros,
vinganças,
orquestrações, amarras
e disparates de perdas
emocionais, a louca
mulher procurando porto
e, assim e por isso
mesma, bebendo, fugindo,
arrumando no outro o que
não revela em si mesma
ou não tem conserto. Ser
mulher, afinal, nesses
nossos tempos
pós-modernos, à que será
que se destina?
Caetanear.
O mundo está perdido e a
mulher está nesse
contexto. A grande
metrópole de estados
vazios de alma. A autora
analisando (-se?) o
estágio de uma mulher
carente, o diálogo entre
gêneros, o poder da
metáfora e mesmo a
possibilidade de muitas
leituras, o tácito, o
que quer dizer e não
diz, o que explicita em
cena aberta e o que cala
veladamente sempre nas
reticências do que pode
vir a ser e, é ou não é.
Com qualidade a autora
Vera Helena Rossi
ventila o calvário de
Clara não tão clara
assim no desperdício de
dias, relações,
conflitos, continuísmo
existencial reles,
sentimentos, perdas,
resgates e insanidades
de percurso. Sobreviver
é preciso? Nem tanto.
Pode ser impreciso.
“Lá ia ele, a desmanchar
um triângulo. Crescia um
ódio, que,
estranhamente, crescia
contra si, contra a
Clara que odiava. O ódio
reluziu a faca da
cozinha, mais uma vez
guardado silencioso na
gaveta da pia. “Tudo vai
ficar bem!”. Como
Bárbara reagiria em uma
situação assim? Limpou a
mesa do café. Agora
seria somente ele a se
sentar àquela mesa
(...). E metade de sua
vida que seria jogada no
lixo junto com os
farelos e a casca do
mamão papaia. Queria se
afundar naquela manhã e
nunca mais sair daquela
cozinha. Como Bárbara
reagiria em seu lugar? E
se fechasse os olhos e
acordasse daquele
pesadelo? Poderia ser um
equivocado sonho, a sua
vida, e a partir daquele
momento ela acordasse
outro. Com terror olhou
ao seu redor. Finalmente
chorou.”(pg 6).
Com detalhes do dia em
curso, estilos, comidas,
retalhos; Clara, que ora
parece ser Bárbara, vai
remoendo intenções,
produzindo querelas,
insinuando desarranjos
existenciais, perdida,
jogo de
revela-e-esconde, feito
ainda assim um
dicionário fragmentado
de leituras, mágoas,
implicações,
inseguranças e estados
quizilentos. Eis a
mulher. Eis a personagem
de um mundo real
retratado com gabarito
na obra. Estamos todos
bem? Periga ver. Um
paradoxo? Uma ironia. O
que é que mora no final
feliz ou infeliz de uma
vida, uma obra? Como é
que você pode querer que
uma mulher exista
magistralmente sem
ruminar insistentemente
o verbo viver? Pois é.
“Não, Rita, Clarinha
está triste, estou
certo? Claríssima. Na
realidade, Clara é um
tanto narcisista para
apreciar à Vera a
música. Só o seu reflexo
no espelho interessa,
nada mais. Uma
romântica. Na realidade,
a verdadeira louca da
casa” (pg 15).
Estados de delírios.
Perversões, implicações
sexistas, segredos e
insinuações, a ópera
bufa de vidas em
descontinuidades, perdas
& danos, anotações,
esnobismos, estragos,
rugas, animais e
máscaras, palavras que
parecem soltas,
entremeada de desgraças,
livros de anotações,
vaidades, fugas, uma
nebulosa Clara se
apagando, incompleta,
feito uma Penólope a
desconstruir e criar
desenredos, o quase
objetivo, o quase
amante, o quase ensaio
no abrir-se de janelas,
ou sentir a dor do
outro, entre sonhos,
ilusões perdidas, se
matar, a lógica do que
não há mais parece;
cervejas geladas...
ESTAMOS TODOS BEM tem
uma coragem crua no
criar, no mostrar a
própria capacidade da
autora letrada a tentar
um estilo novo,
inventar, ousar, sair-se
de si, saindo-se bem e
criando um belo livro
que está pronto sim para
ser editado e fazer
sucesso. A autora muito
bem explora
comportamentos humanos
(alguns demasiado
humanos porque dilaceram
intenções), urbanos,
sociais, sem ser muito
romântica e algo de
realmente algo
neorealista em
conturbadas relações de
aproximações ou
ilhamentos, com ações
que se sucedem,
citações, distinções,
conectando situações que
puxam eios, vão e
voltam, se reafirmam,
endossam o que se
seguirá. Escrever é
saber delinear
parágrafos, nutrir
sentimentos, sustentar
situações. Vera Helena
Rossi manja de estilo e
tem a arte de bem
palavrear e tornar
notável o que parecia
ser rotina e até mesmo
é, de onde ela
desencrava rostos,
ritos, trilhas, edições
de. A Clara que é
Bárbara que é mãe de
Bárbara que é primeiro
de abril (mentira!), que
é Penélope que é uma
cria entre Pedros,
Lisandros, homens,
nomes; estamos todos
bem? Há parafusos
soltos, doida de pedra
quem é, quem não é, quem
não parece ou se parece?
Formigas. Fred. Rita.
Corpo. Copo. Cópulas. E
toma Lisandro, Sandra,
Rafael, mais ilações
plantadas, alusões bem
colocadas, entre
Alfredos (roupas ocultas
que marcam máscaras),
Glórias, Albertos, então
pré-memórias,
pós-intenções,
flagramentos: admiravel
gado urbano. E ainda
Herchcovitch, Camus,
Ulisses, Eça, Lispector
(fígados); recompostas
as biles somos todos
parecidos, marcados,
gente-humana (humana?)
rebocadas por demãos de
sensibilidades, ironias,
paradoxos e olhares que
pulsam. De tudo há um
tomo, um naco, um gomo.
De perto ninguém é
normal? Vera Helena
Rossi dá de comer muito
bem à literatura que
cria de sua envergadura.
“Estamos Todos Bem” é um
instigante romance que
tem tudo para virar um
clássico. Há vida
inteligente nos
departamentos editoriais
de alguma editora de
visão para bancá-lo?
Periga ver ESTAMOS TODOS
BEM lançado e valorar
assim, finalmente, as
sua própria criação.
-0-
Silas Correa Leite,
Santa Itararé das
Letras, SP - Escritor,
autor de Porta-Lapsos,
Poemas, e Campo de Trigo
Com Corvos, contos, à
venda no site
www.livrariacultura.com.br
– Blogue:
www.portas-lapsos.zip.net