meiotom  poesia & prosa

e-mail: meiotom@uol.com.br

 

   meiotom.blog                                                           RESENHA

 

ESPECIAL

 André Carneiro

 Eunice Arruda

 Leminski

 J. Cardias

 Jorge Cooper

 Poesia Cubana

 Poema Libai

POESIA

 Carlos Pessoa Rosa

 Convidados

 Carlos Pessoa Rosa

 Convidados

 Carlos Pessoa Rosa

 Convidados

 POESIA VISUAL

 Almandrade

 Carlos Pessoa Rosa

 Clemente Padín

 F. Aguiar

 G. Debreix

 Hugo Pontes

 José L. Campal

 J.M.Calleja

 Rafael Marin

 Poe-Zine

 Marcos Rosa

 Avelino Araujo

 Thierry Tillier

 FOTOGRAFIA

 Andrea Angelucci

 F. Pillegi

 Euclides Sandoval

 TITE

 GONDIM

ARTES PLÁSTICAS

 Lúcia Rosa

 Felipe Stefani

 Maria Domênica

 Lampros

 DIVERSOS

 Concursos

 Resultados concursos

 Resenhas

 Estatística

ESTAMOS TODOS BEM, Provocante Romance Ainda Inédito e já Polêmico de Vera Helena Rossi

 

 

“Todas as vidas dentro de mim/Na minha

Vida/A vida mera das obscuras...”

 

Cora Coralina, Todas as Vidas

 

 

Nunca tinha recebido um livro para ser resenhado que ainda fosse inédito, quero dizer, xerocopiado, formatado, encadernado, não necessariamente nessa ordem, quero dizer, não editado ainda... O inédito Romance ESTAMOS TODOS BEM, 115 páginas, de Vera Helena Rossi, site Palimpsesto – http://verahelena.blogspot.com/  eu soube por intermédio do site Cronópios no qual colaboro regularmente, tendo  sabido a autora elogiada em espanhol por Pedro Amorosos Juan no site http://pedrosoamoros.blospto.com  e que da obra, num enunciado inicial, no link da obra diz:

 

“Una mujer toma café en la cocina mientras siente “na boca do estômago a bílis ácida da separaçâo”. Piensa en la despedida de su marido y le vienen a la memoria el Réquiem de Mozart y la Novena Sinfonía de Beethoven. Así se inicia Estamos todos bem, la sugerente y, en ocasiones, desconcertante - por la variedad de registros que manej a- novela de la escritora brasileña Vera Helena Rossi. Estamos todos bem cuenta el proceso de degradación mental de una aspirante a escritora, los diferentes caminos – el azar, las circunstancias adversas - que la conducen a la locura (no es casualidad que la palabra “louca” se repita con frecuencia en la parte final del relato). La protagonista – inolvidable por otra parte- de la historia es Clara Pereira, una joven escritora de 33 años (una cifra mágica y simbólica que tiene resonancias religiosas tal como se pone en evidencia en el tramo final de la narración, cuando el proceso de degeneración mental de Clara resulta imparable) que, abandonada por su marido, lleva una patética vida. Solitaria, soñadora, obsesionada por la belleza de las palabras y de las cosas, Clara es una romántica que adora la filosofía y escribe en sus ratos libres un Livro de Anotaçôes Inúteis, una especie de diario sobre la soledad y la infelicidad - trasunto emocional de la situación que vive la protagonista y cuyo personaje principal es la homérica Penélope -, en el que se entremezclan curiosas definiciones lingüísticas en una suerte de “diccionario fragmentado”.

 

Curioso por saber do livro e a partir do elogio de qualidade do escritor espanhol, escrevi à autora pedindo o trabalho para ler e assim também poder tentar manifestar minha opinião a respeito. Depois de tantos percalços pessoais e tendo ainda e outras obras para opinar criticamente a respeito, finalmente tomei pé do livro ESTAMOS TODOS BEM, começando a ler aos poucos. Logo de cara fiquei surpreso pela escrita de qualidade da autora, impressionado, depois de ver a obra se assomando caí de fio a pavio, de cabo a rabo na leitura, e, confesso que gostei do romance bonito, bem construído, medida as experimentações do contexto, as intertextualidades pertinentes, até porque a autora, falando sério, é Mestre em Literatura e Critica Literária pela PUC, doutoranda em Comunicação e Semiótica também pela PUC – SP, além de ter participações na Revista Língua Portuguesa (Carlos Drummond de Andrade, matéria, capa da edição de setembro de 2007 e 80 anos de Macunaíma, matéria, capa de abril de 2008).

A personagem principal, Clara Pereira, ao contrário do que o nome diz, na verdade não é nada clara, é muito confusa, e assim vai pontuando o romance com suas neuras, seqüelas, até mesmo certa desconstrução moral, narrando os dissabores urbanos do dia-a-dia, estando o livro nesse diapasão, desde a paixão da personagem, o envolvimento com Bárbara – às vezes não se sabe quem é uma e quem é outra – ainda assim e por isso mesmo uma louca da pá virada, cervejóloga, amealhando destemperos, fissuras, divagações, estados oníricos aqui e ali, numa personagem que vai e volta nesse círculo vicioso inclusive narrativo e que às vezes também “viaja” muito além dos sentidos, com a escrita sendo interessante nesse propósito, ora uma romântica, ora uma feminilidade conturbada, confrontando interesses, estados de animus e outras intimidades insinuadas ou, curto e grosso, reveladas. 

ESTAMOS TODOS BEM invoca os mistérios de uma vida exposta, angústias de uma mulher moderna, desesperanças, vontades íntimas, a descoberta de sentimentos, arrebentações, seduções, triângulos ocasionais, feito um inventário de um contemporâneo mundo-mulher, em que a feminilidade aqui e ali se desarranja, como ora se recompõe, onde há conflitos de interesses, a própria cruz da personagem principal que é arrumar gavetas (interiores) dos outros, estranhos, peça por peça, como se quisesse, por assim dizer e por si mesma, acertar suas contas pessoais com a vida, com as etiquetas sociais, as regras e convenções que veste, despe, ora significando alguma coisa, ou muito pelo contrário, ora mostrando que não tem profundidade, mas pontua a invocação de prisma, dá uma metáfora à vida amarrada de uma mulher moderna caindo em si e às vezes se perdendo de si. Entre um dia e outro dia, agressões, buscas, perdas, tiros, vinganças, orquestrações, amarras  e disparates de perdas emocionais, a louca mulher procurando porto e, assim e por isso mesma, bebendo, fugindo, arrumando no outro o que não revela em si mesma ou não tem conserto. Ser mulher, afinal, nesses nossos tempos pós-modernos, à que será que se destina? Caetanear.

O mundo está perdido e a mulher está nesse contexto. A grande metrópole de estados vazios de alma. A autora analisando (-se?) o estágio de uma mulher carente, o diálogo entre gêneros, o poder da metáfora e mesmo a possibilidade de muitas leituras, o tácito, o que quer dizer e não diz, o que explicita em cena aberta e o que cala veladamente sempre nas reticências do que pode vir a ser e, é ou não é. Com qualidade a autora Vera Helena Rossi ventila o calvário de Clara não tão clara assim no desperdício de dias, relações,  conflitos, continuísmo existencial reles, sentimentos, perdas, resgates e insanidades de percurso. Sobreviver é preciso? Nem tanto. Pode ser impreciso.

“Lá ia ele, a desmanchar um triângulo. Crescia um ódio, que, estranhamente, crescia contra si, contra a Clara que odiava. O ódio reluziu a faca da cozinha, mais uma vez guardado silencioso na gaveta da pia. “Tudo vai ficar bem!”. Como Bárbara reagiria em uma situação assim? Limpou a mesa do café. Agora seria somente ele a se sentar àquela mesa (...). E metade de sua vida que seria jogada no lixo junto com os farelos e a casca do mamão papaia. Queria se afundar naquela manhã e nunca mais sair daquela cozinha. Como Bárbara reagiria em seu lugar? E se fechasse os olhos e acordasse daquele pesadelo? Poderia ser um equivocado sonho, a sua vida, e a partir daquele momento ela acordasse outro. Com terror olhou ao seu redor. Finalmente chorou.”(pg 6).

Com detalhes do dia em curso, estilos, comidas, retalhos; Clara, que ora parece ser Bárbara, vai remoendo intenções, produzindo querelas, insinuando desarranjos existenciais, perdida, jogo de revela-e-esconde, feito ainda assim um dicionário fragmentado de leituras, mágoas, implicações, inseguranças e estados quizilentos. Eis a mulher. Eis a personagem de um mundo real retratado com gabarito na obra. Estamos todos bem? Periga ver. Um paradoxo? Uma ironia. O que é que mora no final feliz ou infeliz de uma vida, uma obra? Como é que você pode querer que uma mulher exista magistralmente sem ruminar insistentemente o verbo viver? Pois é.

“Não, Rita, Clarinha está triste, estou certo? Claríssima. Na realidade, Clara é um tanto narcisista para apreciar à Vera a música. Só o seu reflexo no espelho interessa, nada mais. Uma romântica. Na realidade, a verdadeira louca da casa” (pg 15).

Estados de delírios. Perversões, implicações sexistas, segredos e insinuações, a ópera bufa de vidas em descontinuidades, perdas & danos, anotações, esnobismos, estragos, rugas, animais e máscaras, palavras que parecem soltas, entremeada de desgraças, livros de anotações, vaidades, fugas, uma nebulosa Clara se apagando, incompleta, feito uma Penólope a desconstruir e criar desenredos, o quase objetivo, o quase amante, o quase ensaio no abrir-se de janelas, ou sentir a dor do outro, entre sonhos, ilusões perdidas, se matar, a lógica do que não há mais parece; cervejas geladas...

ESTAMOS TODOS BEM tem uma coragem crua no criar, no mostrar a própria capacidade da autora letrada a tentar um estilo novo, inventar, ousar, sair-se de si, saindo-se bem e criando um belo livro que está pronto sim para ser editado e fazer sucesso. A autora muito bem explora comportamentos humanos (alguns demasiado humanos porque dilaceram intenções), urbanos, sociais, sem ser muito romântica e algo de realmente algo neorealista em conturbadas relações de aproximações ou ilhamentos, com ações que se sucedem, citações, distinções, conectando situações que puxam eios, vão e voltam, se reafirmam, endossam o que se seguirá. Escrever é saber delinear parágrafos, nutrir sentimentos, sustentar situações. Vera Helena Rossi manja de estilo e tem a arte de bem palavrear e tornar notável o que parecia ser rotina e até mesmo é, de onde ela desencrava rostos, ritos, trilhas, edições de. A Clara que é Bárbara que é mãe de Bárbara que é primeiro de abril (mentira!), que é Penélope que é uma cria entre Pedros, Lisandros, homens, nomes; estamos todos bem? Há parafusos soltos, doida de pedra quem é, quem não é, quem não parece ou se parece? Formigas. Fred. Rita. Corpo. Copo. Cópulas. E toma Lisandro, Sandra, Rafael, mais ilações plantadas, alusões bem colocadas, entre Alfredos (roupas ocultas que marcam máscaras), Glórias, Albertos, então  pré-memórias, pós-intenções, flagramentos: admiravel gado urbano. E ainda Herchcovitch, Camus, Ulisses, Eça, Lispector (fígados); recompostas as biles somos todos parecidos, marcados, gente-humana (humana?) rebocadas por demãos de sensibilidades, ironias, paradoxos e olhares que pulsam. De tudo há um tomo, um naco, um gomo. De perto ninguém é normal? Vera Helena Rossi dá de comer muito bem à literatura que cria de sua envergadura.

“Estamos Todos Bem” é um instigante romance que tem tudo para virar um clássico. Há vida inteligente nos departamentos editoriais de alguma editora de visão para bancá-lo? Periga ver ESTAMOS TODOS BEM lançado e valorar assim, finalmente, as sua própria criação.

-0-

Silas Correa Leite, Santa Itararé das Letras, SP - Escritor, autor de Porta-Lapsos, Poemas, e Campo de Trigo Com Corvos, contos, à venda no site www.livrariacultura.com.br – Blogue: www.portas-lapsos.zip.net