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manual prático do ódio

ferréz

MANUAL PRÁTICO PARA O AMOR

O nome do romance "Manual Prático do Ódio ", Ferréz, Objetiva, 2003, pode nos levar a algumas reflexões quanto ao objetivo do autor do livro. A palavra manual em si, nos traz à idéia de algo que contém noções sobre determinado assunto. Esperamos de um manual que ele nos respostas para que ações conhecidas nos leve a objetivos previamente determinados. Pelo menos é assim que eu entendia a palavra manual. Entretanto, Ferréz nos traz o que deoculto na palavra ao associá-la ao afeto, no caso, o sentimento de ódio. Poderíamos falar sobre o manual prático do orgasmo sem estranhamentos, o mesmo não ocorrendo com manual prático do ódio. Mesmo por que o autor não nos oferece um manual no sentido tradicional da palavra, sendo todo o romance um livro dos ritos e das rezas que compõe uma sociedade onde o tempo e o espaço são meros coadjuvantes, e as coisas vão ocorrendo à mercê da vontade das pessoas, solapando-as, atropelando-as, e tendo um fator gerador conhecido: a injustiça social provocada pela exclusão.

Enquanto, entre os incluídos, todos os manuais referem-se ao belo clássico, seja no vestir, seja no comportamento, nas regras de uma boa saúde, com o discurso oficial falando de longevidade e qualidade de vida, entre os excluídos o único manual possível é o da sobrevivência, e quem vive sem expectativa de um futuro, com rupturas com o passado, necessita aprender a utilizar-se dos instrumentos possíveis para sobreviver a um presente inóspito e escatológico, violento, com uma vida média raramente ultrapassando a terceira década.

Caso haja algum elo entre incluídos e excluídos, a ligação está na ética que assola o mundo globalizado, qual seja, a do poder associado à posse da moeda. A moral entre as classes também muda, ao invés da máxima de que ladrão que rouba ladrão tem dez anos de perdão, na sociedade, o desvio de dinheiro público é mais tolerado que o roubo de um banco, apesar de no segundo caso estarmos diante de um exemplo claro de que o perdão seria possível, utilizássemos a máxima. O problema se agrava quando aqueles que deveriam estar a serviço da sociedade, sem preconceitos, atuam na fronteira, extorquindo, humilhando e assassinando, por que, na realidade, fronteira é uma região com duplo interior e duplo exterior, terreno próprio para a atuação de mercenários, terra de ninguém.

Uma das regras básicas do manual prático do ódio está na definição de um dos personagens que ao pensar no amor o consegue aproximando seu contrário, o ódio, sentimento que ele conhece muito bem. Sempre que queremos definir algo como feio, o que fazemos é aproximar o belo. Então, aqui, há uma inversão, não aproximamos o ódio do amor, para entendê-lo, mas é o amor que aproximamos do ódio, total inversão quanto ao olhar.

O ritmo dado ao romance não é diferente da velocidade com que as pessoas vivem seu cotidiano, o autor não sabe se amanhã estará vivo. E o livro termina com a morte de Régis, um sujeito que sentia afeição pelos amigos e pela família, mas que precisou traí-los para preservar a família. E foi esse sentimento que o levou a vacilar no momento errado, levando-o a "explodir como um copo de cristal jogando contra a parede". Aninha é a única personagem que não morre, desconfiada ela segue até à rodoviária para retornar a sua origem, é protegida por Régis que entrega sua parte do roubo com sendo a dela. Mas o que será de Aninha? Aninha esperança uma vida melhor exatamente de onde ela saiu para ter um melhor futuro.

Como leitor estrangeiro, contaminado pelo oferecido pela mídia, apesar de ter nascido na periferia e profissionalmente ter trabalhado em serviço universitário, atendendo essa população, portanto, com clara percepção do que está ocorrendo em nosso país, devo confessar que em um primeiro momento me irritei com a nudez do texto. Entretanto, à medida que Ferréz desnuda seus personagens, trazendo à tona suas necessidades e expectativas, em nada diferente de qualquer ser, o que se é um manual prático para o amor, basta para isso que percebamos que estaremos todos no mesmo naufrágio caso não tomemos consciência do caminhar do barco na direção da tempestade, e que solução existe, ela está na inclusão daqueles que têm seus direitos de cidadania usurpados, na permissão de que eles vivam, amem e odeiem, com liberdade, sem constrangimentos de qualquer espécie.

O livro nos leva a repensar a questão da literatura enquanto instrumento para a inclusão social, através do reconhecimento das diversidades existentes nas culturas, e o modo de se repensar o contrato social

 

CARLOS PESSOA ROSA

 

Escreveu "A cor e a textura de uma folha de papel em branco", Ed. UBE-CEPE, 1998; " Não sei não", Ed. Dulcinéia Catadora, 2007; "Sobre o nome dado", Ed. Dulcinéia Catadora, 2007. Editor do site e blog www.meiotom.art.br