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Ensaio sobre a poesia: ´´ POEMA GOSPEL`` de Rogério Salgado.
por:٭ Leonardo Vieira Rodrigues
Neste ensaio teremos como batalha a tentativa de interpretar o poema do poeta carioca e mineiro de residência Rogério Salgado. Poeta que vive a poesia intensamente, pela sua luta do espaço que por excelência é da poesia; falo isso porque entre os gregos ( base de nossa civilização) esta tinha uma função religiosa, o poeta era uma espécie de profeta. Função perdida quando Logos racional, ou seja, quando a tekné poietica buscou definir as coisas numa instância metafísica, donde o principio de identidade característica típica da Grécia clássica direcionou os rumos de ocidente via filosofia. Isso acontece quando Platão busca reconstituir uma cultura que estava em decadência, ou seja, a cultura grega, porém negando a coisa mais grega: a arte. Mas isso é um assunto longo, vamos focalizarmos na questão da poesia, e a sua devida importância. Ora, quando o fabuloso mundo mítico, imaginativo e narrativo da Grécia Arcaica cujo Homero e Hesíodo que são grandes referenciais deste período; lembrando que estes eram poetas e base de uma educação desse período. A poesia tinha o seu lócus primeiro, perdida, para dar lugar ao sentido do ser na investigação sobre a verdade. Entretanto pode – se pensar que ainda sim a poesia tem este lugar que era seu antes da Grécia Clássica. E na contemporaneidade ela (poesia) talvez comporte o lugar na propaganda televisiva, sociedade fruto da reprodutividade técnica como irá dizer Walter Benjamim, fruto do advento tekné cientifica, onde o poder tecnológico é um dos modos de poder da nossa atual sociedade. Entretanto, para que a sociedade da tecnologia pudesse se desenvolver esta contou com a ajuda da religião, pois esta teve que acompanhar o novo modo de encarar a mundo, isso ficar implícito com Max Weber em seu livro A ética protestante e o capitalismo; com isso temos hoje uma sociedade cuja função é o consumo daquilo que é produzido, ou seja, vivemos o império do consumo, do utilitarismo, do qual qualquer coisa que não passe por este crivo é desconsiderada. E por mais que a nossa sociedade atual rejeite o lugar que é próprio da poesia, vários poetas atuais têm lutado para que tal realidade tão superficial, tão presa ao âmbito da técnica, lutam como oposição, como defesa de uma outra realidade da mesma. Entre esses poetas temos Rogério Salgado escritor de vários livros, entre eles Quermesses, com vários poemas belíssimos, das quais tirei o Poema Gospel para comentar. Este poema é assim escrito:
- Façam suas ofertas, senhores! - Vamos chegando, madame! -Menina bonita não paga mas também não leva! - É vinte, é trinta e cinco! - Dou – lhe uma, dou – lhe duas Dou – lhe três ! - Vendido aqui pro cavalheiro..... ( SALGADO, Rogério.2009.pág.34.)¹
Nos versos deste poema vemos implicitamente uma critica aos templos religiosos, de nossa contemporaneidade, que abraçaram o projeto capitalista; do qual o espaço para o cultivo da fé perde lugar para tornar – se uma espécie de bolsa de valores onde aquele que predispõe a doar mais dinheiro para o templo tem terreno maior no céu. Realçam o espírito da modernidade e da contemporaneidade com o seu vinculo fortemente entrelaçado com o principio da sociedade privada. O que se percebe é que os modos públicos de convivência na atualidade estão permeados, contaminados pela lógica do consumo, pelo utilitarismo, cuja estas características são modos típicos da sociedade da técnica. O homem se vê entregue as novidades da tecnologia, é escravizado pelas reações econômicas dos grandes quartéis financeiros. É, tal como os outros redutos institucionais da sociedade, o espaço religioso por mais que tenha em seu discurso a preocupação cujo dever primeiro é com o cuidado da alma. O que tem na verdade em seu discurso é uma forma de poder – saber cuja função principal é rebanhamento de fiéis, pessoas cansadas da falta de perspectiva que grande circo capitalista tem oferecido. Este espaço é também um ambiente pedagógico onde se professar um além mundo, lugar da verdade não encontrada neste mundo. Assim, os fiéis destes templos religiosos são educados para serem bons funcionários de seus empregos, a serem bons fiéis; ou seja, não se deve agir de forma contraria ao que está estabelecido dentro das normas morais preconizadas pela nossa sociedade disciplinar como irá dizer o filosofo Michel Foucault. Neste fluxo critico de uma sociedade dominada pela comercialização de tudo, inclusive da fé, que nasce a interpretação do pequeno grande poema de Rogério Salgado, que ironiza perfeitamente como estão sendo utilizados atualmente os espaços religiosos. Estes versos aqui comentados, só evidenciam o lugar primeiro da poesia, como forma de expressão da verdade subjetiva, lugar este já comentado por Heidegger. Visto que poema gospel nós faz repensar o espaço da fé, da religiosidade, que tem misturado os valores da religião com os dos grandes centros comerciais.
Belo Horizonte 14\ 07\2009
٭ Leonardo Vieira Rodrigues: e filosofo, poeta e critico, pesquisador e professor de ensino médio e fundamental.
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Inércia
A temática conflituosa que envolve a travessia da adolescência para a idade adulta é recorrente na literatura. O que não é recorrente é o fato deste tema geralmente não ser abordado do ponto de vista masculino. E este é o diferencial do romance Inércia, do jovem escritor mineiro Marcos Vinícius Almeida. Através do olhar do narrador-personagem Juan, jovem estudante de filosofia de vinte e poucos anos, somos convidados a re-vivenciar experiências de uma adolescência nostálgica, que provoca, seduz, convida e, paralelamente, desafia a um embate, um conflito. Juan recorre insistentemente ao passado, como forma de escapar à engrenagem circular que o prende à carroceis vivenciais subterrâneos. Cada ato, gesto, pensamento parece contido numa trama que ultrapassa o indivíduo singular. Dessa forma, implicitamente, o romance realiza um flerte sutil diante da antinomia determinismo x liberdade, aqui encarnado, em sua totalidade na vida medíocre desse sujeito comum, provinciano, pequeno burguês. Acorrentado em amarras surdas: o presente imóvel, o passado sedutor e um futuro sem perspectiva, o jovem encontra refúgio na perfeição de uma paixão idealizada, na projeção de uma figura ideal e abstrata que não pode realizar-se no cotidiano prático. Contudo, quando cai em si, cá está sozinho no quarto, preso num filme que se repete, o cd enganchado no aparelho repetindo de maneira irritante o mesmo trecho de uma música que já se cansou de ouvir: Lúcia dormindo na cama, e ele: “Sem camisa. Cinzeiro cheio. No computador parafraseando Leibniz”. Ora portando-se como um menino, ora como homem, vivenciado visceralmente a solidão a dois, a personalidade de Juan se configura de maneira contraditória.
Costurando a estética com frases curtas, evitando adjetivos e longas descrições, focando objetos soltos, o livro produz imagens cinematográficas que levam o leitor a devorar cada página com prazer e leveza. No ponto mais tenso da narrativa, mergulhado em flashbacks fragmentados, o leitor oscila junto de Juan, como um pêndulo caótico, perturbador; até espatifar-se num final surpreendente. Inércia revela tudo que os grandes clássicos da literatura têm de melhor: questões universais, leitura agradável, estilo singular e força narrativa.
Milena Pereira Silva