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Um Boto Chamado Hatoum

 

 

"Sempre imaginei que o paraíso será uma espécie de biblioteca."

Jorge Luis Borges.

  

Porta-voz dos mitos e das lendas amazônicas, o escritor Milton Hatoum encantou dezenas de professoras de língua portuguesa em várias cidades do interior de São Paulo no mês em que se comemorou o dia de Santo Antônio, o santo casamenteiro.

Fui conferir esse encantamento em Pederneiras, na região de Bauru, em noite de festa junina. Todas as docentes estavam acompanhadas dos seus respectivos alunos e ficaram ali, atentas e envolvidas pelas histórias contadas pelo escritor manauara.

Promovido pela Secretaria Estadual de Cultura, esse mítico encontro, praticamente às margens do rio Tietê, durou pouco mais de duas horas, mas foi o suficiente para que José, um aposentado de 56 anos, aluno do curso de alfabetização de jovens e adultos, pudesse ouvir falar em Machado de Assis pela primeira vez. “Eu me sentia cego”, disse José. “Agora que consigo ler algumas palavras, começo a enxergar o mundo”. 

José era apenas um dos mais de 30 adultos e adolescentes que foram ouvir Milton Hatoum falar sobre Literatura na Biblioteca Municipal. “Os adolescentes não gostam dos romances machadianos”, disse Hatoum, “porque esses romances foram feitos para um leitor mais maduro ler. Os jovens devem começar a ler Machado pelos contos. O Enfermeiro, A Cartomante... Há contos incríveis que podem despertar o interesse dos alunos”.

Não foi preciso muita imaginação para ver as palavras de Hatoum fazer o Bruxo do Cosme Velho, Brás Cubas e quase toda corte machadiana de personagens famosos voarem num tapete persa sobre as cabecinhas famintas de informação e cultura literária que lotavam a Biblioteca Municipal. 

Neto de libanês, Milton Hatoum é um dos mais premiados autores contemporâneos brasileiros. Nasceu em Manaus, morou em Paris e hoje vive em São Paulo. Estreou em 1989 com o romance Relato de Um Certo Oriente. Depois publicou os romances Dois Irmãos e Cinzas do Norte; e, em seguida, a novela Órfãos do Eldorado e o livro de contos A Cidade Ilhada.

Além de explicar a própria obra, suas Emilie, Zana, Domingas e Estrela; Omar e Yaqub; Arminto Cordovil, o seu Eldorado e o fantástico Mundo Amazônico, Hatoum também falou sobre Machado de Assis, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Júlio Cortazar, Jorge Luis Borges e principalmente sobre Gustave Flaubert. Aliás, foi por causa do autor francês que Hatoum veio a Pederneiras e, horas antes, também conversou com os estudantes da cidade de Macatuba. Ele foi um dos tradutores do livro Três Contos, de Flaubert, publicado pela Cosac Naify.

Hatoum comentou os contos e disse que Domingas, uma importante personagem do romance Dois Irmãos, foi inspirada em Félicité, a criada da senhora Aubain do conto Um Coração Simples escrito por Flaubert.

Os Três Contos marcaram a ficção francesa do século 19. Foram publicados em 1877, quando Flaubert já se consagrara com Madame Bovary e A Educação Sentimental. Nesse livro, o leitor vai encontrar toda riqueza de recursos e a absoluta modernidade da prosa flaubertiana. Flaubert morreria três anos após a publicação dos contos. Com isso, eles se tornaram a última obra concluída pelo autor, uma espécie de testamento literário.

Logo que terminou de falar sobre o escritor da terra de Marcel Proust, Hatoum discursou sobre o romance. “A perspectiva do romance é a desilusão. É um fenômeno literário essencialmente urbano. Existe desde o século 16, com Dom Quixote, mas teve seu auge no século 19, quando as pessoas tornaram-se mais solitárias. O romance fala da vida de pessoas solitárias”.

Hatoum, que também é cronista semanal do jornal O Estado de S. Paulo, ainda ajudou uma professora da rede pública de ensino a explicar o que é e como escrever uma crônica. “Devem ser textos breves e intensos”, afirmou o autor, que ainda citou como bons exemplos de cronistas Rubem Braga e Jurandir Ferreira. 

Enquanto Hatoum falava para os professores e alunos, uma animada festa junina acontecia numa rua próxima à biblioteca. E justamente quando o convidado discursava sobre a importância do livro e dizia que achava criminoso as crianças não terem acesso aos livros, uma bomba de São João mais musculosa estourou e causou um silêncio entre as pessoas que ouviam as palavras hatounianas. “Justamente quando falo dos livros estouram uma bomba”, pontuou Hatoum.

O avô dele veio do Líbano para o Estado do Acre em 1904. Para surpresa do autor, um outro ramo da família Hatoum também cresceu em Pederneiras. E, claro, no final, as mulheres Hatoum do interior de São Paulo insistiram para que o ilustre Hatoum do Amazonas conversasse sobre a origem do nome da família e ajudasse a descobrir se tinham algum grau de parentesco. As professoras também não queriam deixá-lo ir embora e sempre prolongavam a conversa, que aconteceu no hall da biblioteca após a palestra. E, com certeza, todas voltarão à sala de aula gestando novas ideias para as aulas de literatura e língua portuguesa. 

Só senti por Sherazade não estar presente entre as dezenas de admiradoras do escritor de origem árabe durante mais esse grande e mágico Relato Hatouniano. Com certeza, ela teria mais uma linda história para o seu repertório das mil e uma noites, e as lendas que vagam pelo labirinto amazônico perderiam para a princesa persa um dos seus botos mais ilustres...

 

                                                                             Autor: Lucius de Mello

 

Lucius de Mello é escritor , jornalista e Pesquisador do LEER - Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação da Universidade de São Paulo.
Foi finalista do Prêmio Jabuti em 2003 com a biografia Eny e o Grande Bordel Brasileiro,- Ed. Objetiva. .
Também é autor do romance histórico A Travessia da Terra Vermelha – Uma Saga dos Refugiados Judeus no Brasil e do romance Mestiços da Casa Velha.

Também trabalha como roteirista do Programa Hoje em Dia da TV Record.