Meiotom - resenhas


 

o  

 

Inércia

 

A temática conflituosa que envolve a travessia da adolescência para a idade adulta é recorrente na literatura. O que não é recorrente é o fato deste tema geralmente  não ser abordado do ponto de vista masculino. E este é o diferencial do romance Inércia, do jovem escritor mineiro Marcos Vinícius Almeida. Através do olhar do narrador-personagem Juan, jovem estudante de filosofia de vinte e poucos anos, somos convidados a re-vivenciar experiências de uma adolescência nostálgica, que provoca, seduz, convida e, paralelamente, desafia a um embate, um conflito. Juan recorre insistentemente ao passado, como forma de escapar à engrenagem circular que o prende à carroceis vivenciais subterrâneos. Cada ato, gesto, pensamento parece contido numa trama que ultrapassa o indivíduo singular. Dessa forma, implicitamente, o romance realiza  um flerte sutil diante da antinomia determinismo x liberdade, aqui encarnado, em sua totalidade na vida  medíocre desse sujeito comum, provinciano, pequeno burguês. Acorrentado em amarras surdas: o presente imóvel, o passado sedutor e um futuro sem perspectiva, o jovem encontra refúgio na perfeição de uma paixão idealizada, na projeção de uma figura ideal e abstrata que não pode realizar-se no cotidiano prático. Contudo, quando cai em si, cá está sozinho no quarto, preso num filme que se repete, o cd enganchado no aparelho repetindo de maneira irritante o mesmo trecho de uma música que já se cansou de ouvir: Lúcia dormindo na cama, e ele: “Sem camisa. Cinzeiro cheio. No computador parafraseando Leibniz”. Ora portando-se como um menino, ora como homem, vivenciado visceralmente a solidão a dois, a personalidade de Juan se configura de maneira contraditória.

Costurando a estética com frases curtas, evitando adjetivos e longas descrições, focando objetos soltos, o livro produz imagens cinematográficas que levam o leitor a devorar cada página com prazer e leveza. No ponto mais tenso da narrativa, mergulhado em flashbacks fragmentados, o leitor oscila junto de Juan, como um pêndulo caótico, perturbador; até espatifar-se num final surpreendente. Inércia revela tudo que os grandes clássicos da literatura têm de melhor: questões universais, leitura agradável, estilo singular e força narrativa.

 

Milena Pereira Silva