.
Por Lau Siqueira
A poesia que vem sendo produzida
nesses tempos de blogs, sites, orkut
e twitter começa a revelar
características muito particulares.
A internet desencadeou um processo
que ainda está em fase de
assimilação pelos pensadores da
história e da teoria literária do
nosso tempo. A princípio, havia uma
inexplicável desconfiança e um
parcial desinteresse em relação a
esses meios por parte significativa
dos escritores. Muito especialmente
pelos poetas.
Nos primeiros momentos houve uma
tentativa de desqualificar esta
produção. Como se a facilidade de
veiculação e a interatividade da
internet somente permitisse a
divulgação de poetas de águas rasas.
Certamente que havia um fundo de
verdade nisso todo. A internet
servia e ainda serve para divulgar
muita coisa de qualidade bastante
duvidosa. Nos primórdios da rede, as
desconfianças eram muitas e a
mitificação da nova mídia nos
remetia sempre às reflexões de
Umberto Eco e seus apocalípticos e
integrados.
Em pleno agosto de 2009, me pego
pensando nisso em frente ao meu
computador. Naturalmente, com uma
necessidade enorme de compreender
esse processo e refletir um pouco
sobre a influência que essa
verdadeira revolução nas mídias
tradicionais possa ter provocado não
apenas na forma de divulgação da
poesia, mas também e principalmente
nas perspectivas para a construção
de uma nova linguagem para a poesia.
A verdade é que o virtual passou a
se aproximar com maior intensidade
do cotidiano, confundindo-se com ele
exatamente através da escrita. Para
Pierre Levy, “a tela informática é
uma nova ‘máquina de ler’ o lugar
onde uma reserva de informação
possível vem se realizar por
seleção, aqui e agora, para um
leitor particular. Toda leitura em
computador é uma edição, uma
montagem singular.” Segundo o
próprio Levy, seria um erro fatal
considerar o computador apenas uma
máquina de escrever e de ler. Existe
toda uma cultura sendo formulada
através dessa nova forma de
conhecimento.
Na verdade o que se pode perceber é
que no meio de um lixo acumulado e
natural, produzido por milhões de
seres humanos sedentos de expressar
publicamente suas angústias (e
confundindo isso com poesia, tantas
vezes) foi transbordando uma poesia
de qualidade, densa, amparada no
respeito às tradições, mas também
sem medo de experimentar e não ser
exatamente como o que já se dava por
estabelecido na circunstância
poética brasileira e pelo mundo
afora.
Para desmistificar esse rolo
compressor inicial, eu pergunto: que
mal faz um mau poeta ao escrever
versos ruins? Ou que mal há, por
exemplo, em publicá-los nos sites e
nas ainda existentes listas de
discussões sobre literatura e
poesia? Certamente que nenhum. O bom
leitor haverá de saber selecionar os
bons textos. Há, com certeza, uma
seleção natural e os poetas, sejam
eles novos ou já reconhecidos, foram
e continuam sendo naturalmente
peneirados. Agora não mais pelos
cânones e pela crítica fardada. Quem
começa a dar as cartas é, também,
esse mau poeta que, muitas vezes,
acaba sendo um bom leitor.
Podemos observar com certa clareza
que existe um fato novo na poesia
contemporânea que precisa ser
analisado com maior profundidade. Os
poetas que foram surgindo, muito
especialmente após o início do
século XXI, são poetas que também
são leitores da poesia que circula
na rede. Isso gerou algo
extraordinário, pois aniquilou as
“verdades absolutas”. Ser louvado
publicamente por A ou B possuía um
valor inestimável que hoje já começa
a gerar profundas dúvidas. Não que
isso tenha aniquilado a crítica.
Muito pelo contrário. Agora basta
ter um blog para que o exercício da
crítica possa receber as atenções
devidas. Ou seja, em tempos de
capitalismo selvagem, aumentou a
concorrência e só se estabelece quem
tem competência. Até mesmo a
pseudo-crítica peçonhenta ganha a
oportunidade de trocar de pele, de
se renovar.
Poetas que nunca publicaram um livro
impresso ou mesmo os que somente
conseguiam publicar edições com
distribuição regional, passaram a
disputar palmo a palmo os espaços e
as atenções dos críticos e leitores
do país e do mundo. Uma disputa que
os coloca em pé de igualdade com
nomes que vinham sendo incensados de
forma pouco justificada pela mídia
burguesa. Tanta vez pagando caro
para ter livros distribuídos
nacionalmente (com pouca
racionalidade) pelas grandes redes
de distribuição.
Agora as coisas estão em maior ou
menor escala, no mesmo ponto de
partida. Passamos a perceber o
surgimento de poetas que são, na
verdade, leitores e leitoras da
produção poética de ilustres
desconhecidos que abundam na rede.
Com alguma qualidade alguns, com
muita qualidade uns poucos e uma
grande maioria com pouca qualidade.
Ainda valem, logicamente, as
indicações dos grandes mestres. Essa
nova lógica não exclui a tradição.
No entanto, naturalmente, cada um de
nós foi tecendo as próprias leituras
e com elas infringindo todos os
códigos do comodismo pálido de uma
cultura acadêmica dominante. Tudo
precisou ser novamente observado,
analisado, pesquisado e, finalmente
digerido por todos. É claro que isso
não determina o fim da cultura
acadêmica, mas certamente que a
coloca na obrigatoriedade de
refletir sobre ela mesma.
No ensaio “Poesia nova – uma épica
do instante”, em “O poeta e a
consciência crítica” (Editora
Perspectiva-SP, 2008), Affonso Ávila
escreve um pouco sobre tudo isso.
Segundo ele, “a situação atual da
poesia no Brasil reflete, entre
afirmações criadoras e perplexidades
críticas, a mudança radical de
concepção do fato poético que, nos
últimos dez anos, se operou em nosso
país. Essa transformação,
intimamente vinculada à modificação
mais abrangente das estruturas de
conscientização de nosso povo, não
se restringiu a um fenômeno de
linguagem como parecerá à primeira
vista. Suas implicações são mais
profundas e traduzem
simultaneamente, uma nova atitude do
poeta diante da realidade que
suscita o ato criando e a adequação
do seu instrumento ao imperativo das
modernas técnicas de comunicação”.
Além de ser uma das mais
representativas expressões da arte
de vanguarda no Brasil, Affonso
Ávila nos remete a reflexões que
certamente deverão retorcer os
ferros da crítica tradicional, mesmo
aquela que usa a internet não como
um poderoso instrumento interativo,
mas como mais um veículo para
difusão de uma tendência da
“política literária”. Todavia,
lamentavelmente, abrindo mão de
receber a imensa carga de
informações da novíssima produção
poética e crítica que aflora também
a partir das universidades, embora
extrapolando limites geográficos e
metodológicos.
A nova poesia, portanto, passou a
contar não apenas com a sua natural
evolução a partir da perda total do
controle das informações pelos “babalorixás”,
mas também com a análise lúcida de
pensadores e teóricos da poesia que,
na verdade, sempre estiveram
mergulhados para muito além do nosso
tempo. Como Affonso Ávila, Amador
Ribeiro Neto, Anelito de Oliveira e
outros poucos que sabem que a poesia
não sobreviveria se todos os olhares
estivessem fixados no passado. Aqui
na Paraíba, por exemplo, existem
“doutores” que se negam a reconhecer
inclusive a produção literária do
século XX. Isso me faz ter dúvidas
acerca do mau cheiro exalado pelos
banheiros do CCHLA. Seriam
necrotérios?
Infelizmente, boa parte dos
estudiosos da poesia não passa de
funcionários públicos preguiçosos
que não ousam sequer realizar uma
única leitura conseqüente da
evolução da linguagem poética. Para
eles, a cena atual não existe.
Triste dos que pensam assim.
Morreram para um mundo que os torna
naturalmente desnecessários. O que
se conclui é que a nova poesia é
leitora dela própria. Pratica
naturalmente a antropofagia
oswaldiana que designou os destinos
de um modernismo que não estancou na
semana de 22. A nova poesia foi
beber nos mestres, certamente. Mas,
não cometeu o suicídio de
desconhecer o surgimento de novos
horizontes a partir das janelas
abertas pelo futurismo deflagrado no
final do século XIX, pelas
vanguardas. O caminho é continuar
experimentando, arriscando, buscando
compreender o presente. Traduzindo
de forma mais apurada as idéias de
José Paulo Paes: “somente não
envelhece o que já nasceu velho.”