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Mestiços da Casa Velha

 

           Ao se debruçar sobre Mestiços da Casa Velha – quarto livro de Lucius de Mello – o leitor vai entrar nessa história como se tivesse desvendando, a cada página, a cada capítulo, os  mistérios de uma casa de muitas portas e janelas, muitas paredes e varandas, muitos fantasmas e espelhos... Um labirinto feito de pedra e óleo de baleia, típica construção do século dezenove. O leitor vai se sentir hóspede desse casarão que existe até hoje na prainha da Fazenda Boa Vista, ao lado da marina de Paraty, no litoral fluminense e onde Júlia Mann, mãe do Prêmio Nobel de Literatura -  Thomas Mann - passou parte da infância. 

          Buracos de fechadura marcam as passagens de tempo do romance que, logo no início, convida o leitor para participar de um jogo entre a nossa essência humana, no livro designada de “semente”, a loucura e a morte.

         Um dos principais personagens do livro é o ex-juiz Antônio Joaquim. Ele compra o casarão de Paraty porque acredita que o imóvel pode ser um veículo para levá-lo até a mente de Mann. Antônio é obcecado pela obra manniana e quer desvendar o diabólico que existe nela. Para dialogar com o diabo literário de Mann, o ex-juiz, que deixou a magistratura porque virou um escritor famoso, compra a casa velha e decide passar uma temporada dentro dela, escrevendo o próximo livro.

          Para passar essa temporada com ele em Paraty, Antônio convida o belo Gustavo Zauber, um jovem professor de história que tem uma relação misteriosa com o ex-juiz. Aos poucos, o leitor vai se surpreender com o que de fato uniu os dois no passado.

          Outros personagens também entram na trama. Bentinho, jovem negro professor de literatura, praticamente adotado por Lili, uma educadora francesa que mora em Paraty; Ondina, namorada de Bentinho, uma pescadora hermafrodita, neta de um dono de sebo em Veneza e que herda do avô uma arca de livros raros; Felizângelo, um matador de aluguel analfabeto, viciado em pirulitos coloridos e que se regenera quando aprende a ler e a contar histórias; Ramona, uma beata trambiqueira; Rei Leão, um traficante; Maria Tartaruga, velha pescadora, avó de Ondina; Marco Veronese, ex-gondoleiro, pai de Ondina, que passa a vida escrevendo cartas de amor para a falecida mulher. Há também o Mar, a Casa Velha, o gato Esmeraldo, que também são personagens importantes desse mundo subjetivo criado por Lucius de Mello. 

         As vidas dessas personagens vão se misturando e se revelando a cada página e o leitor vai ser convocado a desvendar o mistério que as une pelo próprio narrador. O romance propõe um diálogo, um encontro ou até mesmo um duelo entre a obra de Machado de Assis e a obra de Thomas Mann. Lucius mistura a ironia Machadiana com a densidade germânica de Thomas Mann.  Em muitos momentos do livro, Bentinho e Ondina nos remetem ao casal Bentinho e Capitu, de “Dom Casmurro”; e Gustavo Zauber e o Antônio Joaquim, aos personagens Tadzio e Gustave Aschembach de “A Morte em Veneza”, entre outros personagens mannianos.  O neo-Bentinho de Lucius de Mello foi inspirado em um jovem negro professor de literatura, que ele conheceu em um bar na cidade de Paraty durante a FLIP – Festa Literária Internacional de Paraty de 2004.

         Uma das chaves para abrir e desvendar o mistério de “Mestiços da Casa Velha” é descobrir qual dos personagens do romance está de fato contando essa história. Há um escritor para o livro que existe dentro do livro de Lucius de Mello. Há pelo menos cinco suspeitos que podem ter transformado a própria história neste livro. E o narrador convoca o leitor a responder a pergunta: Quem me escreve?

               O autor nos dá a sensação de que observamos esta magnífica história pelo olho da fechadura da Casa Velha. Casa que é a metáfora da própria cabeça do leitor... Cada um de nós é, ou pode vir a ser, uma Casa Velha. Na vida, podemos dar o destino que quisermos às nossas paredes, portas e janelas; aos nossos vazios, aos nossos cômodos ocupados ou desocupados demais... Também podemos reformá-la ou reconstruí-la, porque não?  Esse livro é a combinação conspiratória entre a verossimilhança do sonho como caminho e a realidade como vertiginoso processo de encantamento.

            Desvende os mistérios de Mestiços da Casa Velha! É só abrir o livro e entrar!

 

 

 

 

Resumo carreira -  Lucius de Mello

 

Lucius de Mello é escritor, roteirista, jornalista e pesquisador do LEER – Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação da Universidade de São Paulo. Finalista do Prêmio Jabuti 2OO3 na categoria melhor reportagem/biografia com o livro “Eny e o Grande Bordel Brasileiro – ed. Objetiva.

Também publicou pela Ed. Novo Século “A Travessia da Terra Vermelha” – Um Saga dos Refugiados Judeus no Brasil.

Atualmente trabalha como roteirista do Programa Hoje em Dia, na TV Record em São Paulo.