Meiotom - resenhas

Fábio Oliveira Nunes

 

 

Do prazer de folhear ao prazer de inventar

 

 

Partindo da proposta de escrever sobre o quarto número da revista digital Mnemozine, (disponível em http://www.cronopios.com.br/mnemozine) além de destacar toda a contribuição que esta publicação tem tido ao exercício de compreender grandes poetas (respectivamente Paulo Leminski, Pedro Xisto, Alice Ruiz e, agora, Augusto de Campos) em profundidade, sinto-me na obrigação de começar pela sui generis navegação que esta publicação proporciona em seus números. Essa impressão primeira é a de que ela consegue driblar o percurso insípido que existe entre scrolls e botões com setinhas para lá ou para cá em grande parte dos sites da rede Internet que levam grande quantidade de textos. Em uma revista de papel, não há como negar seu prazer tátil. Nas mãos, podemos conduzir o olhar sobrepondo páginas para lá ou para cá – desfolhar rapidamente observando somente as figurinhas ou conduzir uma leitura mais detalhada.

 

Na interface sob a direção de arte de Pipol (responsável também pelo refino gráfico do site Cronópios), temos esse caráter tátil tão difícil de ser alcançado, através das páginas que estão dispostas a serem conduzidas pelo mouse como uma metáfora do suporte papel. Pipol já conduz seu leitor neste sentido desde seu trabalho Brinquedo de Palavras (hoje disponível como Pocket Book no site Cronópios). Muito mais do que uma simples imitação, há uma interessante tradução, especialmente neste quarto número de Mnemozine, com a adição de inúmeros mecanismos que ultrapassam aquilo que uma revista de papel poderia nos proporcionar: além de algumas ferramentas, surpreendendo-nos com poemas animados, rádio e vídeos embutidos naquelas finas folhas.

 

Bem, ao que se diz respeito a Augusto de Campos, nada mais coerente do que configurar como âmago neste exemplar que extrapola os limites das linguagens.  Augusto é uma das vértebras da poesia concreta brasileira, junto com Décio Pignatari e seu irmão Haroldo, realizando as históricas revistas Noigandres e Invenção e desde muito jovem já realizava uma metalinguagem rica – difícil de ser alcançada por quem se desdobra no exercício do pensar e do fazer. Suas produções, como Luxo, de 1965, estão disponíveis até em livros didáticos como parte viva de um dos momentos mais inventivos, em patamar raro na poesia brasileira recente.  Além disso, posicionou-se em torno da idéia da tradução da poesia enquanto um exercício de criação, tendo traduzido Mallarmé, Dante, Cummings, Donne, Maiakóvski, Rimbaud e tantos outros. Bem como, realizou obras que tiveram fundamental importância para as artes gráficas e suas relações com a poesia no Brasil como Poemóbiles, Caixa Preta e ReDuchamp, produzidas conjuntamente com o artista e teórico Julio Plaza, que por sua vez, é referência na questão da tradução intersemiótica – fundamental para se pensar como faturas poéticas podem migrar entre meios.

 

Então, Mnemozine 4 – como bem anuncia seu editorial – já está promovida a ser referência para tempos futuros, como um amplo dossiê das produções e das influências deste poeta-inventor. Algo que realmente não nos deve sair da memória. Há um mérito fundamental, como bem pontua o depoimento de Frederico Barbosa (entre outros vários muito esclarecedores): é algo pouco comum entre nós, brasileiros, a reverência a aqueles que estão entre nós. E o mérito dos editores Marcelo Tápia e Edson Cruz não se limita a esta iniciativa: também é possível observar que a escolha pela concisão e o tratamento da linguagem está presente nos colaboradores de alto nível como André Vallias – dono de uma produção muitíssimo cerebral – e como Glauco Mattoso – com sua homenagem poeticonográfica.

 

Se a revista pudesse ter um adendo futuro – caráter mutante permitido aos artefatos do ciberespaço – creio que outros grandes momentos de sua produção como o já citado Luxo (1965), além de Viva Vaia (1972) e Poema-bomba (1987) seriam muito bem vindos, bem como os trabalhos mais recentes em que as experimentações na tecnologia são muito evidentes.  Impressionante ver a lucidez de Augusto em trabalhos realizados com os softwares de animação. Aliás, cabe aqui um depoimento pessoal: tão grande foi minha surpresa quando em 2002, organizando junto com Omar Khouri a revista digital Artéria 8, recebi o seu poema em arquivo devidamente formatado para estar on-line! Algo raro mesmo entre os participantes mais jovens. Bem, em Mnemozine, é evidente a opção dos editores em uma parcela mais reconhecida da produção de nosso poeta-inventor – o que para nós já é um deleite sem precedentes.

 

 

 

Fábio Oliveira Nunes (ou Fabio FON) É doutor em artes na ECA-USP, pesquisando sobre a arte em novos meios. É também mestre em multimeios na UNICAMP e bacharel em artes plásticas na UNESP. Atua como artista multimídia e webdesigner. É autor de Web Arte no Brasil (http://www.fabiofon.com/webartenobrasil) e co-organizador do site Artéria 8 (http://www.arteria8.net). Site pessoal: http://www.fabiofon.com .
E-mail: fabiofon@hotmail.com .