| Meiotom - resenhas |
|
|
o |
Pequena Resenha
Critica
"Invenção de
Onira", o Belo Romance de
Sant´Ana
Pereira
Por Silas Correa
Leite *
"Sertão. O senhor sabe: sertão onde manda
quem é forte, com as astúcias..."
Guimarães Rosa, in Grande Sertão, Veredas
Um livro de peso,
é a primeira impressão que fica após a leitura da obra "Invenção de
Onira", de
Sant´Ana Pereira (Ed.
LetraSelvagem, 2009, Taubaté-SP), romance de 272 páginas. Denso, de
tirar o fôlego: a busca de um Eldorado tropical em terra
brasilis, aqui muito bem
nominada Cabânia.
Embarcações em aventuras ribeirinhas, com alusões a uma Arca de Noé,
só que levando ricos e pobres, miseráveis e expropriados, loucos e
leprosos (todos os "modelos" da espécie humana), para um paraíso
aqui mesmo na terra; dentro de uma onírica visão de região que emana
leite e mel (e pássaros, rios, relevos, encantamentos). O homem
contra si mesmo, mais os interesses dos podres poderes por trás, com
os silvícolas sem teto, sem terra, sem amor.
E os personagens
principais conduzindo a obra. Vinagre (temperando o sonho?), Lavor
(trabalhando a idéia-terra-lugar-espaço, lavorando-a), o virgem e
casto Pilin, um cristão sonhador que
fugiu da igreja para conhecer a vida real dos fracos e oprimidos, e
Suzel, a guerrilheira das palavras e
atos, mais a sedução pelo sonho, pelo amor, por um mundo melhor,
feito uma Shangri-lá aqui mesmo. O livro
é tão bom que é como se já tivéssemos ouvido essa história antes, de
alguma maneira, de algum ancestral, aqui detalhada com personagens,
tipificações, detalhes, especificidades que qualificam a obra, ainda
mais que contada com maestria, entre um certo
neorrealismo e pitadas a capricho de fantástico, entre
linguagens náuticas, conhecimento de rios e portos, remos e rumos,
corações e sentenças.
Um desdobramento de
cenas fílmicas, de linguagens regionais,
de lugares, dizeres; entre as contações
com as caras da caboclada com sua orquestra de tons, citações,
palavras e entendimentos de Deus, do mundo e do outro mundo.
Política maquiavélica, folclore na medida, meditações sobre o
pântano da condição humana. Uma procissão de lazarentos, mais a
desejada lei da nova terra fundada na não-violência (Gandhi) que
mesmo assim acaba ocorrendo por motivos torpes (posses, domínio,
usurpações, injustiças sociais, vinganças), até numa citação do
Evangelho de amar ao próximo, tudo feita sob medida dentro das
proporções do historial, como assim, mal
comparando, uma ideia de um
socialismo-moreno tropical de resultados, como pregava o maior
patriota do Brasil, Leonel Brizola.
Histórias orais
revisitadas, o sentimento do mundo. O
leitor sentindo na carne (conhecendo na carne) um outro Brasil; um
Brasil rural com suas contundências, desde o pano de fundo da
Cabanagem (Revolução Cabana, 1835/1841), também aqui e ali o
vislumbre da paleta de uma prosa poética bem colocada nas
narrativas. Um livro que daria uma bela mini-série. Contundente e
perfeitamente escrito, "A Invenção de Onira"
é um documento literário de um Brasil que já vai longe com seus
contrastes socais, lucros injustos,
propriedades-roubos, e as chamadas
riquezas impunes como pregou São Lucas. Tudo continua como antes,
agora nas urbanidades; tantas são as ruas de amarguras dos excluídos
sociais.
Sem ser
panfletário, mas literalmente colocando o dedo nas feridas, o autor
parte de um núcleo narrativo para outro, com outro novo enfoque
concorrente, outra janela de contar, de um personagem a outro,
levando a história bem estruturada para deleite do leitor. Juan José
Sar dizia "Cada romance tem de ser um objeto único. O enredo ordena
a sua forma. A estrutura do relato segue a intensidade da narração."
Sant’Ana escreveu uma obra brilhante nesse sentido, um
clássico, por assim dizer.
O autor Sant’Ana
Pereira, neto de índia colombiana, nasceu em Santarém do Pará, é
radicado em Belém, já tendo publicados
quatro outros livros, sendo que o próprio "Invenção de
Onira" saiu numa outra primeira edição
em 1988 (Ed. Cejup, Belém, PA), e,
passando-se vinte anos, a obra ainda continua contagiante e atual,
perfeitamente condizente com as vicissitudes das questões agrárias e
de latifúndios improdutivos desses tantos brasis de uma
historicidade inumana para a grande maioria da população,
principalmente os bóias-frias, favelados, negros, índios, pobres,
mamelucos, mestiços, os moradores de rua, porque ainda lhes restam a
rua. O mundo real, o mundo do sonho. A dura realidade e as
sequelas da colonização européia
(invasão do Brasil, não descobrimento), passando por certos enfoques
dos ameríndios que se misturam aos afrobrasilis,
tudo perfeitamente enquadrado naquilo que Caetano Veloso bem chamou
(in Sampa), de uma “sulamérica
de áfricas utópicas”, no livro ainda migrações, embustes, traições,
o próprio uso do povo como bucha de canhão. Não foi por acaso que
Carlos Drummond de Andrade sabiamente escreveu que toda história é
remorso.
Conflitos e
exasperações de conflitos, quando o homem agente
alterador da natureza (na maioria das
vezes para pior), humanizando o território, além de demarcando-o
culturalmente, também enfrentando interesses escusos de terceiros,
poderosos, feito algumas veredas dos grandes sertões e seus cafundós
que remontam a Guerra dos Canudos com seus farrapos.
Gente, humana gente
correndo atrás de utopias para dar uma chama à vida pobre, rotina
amarga, sem perspectiva para o futuro, terminantemente triste. A
história do Brasil com seus tantos heróis anônimos, captados pela
ótica criativa do autor. Raimundo Faoro dizia: “Acho que a história
do Brasil é um romance sem heróis”.
Na verdade, sendo o
escritor “antena de sua época” (Rimbaud),
devendo dar testemunho de seu tempo, Sant’Ana Pereira recuperou
heróis anônimos; retratou Onira feito um
achado sócio-cultural, um paraíso-lugar que se fixa na mente do
leitor, como a própria “Via de Meditação” que dá ao romance um
significado cheio de iluminura, de esperança, muito além da
perversidade dos poderosos insensíveis para com os excluídos
sociais.
O
gran
finale do livro é de uma
boniteza triste. Mas que mantém a chama acesa de um mundo melhor, em
algum lugar do futuro, talvez, um Brasil melhor, mais justo, com
inclusão social, e democracia social de paz para os sem-terra de boa
vontade que almejam uma "Onira" como
pagamento de uma dívida social histórica, muito além do campo do
sonho, muito além da dura realidade dos descamisados todos, de todas
as épocas, com seus tantos grilhões e amarguras.
*Silas Correa Leite
é escritor, professor e jornalista.
E-mail: poesilas@terra.com.br
Site: www.itarare.com.br/silas,htm
Blogue:
www.portas-lapsos.zip.net
BOX:
Livro: Invenção de
Onira, Romance
Autor Sant’Ana
Pereira
Editora Letra
Selvagem
www.letraselvagen.com.br
E-mail: letraselvagem@letraselvagem.com.br