Meiotom - resenhas


 

o jairo pereira

                     

Pele & Osso

Ou da Carnadura das Palavras

 

A poesia de Neuza Pinheiro no seu primeiro livro impresso, individual, como eu previa, alumbra a paisagem da lírica brasileira. Edição Fundação Cultural de João Pessoa – FONJOPE, 95 pgs. Prêmio Nacional de Literatura Lúcio Lins 2008. São muitas as Neuzas que se revelam, fortes, em pele e osso e na carnadura das palavras. Essa poeta, mulher, densa e resolvida, no seu psiquismo, pede “bis” à vida, como ela mesma expressou numa correspondência ao ora aventureiro a crítico. Gosto, regosto do seu estilo não-estilo. Conhecimento da palavra/poema repetida, principalmente nos primeiros poemas do livro. Não há desperdício de imagens. A palavra vem seca, pele & osso no mundo do sensível. Imagino os poemas do livro levados ao teatro, em performances alucinadas, com muito movimento de luzes, ação. Eu diria, dentre outros, este: “nessa lágrima pesarosa/composto de metais em solução aquosa/me veio a visão repentina/de ser massa entre os blocos/da Muralha da China”. A poesia espiritual, material, cotidiana e espectral de Neuza Pinheiro, é lux do pensamento acelerado. A mulher trabalhadora, madura, de visão crítica, inserida no social que aniquila e mata o ser criador, rebate com as catanas do talento as sombras. “me pisam nemas ninféias/luas danosas gementes/floemazuis viscerantes/deformidades maléias”. Uma poeta que amalgama coisas, sensações, fluxos verbais, imagens espectrais, silêncios e cogitações, só pode mesmo haurir a melhor poesia. Numa época em que poetas perseguem conceitos, fórmulas de se dar bem na escritura, em sendo sempre o outro, a poeta de Pele & Osso, revela-se visceral, abrindo-se na carne das palavras e no mais profundo do seu ser. Pele & Osso. Transcende a artista, o rigor vital de seu dizer, e a angústia que perpassa versos e versos, soa monocórdio alerta de um ser em crise. Um ser que somos, todos. Não há saída para o irreversível. O que não tem remédio, solução. Esse grito da alma a que Neuza Pinheiro expande no universo, vibra em dor. Queria e faço isso, digredir além dos ossos, pele e carnadura das palavras. A mônada que sustenta a poesia de Neuza Pinheiro, traz sim a angústia dos séculos. A mulher, nua, prolífera de sonhos, ilusões, rescaldos de sofrer, amar, projetar, frente ao real que agride e conspurca contra o intelecto. Vontade de amá-la sempre. Um ser cálido, transmitindo calor e segurança ao outro que pouco conhecemos. Que bom pudesse... Auto-conhecimento e poesia. Auto-conhecimento e viver. Auto-conhecimento e re-conhecer-se em meio a objetalidade presente. A poeta não perde o discurso pele & osso, vetor da sua realidade compósita de sofrer, amar, criar. Uma fuga o criar, sem precedentes. O criar que sublima e enleva o criador. Vivemos a era dos sem-leitura, do pensamento dispersivo, que revisita relâmpago, links, blogues, sites, objetos espectrais, conceitualmente distantes do livro e seu convite ao raciocínio lesto. “o poema não disse a que vinha/trouxe em gris em grous a vinha/rascou seu rastro de prata/da lua até a cozinha”. Não sei se é pelo conhecer de Neuza que detenho, em senti-la no tudo que nos comunicamos, que me marcam seus poemas e sua vida. A primeira vez que li/senti poemas seus foi na Revista Coyote, e já me sinalizaram a grande poeta/mulher, complexa na pegada, batalhadora da palavra bela, pele e osso, sangue e carne. Re-gosto do poeta autêntico que dá a cara pra bater, explora sua aura suja e nada espera em retorno. É suja de “psíquico” a poesia de Neuza. Suja e malcheirosa às vezes. Como a fêmea animal que lambe a cria, ainda túmida do sangue do nascer, a poeta perpassa emoções, sentimentos em auto-análise, ou auto-crítica: “sou uma mulher/sem cão/sem gato/sem pássaro/já levei à morte um mini-cacto/agora me seca a samambaia”. Há humor, como chuva ácida nessa poesia. Humor, angustiado, que não consegue e nem pretende, apagar a dor hospedeira dos poemas. Dolorida, a poeta pede “bis” à vida. Re-gosto, sua verve de pan-conhecimento. Os saltos no escuro. O pensamento ágil, lêmpto, na composição do poema. Taí uma poeta brasileira de encher os olhos de lágrimas. Uma poeta de rigozijo, em descobri-la autêntica, nathural, nathuralíssima no dizer. Meu olhar crítico e a lâmina do ver, desver, transver, não me habilita a grande coisa, ainda mais, quando esmorecemos ante a indiferença no poético. A era da corrosão do pensamento. O superimpulso de gerações, na velocidade do pecado. Ah. Phoda-se a indiferença das multidões! Teocrática verdade. A poesia de Neuza Pinheiro, finca raízes no céu da lira entusiasmada, na época do sem-entusiasmo. “sob uma perspectiva de náusea/diante da beleza/escolho a lesma/que a um punhado de sal/se desagrega/e aprisionada ao ser não ser/orvalho ou pérola/deixa de si mesma o longo leia-se/só alma/em rastro acesa”. A mulher nua que eu vejo, re-vejo, poeta e criadora dá prazer em expô-la aos ímpios. Faço isso. Os sentidos, revelam ausência, pesarosa presença, desfaçatez, indiferença, preâmbulos de escuridão e asco. Os sentidos do outro, com relação à poesia, é pouco mais que nada. Mas os poetas prosseguem em sua sina de descortinar o desconhecido, ou o conhecido des-sentido. Na palavra de Neuza pele, osso, carne de palavras duras, aflitivas até, reveladoras do “eu profundo” o “eu” encasulado no próprio “eu”. Pra arremate de meu parco dizer sobre a poeta, não poderia deixar de arremessar mais este: “estava lá/trêmula de tão nua/e não havia pressa na voragem dos/tempos. A noite era só uma/e eu me encontrava nesse estado líquido de/coisas”.

 

 

jAiRo pEreIrA

Autor de O abduzido e outros.

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