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Estou
pensando em cancelar a TV a cabo. Motivo: pelo que pago,
comprei 7 DVDs, o que me dá uma vantagem enorme sobre a
programação que se repete um milhão de vezes. Além de ter
meu acervo acrescentado de diretores e filmes. Wim Wenders a
$ 14,90...
Primeira
sessão: Um Filme para NICK.
O que
acontece quando dois diretores, um em crise criativa, o
outro às voltas com a morte, encontram-se para discutir um
possível projeto. Como transformar a crise criativa ou
vivencial em metalinguagem cinematográfica? Metaforizar os
momentos que antecedem a morte em arte, não em documentário,
mas em ficção, também não ficção, mas documentário. Fazer o
impossível, poderíamos afirmar. Não para Wim Wenders e
Nicholas Ray. Bergman recorreu à PESTE para, em O Sétimo
Selo, nos falar sobre o sentido da vida, recorrendo à
alegoria do preto e branco. Wenders e Nick não precisaram ir
tão longe, nem criar um personagem que fosse procurar a cura
de uma doença terminal em um país distante, no caso a China,
como pensava Nick. Não! A perda e a degradação provocada
pela morte estão ali, diante dos dois amigos, em Nova
Iorque, onde a crise diante da morte está relacionada com a
crise da imagem, dos signos que carregaram o cinema até
aquele momento. Falamos do início dos oitenta. Não só a
alegoria do branco e preto, mas também dos limites
possíveis às imagens e às cores, como se falar da morte
individual nos levasse a refletir sobre a morte do coletivo,
como se a morte de Nick fosse a morte de Wenders, e a morte
dos dois a possibilidade de um novo sinal. Mas seria ético
registrar a degradação do amigo? Não seria, fosse apenas um
documentário, mas o resultado vai muito além da morte de
Nick, ou do papel de Wenders como diretor, deles nascem
novas possibilidades ao cinema. Que venha a morte! Vamos
toureá-la como se o manto fosse o vento transformado em seda
e a arma, o nada forjado em espada. O touro, é esse vazio
existencial, território a ser explorado. Morrer pode trazer
a imagem de raios sobre as águas, mas também um cantar sobre
a chuva, pode atiçar a curiosidade, a imaginação e a
humildade, e também ser festejado. Pode ser a possibilidade
de resgatar a auto-estima através do ato criativo.
O retorno à
casa, ao subsolo, à arma enquanto projétil, é o retorno ao
passado, mas não o passado revisitado em imagens, mas aquele
que antecede a vida, ou seja, a própria morte. E o fim é o
amigo transformado em pó. Ao redor de um vaso com ideogramas
- haveria algo mais estranhos a nós ocidentais e que nos
aproxima de algo estranho e distante que essas inscrições?
-, máquinas cinematográficas e pedaços de películas ao
vento, a ritualização do momento pelos amigos reunidos no
interior de um barco festejando a morte-vida, refletindo se
não seria melhor incendiarem tudo, transformando tudo em
nada sobre as águas, no que capta o olhar da companheira de
NICK ao mirar a angústia da perda à procura do canto das
sereias, nada mais que o compartilhamento com o vazio, como
se pensasse: até... nos encontraremos em algum lugar desse
passado perdido.
Mas a
realidade chama-os de volta, não teriam eles o direito de
queimar algo que não lhes pertence, nem no sentido privado,
nem no sentido existencial...
Depois de
Um filme para Nick não há que se discutir os
limites entre ficção e realidade, mas que existe um
território habitado por poucos onde é possível tocar
profundamente o Ser através das sutilezas dos códigos e dos
símbolos, muito mais que pela simples apresentação da
banalização da morte, acho que isso nos ensina
WINWENDERSNICK.
CARLOS PESSOA
ROSA |