|
Cristina Carriconde/Divulgação
|
 |
Rodrigo de Souza Leão
deixou obra múltipla,
marcada pela ousadia em
buscar a radicalidade da
existência |
Quando o carioca Rodrigo de
Souza Leão partiu, rompendo os
limites desta vida (ir)real e
natural, deixou para trás um
vasto legado em jornalismo
cultural, poesias, contos,
prosas, músicas, pinturas e
entrevistas em mais de décadas
de atividades incessantes de
pura criatividade. Todos os
cachorros são azuis é um exemplo
fantástico.
O trabalho realizado pelo autor,
exaltado – pela crítica e
literatos – por uma vocação e
extraordinária capacidade
vibrante de unir pessoas e
personagens, tornou-se
referência para aqueles que
entravam em cena no mundo da
internet. Nas tessituras da
rede, desenvolveu momentos
instigantes de sua carreira.
Marcou presença em portais,
sites, blogs, DVDs, plaquetes e
consolidou o seu espírito
irrequieto, torcido e
libertário, adotando um caminho
sem volta. Não se enquadrou em
panelinhas. Nunca fez questão de
atitudes de barganha. Nem
precisou de tais expedientes.
Sempre foi ele mesmo. O seu
engajamento, ora coletivo, ora
pessoal, aos olhos mais atentos,
além do mais, manteve-se
pungente no centro das
manifestações culturais que
agitaram o ambiente brasileiro
nos últimos tempos.
Neste momento, passado mais de
ano da sua morte, o mundo
assiste cada vez mais à
convergência do real e virtual
composto pela tênue cortina
entre um ritmo duvidoso de
produção com certo brilho e
talento, sob a batuta do
teclado, mouse, monitor, webcam
e verbos escassos. Todavia, a
questão do ritmo – aspecto
pessoal – é o elemento
diferenciador. Enquanto alguns
são monopolares, outros
bipolares, o flamenguista da
Lagoa Rodrigo de Freitas
preservou em seus escritos
aquilo que alguns chamam de
tripolar. Uma dimensão estética
estonteante, que detona todas as
fronteiras da imaginação. Eis a
sua marca, tripolar: a
literatura como fruto da
revolta. Que despenca de uma
enorme e verdejante árvore,
fazendo o galo cantar na cabeça
dos leitores. Seja pelo espanto
extrapolar ou a polifonia
encarnada na dimensão e
imensidão ao longo das páginas.
A ficção sui generis de Me
roubaram uns dias contados, de
Rodrigo de Souza Leão,
classificada como romance,
reunião de narrativas diversas
(quatro livros num só), com
trechos pendendo para um diário
(que lembra um blog), é um dos
melhores lançamentos de 2010.
São diálogos internos (várias
vozes) sobre a necessidade e
exigência da cultura-revolta e
da estética como revolta contra
a sociedade do espetáculo, que
enraíza cada vez mais um número
medonho de experiências
mediadoras estagnadas e míopes
sobre o ser, o outro e a própria
literatura.
(Imagem Centralizada) =>
Capa do livro Me roubaram uns
dias contados
A pintura A morte do saci – capa
do exemplar, autoria do próprio
escritor, que em última análise
remete aos diálogos artísticos
com o grupo CoBrA de Karel
Appel, Corneille van Beverloo e
Cia., das décadas de 1940/50 –
rouba a cena e contagia o todo
das narrativas fragmentadas e
cortantes. A qualquer momento,
ele (o saci) pode detonar o
Trilite. Trinitrotolueno (TNT)
num céu de brigadeiro. Artefato
sensível a qualquer movimentação
e trânsito incessante no elenco
de personagens contaminadas,
prima em primeiro grau da
nitroglicerina. Dinamite pura.
De coloração vermelha amarelada,
quando explodida respingam
nuvens inflamadas despontando
transparências nas quais alguns
erros são acertos.
Texto e
vida
No texto de apresentação,
Leonardo Gandolfi faz a menção
necessária e inteligente: “Por
ter sido sempre descontínuo o
espaço entre dentro e fora do
texto, foi radical a sua
dedicação, radicalidade que lhe
custou caro. Não quero dizer que
ele tenha optado romanticamente
por uma mistura entre texto e
vida. Não, não foi isso.
Primeiro, porque não houve
opção. Segundo, porque não há
como misturar o que nunca antes
existiu separado. Ou seja, o que
chamamos de literatura para ele
foi uma tática, um modus vivendi.
Quanto a isso, nunca se enganou
nem foi enganado. Ao contrário,
em seus livros há uma clareza
muitas vezes assombrosa – daí
estarmos o tempo todo, em Me
roubaram uns dias contados,
diante de um mundo intuitivo,
quase inocente, mas ao mesmo
tempo muito crítico em relação a
seus próprios mecanismos”.
Na paternidade e cerne do lugar
da verdade, convenhamos: ambição
e superação estão no próprio ser
e o evento. Curto-circuito
fundador da identidade, autoria,
narratividade, linguagem e
pensamento. Aliás, as
articulações dos desejos
entronados – pelo bizarro, o
excêntrico, o estranho, o
fabuloso – pelo autor pontuam a
ficção criativa e meio de
resistência às tentações do
destino. Observa-se a revolta de
Rimbaud e o melhor, relembra
Mallarmé: “Todo pensamento emite
um lance de dados”. Vincula a
experiência do ser em relação ao
tempo/espaço, expõe os riscos,
traços, palavras, tópicos
frasais e seminais do acaso
mental/emocional numa linguagem
flexível, circulante entre o
poético e a prosa delirante.
Me roubaram uns dias contados é
a dignidade que sistematiza o
viés e confrontações, são
invenções, conjugando várias
personagens de livros dentro de
outros – obras em rotações
expansivas. “Um belo mergulho na
condição humana, em especial, na
dura tarefa de existir de um
escritor, que convive não só com
seus fantasmas, mas também com
seus remédios”, como observa
Ramon Mello. Neste sentido, as
palavras do curador são
indispensáveis para aqueles que
queiram conhecer um pouco mais o
universo mágico de Rodrigo de
Souza Leão. Ainda há tempo, pois
a metamorfose ambulante supera
limites e aponta caminhos para
nós, pobres mortais, alguma luz
que pisca sem cessar no fim do
túnel.
P.S.: O ator Cauã Reymond, que
já atuou em nove longas, vai
produzir seu primeiro filme.
Acaba de comprar os direitos
autorais para o cinema dos
livros Todos os cachorros são
azuis e Me roubaram uns dias
contados.
* José Aloise Bahia é
jornalista, escritor e crítico
de artes plásticas e literatura.
Autor de Pavios curtos (Belo
Horizonte: Anomelivros, 2004).
Todos os cachorros são
azuis
De Rodrigo de Souza Leão
Editora 7 Letras, 80 páginas, R$
29
Me roubaram uns dias
contados
De Rodrigo de Souza Leão
Editora Record, 336 páginas, R$
47,90
|