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Fruto da revolta
Lançamento do livro Me roubaram uns dias contados reafirma a importância estética e intelectual de Rodrigo de Souza Leão
José Aloise Bahia
 
Cristina Carriconde/Divulgação
Rodrigo de Souza Leão deixou obra múltipla, marcada pela ousadia em buscar a radicalidade da existência

Quando o carioca Rodrigo de Souza Leão partiu, rompendo os limites desta vida (ir)real e natural, deixou para trás um vasto legado em jornalismo cultural, poesias, contos, prosas, músicas, pinturas e entrevistas em mais de décadas de atividades incessantes de pura criatividade. Todos os cachorros são azuis é um exemplo fantástico.

O trabalho realizado pelo autor, exaltado – pela crítica e literatos – por uma vocação e extraordinária capacidade vibrante de unir pessoas e personagens, tornou-se referência para aqueles que entravam em cena no mundo da internet. Nas tessituras da rede, desenvolveu momentos instigantes de sua carreira. Marcou presença em portais, sites, blogs, DVDs, plaquetes e consolidou o seu espírito irrequieto, torcido e libertário, adotando um caminho sem volta. Não se enquadrou em panelinhas. Nunca fez questão de atitudes de barganha. Nem precisou de tais expedientes. Sempre foi ele mesmo. O seu engajamento, ora coletivo, ora pessoal, aos olhos mais atentos, além do mais, manteve-se pungente no centro das manifestações culturais que agitaram o ambiente brasileiro nos últimos tempos.

Neste momento, passado mais de ano da sua morte, o mundo assiste cada vez mais à convergência do real e virtual composto pela tênue cortina entre um ritmo duvidoso de produção com certo brilho e talento, sob a batuta do teclado, mouse, monitor, webcam e verbos escassos. Todavia, a questão do ritmo – aspecto pessoal – é o elemento diferenciador. Enquanto alguns são monopolares, outros bipolares, o flamenguista da Lagoa Rodrigo de Freitas preservou em seus escritos aquilo que alguns chamam de tripolar. Uma dimensão estética estonteante, que detona todas as fronteiras da imaginação. Eis a sua marca, tripolar: a literatura como fruto da revolta. Que despenca de uma enorme e verdejante árvore, fazendo o galo cantar na cabeça dos leitores. Seja pelo espanto extrapolar ou a polifonia encarnada na dimensão e imensidão ao longo das páginas.

A ficção sui generis de Me roubaram uns dias contados, de Rodrigo de Souza Leão, classificada como romance, reunião de narrativas diversas (quatro livros num só), com trechos pendendo para um diário (que lembra um blog), é um dos melhores lançamentos de 2010. São diálogos internos (várias vozes) sobre a necessidade e exigência da cultura-revolta e da estética como revolta contra a sociedade do espetáculo, que enraíza cada vez mais um número medonho de experiências mediadoras estagnadas e míopes sobre o ser, o outro e a própria literatura.

(Imagem Centralizada) => Capa do livro Me roubaram uns dias contados
 
A pintura A morte do saci – capa do exemplar, autoria do próprio escritor, que em última análise remete aos diálogos artísticos com o grupo CoBrA de Karel Appel, Corneille van Beverloo e Cia., das décadas de 1940/50 – rouba a cena e contagia o todo das narrativas fragmentadas e cortantes. A qualquer momento, ele (o saci) pode detonar o Trilite. Trinitrotolueno (TNT) num céu de brigadeiro. Artefato sensível a qualquer movimentação e trânsito incessante no elenco de personagens contaminadas, prima em primeiro grau da nitroglicerina. Dinamite pura. De coloração vermelha amarelada, quando explodida respingam nuvens inflamadas despontando transparências nas quais alguns erros são acertos.
 

Texto e vida
 
No texto de apresentação, Leonardo Gandolfi faz a menção necessária e inteligente: “Por ter sido sempre descontínuo o espaço entre dentro e fora do texto, foi radical a sua dedicação, radicalidade que lhe custou caro. Não quero dizer que ele tenha optado romanticamente por uma mistura entre texto e vida. Não, não foi isso. Primeiro, porque não houve opção. Segundo, porque não há como misturar o que nunca antes existiu separado. Ou seja, o que chamamos de literatura para ele foi uma tática, um modus vivendi. Quanto a isso, nunca se enganou nem foi enganado. Ao contrário, em seus livros há uma clareza muitas vezes assombrosa – daí estarmos o tempo todo, em Me roubaram uns dias contados, diante de um mundo intuitivo, quase inocente, mas ao mesmo tempo muito crítico em relação a seus próprios mecanismos”.

Na paternidade e cerne do lugar da verdade, convenhamos: ambição e superação estão no próprio ser e o evento. Curto-circuito fundador da identidade, autoria, narratividade, linguagem e pensamento. Aliás, as articulações dos desejos entronados – pelo bizarro, o excêntrico, o estranho, o fabuloso – pelo autor pontuam a ficção criativa e meio de resistência às tentações do destino. Observa-se a revolta de Rimbaud e o melhor, relembra Mallarmé: “Todo pensamento emite um lance de dados”. Vincula a experiência do ser em relação ao tempo/espaço, expõe os riscos, traços, palavras, tópicos frasais e seminais do acaso mental/emocional numa linguagem flexível, circulante entre o poético e a prosa delirante.

Me roubaram uns dias contados é a dignidade que sistematiza o viés e confrontações, são invenções, conjugando várias personagens de livros dentro de outros – obras em rotações expansivas. “Um belo mergulho na condição humana, em especial, na dura tarefa de existir de um escritor, que convive não só com seus fantasmas, mas também com seus remédios”, como observa Ramon Mello. Neste sentido, as palavras do curador são indispensáveis para aqueles que queiram conhecer um pouco mais o universo mágico de Rodrigo de Souza Leão. Ainda há tempo, pois a metamorfose ambulante supera limites e aponta caminhos para nós, pobres mortais, alguma luz que pisca sem cessar no fim do túnel.

P.S.: O ator Cauã Reymond, que já atuou em nove longas, vai produzir seu primeiro filme. Acaba de comprar os direitos autorais para o cinema dos livros Todos os cachorros são azuis e Me roubaram uns dias contados.
 

* José Aloise Bahia é jornalista, escritor e crítico de artes plásticas e literatura. Autor de Pavios curtos (Belo Horizonte: Anomelivros, 2004).


Todos os cachorros são azuis
De Rodrigo de Souza Leão
Editora 7 Letras, 80 páginas, R$ 29


Me roubaram uns dias contados
De Rodrigo de Souza Leão
Editora Record, 336 páginas, R$ 47,90