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         Resenha Crítica:

Livro "Contos da Cavalgada" de Gustavo Ferreira Correa

Dizer a última palavra, mesmo sem despedir-me

Thereza Christina Rocque da Mota


Quando tenho em mãos um novo livro para ler, fico contente pela perspectiva
de um novo enlevo literário, até porque, em tese, estaremos entrando na
alma-água do autor/criador, com as suas pontuações íntimas, suas pontes
letrais, suas correntezas que, até, no muito além de si ramificam para uma
janela da vida (uma janela para o alto), abrindo, portanto, páginas de rosto
com o tempero da paleta silencial a descrever rumos e prosopopéias. Quando
recebo o livro de um conterrâneo de Itararé, minha terra-mãe, fico ainda
mais alumbrado, sondando o devir naquela obra de estréia de uma nova
andorinha sem breque, a botar para fora causos e acontecências, falas
típicas e construções, e aí fico me preparando para a doce emoção do forfé
que é ler com contenteza e prazeirança nativa, por assim dizer. Fanático por
Itararé é isso. E Itararé tem dessas coisas mesmo: produz e consome cultura
própria. De pinturas e marchas-rancho de carnaval, de poemas a baladas
rueiras, de pedagogos a juristas, de ficções a histórias que o povo conta,
de romances a memórias e muito humor no atacado. E quem conta causo de dia
ganha rabo de cotia, diz a crendice popular. Com o livro "Contos da
Cavalgada" do Professor e Escritor Gustavo Ferreira Correa não poderia ser
diferente. Já pensou? Escrever é sim, dar testemunho, talvez pôr a alma no
cuorador das idéias recorrentes, recompor situações e conflitos, mas, antes
de tudo, escrever é mostrar um novo olhar sobre a vida, essa dura vida de
perdas e ganhos, de ausências e curtumes. Ai as aquarelas da vida, os
calvários da vida!. Pois "Contos da Cavalgada" é isso: o pé na terra -
caminhaduras e romarias, suas sabenças e alegranças. O autor tomando o
leitor pela mão, levando-o a cavalgar tópicos frasais, diálogos, causos
dentro da história, por aí: a viagem dentro da obra, o imaginário sensível
provocado. Tudo numa narrativa gostosa a fluir fácil, serena, como se você
mesmo estivesse ali, de verdade, inteirinho e entregue dentro das contações
ao pé do fogo, lustre-luar de Itararé, toldo estrelado do céu jade de nosso
rincão amado, beira de rio, entre a bulha da saparia, ouvindo Gustavo
Ferreira Correa lastrando-se de mente e cuia e lábia e mãos. E alta
criatividade, claro. Gustavo escreve bem e bonito. E com uma simplicidade
preciosa, muito bem norteada naturalmente de uma singela pureza essencial. E
o essencial é invisível aos olhos, disse o poeta. Há olhos de ver e olhos de
sentir. E escrever encerra um mundo no Ser por inteiro. Gustavo deve ser um
ótimo professor de literatura. É um ótimo escritor muito além até de sua já
notória postura algo zen. Enquanto o leio, leio entrelinhas,  e vejo
(leio) - sinto-o - depondo, não só num saudosismo-saudade, mas um refazer a
vida pelo seu prisma de artista sensível que é. Historiar implica que o
criador assuma risco de expor-se, entre idéias, sentimentos, olhares
especiais, purgações íntimas, acerca do entorno do próprio projeto-livro.
Foi assim com Sócrates, Galileu, Jean-Paul Sarte, Freud, Jorge Luis Borges e
outros.  A palavra "história" de origem grega quer dizer exatamente
"investigação", "informação". Com o depuro técnico-narrativo de Gustavo,
vê-se aí (lê-se aí) a escrita se apresentando madura, segura de si,
lógico-sequencial a costurar elos, entrelaçar o conjunto do livro que diz de
contos, mas, romanceia entrecontos. E os causos vão pontuando as partes,
seguros, personalizados, hilários às vezes, entre mitos e crendices,
interessantes, cativadores. Gustavo conhece do oficio e se acrescenta.
Escrever corresponde ao impulso do espírito humano para enlivrar-se,
livrando-se de algo que seu ser pontua (e despoja), necessitando de visão
social para configurar pari-passu o livro enquanto obra literária de norma
culta. Ao escrever e resgatar causos, como um ouvidor de um tempo chamado
longe, Gustavo Ferreira Corrêa ilumina as contações; feito um lampião aladim
da mágica mão, nas andanças pelo palavreado todo. Os personagens vão se
delineando nas amarras construídas com esmero, a estrada da caminhação se
abre e filtra paragens, e as mentes acompanham as leituras, quando então
vamos juntos com o autor entre os devotos e os fantasmas. Uma precisão
embonitada a de retratar como se em sépia os seres reais, histórias que se
aglutinam e os desfechos que falam da vida sábia do povo. Contos da
Cavalgada é isso: mais um trabalho de quilate para a BRITA-Biblioteca Real
de Itararé. E Gustavo pelo jeito não vai ficar só nisso. Sorte nossa. Não é
todo dia que se lê a alma pura de um povo interiorano num livro com perfeita
sintonia letral. Captar o sentido essencial da prosa, pondo sensibilidade no
observar/ouvir. Estilo límpido, cristalino, esse é o estilo de Gustavo.
Gustavo escreve como quem "alembra" a vida (alumbra?) na sua pureza mais
simples (antiga e verdadeira?); a tez chã dos caminhos, gente errante e
maravilhosa na esperança com medos, peregrinações. Alumbramentos. A evocação
do passado feito o "trazer-de-volta", não é apenas o saudosismo, mas uma
re-celebração de um "outro tempo", de um espaço geográfico, de um povo, de
um lugar; mítico e primordial, exterior à nossa temporalidade. Isso quer
dizer alguma coisa?  Itararé é resgatada, a história se recupera, e temos
nas mãos o lastro-lavra de uma religiosidade naquilo que recompõe, com
reflexos, acentos sociais e humanos, trajetos e perspectivas. O pensamento
vê o mundo melhor do que os olhos, disse Bartolomeu Campos de Queirós. É
como se Gustavo Correa dissesse para alguém (no tácito que se compreende?) -
mistérios, sonhos, aparições; a distância de uma amizade mal amalgamada?) -
tipo

"Estou aqui te continuando...estou aqui vivo/E estás vivo em mim...a vida
(como ela é, afinal, dura e triste, amarga...) não terminou na tua
história..." Continuo-a aqui, nas minhas singelas contações...

Um livro, como páginas de rosto (páginas da vida), levando a gente para
cavalgar visões e estrelamentos. Moendas?

Escrever é permanecer em vigília. Sim, irmãos, em vigília por aqueles que
nos deixaram...mas, ninguém, nunca, tirará quem amamos para sempre de nós.

Escrever e criar é uma forma de dar testemunho de resistência, sensibilidade
e luta. Escrever é dar voz e sentido aos vestígios de ausências. A escrita
afaga a alma de quem cria, recriando o próprio mundo interior.

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BOX:
Contos da Cavalgada
Mistérios, Sonhos e Aparições
Edição do Autor/Diagramação e Impressão Tipografia Itararé, Ano 2006
Gustavo Ferreira Corrêa
Professor da Rede Pública de Ensino, Itararé-SP
E-mail do autor: gfcferreira@bol.com.br
www.contosdacavalgada.blogspot.com

Resenha:
Silas Correa Leite
E-mail: poesilas@terra.com.br
Site: www.itarare.com.br/silas.htm
Autor de Porta-Lapsos, Poemas