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Meditação em Brasília
Izacyl Guimarães Ferreira
Gosto muito de uma frase do poeta Ruy Espinheira Filho, tanto que já recorri a ela mais de uma vez. Para Ruy, que é da Bahia de Castro Alves mas faz uma comovida poesia clara e forte, toda grande poesia é simples... e só quem não tem o que dizer é que se complica.
A poesia de Oleg Almeida talvez não pretenda ser “grande”, coisa muito rara, mas é boa, honesta e clara. É forte e é simples. E tem, sim, o que dizer. Penso em Casimiro de Abreu, em Alberto Caeiro, no Antonio Machado dos apócrifos Abel Martin e Juan de Mairena.
Eis uma boa companhia para este poeta do extremo norte da Terra, eslavo, mas já brasileiro deste século, tradutor que traz de sua língua, sonora como a nossa, audível musicalidade em versos cheios de experiência, como pede Rilke.
Sua Quarta-feira de Cinzas tem algo das sofridas lembranças do carnaval de Bandeira, nosso falso simples, e traz esse ar transparente e límpido do planalto central onde vive. Talvez iluda o leitor desatento a aparência despojada destes versos arejados e descomplicados.
Mas Oleg Andréev Almeida é um poeta culto, conhece seu ofício e domina o ritmo, os ritmos da poesia em português. Aprendeu a nos conhecer, é cidadão brasileiro na maneira de cantar, em nossa língua, nossa ruidosa festa de cores e cinzas, a do poema que titula e abre o livro.
Não só isso. Se conta nossas coisas, como um viajante dando notícias da terra descoberta, também canta o homem, qualquer homem de qualquer lugar, atento e consciente. Se universal, é capaz de ouvir o entorno brasileiro num “tríptico auriverde” e de auto-retratar-se irônico, fazer-se lírico em conversa com a amada, lamentar a pobreza. Pensar, em levezas de haicais.
Oleg se traduz e nos traduz muito bem. Traduzir o homem é a função maior de um poeta, já nos disse Ferreira Gullar em seu poema “Traduzir-se”, onde se pergunta se interpretar o homem em seus muitos momentos será arte. Oleg sabe que a resposta é sim, como bem mostra em sua poesia de serena arte poética. |
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