Meiotom - resenha


 

CONTOS NEGREIROS DE MARCELINO FREIRE

FLÁVIO AMOREIRA

‘’ CONTOS NEGREIROS’’

 

De Marcelino Freire

 

Li ‘’Contos Negreiros’’ como quem visita ensaios pela porta da proesia: poeticidade em cada cômodo entre a cafua e a Vila do Mangue: nego forro num banguê pós-urbano: ‘dramma giocoso’ sem condescendência com oprimido em qualquer trama, onde fodidos mantêm a sanha do opressor. Edmund Wilson vê poesia em Marx ,

daí que emerge um tratado realíssimo do epo-quimbundo.

Conto é o que personagem-narrador pensa: Marcelino dá reconhecimento aos interstícios ultra-alinhavados do amargor, ressentimento e phatos ‘megalosubumano’.

 ‘’Alguns escritores confundem autenticidade, que deve ser constantemente perseguida, com originalidade, que jamais deveria preocupá-los’’, diz Auden. Marcelino não poderia ser original tratando da viciosidade neocolonial ainda passados quinhentos anos de Infâmia redundante: o sertanejo é estupidamente autêntico sem negar que bebe e regurgita com maestria os que ‘afulôzaram’ a nação zumbida de Jorge de Lima à ‘’A Carne’’ de Júlio Ribeiro: Fulô e Joaquim Cambinda na guerrilha de morro, na afronta ao filho da puta blindado no trânsito onde ninguém passa da coisa-feita nesse país dum mafuá mísero-gozozo que faz o gringo arrepiá. Espoliação  -  (‘’Trabalhadores do Brasil’’) , metalinguagem digna dum Sérgio Bianchi ( ‘’Solar do Princípes’’) e Marcelino Viscontíssimo com Ana Magnani roteirizados pelo João do Rio de Sertânia  na orbe-pocilga num Éden maravilhoso ( ‘’Nossa Rainha’’). Frustração econômica, Estado Bandido, a ilusão de progresso carcomida em decadência nascitura em ‘’Contos Negreiros’’ feito ‘Manderlay’ tupi ninguém é suficientemente vítima, carrasco ou impostor: jogo de empurra de mazelas irremovíveis por hábito ou inoperância acumpliciando sinhôzinho, cativo e matador. O passado aflora do futuro.

Não tem singeleza depauperada, nem Pai Tomás em Paraisópolis... o Brasil é foda! 0u dá ou sai de cima.

Não queremos mais ser modernos: nossas ‘’deficiências ‘’

não são ‘’superioridades’’ ( Antonio Candido ).  ‘’O fundamental é que milagrosamente o povo, sobretudo o negro-massa, continua tendo erupções de criatividade.

Trata-se para todos artistas criadores, de um desafio que não é a busca do singular e do bizarro e sim o esforço de ser o melhor do mundo.’’ ( Darcy Ribeiro). Marcelino não paternaliza, apesar do purismo de ‘’Totonha’’, nem vê só alegria na dura pena de nascer viado escondendo-se em armários-quilombos da Alma: Célio é Puig, Genet, sou eu!

eu que me leio morando entre eritemas desafortunados.

Donzelão enrubesço em não ter lido nas ruas o espetáculo angustiante no esgar dos amigos coloridos.

‘’Bicha devia nascer sem coração’’ é dístico prá quem enxerga o lado escroto da realidade além de Miamis e Capadócias de purpurinas. Miséria é tudo-todo canto:

‘’Vaniclélia’’ é um tumor em nossa consciência pária de neocolonizados, ‘sifilização’ banguela na Boa Viagem...

tome porrada no estômago transplantado dum avestruz enterrado até o focinho de dunas tropicoalhadas de euro-fétidos. O Brasil é doença: patologizante, ‘’ putrefação da água a bordo aporta à baía de Guanabara, onde franceses e portugueses disputavam , fazia vários anos, os favores dos índios.’’ ( Lévi-Strauss ) Maior tesão no Brasil é pensar depois de sentir: olhar fundo ‘floresta fálica’, polícia-gang, diálogo metralhado na ‘’Linha do Tiro’’ e levar macunaimicamente Yamami da merda-todos-lados engulhando o peito de tamanduá-bandeira...

engulhando  formigas pantagruélicas num ‘’mercado intransitável’’: o sinal está fechado prá nós!, não somos tantos quantos chineses. Vendemos na baixa até um ianque vir nos sodomizar : Kioto? ‘’Morram os crocodilos’’! O Brasil é SonPaulo : granítico entre palmeiras-pentelhos: o Brasil é ducaralho! Pirão de caranguejo : moqueca de embrulho : escatológico samba de cúmallavado: ‘’Se é pra livrar minha barriga da miséria até cego eu ficaria’’ ecoa no ouvido: não faço crítica, leio

‘’Contos Negreiros’’ como quem pranteia esperança compartilhada: não sei compor assim, ainda vislumbro a negação da passividade de banda feito quem toma coragem... Elite chapadona: não! a velha Bolsa é surda!

Cada um brasileiro deve ser melhor como nasce: Marcelino é mestre erudito-cantador duma clássica embolada que ouço ao lado do que emociona:

‘’Faca Amolada’’ com Pedro Luís e a Parede ou ‘’Neurópolis’’ de Lívio Tragtenberg. ‘’Contos Negreiros’’

me torna mais brasílico-pensamento: ‘no dia que fosse a dona do puto seria sempre 7 de setembro no meu travesseiro de cetim’; Marcelino é antropo-lógico onde teima curumim cismar na tenda dos milagres. Esse livro é a maturidade sem mais espera da indignação. Das tripas arranco as bichas do meu coração. Salve Freyres!

‘’Contos Negreiros’’ é da tradição de quem esperneia por frases: acalanto de ninar menino na zoada dum angú de sangue. ‘’Contos Negreiros’’ passou da conta: é da hora!

Eu vi o Brasil, ele é negro-verde amarela té que branqui-escurece. É o boi! ‘O Boi abatido ‘ de Rembrandt: fábrica de carniça exposta no pelourinho movediço, poste-periférico... Carmen Miranda há voltar nesse país:

‘nesse país’ aliterado feito boneco d’enguiço, balé-ranço.