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PARANGOLIVRO – AROLDO PEREIRA

Prof. Guilherme Rodrigues

gasto/ minha vida/ buscando uma/ palavra/ que contenha a/dimensão da minha dor” (Aroldo Pereira)  

Somente quem tiver o caos dentro de si é que poderá dar à luz a grande estrela bailarina” (Frederich Nitszche)

O parangolé pamplona você mesmo faz/ O parangolé pamplona a gente mesmo faz (Adriana Calcanhoto)

Lutar com palavras/ é a luta mais vã./ Entanto lutamos/ mal rompe a manhã.” (Carlos Drummond de Andrade)

1.0 O Autor: João Aroldo Pereira (1959) é poeta, ator, compositor e agitador cultural. Natural de Coração de Jesus/MG, o filho caçula de D. Juscelina Pereira Neta se mudou com a família para Montes Claros/MG no início dos anos 60 e reside nessa cidade até os dias de hoje. Publicou em pequenas tiragens Canto de Encantar Serpente, Azul Geral, Hai Kai Quem Quer e Doces Pérolas Púrpuras, na década de 80, em livretos mimeografados, motivo pelo qual é situado, a princípio, dentro da “geração mimeógrafo”. Pereira também é autor de Cinema Bumerangue (Edições Cuatiara; 1997) – livro indicado para o Vestibular das Faculdades Ceiva, de Januária/MG – e Parangolivro (Editora 7Letras – Coleção Guizos; 2007), obra adotada para o Mestrado da Universidade Estadual de Montes Claros (UNIMONTES), em 2008. Seus trabalhos foram incluídos em diversas antologias poéticas, entre elas, a Antologia da Moderna Poesia Brasileira (Rioarte/Hipocampo – 1992), organizada por Olga Savary; Signopse – A Poesia na Virada do Século (Editora Plurart’s; 1995 organizada pelo poeta Wagner Torres; e O Melhor da Poesia Brasileira – Minas Gerais (Sucesso Pocket – 2002), organizada por Sérgio Alves Peixoto e Gilberto Mendonça Teles. É integrante do Grupo de Literatura e Teatro Transa Poética, que há 30 anos desenvolve um trabalho performático com poesia. Em 2001 foi homenageado pela UNIMONTES, que deu seu nome ao Centro Acadêmico de Letras. Aroldo Pereira é verbete do volume II da Enciclopédia da Literatura Brasileira, organizada por Afrânio Coutinho. Em 1987, idealizou e é o curador, por vinte e quatro anos consecutivos, do Salão Nacional de Poesia Psiu Poético, considerado o maior evento do gênero no país. Recebeu em 2006 a mais alta condecoração do Governo do Estado de Minas Gerais, a Medalha da Inconfidência Mineira, pelos serviços prestados à cultura de Minas. E em 2007 recebeu a Medalha do Sesquicentenário de Montes Claros, onde também é Cidadão Honorário. Pereira é pai de Amora, Amanda, Renata, Samuel, Lucas e Maluh.

2.0 A Obra: Parangolivro, do poeta Aroldo Pereira, é uma obra multifacetada, plural, que está em constante diálogo com as mais variadas vertentes artísticas, onde a literatura (o gênero lírico em todas suas possibilidades formais) está sintonizada com as artes visuais, o cinema e a música (rock, samba e MPB), como vemos claramente no poema “você não sabe com quem está falando”, um poema que dimensiona a pluralidade desse livro que, segundo o professor e crítico Gilson Neves, no ensaio “Marginal e herói: pintura e música na poesia de Aroldo Pereira”, é “uma espécie de profissão de fé aroldiana”, e que se espalha “nos diversos textos metapoéticos do livro”, marcados por permanentes diálogos intertextuais. E assim se lê no referido poema: “pode dizer/ a quem quiser saber/ q. eu ouço a canção/ e penso no poema/ q. o cd a instalação/ o enquadramento da cena/ a performance a inquietação/ tem sido meu eterno problema/ não tem joão cabral nem augusto de campos/ não tem mondrian nem raimundo colares/ é tudo uma profusão de olhares/ cinema livro vinil/ foram essas putas q. nos pariu/ uma junção de espelhos/ espalhando reflexos sob o sol/ a palavra + pesada q. o ar/ o click do homem bomba/ ler reler treler/ se não entender/ se foder”.

Mas não é só o caráter metapoético (a metalinguagem, a reflexão sobre o ato da escrita, o exercício poético, instrumento de ação do poeta) que marca essa obra de Pereira, o fator “mitopoético” também perpassa por esses versos de forte teor autobiográfico – mas que não se limita a ele, pois é ao mesmo tempo o individual e o coletivo, indo do micro ao macro-cosmo, já que diz respeito ao gênero humano como um todo. O poeta fala das coisas que são suas e de seu mundo, mas não escapa à história, suas experiências mais secretas ou pessoais se transformam em palavras sociais, históricas. E a poesia aroldiana busca um diálogo com a sociedade, uma interação. A partir daí o eu-lírico constrói o seu “mito pessoal”, retratando sua formação pessoal, social e poética, atravessada por múltiplas vozes e olhares. São lugares – os morros, o Cerrado, as auto-estradas, e cidades como Coração de Jesus, Montes Claros, Rio de Janeiro, Curitiba, São Paulo –; pessoas – a mãe, os filhos, tios e companheiros de vida e luta artística [seja pela convivência ou pela referência] de Montes Claros, do Brasil e do Mundo, como Mick Jagger, Luis Inácio Lula da Silva, Arthur Bispo do Rosário, Jorge Mautner, Elthomar Santoro Jr., Damião Experiença, John Lennon, Adriana Calcanhoto, Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto, Augusto de Campos, Paulo Leão, Anelito de Oliveira, Chico Science, Igor Xavier, João Pedro Stédile, Beto Guedes, Rimbaud, Jim Morrison, Kurt Cobain, Mariguela, Che Guevara, Paulo Leminski, entre outros –; e momentos, que formam (a “pátria que nos pariu”) o sujeito que dá voz ao discurso poético. São os poetas, os gênios, os loucos, os marginais, os heróis modernos, a gente da sua “laia” (como vemos nos versos de “eu sou da sua laia”), os que compartilham as mesmas dores e amores do poeta, nessa obra marcada pela tentativa de entender o mundo, as coisas e as pessoas que nele transitam, numa relação social e poeticamente antropofágica (comer = deglutir e assimilar, em si mesmo, o outro), presente no erótico-filosófico “antropofagia”.

Mas entre as principais referências artísticas na obra de Pereira, estão os nomes que formam a tríade “denunciada” ao longo de todos os poemas do Parangolivro e citada na orelha da edição da 7Letras: Torquato Neto (1944 – 1972), Raimundo Colares (1944 – 1986) e Helio Oiticica (1937 – 1980). O primeiro é um poeta, músico, jornalista e cineasta piauiense, um dos detonadores do movimento tropicalista, ao lado de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Zé, entre outros. Torquato é poeta que desfolha a bandeira desse movimento que influenciou uma série de artistas que surgem na cena brasileira a partir dos anos 70 e 80, que já assimilam em suas obras as proposta neo-antropofágica da “geléia geral” evocada na canção de Torquato Neto e Gilberto Gil, e entre quais está o autor do Parangolivro. O segundo, o artista plástico Raimundo Colares, ou apenas Ray Colares – cuja morte é tema da prosa poética “não tenho nada com isso” –, natural de Grã-Mogol, mas radicado em Montes Claros, que ganhou o país com suas experimentações plásticas, principalmente através dos gibis, inspirado na obra do artista plástico holandês Piet Mondrian (1872 – 1994), explorando a iconografia urbana como os ônibus em movimento, dialogando com a velocidade e as fragmentações do mundo moderno. Colares está presente em toda poesia de Pereira, por ser o símbolo do gênio e do maldito, da loucura, da dor do homem, do rebelde em sua luta constante contra toda mediocridade conservadora que o tenta aprisionar. Ele também é a ponte poético-artística de Pereira em sua intensa relação com as vanguardas da segunda metade do século XX, entre as quais está o neoconcretismo (o das artes plásticas), capitaneado pelo terceiro nome da tríade, o pintor, escultor e performer Hélio Oiticica.

Este é o inventor inquieto que criou os parangolés, termo que forma o neologismo do título do livro de Aroldo Pereira (parangolé + livro: dois objetos culturais, fruto das intervenções do artista em seu meio: “01 poeta q. se preza/ não precisa ser perfeito/ tem que ousar” – lê-se em “ciência rami”), e que dá o norte conceitual aos poemas dessa antologia. O parangolé, criado por Oiticica, é a “anti-arte por excelência”, que nos remete ao desejo de abolir fronteiras estanques e conceituais não condizente com a cultura brasileira, fundido olhares e referências, numa simbiose que inclui o erudito e o popular, o primitivo e o moderno, o castiço e o erótico, o de fora e o de dentro, num clima antropofágico, que é espiritualidade e carnaval, sanidade e loucura. O parangolé, inspirado no samba de morro, tendo como referência imediata a escola de samba carioca Estação Primeira de Mangueira, é uma espécie de capa (lembra ainda bandeira, estandarte, tenda) que não desfralda plenamente seus tons, cores, formas, texturas, grafismos ou as impregnações dos seus suportes materiais (pano, borracha, tinta, papel, vidro, cola, plástico, corda, esteira) senão a partir dos movimentos – a performance, a dança – de alguém que a vista, sendo uma arte que “vive” do ato, da ação em si, na produção e na recepção. Segundo Antonio Cicero, no parangolé, o “motor ontológico é a capacidade de revelar a necessidade da ação”. Vestir a obra de arte é se contrapor ao assistir passivo, ao que Oticica explica: “O ‘ato’ do espectador ao carregar a obra revela a totalidade expressiva da mesma na sua estrutura: a estrutura atinge aí o máximo de ação própria no sentido do ‘ato expressivo’. A ação é a pura manifestação expressiva da obra”. Nesse sentido, parangolé é o múltiplo e ativo, anti-estático, dialógico e moderno, transgressor e inquieto.

Aqui o poeta abre se abre em chagas (o “inferno de si”, de que fala um dos poemas do livro) e inquietações, suas dilacerações e provocações, abordando questões eternas e contemporâneas, especialmente aquelas relativas a comportamentos, tensões culturais, existenciais e poéticas, numa necessidade que, segundo o poeta e crítico Wagner Rocha, no prefácio do Parangolivro, é a de “traduzir em verso toda a dor da humanidade que atravessa grandes conflitos”, num desejo claro de ressignificação do mundo, do trivial, recriando esse mundo através das suas verdades poética. “Verdades” estas aludidas nos versos da poeta pernambucana Olívia Ikeda, que assina uma das epígrafes do livro: “invento verdades sem fim/ mesmo sabendo que/ poucos acreditam em mim”; e que também estão no poema “lume”, do Parangolivro: “sou extremamente/ sincero com a poesia/ invento a cada momento/ uma verdade vadia” e nos versos de um poema sem título: “quero ser sincero ao máximo/ mesmo mentido o tempo todo” – demarcando o território de ação da linguagem poética, fora dos contornos convencionais. Ainda segundo Rocha, o Parangolivro “possui um intenso diálogo com os embates existenciais do homem comum, do cidadão que nasce/morre a cada dia preso às circunstâncias opressoras do cotidiano”, nelas envolvido em sua trajetória ontológica que faz em linguagem na poesia, numa necessidade constante de expressão, que em si a reação do poeta enquanto homem, em meio à morte (o inexorável), o amor, e as dores da trajetória social e existencial do homem.

2.1 Contexto Literário: Modernismo – Poesia dos anos 80 e 90[1]:

As primeiras gerações modernistas, encabeçadas nos anos 20 por nomes como Oswald de Andrade, Mário de Andrade e Manuel Bandeira, propõem liberdade da estética da poesia para assumir, através dela, o papel de porta-voz do progresso almejado para o Brasil. O mundo estava propenso às mudanças e os principais fatores da modernização eram a indústria, a urbanização e a técnica, conforme apregoavam as vanguardas européias e brasileiras do início do século XX (como futurismo, cubismo, surrealismo, dadaísmo). Essas vanguardas propõem uma literatura (prosa e poesia) que dialogue com a modernidade com seu olhar dinâmico, concretizado, no caso da poesia, com o emprego do verso livre; a abolição de pontuações; uso predominante de letras minúscula; cortes sintáticos; neologismos; recorte de imagens apresentadas de forma sobreposta; concisão, reduzindo a linguagem a elementos essenciais; e a exploração do espaço branco da página. São posturas estéticas que têm na poesia de um Oswald de Andrade um expressivo exemplo, e que também estão presentes na obra de Pereira em poemas como o poema-título “parangolivro”, “john wiston lennon”, “eu sou da sua laia”, “rua formosa”, “me enterro...”, entre outros. Além disso, os poemas a exploram vários recursos sonoros (aliterações, assonâncias, repetições, anáforas) e visuais (signos icônicos – + @ –, abreviaturas e números, em meio e substituindo signos verbais), “enfatizando a fragmentação, o homem aos pedaços, linguagem árida e sintética do homem urbano do nosso século”, segundo Neves, em um poeta consciente dos instrumentos verbais de que dispõe.

 

A partir de 1930, os poetas modernistas apresentaram um gradual amadurecimento em seus trabalhos, pois tomaram rumos importantes e definidos, fazendo uso de uma linguagem mais comunicativa e pessoal, com tendências próprias, isentos de chocar o público e mais preocupados em trazer reflexões de cunho social, demonstrando um forte comprometimento social com sua arte, coincidindo com aproximação de muitos intelectuais brasileiros das ideologias de esquerda, como falamos em nossos estudos sobre Mar Morto, de Jorge Amado. Já em 1945, João Cabral de Melo Neto aparece no cenário poético servindo de elo de ligação entre o passado imediato e as novas experiências estéticas, com referências mais positivas de uma tradição poética do fazer novo, tornando. Em 1956 surge então em São Paulo a poesia concreta, encabeçada por Haroldo da Campos, Augusto de Campos e Décio Pignatari, e precedida pelas propostas de Cabral. A poesia concreta criou a idéia de vanguarda vinculada à mitologia da nova era industrial e tecnológica do pós-guerra, com suas invenções cientificas, planejamento racional, novos meios de informação e comunicação, finalmente, o chamado nacional-desenvolvimentismo (1956-60) que alimentava as aspirações dos poetas quanto ao processo de superação do subdesenvolvimento brasileiro. Desencadeada posteriormente e até mesmo em contraposição ao concretismo, surgem outros movimentos como o neo-concretismo, a poesia práxis e poema-processo, movimentos dos quais a poesia de Pereira também é devedora, pois traz em suas bases essas referências – ligando principalmente poesia e artes visuais, como o foi a poesia concreta. Nesse momento, temos uma poesia condizente a uma revolução total da linguagem: criação de um novo espaço poético gráfico, visual, racional, inteiramente planejado.

 

Mas no ano de 1964, com o Golpe Militar, a poesia brasileira e as outras manifestações artísticas do Brasil, como o cinema, o teatro e a música popular – então em pleno e fértil processo de criação e inovações: com o cinema, por exemplo, vivenciando as propostas do Cinema Novo; e a música em plena efervescência nas misturas da Tropicália – são atingidas de chofre pelas ações reacionárias do poder repressivo do regime militar. Em 1970, surge um movimento dentro da poesia que integra a arte poética às camadas insatisfeitas de nossa sociedade. Ela foi conhecida durante esse período de “poesia marginal”, que, do lado estilístico, restaurou as principais armas de choque da tradição modernista, tais como a piada, a poesia-minuto, o coloquialismo, a espontaneidade, o humor, o erotismo e que ecoam na poesia de Pereira, desde os poemas publicados em livretos mimeografados (a já referida “geração mimeógrafo”) nos anos 80 às produções mais recentes de Cinemas Bumerangue e Parangolivro.

 

Sobre a geração mimeógrafo/marginal afirma o poeta Nicolas Behr, um dos ícones dessa geração: “A geração mimeógrafo surgiu como uma opção, dentro de 3 grande blocos de poesia de vanguarda [refere-se à poesia concreta, poesia práxis e o poemas processo] no início dos ano 70; a geração mimeógrafo surgiu como os ‘não-alinhado’, só escrever não basta. Escrever é ponta do  iceberg, ‘um poeta não se faz com versos’, dizia Torquato Neto”. A essa visão de Behr, que demonstra engajamento social (longe do meramente panfletário, mas sempre dentro de uma postura crítica) e experimentações lingüísticas na poesia, está diretamente ligada à poesia de Pereira, que não segrega nenhuma forma de linguagem ou vertente poética, pelo contrário, conflui em seus versos as mais variadas referências e posturas estéticas, criando um caleidoscópio, um mosaico poético como é o parangolé de Oiticica, aliando comprometimento social – presente claramente no Parangolivro em poemas como “olhos urbanos” e “paciência revolucionária” – e a experimentação estética, desconstruindo a dicotomia “atitude ética x atitude estética”. Para Rocha, o Parangolivro se “constitui, sem dúvida, como um instrumento de propagação desse humanismo singular que vai se desenhando na trajetória de Aroldo Pereira, um poeta militante ou um militante poeta”. Nas palavras de Catiana Fernandes Ferreira Silva, no ensaio “Parangolivro: a criação poética entre os vestígios da memória e do cotidiano”: “O poeta traduz em versos a realidade social, em um apelo a favor das minorias, apresenta um  engajamento social e visão crítica. Dessa maneira, a sociedade recebe alguns fragmentos de aspectos que a caracteriza, projetados em poemas ousados, provocativos. Fragmentos metaforizados, sem preocupação de agradar [lembremo-nos do inquietante “trelelê”], mas de nos levar a refletir acerca dos versos e descobrir o que eles nos diz e desdiz, em cada movimento de palavras. São movimentos angustiantes, já que a leitura não é automática; exige do leitor movimentos, construções, desconstruções. Provocando um ‘desconforto’ no leitor, porque o sentido  nunca se situa ali, mas sempre mais além

 

A obra do poeta Aroldo Pereira desmistifica os radicalismos poéticos de suas diferentes versões, investindo de formatação de uma linguagem própria, cheia de suas brincadeiras sonoras e visuais, ora revisitando estilos consagrados, ora reciclando as dicções modernas. Segundo o poeta e crítico Lêdo Ivo em texto sobre o livro Cinema Bumerangue, de Pereira: “Como diversos poetas de sua geração, ele perquire e aborda o nosso ontem poético – no caso o modernismo ortodoxo de 22, ao produzir os seus poemas caracterizados por dicção enxuta e entrecortada, nos quais a dor de viver é exposta alegremente como se fosse um piquenique”. Para Rocha, Pereira é o homem do seu tempo, “um lírico disposto a apaziguar as tempestades do mundo, um lírico no auge da globalização (para lembrar o que salientou Walter Benjamim a respeito de Charles Baudelaire: um lírico no auge do capitalismo. Porém um lírico dotado de consciência crítica, ou, por que não dizer, de consciência revolucionária”.

 

Moderno e múltiplo, na mais genuína relação com as gerações modernistas que se sucedem desde 22, Pereira traz para seus poemas os vários olhares e planos artísticos: é a música, as artes plásticas e o cinema, compondo este parangolé poético. Em sua criação poética ele deixa transparecer que não é mais suficiente à literatura ser verdadeira com a vida, mas que se faça verdadeira a própria vida. A poesia dele se apropria do universo social, reorganizando o cotidiano e reutilizando os signos do seu espaço macro-cultural, universalizando-os em sua essência polarizada. Se o traço forte da literatura é o seu formalismo, Pereira, através de seus objetos estéticos propõe a denunciar as mazelas sociais, que a seu ver projetam-se numa enorme tela de cinema, cujas cenas mal produzidas, talvez ofuscadas pelo néon ou pelo mundo capitalista, transpõem o homem em condições desumanas. O seu mundo é o mesmo de Oiticica, Raimundo Colares e de Torquato – um parangolé, parangodelírio, um parangolivre – ao modo de um país em que tudo é permitido. Uma confusão de idéias e coisas misturadas que aos poucos vão ganhando forma e sentido. Consideremos, pois, que a poesia de Pereira – assim como tantas outras circulantes pelo Brasil – é a prova concreta de que a poesia deva perpetuar, seja através dos ecos do modernismo, seja através da poética de Aristóteles, Horácio ou até dos grandes renascentistas. Pereira impinge em seu trabalho intelectual artístico o seu modo de pensar o mundo, idealizá-lo, criar ideologias e fazer valer a sua filosofia, a partir das vozes que o antecederam e as que estão ainda ecoando em nosso tempo.

 

2.3 Grupos Temáticos:

a) O poeta e o “estar-no-mundo”: O olhar do eu-lírico de Parangolivro é o ser sensível, atento ao mundo que o cerca, sempre refletindo nossa condição social e existencial, e nos oferecendo um olhar além das meras convenções sociais transgredindo enquanto postura e enquanto linguagem, que caracteriza a postura “marginal”. No poema que dá título ao livro, dedicado à cantora e compositora Adriana Calcanhoto, lemos: “negro pobre poeta/ sem noção de seqüência/ multiplicidade de olhares/ ler e descobrir/ escrever bater com a cabeça/ uma arma em nossa mira/ não caber/ dentro da armadura/ debater até sangrar/ entrar e sairq como se não estivesse/ viver longo cada instante”. Segundo Rocha, nesse poema “Pereira nos aponta, sobretudo, ao justapor as palavras ‘negro pobre poeta’ a necessidade de ressignificação do modo como concebemos, o mundo e a existência, pelo olhar de um eu-lírico plural, cidadão de Minas e do Mundo (“um poeta mineiro do Brasil-universal”, escreveu Jorge Mautner a seu respeito): uma rua de são Paulo/ de coração de Jesus/ cada vez + distante (..,) agüentar a vida/ com o sol na cara/ cada palavra/ uma confusão/ convulsão no dicionário/ raspar o rosto/ não ter onde ir/ grama crescendo/ no jardim/ a lua no esgoto.

Em contato com tudo e com todos, driblando rótulos e imposições sociais: oiticica não amava ana/ q. não amava torquato / q. amava cinama/ a gente não cabe inteiro/ luzes se sobrepondo/ fraturas expostas/ câmera pinceladas velozes/ instalação no porão/ todo dia toda dor/ 24 horas de inquietação/ ossos em febre/ oco do fim do mundo/ dente cárie caralho/ uma palavra porrada/ parangolivro parangolé/ morro raimundo de montes/ claros colares/ hélio morro da mangueira/ parangolé oiticica/ ninhos gibis/ incertezas/ (...) 01 rock é uma pedra/ é um toque/ uma bananeira no hospício/ mondrian atrás das grades/ depois bem depois/ arthur bispo do rosário/ a palavra dependurada/ febre imagens/ parangodelírio”. Aberto das múltiplas experiências humanas: “viver o inferno/ debandar morro acima/ 05 favelas e + promete/ demônio se debatendo/ possuído pela palavra/ parangolé qual é/ a vida se abre/ em dobras/ qual é o parangolé/ se segura por 01 fio/ por 01 filho/ por uma dúvida/ tudo é dúvida/ 01 barulho quer dizer coisas/ quantos séculos saeculorum/ repetiremos/ o azul não suporta o cavalo/ mentir é arma de domínio/ negro/ pobre/ poeta/ uma chuva rala/ uma procissão/ de indiferentes/ o corpo permanece/ no asfalto/ parangolivre” – pois assim é a vida, assim é a poesia, “referência ética e étnica, um apelo a favor das minorias sociais, uma possibilidade de orientação da vida, um espelho por onde nos enxergamos”, conclui Rocha.

Consciente do estar-no-mundo, o eu-lírico do Parangolivro reflete sobre nossa condição, com um olhar que mistura a visão inventiva e inquieta da criança (idade mito-poética representada em um poema do Parangolivro que diz; “crianças tecem/ as melhores nuances/ amanhã”), sensibilidade (abertas as portas da percepção), ironia e problematização do mundo. Nessa linha destaca-se primeiro a tematização das nossas mazelas sociais, em um país injusto, que não se enxerga, como vemos nos versos de “rua formosa“o brazil não quer enxerga o Brasil/[...] o brazil da televisão é 01 paraíso/ a macromídia vende o país/ do cinema americano do norte” –, e cujas “cidades são sempre governadas/ por prefeitos medíocres”.

E em contraposição a essa mediocridade, o poeta prefere enfocar os marginais e marginalizados, os “heróis” de que fala outra epígrafe do livro assinada pelo próprio poeta (“um beijo de língua p/ hélio oiticica”, do livro Cimema Bumerangue), tematizando os undergrounds, os indesejados, citados na última parte de “não tenho nada com isso”, e presente em poemas como “musa operária”, “deus”, “na nascimento silva”, “rua nascimento silva, 1406” (este dois últimos em homenagem ao músico Damião Experiença, um “gregor samsa” de Ipanema), entre outros. Em “eu sou da sua laia” o poeta anarquista se dirige a um interlocutor com cuja postura ele se identifica: “eu sou da sua laia/ e vou fundo nessa confusão/ não há necessidade de razão/ é tudo incerto/ é 01 universo aberto de invenção/ eu sou da sua laia/ tenho andado na contramão/ queimo filme família/ pirofagia ao alcance da mão/ passo cheque com fundo falso/ idéia sem tradução/ não tem livro não tem disco/ que traduza essa inquietação/ eu sou da sua laia meu irmão”.

A postura de crítica social está presente, entre outros poemas, nos dois trabalhos que levam o título “a vida vai passando e a poesia não vem”, em “polítika e no emblemático “olhos urbano” – aqui o poeta faz o seu acerto de contas com a cidade que o acolheu: “montes claros, devo espremer/ o teu cérebro,/ tomar 01 sorvete de limão/ e sair vitorioso pela av. cel. prates?/ ando cheio de teu ar esnobe./ você resseca meu coração/ e suga minhas idéias./ montes claros, não quero casar/ com uma de suas latifundiárias,/ virar produtor agropecuário,/ entrar para a udr e viver encharcado/ de idéias conservadoras./ por favor, deixe-me em paz!/ sou 01 poeta errante,/ 01 sonhador anarquista/ q. não acredita em suas falsas/ promessas de amor eterno/ e paz espiritual./ (....) você  está entorpecida, montes claros./ você e suas grandes festas inúteis./ por que não pensa nessa gente/ q. te ama tanto?/ pra que tanto mendigo,/ todas essas crianças perdidas,/ tanto indigente?/ você anda drogada e sem visão,/ princesa decadente./ perdeu o amor, a criatividade (...)/ por que não se posiciona?/ faça uma reforma urbana./ divida seu coração, montes claros./ ajude esse povo triste e esperançoso q. tem tanto amor por você/ seus atores sem teatro,/ sua marujada sem prestígio,/ seus operários sem fábricas./ (...)/ você e seus olhos de neon/ não respondem nada./ seu coração está deteriorado,/ chagásico.../ você já não se preocupa/ com seus rios q. secam,/ com suas montanhas/ q. diuturnamente viram pó/ montes claros, desliga a/ televisão”.

 

Por outro lado, o poeta não se ilude nem com o mundo nem consigo mesmo em sua postura militante contra a mediocridade política e as mazelas sociais, por isso, entre reflexões e provocações, ele reconhece e nos incita a acreditar que a nossa luta por um mundo melhor é contínua e não imediatista, como vemos no poema-mantra de título aparentemente ambíguo, “paciência revolucionária”, dedicado ao economista e ativista social João Pedro Stédile: “mudar o mundo/ é a nossa bandeira/ mas não é para já/ é luta pra vida inteira”. É o olhar sóbrio do eu-lírico ante as vicissitudes da vida, não numa atitude passivamente resignada, mas de reflexões e tentativas de compreender aquilo que se nos apresenta, embora o poeta ainda insista e se arme contra toda forma de desigualdade e injustiça social.

 

E entre pessimista, irônico, autocrítico e reflexivo, o poeta fala das angústias e medos que marcam nossa trajetória humana, em poemas como “drummondrummond” (síntese dessa agonia do poeta, sensível às dores do mundo, o qual se faz presente foneticamente dentro do neologismo desse título), “carraspana”, “ele bebe e come flor”, “doce lar”, “geração” – este último, poema dedicado ao grupo de poesia, do qual Pereira faz parte, cujo título se liga semanticamente ao poema em si: “passar no asilo/ ver se reservaram/ vaga pra minha” –, “01 silêncio profundo”, “me exponho pra humanidade”, “contra a máquina” e “carraspana”, onde lemos: “no ônibus colares/ signo viagem/ na av. paulista/ sinto uma solidão/ de azul/ q. dimensiona/ minha dor/ solidãoneon@blues/ as luzes explodem/ ruas do rio/ avs. de curitiba/ casas de montes claros/ belos horizontes/ dos meus gerais/ meus olhos/ de quem quer ver/ não decifram dores/ cinepoesia agoniza/ a dúvida me devora”.

 

E em meio a tudo isso, existe a procura pelo sentido da vida, a transcendência, como acontece nos versos de “outrosentidos” ou nesse poema sem título em que se lê: “na poça d’água/ crianças brincam/ nuas entre/ lama e céu/ amigos dançam/ nem presente/ nem futuro/ a vida pulsa/ não é piada/ nem poesia/ será/ há de haver/ sentido”. Segundo o jornalista Alécio Cunha, em “A Alma do Parangolivro”, em meio a todas as angústias, há a beleza e a densidade “da faina diária é resgatada” por um olhar sensível e atento, quase blasé, que capta a poesia nas coisas, embalado pela simplicidade, em meio ao caos, como lemos em “miséria luminosa”: “ela chora e briga/ ele escreve e pensa/ as crianças detonam a casa/ a poesia paira imperiosa/ por hoje ninguém morre”. Esse aspecto ganha um sentido mais amplo no poema  de título aparentemente trivial “cotidiano”, onde o poeta vivifica o ser e estar no mundo, a partir: “meu filho lucas/dorme/minha filha amanda/cuida do rosto/o gato zilon/ressona zzzz/no rádio rola/01 velho blues/em alguns momentos/viver é quase/sem mistério”.

 

b) Amor: Em um poema-minuto intitulado “amor”, seguido da palavra-poema “humor” (“Amor/ Humor”, assim é poema), o poeta Oswald de Andrade, sintetiza, por intermédio da poesia, uma visão do amor temperada pelo humor, que está presente na poesia de Aroldo Pereira, que mescla amor, humor e transgressão. Aqui amor é visto por olhar irreverente, mas nem por isso deixa de ser sensível e essencialmente romântico – o poeta se pergunta em “rua formosa”: “serei 01 poeta romântico/ em pleno século XXI?”, e acaba por ser.

Esse eu-lírico traduz seu amor inquieto, numa postura neo-romântico-anárquica, sem pudor, sem receios de se declarar, de mostrar-se como é, num tom presente em poemas como “cidade acesa” (“meu coração inquieto/ quer zanzar [...]/ quer mel e beleza/ quer te namorar/ de pau duro/ e palavras acesas”), “maçã” (“é 01 desejo inquieto/ de te ver de manhã/ no metrô ou/ dentro da maçã”), “martelota”, “musa operária”, entre outros. Esse amor sincero e sereno, quase infantil, de um “guarde meu anelzinho bem guardadinho”, dedicado a Marina, no qual a inocência se funde com o despertar do sentimento amoroso. Outras vezes é o ultra-romântico, com todas as suas exacerbações e teatralidade poéticas, como vemos “pecado” (“a cada instante que você/ comete uma loucura/ meu amor angustiado/ arde nas chamas dos jornais”) e “polítika”; quando não o carnal (“me enterro/ na carne/ dela/ me enterro/ na vida/ me enterro/ na tela/ até o fim/do filme”), o erótico, quase beirando o pornográfico, como no já citado “antropofágico” e no “trelelê”, em que lemos: “meupautácomsaudadedasuaboca”.

 

c) Poesia: Tema recorrente na obra Pereira, a poesia é a essência do ser, o sentido da trajetória desse eu-lírico. Segundo Wagner Rocha: “A poesia, para ele [refere-se ao filósofo alemão Martin Heidegger], é algo ontologicamente encontra-se enraizada em sua condição humana. É o elo de aproximação entre o Ser e as coisas, o homem e a vida (‘fugir do inferno em si’)”. Ela é a arma de ação do poeta, que demonstra a incrível capacidade de metamorfosear em palavra o gesto vivido. Nos poemas metalingüísticos do Parangolivro, a poesia é vista além de uma visão purista, superficialmente agradável, palatável, pois ela é vida, e como tal abarca as dilacerações humanas e suas impurezas:“a impureza toma conta da minha voz/ a impureza toma conta da minha voz/ a impureza toma conta da minha voz/ a poesia capta o olhar da morte e jaz. É a compreensão e aceitação do “kaos”, da poesia que está nas coisas que nos cerca.

A poesia é ousadia, (“ciência rami”), inquietante e inquietadora (“palavras”: “o poemas/ in/cômoda/como 01 cisco no olhos/ íngua na lingua”), como o próprio poeta em um mundo que não o comporta, como vemos em “nulo”: “construindo uma trama/ com imagens ácidas/ e dores sígnicas/ o poeta reinventa a vida/ dentro da morte/ reinventa a luminosidade/ dentro do kaos/ e sai sem cigarro/ com o cinema na cabeça/ e uma chuva rala nas mãos/ o poeta pra quem não sabe/ é uma nulidade”. Mas ele segue nos provocando com sua arte, seus “inutensílios”, longe do utilitarismo do nosso mundo, onde é “coisa + sem graça/ livro de poesia” (são irônicos e angustiados esses versos), e diante do qual ele declara, sem pudor, frustrando todas as expectativas, dizendo: “gasto a minha vida/ com poesia, cinema e/ nada”.

A relação do poeta com a poesia corresponde à sua trajetória enquanto homem, na medida em que a aceitação/compreensão da poesia passa pela relação do poeta com a própria vida, numa necessidade de dizer/fazer, que por vezes é árdua e dolorosa como a própria vida (“todas as palavras/ se armam/ contra meu poema” – diz em “recado”). Mas em alguns momentos a poesia parece estar distante (“será que a poesia/ vai se aproximar desse poema?”, indaga o poeta em “rua formosa” – demarcando a dicotomia entre poema/materialidade e poesia/essência), fugidia, inalcançável, como vemos no título-assertiva “a vida vai passando e a poesia não vem” que nomeia dois poemas, nos quais ante as dores da vida. É a poesia que parece cada vez mais longe de nós, quando nós – humanos, demasiado humanos – nos confrontamos com fatos que estão além das nossas forças, a situação-limite, nos quais ela, a poesia, parece impossível.

 

c) Morte: E entre essas situações-limite está a morte, o fato inevitável, (o inexorável de que falamos em nossos estudos sobre Solombra, de Cecília Meireles, onde morte, em um primeiro momento é sinônimo de perda, frustração), tudo aquilo que pode nos provocar imensa descrença na vida, levando-nos a um niilismo estéril, mas que, no Parangolivro, como veremos mais adiante, o poeta saberá administrar, canalizando toda essa confusão, todo esse caos, a favor da poesia. É a fatalidade, a tragédia o que nos pega de chofre e nos situa em nossa finitude, e por isso nos angustia, pois embora saibamos da sua existência, muita vezes, não queremos encará-la. A morte, outro tema recorrente na obra de Pereira, e que está relacionado essencialmente à poesia, e à relação do poeta com sua arte, faz-se presente em poemas como no poema-título “parangolivro”, o já citado “a impureza toma conta da minha voz”, “john wiston lennon”, “não tenho nada com isso” e “a vida vai passando e a poesia não vem” – poema-protesto que nos lembra da morte do bailarino montes-clarense Igor Xavier, vítima da homofobia, cujo crime de que foi vítima ganhou as páginas de jornais do Brasil e do Mundo: “cu/ caralho/ coração/ invenção/ reconhecer a vida/ em decomposição// o menino rodopia/ a bala abate o bailarino/ o assassino vai desmontando/ as armas pelo caminho// e era o igor/ era o vigor/ era a palavra/ sangrando/ transbordando/ tamanha dor”. O poeta não é imune às dores provocadas por fatos que nos privam do que amamos, e por isso sofre e vivencia seus lutos.;

 

Mas vemos também que, em meio a esses embates com a morte, com a fatalidade, o eu-lírico descobre que só lhe resta a poesia, que embora seja a “menina/ + vagal da cidade”, é o quinhão do poeta, como lemos em “vagal” (dedicado ao amigo e poeta Gabriel Cardoso, também falecido): não/sei o q. cantar/ no meu poema/ a natureza age/ o vento no meu/ cabelo é só 01 sinal/ o mar revolto/ o homem afogando/no asfalto/ os poemas/ estão enfiando/ os pés pelas mãos/ meu nêgo, meu poeta/ meu homem belo/ a nossa dor/ é uma lâmina fina/ 01 beijo ao meio-dia/ uma navalha cega/ eu ouço marina/ a poesia é a menina/ + vagal da cidade/ e escancara a/nossa incerteza”. E já que a vida é curta e a arte longa, com disse Hipócrates resta ao poeta apenas a arte, a poesia, como vemos nesses versos: “com gosto de sangue na boca/ caminho com a rapaziada/ não há rumo nem rima/ não há quase nada/ só uma vontade/ desembestada/ de fazer chover/ poesia na madrugada”.

 

Porém, se um primeiro momento a morte, a indesejada das gentes, como disse Bandeira, possa ser vista como avessa à poesia, que pode ser equivocadamente encarada como um universo idílico, de coisas agradáveis, palatáveis, o poeta nos mostrará que não, poesia é vida, e como tal abarca todos os fatos da vida (vida/morte). E a partir daí, ele a irá encarar de uma outra forma, com um lirismo sublimador, que, longe da atração mórbida dos ultra-românticos oitocentistas, é sóbria, quase blasé, mas não ascética. É uma aceitação sábia, como vemos no poema-síntese da obra “rua formosa” (um título delicado, que retrata o sublime por trás da morte), escrito quando um tio do poeta, o Luiz Gongaza Vasconcelos Veloso, faleceu na cidade de Coração de Jesus. A caminho de Coração de Jesus, sobre uma moto, em uma auto-estrada, que nos lembra o On the Road, do poeta beat Jack Kerouac, o eu-lírico de Pereira pensa e passa pela vida, morte – vista em alguns momentos, como “linda”, sensual” –, família, sociedade e poesia. É através dela, e na aceitação dela, nesse momento, que o poeta começa a encarar todo esse caos, que ao poucos vai ganhando um dimensão mais transcendente, a do “kaos” (termo empregado pelo cantor e compositor Jorge Mautner, para caracterizar esse “caos” de que fala o filosofo Nietzche), diante do qual tudo “está em ordem”, mesmo que aparentemente não esteja (“tudo em ordem/ dentro do kaos”). Nesse poema que agrega todos os temas e olhares entrecortados, o poeta encara a poesia em todas as suas dimensões – e mesmo que ela pareça distante, mesmo que “fuja”, ele reconhece que ela “está no meio de nós”:

 


 

os poemas são tão chatos

leia como quiser

quero seu coração pulsando

no meu ritmo

a morte é linda

se aproxima

com seu sorriso sensual

e seu olhar lusco-fusco

a poesia serve a quem?

por que você lê este poema?

o telefone toca, a notícia é triste

estou com o coração dilacerado

certamente rimbaud teve esse momento

ezra pound na prisão

torquato neto durante as dores

e delírios da geléia geral

a ligação não se completa

celular pifando a bateria

olhos vermelhos, lágrimas se escondem

 

a morte se aproxima

cada vez + linda

(...)

vai se aproximar deste poema?

a notícia é 01 punhal

como quero ser poeta

é provável q. você pense

q. isto seja 01 poema

corto os versos apressado

como a moto q. me leva

de coração de jesus a caminho do pitinha

nossas cidades são sempre governadas

por prefeitos medíocres

corro, minha cabeça não pára

o moto-taxista é veloz

estava em montes claros

agora só vejo asfalto

como 01 quadro de raimundo c

 

as árvores do cerrado me olham

não há nem 01 pensamento

são tortas e impassíveis

são a nossa cara

o lula é a nossa cara

o brazil não quer enxergar o brasil

não há dinheiro para 01 telefonema

não há 01 carro para uma viagem

não há comida na mesa

o brazil na televisão é 01 paraíso

a macromídia vende o país

do cinema americano do norte

o meu tio luiz morreu

num acidente de moto

esta é a notícia!

tenho uma irmã q. mora longe

tenho uma mãe adoentada

tenho 01 irmão q. não consegue

se fixar no emprego

tudo em ordem

dentro do kaos

 

estou com a bunda adormecida

é provável q. o moto-taxista também

em q. pensa ele?

em q. pensa o leitor?

o capacete quase cai

a morte é muito veloz

minha cabeça não pára

o corpo do meu tio

está em coração de jesus

estarei a caminho da morte?

sinto, mas não sei dizer

será q. foi isto q. o poeta

anelito de oliveira sentiu

quando buscou o corpo

do seu irmão em brasília?

será se o poeta gabriel cardoso

sentiu essa mesma angústia

com a morte do seu irmão

q. pintava e aspirava tintas?

o paulo leminski deixou a alice

em maus lençóis

diadorim só nos permitiu ver

seu corpo após a morte

tudo em ordem

dentro do kaos

 

meu tio, meu pai q. não tinha meu sangue,

me levou para caçar veado,

comer tatu, mangaba...

no cerrado de coração de jesus

a moto corre, os carros passam

num zig-zag infernal

meu tio não teve filhos

o telefone-sem-fio

não completa a ligação

a moto me leva para a morte

será se vou chegar?

“não tenho palavras”,

me disse 01 amigo

lutamos por 01 país melhor

as dores coletivas seriam diferentes?

lamarca morreu cravejado de balas

guevara morreu cravejado de balas

mariguela morreu cravejado de balas

lennon morreu com 01 tiro na cara

tudo em ordem

dentro do kaos

 

essa morte me leva para a moto

o kerouack no asfalto

sua vontade de fumar 01

o corpo do meu tio espera

quebrou braço, perna

o rosto está bonito

meu tio era meu pai

não mick jagger

nem joão ferreira

q. copulou com minha mãe

não quero escrever 01 poema longo

este poema me escreve

meu tio não teve filhos

meu tio era meu pai

amora é minha filha,

linda como capitu

amanda também tem os olhos

+ tristes e lindos q. já vi

renata, minha outra menina,

ainda não a conheci

têm os meninos-estrelas

samuel, moleque bonito

q. não tem o meu sangue

e é o meu filho

 

lucas, meu pequeno atrevido,

é a cara do joão ferreira

q. copulou com minha mãe

 

tem uma índia velha no meu caminho

a moto vai falhar

faltam poucos quilômetros

a morte me olha e ri

será se vou fazer esse filme?

a quem serve a poesia?

minha alma vazia

está iluminada pela dor

joão guimarães rosa,

joão aroldo pereira,

quando assumiremos

as plantas do cerrado?

tem uma canção pulsando

na minha cabeça

meu coração está dilacerado

serei 01 poeta romântico

em pleno século XXI?

tudo em ordem

dentro do kaos

 

a moto, a morte, o telefone

meus filhos, meu sangue, meu tio

eu quero é comer com coentro

a velocidade do verso

você quer ler 01 poema?

a poesia não chega

seria a arte irmã da morte?

fecho os olhos

o pensamento é veloz,

a morte corre

pare, pare, quero escrever 01 verso

ele não sai da minha cabeça

obrigado, desculpe esta angústia

os mares de espanha,

as lagoas de minas

não quero escrever 01 poema longo

este poema me escreve

 

não há leitor

você quer ler?

onde vamos neste moto-perpétuo?

a índia velha

reaparece,

tem a pele ressecada

como carne de sol

kurt cobain atira

na cabeça

a poesia foge

ela está no meio de nós.


 

 

[1] Este tópico é uma livre adaptação do ensaio “Parangolivro: uma sobra do modernismo”, disponível no endereço eletrônico: http://pt.shvoong.com/ humanities/theory-criticism/1850772-parangolivro-uma-sobra-modernismo/, de autoria de Francisco Rodrigues Júnior, escrito do tema proposto pela prova do Mestrado em Literatura da UNIMONTES, em 2008.