Meiotom - resenha


 

OS RUMORES IMPRECISOS DAS CONVESAS ALHEIAS - LIVRO DE THIAGO PICCHI

POR: FLÁVIO AMOREIRA

 

‘’ OS RUMORES IMPRECISOS DAS CONVERSAS ALHEIAS’’

-         THIAGO PICCHI, UMA RESENHA-ENSAIO.

 

 

Thiago Picchi é dos mais instigantes autores surgidos pós-2000 : inquietador, tema importância daquilo que sua prosa culta indica: possibilidade de ainda inovar.

Seu ‘’rumores imprecisos das conversas alheias’’, suscita questionamento poderoso da função da Literatura num mundo que segue imprecavida obsolescência. Seu terceiro livro vai além da fixação num gênero: é a própria implosão de conceitos estanques de suportes narrativos;

contêm metalinguagem e enredo fabular apartir de elementos arcanos: oralidade, mítica e permanência dos testemunhos encadeados por estórias. Abstração, apreensão e formatação contida de milhões de possibilidades simbólicas são três etapas que o personagem onipresente João se utiliza para suster  impraticável habilidade de retenção do devir: ‘making off’ da busca do Ser. Usando ‘estilo indireto livre’ o narrador imiscui-se através dum contraponto ( João Camargo ), de cenas interpostas e foco que se desdobra por fluxos de consciência nos precavendo da infindável teia de narrativas virtuais  ‘recolhíveis’ do fluxo condicionado pela cotidianização do Absurdo que se refaz imperceptível, não fosse interveniência do autor implícito logo na abertura admoestar: ‘’Não seria difícil, tampouco fácil, repetir os diálogos que coletaria sigilosamente nos lugares mais ordinários da cidade.’’ Thiago expõe âmago da contemporaneidade: como reter frágil certeza ( provisória ao menos) num emaranhado de estilhaços

epistemológicos : cacos da incognoscência da hipermodernidade em mil platôs variáveis conforme ultrarelativização de perspectivas... ‘’Se você for capaz de ouvir as conversas e sobre elas refletir o mínimo necessário para editá-las na memória e reproduzi-las com fidelidade...’’ – assim  João Camargo , feito um senhor kafkiano do ‘’Castelo’’,  propõe ao ‘todo-ouvidos’ João, investido de Scherazade  em ‘Vacaselva’, a metrópole atópica onde Camargo investe-se no status híbrido de prefeito-governador desse Estado-istmo entre nada e nenhum: toda parte em lugar resvalando indeterminado . A trama deliberadamente lúdica de colecionarmemórias e situações’ é caoticamente regida sob signo da ambigüidade: tudo é o que parece desde que nomeado. Alternando disposições dialógicas com o leitor-cúmplice, Thiago nos oferece esboços, deslocamentos dramáticos e sumários intelectivos do imaginário. Relato, digressão, monólogo interior, Diário : ‘’Março’’

          Quanto mais se escreve, vida, menos se descreve. Então, daqui para frente, serei cada vez menos verborrágico. Quando me perguntarem: ‘Diga, Fulano, baseado nos documentos – e idadeque lhe aferem o saber, o que é a vida?’’, responderei enxuto e digno:

-         A vida é !’’

-         Thiago faz Literatura para argüir a Literatura, sua validade ímpar é preciosa função de resignificar a existência apartir do excesso de sensibilidade. Para quem se escreve? Qual substrato do que se diz? O que distingue memória coletiva, apropriação privilegiada e

-         definição de ícone, cânone ou tradição? O que de nosso é que se pensa? Quanto de nossa consciência é

-         poeira cósmica ou sinapse metonímica do infindo?

-         Quais índices consolidam veracidade, essencialidade e insignificância conceitual? Afinal, o quecontapara quem se conta? A linguagem é Lego lidando com imagens atomizadas em miudezas em duas camadas básicas:  mundo real que garante emprego à João e outro rumoroso primado onde entrechocam-se signos imprecisos. João zonza no universo amorfo estoriado num caleidoscópio de situações que dão liga, entrecho, enfeixam-se num argumento ‘contável’ . João ouvinte esgota-se no ‘’ desconfortável travesseiro de Lego’’- João é Sísifo imagético: sem trégua o jogo joga-se mesmo na pausa do personagem-ouvinte para leitores duplificados: do autor obsessivo pelo êxito de João e dos próprios relatos de João que não se findam nem em seu ofício de ourives do Caos.

-         O livro é epopéia desafiando em tríptico: maratona do incontornável exercício de entendimento do leitor, autor e herói intrincando num remoinho os três níveis de Barthes: ‘’ nível das funções’’, onde se passa propriamente a História ou Fábula e onde se situam os elementos de caracterização das personagens e de criação de atmosferas ou ambientes; ‘’o nível das ações’’ , os personagens enquanto agente dos núcleos funcionais e o ‘’nível da narração’’, unindo os dois eixos e onde a persona verbal definir quem narra , prima / terceira pessoas ou miríade de vocalizadores. Thiago minimal- maestro ao expor polifonia  de interlocutores pela ‘infinitização’ de pontos de vista do catálogo de nano-sensações projetadas e perpassadas por João, ‘adivinhando pensamentosou ‘classificando silêncios’. A Odisséia de João é fulcro da trajetória do linguagem, da hiper-consciência , da permanência do humano feito testemunha alongando tênue presentificação do fugaz. Impressiona na obra a capacidade de transmitirprazer’ e ‘fruição’: Thiago decompõem limites da narração linear, oferece enredo e retrata metaforicamente ( intencionalmente ou não)

-         reflexões estéticas e semiológicas do pós-estruturalismo: cartografia da desconstrução, ‘’rumores’’ nos remete ao ‘’Fedro’’ de Platão e ‘’Pharmakhon’’ de Derrida: a escritura como antídoto e veneno. João é Thoth, ‘inventor’ da escrita diante dum Deus-Rei Tamuz atônito com limites da palavra. ‘Quando chegaram à escrita, disse Thoth: Esta arte, caro rei, tornará os egípcios mais sábios e lhes fortalecerá a memória; portanto com a escrita inventei um grande auxiliar para a memória e a sabedoria.’

-         Responde Tamuz: ‘Grande artista Thoth! Não é a mesma coisa inventar uma arte e julgar da utilidade ou prejuízo que advirá aos que a exercerem. Tu, como pai da escrita, esperas dela com o teu entusiasmo precisamente o contrário do que ela pode fazer. Tal coisa tornará os homens esquecidos, pois deixarão de cultivar a memória; confiando apenas nos livros escritos, se lembrarão de um assunto exteriormente e por meio de sinais, e não em si mesmos.’ João vai em busca de ‘Logos’: discernimento, mimetismo, afirmação , se assenhora da superfície pelos sentidos das coisas ‘zumbidas’ e acaba por extraviar-se na desrazão das sensações ‘irreproduzíveis’. João escapa em desvario fanopaico do ‘ethos’ empírico-utilitarista de João Camargo, - João destrona logos-Pai e parte para aventura da escritura entregue, desesperadamente disponível, desprovido de síntese, palavra que encerra permeando,rumo sem-sentido das imanências alumiadas e não-fixáveis : João condenado ao ofício literário mesmo indisposto com papel impresso: João é além de Sísifo, Thoth e Prometeu acorrentado ao lascivo ‘lego’ da significação errante. Diz Derrida: ‘’Distinguindo-se de seu outro, Thot também o imita, torna-se seu signo e representante, obedece-lhe, ‘conforma-se’ a ele, o substitui, quando preciso, por violência. Ele é, pois, o outro do pai, o pai e o movimento subversivo da substituição. O deus da escritura é portanto, de uma vez, seu pai, seu filho e ele próprio. Ele não deixa assinalar um lugar fixo no jogo das diferenças. Astucioso, inapreensível, mascarado, conspirador, farsante, como Hermes, não é nem um rei nem um valete; uma espécie de ‘joker’, isso sim, um significante disponível, uma carta neutra, dando jogo ao jogo (...) ele é outro que o sol e o mesmo que ele; outro que o bem e o mesmo que ele. Tomando sempre o lugar que não é o seu, e que pode chamar também o lugar do morto, ele não tem lugar nem nome próprios.’’

-         João é esse que tenta abarcar o que seja ‘mundomesmo resignado ‘conformar-se’ quemundo’ seja ‘palavra’ – ‘’ sonora, por certo, mas ainda sim uma palavrinha de cinco letras! ‘’

 

Não! Thiago não teoriza a linguagem, a questiona arrebatando com estilística culta que caracteriza

a retomada da Alta Literatura: músico, ator, tem relação

assustadoramente visceral com as tradições e as vanguardas: é escritor que reenceta  alinhavando o transmudado o retecido. Leio ‘rumoresfeito João e revejo preciosos ecos de Gogol, Mellville, O. Henry, Saki,

Pirandello, Borges, Cortazar, Calvino e nossos Campos de Carvalho e Samuel Rawett: fantástico em Picchi é o despercebido pelos não acometidos pela atordoante sensibilidade exarcebada. O escritor cria situações

como quem manieta títeres num laboratório esmiuçando

o inconsciente desambientado: o livro é casa onde o absurdo estagia, aclimata, se concretiza enquanto é o que se formata.  ‘’Rumores’’ são imensidão: concha enviesada. Nenhum arroubo sintático, paroxismo experimental: o valor de sua trama esta na originalíssima disponência conteudal de açambarcar máximo de efeito recheado de profundo resultado intelectual e percuciência ontológica. ‘’rumores’’ é o que excede: além dos constructos psicológicos e ambientações prosaicas, Thiago nos oferece elementos metafísicos atemporais e arquétipos além do puramente psicológico: antecedentes da consciência, cosmogonias imbricadas no cotidiano, aspectos esquizóides travestidos de realidade normativa e imersão no onírico silente e impressentido na vigília atordoante dos acontecimentos reduzidos à prosaica funcionalidade. O escritor é testemunha do impossibilitado: refém do inacontecido, inventariante do refugo descartado; João é sutil e  poderosamente um inadequado: ‘’Por que não conseguia ser como João Camargo, que jamais se dispersava de seu trabalho? Por que não conseguia pensar em apenas uma coisa de cada vez, de preferência em algo que fosse útil para a humanidade, ou pelo menos para sua realização pessoal, como o projeto da cadeira? Mas era inútil concentrar-se em algo construtivo. ‘’ O que é útil?

o que é real-verdadeiro? o discurso dessa escritura porvir é de novo profetizado por mestre Derrida: ‘’ A verdade desaparece como presença, o se furtar da origem presente da presença é a condição de toda (manifestação de) verdade. A não-verdade é a verdade. A não presença é a presença (...) o ente-presente se duplica desde que se apresenta e perde-se , dispersa-se, multiplica-se por mimemas, ícones, fantasmas, simulacros’’ . A realidade, o mundo que atemoriza tanto de grande e mundo se corporifica é o universo das não-essencialidades: mas devir sensível da não-idealidade do Parque Ermo, das Esquinas Questionadoras, atonalidades no bordel Ama-Zonas. ‘’Quem precisa de dúvidas?’’ num ‘’universo das relativizações’’ se para João e para o

‘’ sujeito que a tudo questiona, tanto faz afirmar...’’

no paradoxo em que se instaura primado de ambigüidades , ‘’ João estava ávido por certezas conciliadoras’’ , quando Thiago revoga axiomas e assertivas incorporando reinado de assíndetos e oxímoros entre paradigmas fluídos crendo na ‘’organização do acaso.’’ O autor apresentou prosódia particular em seu primeiro livro-solo ‘’O Papagaio & Outras Músicas’’ e abre Obra-necessária apartir de efeito duradouro : ‘’rumores’’ é ‘’filosofia da composição’’ (Põe) em andamento : ‘’ campo semântico’’, ‘’ constelação associativa’’ ou ‘’campo nocional’’ para destinatário ‘’impreciso’’ e ‘’ multiplicado’’ por translações conotativas que se utiliza da ordem aparente para reverberar significados de fecundidade sonora e provocação imagética em desaprumo, dissolvência sem diluição, retenção mínima em concretude do irreparável, irreproduzível e do indissociável ao movimento implodindo causalidade e linearidade na aparência de uma estória casual e plausível : João contratado desconstrói intenção de ‘narratibilidade’ e convenção comunicacional de Camargo: é lego versus logos, a instauração do ‘jogo-enquanto-o-que-se-joga’: o ganho no que se lança em enigmas rumorosos além-probabilidades iluminados pelo não-senso da existência. A vida se realiza enquanto ‘artisticidade’, estetização do prosaico,

miraculosa ‘subjetivização’ dos objetos em transe .

Thiago investe contra instaurado pelo dito-escrito através da insurgência do ‘escriturável’ mesmo que ainda não ‘escrevível’. ‘’Hoje desisti, de bom grado, do oficio inútil de escritor. Nada contra a palavra bruta, sonora, e sim contra a palavra escrita. Afortunadamente testemunhei cenas tão sublimes, que nada tinham a ver- por mais que me esforçasse -, com essa representação gráfica chamada escrita (...) Mas hoje acordei ‘puro e disposto a subir às estrelas. Enquanto estiver no Paraíso Terrestre, devo fazer como Beatriz, olhar fixamente para o sol. Preciso, como qualquer um que almeje uma sabedoria digna, como qualquer um que almeje uma sabedoria digna, como qualquer ordinário virtuoso, cegar-me para enxergar de verdade. Libertar-me dos rabiscos das bulas descritivas que apenas me distraem e afastam Dele. Sol, de hoje em diante serei seu adorador! Na verdade, contemplando-o diretamente , todos os dias, não espero me cegar, e sim, adquirir uma nova capacidade visual, adequada ao meio imaterial feito de pura luz onde Ele vive.’’ – A linguagem descrevível haurida e virtualmente ‘contável’ advinda da transcendência imantada no imanente impercebido não ser pelo cérebro-máquina de registrar narrativas tópicas perpassando epidérmica e animicamente sensacionismo de João transmutado em livro-livre-andante. A palavra escrita é staccatto , congelamento de zilhões de insights

que se contam em nano-manuscritos mentais sem rebubinagem e ‘deletações’ que a folha em branco preenchida defenestra para inteligibilidade do fluxo arrebatado do turbilhão entrópico. João quer além-livro e relato que comprometa ‘’ a melodia sublime do vai-e-vem das ondas surdas do oceano-mar’’.  Narrar é fracasso confessado pelo descarte que a prática narrativa impõe à utilidade do pouco-fixado do magma difuso de significações desde subdivisão de átomos até insurgência de supernova em ritmo de fótons.

‘’A palavra planosassim mesmo, no pluralera suspeita e dava calafrios em João: mil platôs, soma indiferenciada, presença simultânea de todos sons, signos e urdiduras: alheado das conversas, os rumores

esgarçam de mensagens figurativas com significado unívoco : João refunda certezas desdobráveis em dúvidas que vicejam no solo pluripolar e polinizado de Vacaselva onde ‘’ havia uma árvore para cidadão’’.

Arte e Vida tem mesma composição de vísceras e tessitura duma galáxia, dum buraco negro ou dum gesto, olhar ou cópula. A mandala perceptiva não é circular em sua regularidade, mas fértil em ‘caosmos’, nenhum-nada eloqüente de significado e encantação.

Mesmo descrente João não prescinde da ‘escritura’ :

‘’Quando li as anotações, tive a sensação de ter escrito, criado, uma ponte que ligava nada a lugar nenhum.

E seria uma perda de tempo o leitor caminhar por essa ponte?  - Não se ele a utilizasse para transpor o mar do inferno do vazio. ‘’  Nomear é abortar liberdade de entendimentos além do puramente descrito: ‘’Quanto mais se escreve, vida, menos se descreve.’’ Silenciar é

conceder ao niilismo , segredo de João é abrir o ‘jogoem

Obra Aberta.’  Tudo vai ao encontro do possível desde que aventado, intuído e fenomenologicamente apreendido e validado. É agora o que ouve, rumina e regurgita compondo dialética de detritos compostos e reembaralhados: regras, peças e o próprio tabuleiro são móbiles ‘desfazidos’ e recompostos como ‘’se estivessem numa solitária em movimento’’. O espaço de João, do autor e da escritura é o da imensurável criatividade apartir dum jogo restrito de dados pela razão conflitada

pela reinvenção que se rebela contra essa clausura sem veredas: a objetividade parcamente circundada. João é prenhe do desejo de amalgamar-se ao fluxo, ao inconsútil gosto deslimitado: o campo da consciência exagerada que toma ares da consciência das existências sem reflexo que não sua poetização panteísta: ‘’Tadinhas, pensou, as folhas voam quando morrem, e nem sabem que um dia voaram.’’ João ‘’ é ‘’ as folhas: pela linguagem exacerbada na escritura vivifica e adensa consciência de nossa precariedade.  O romance de Thiago me toca profundamente por dar luz ao experimento da linguagem

na tentativa do ‘’irrealizável’’: buscar outro de mim, sair da ‘’sozinhez’’ e perder-me na desterritorialização que lança além do ‘’ labirinto desta coisa chamadaeu’ e desobrigar-me de ‘’ser protagonista o tempo todo’’,

permitir-me o inconcludente reunindo-me ao ‘’nós’’ de uma ‘’utopia que não se separa do movimento infinito’’

Deleuze explica Thiago: ‘’ Não nos falta comunicação, ao contrário, nós temos comunicação demais, falta-nos criação. Falta-nos resistência ao presente. A criação de conceitos faz apelo por si mesma a uma forma futura, invoca uma nova terra e um povo que não existe ainda.

Não são autores populistas, mas os mais aristocráticos que exigem esse porvir (...) criar é resistir: puros devires, puros acontecimentos sobre um plano de imanência. ‘’

O não-lugar é Vacaselva, João inventor de sentidos gozosos erguidos por rudimentos: ‘’De repente, uma sombra, um soco no âmago (...) João, à beira de um rio, sentindo contrações na alma (...) volta para casa amargando gostos telúricos na boca. Precisa conversar com alguém. É insuportável ruminar infinitos ‘’porquês’’ sozinho.’’  Em seu ‘’Diário’’ , Tolstoi nos oferta suporte para entendimento: ‘’Eu secava no quarto e, fazendo uma volta, aproximei-me do divã e não podia me lembra se o havia secado ou não. Como estes movimentos são habituais e inconscientes, não me lembrava e sentia que era impossível fazê-lo. Então, se sequei e me esqueci, isto é, se agi inconscientemente, era exatamente como se não o tivesse feito. Se alguém conscientemente me tivesse visto, poder-se-ia reconstituir o gesto. Mas se ninguém o viu ou se o viu inconscientemente , se toda a vida complexa de muita gente se desenrola inconscientemente , então é como se esta vida não tivesse sido. ‘’ – Nota de 28/02/1897 citada por Chlovski em ‘’A Arte como Procedimento’’; citação que antecipa exigência de uma Arte que diga da inexistência , testemunhe o impercebido mesmo quando ao personagem ‘’ cada fato insignificante ganhava um peso hediondo na peça de sua vida’’ e relate ser tudo uma ‘’peça onde os atores sabem desde o primeiro ensaio que desfecho terão seus personagens. E ele não fazia idéia de para onde ir. Não havia texto, nem rubrica, nem uma mísera indicação do autor. Não havia sequer um autor.

Tanto fazia ir para frente ou para trás ou ficar estático.’’

A tradição de Bartebly, Cioran ou Bernhardt e Kierkegaard por Camus: ‘’O mais seguro dos mutismo não é calar-se , mas falar.’’  Escriator: a Arte de João é

‘’fingir totalmente, entrar o mais fundo possível em vidas que não são as dele. Ao cabo desse esforço fica clara sua vocação: aplicar-se de corpo e alma a não ser nada ou ser muitos. Quanto mais estreito for o limite que lhe é

dado para criar seu personagem, mais necessário é seu talento’’- (Camus)  O desafio de Thiago Picchi é o grande embate: distender ao máximo impossibilitado os liames da inteligibiliade e elevar a linguagem em estilhaços à um nível de contar-se, estar nos outros, desculpar-se das culpas do interdito e da ausência do inefável.  Thiago perpetua linhagem dos autores que como Burton renovam ‘’As mil e uma noites’’. Borges, no conto ‘’O espelho e a máscara’’, coloca rei e bardo assim: ‘’Travada a batalha de Clontarf, na qual foi humilhado o norueguês, o Alto Rei falou com o poeta e disse:

-         ‘’ As proezas mais ilustres perdem seu brilho se não se as valorizam em palavras. Quero que cantes minha vitória e minha loa. Eu serei Enéias; tu serás meu Virgílio. Acreditas que serás capaz de acontecer essa empresa que nos fará imortais os dois? ‘’

-         - Sim, Rei – disse o poeta. – Eu sou o Ollan. Durante doze invernos cursei as disciplinas da métrica. Sei de memória as trezentas e sessenta fábulas que são a base da verdadeira poesia. ‘’ Ítalo Calvino no clássico ‘’Cidades Invisíveis’’ também visita o arquétipo agora resgatado por Thiago: ‘’Não se sabe se Kublai Khan acredita em tudo o que diz Marco Polo quando este lhe descreve as cidades visitadas em suas missões diplomáticas, mas o imperador dos tártaros certamente continua a ouvir o jovem veneziano com maior curiosidade e atenção do que a qualquer outro de seus enviados ou exploradores.’’ Se em ‘’ rumores’’ João Camargo ‘’emudeceu com a resposta não requisitada de João, e recomeçou a escrever em seu caderno, como se tivesse encontrado nas palavras do empregado a única verdade do mundo que não fosse relativapara quem é profundo, nada é superficial’’, em Calvino, o ‘’Grande Khan tentava concentrar-se no jogo: mas agora era o porquê do jogo que lhe escapava.’’ João e Marco Polo atordoam lúdico hábito de não buscar o prenhe, o mano-molde, o encontradiço resvalado aos não-iniciados na raridade perceptiva. É ao mestre Deleuze que recorro novamente: ‘’Pois o que é, em excesso de um lado, senão um lugar vazio extremamente móvel? E o que está em falta do outro lado não é um objeto muito móvel, ocupante sem lugar, sempre extranumerário e sempre deslocado? Na verdade, nãoelemento mais estranho do que esta coisa de dupla face, de duas ‘’metades’’ desiguais ou ímpares. Como em um jogo, assiste-se à combinação da casa vazia e do deslocamento perpétuo duma peça.’’ – ‘’Lógica do Sentido’’. João para Camargo, para Haya, Joãos para João, João diante feminino Pocahontas: ‘’Pensei em fazer uma história ( várias histórias que ligassem umas nas outras) baseada nas conversas dos outros, que ouvi e deixei de relatar ao meu irmão que não podia sair de casa. Mas o resultado foi uma sucessão de fragmentos desconexos, personagens bidimensionais que nem foram desenvolvidos.’’ Não! esse romance não é um manifesto pós-estruturalista ou de tese:

-         o resenhista quem curte ler de modo parisiense por estar ainda atônito com prazer do texto, capacidade do autor em conectar com hipermodernidade que ainda mal foi ficcionalizada nos trópicos e pela polissemia de intencionalidades que uma narrativa genial provoca desnorteando esse João Camargo às avessas: espelho a quem apetece contorcer-se para contornar o intransponível : leio, foco, agudizo em solipsismos o que me foi ditado em código que se abre em janelas para labirintos refratados. Thiago e João e agora Flávio arregalam olhos, estagnam e seguem feito Murilo Mendes : ‘’Viver a poesia é muito mais importante que escrevê-la.’’ Escrever é ápice dos ‘rumores que conversam alheios’ e que tomamos do abismo. João finge ‘findar’ o romance assim como Murilo: ‘’É necessário conhecer o próprio abismo / E polir para sempre o candelabro que o esclarece.’’ João é moureja, nomadiza o encanto das falsas insignificâncias, João é judeu errante: tem relação de êxodo com realidade que lhe foi imputada. Conhecer seu abismo é primeira grande marca do artista: é preciso ler Thiago Picchi: pilhas Duracell,  a velhinha da aveia Quaker ou design dos frascos de Yakult:

-         tudo é matéria ‘cult-vável’. Thiago é apanhador de pérolas : ‘’rumores’’ é buquê de trevos quadrifolhados

-         rejeita olfato dos que rejeitam aroma celeste do inusitado. Assim como ouço Jamiroquai, Schoenberg, vejo Jim Jarmusch e cultivo quadros de Egon Schiele em minhas retinas mentais, tenho campo neural onde florescem contos de Cortazar, poemas de Renê Char e agorarumoresque profetizam literatura pós-impressa, literatura vívida na sensorialidade dum gosto, gesto, gota, engasgo, lágrima ou pensamento eventualmente sublimado pela letra diagramada que denominarão ‘ palavra’ : trajeto saído do maravilhamento que atalha em sons de sonhos formando linguagem-estrada. Comove ler Blanchot sugestionando o que Thiago realiza: ‘’ procurar enfim suprimir a realidade da existência para distendê-la entre o possível que é sentido e o não-sentido do impossível.’’ O autor que escreveu ‘’rumores’’ nos deve mais e mais livros: não para corroborar o insuperável, mas pelo vício consentido do alhumbramento. ‘’

 

 

[‘’os rumores imprecisos das conversas alheias’’

Thiago Picchi; lançado em dezembro-2006

7 Letras Editora]

 

 

 

Flávio Viegas Amoreira é escritor e crítico literário, lançou 4 livros entre poesia / contos e lança em abril

‘’Edoardo, o Ele de Nós’’, romance.

flavioamoreira@uol.com.br