‘’
OS RUMORES
IMPRECISOS
DAS CONVERSAS
ALHEIAS’’
-
THIAGO
PICCHI, UMA RESENHA-ENSAIO.
Thiago
Picchi é dos mais
instigantes
autores
surgidos pós-2000 : inquietador, tema
importância
daquilo que
sua
prosa
culta
indica: possibilidade de ainda
inovar.
Seu
‘’rumores
imprecisos
das conversas
alheias’’, suscita questionamento
poderoso
da função
da Literatura
num mundo
que
segue imprecavida obsolescência.
Seu
terceiro
livro
vai além
da fixação
num gênero:
é a própria
implosão
de conceitos
estanques
de suportes
narrativos;
contêm
metalinguagem
e enredo
fabular
apartir de elementos
arcanos:
oralidade,
mítica e permanência
dos testemunhos
encadeados por
estórias.
Abstração,
apreensão
e formatação
contida de milhões
de possibilidades simbólicas são
três
etapas
que
o personagem
onipresente
João se utiliza para
suster
impraticável
habilidade
de retenção
do devir:
‘making off’
da busca
do Ser.
Usando ‘estilo
indireto
livre’
o narrador imiscui-se através
dum contraponto
( João Camargo ), de cenas
interpostas e foco
que
se desdobra por
fluxos
de consciência
nos
precavendo da infindável
teia
de narrativas
virtuais ‘recolhíveis’ do
fluxo
condicionado pela
cotidianização do Absurdo
que
se refaz imperceptível,
não
fosse interveniência do autor
implícito
logo
na abertura
admoestar:
‘’Não
seria difícil,
tampouco
fácil,
repetir
os diálogos
que
coletaria sigilosamente nos
lugares
mais
ordinários
da cidade.’’
Thiago expõe âmago
da contemporaneidade: como
reter
frágil
certeza
( provisória
ao menos)
num emaranhado de estilhaços
epistemológicos
: cacos
da incognoscência da hipermodernidade em
mil
platôs
variáveis
conforme
ultrarelativização de perspectivas...
‘’Se você
for capaz
de ouvir
as conversas
e sobre
elas
refletir
o mínimo
necessário
para
editá-las na memória
e reproduzi-las com
fidelidade...’’
– assim João Camargo ,
feito
um
senhor
kafkiano
do ‘’Castelo’’, propõe ao ‘todo-ouvidos’ João, investido
de Scherazade
em
‘Vacaselva’, a metrópole
atópica onde
Camargo investe-se no status
híbrido
de prefeito-governador desse Estado-istmo entre
nada
e nenhum:
toda
parte
em
lugar
resvalando indeterminado
. A trama
deliberadamente lúdica
de colecionar
‘memórias
e situações’
é caoticamente regida sob
signo
da ambigüidade:
tudo
é o que
parece desde
que
nomeado. Alternando disposições
dialógicas com
o leitor-cúmplice, Thiago nos
oferece esboços,
deslocamentos dramáticos
e sumários
intelectivos
do imaginário.
Relato, digressão,
monólogo
interior,
Diário
: ‘’Março’’
‘Quanto
mais
se escreve, vida,
menos
se descreve. Então,
daqui para
frente,
serei cada
vez
menos
verborrágico. Quando
me
perguntarem: ‘Diga, Fulano,
baseado
nos
documentos
– e idade
– que
lhe
aferem o saber,
o que
é a vida?’’,
responderei enxuto
e digno:
-
A
vida
é !’’
-
Thiago
faz Literatura
para
argüir
a Literatura,
sua
validade
ímpar
é preciosa
função
de resignificar a existência
apartir do excesso
de sensibilidade.
Para
quem
se escreve? Qual
substrato
do que
se diz? O que
distingue memória
coletiva,
apropriação
privilegiada e
-
definição
de ícone,
cânone
ou
tradição?
O que
de nosso
é que
se pensa?
Quanto
de nossa
consciência
é
-
poeira
cósmica ou
sinapse metonímica do infindo?
-
Quais
índices
consolidam veracidade, essencialidade e insignificância
conceitual?
Afinal,
o que
‘conta’
para
quem
se conta?
A linguagem
é Lego lidando com
imagens
atomizadas em
miudezas
em
duas camadas
básicas: mundo
real
que
garante emprego
à João e outro
rumoroso
primado
onde
entrechocam-se signos
imprecisos.
João zonza
no universo
amorfo
estoriado num caleidoscópio
de situações
que
dão liga,
entrecho, enfeixam-se num argumento
‘contável’ . João ouvinte
esgota-se no ‘’ desconfortável
travesseiro
de Lego’’- João é Sísifo imagético: sem
trégua
o jogo
joga-se mesmo
na pausa
do personagem-ouvinte para
leitores
duplificados: do autor
obsessivo
pelo
êxito
de João e dos próprios
relatos de João que
não
se findam nem
em
seu
ofício
de ourives
do Caos.
-
O
livro
é epopéia
desafiando em
tríptico:
maratona
do incontornável exercício
de entendimento
do leitor,
autor
e herói
intrincando num remoinho
os três
níveis
de Barthes: ‘’ nível
das funções’’,
onde
se passa
propriamente a História
ou
Fábula
e onde
se situam os elementos
de caracterização
das personagens
e de criação
de atmosferas
ou
ambientes;
‘’o nível
das ações’’
, os personagens
enquanto
agente
dos núcleos
funcionais
e o ‘’nível
da narração’’,
unindo os dois
eixos
e onde
a persona verbal
definir
quem
narra , prima
/ terceira
pessoas
ou
miríade
de vocalizadores. Thiago minimal- maestro
ao expor
polifonia de interlocutores
pela
‘infinitização’ de pontos
de vista
do catálogo
de nano-sensações projetadas e perpassadas por
João, ‘adivinhando pensamentos’
ou
‘classificando silêncios’.
A Odisséia
de João é fulcro
da trajetória
do linguagem,
da hiper-consciência , da permanência
do humano
feito
testemunha
alongando tênue
presentificação do fugaz.
Impressiona na obra
a capacidade
de transmitir
‘prazer’
e ‘fruição’:
Thiago decompõem limites
da narração
linear,
oferece enredo
e retrata
metaforicamente ( intencionalmente
ou
não)
-
reflexões
estéticas
e semiológicas do pós-estruturalismo: cartografia
da desconstrução, ‘’rumores’’
nos
remete ao ‘’Fedro’’ de Platão e ‘’Pharmakhon’’ de Derrida: a
escritura
como
antídoto
e veneno.
João é Thoth, ‘inventor’
da escrita
diante
dum Deus-Rei Tamuz atônito
com
limites
da palavra.
‘Quando
chegaram à escrita,
disse Thoth: Esta arte,
caro
rei,
tornará os egípcios mais
sábios
e lhes
fortalecerá a memória;
portanto
com
a escrita
inventei um
grande
auxiliar
para
a memória
e a sabedoria.’
-
Responde
Tamuz: ‘Grande
artista
Thoth! Não
é a mesma
coisa
inventar
uma arte
e julgar
da utilidade
ou
prejuízo
que
advirá aos que
a exercerem. Tu,
como
pai
da escrita,
esperas
dela com
o teu
entusiasmo
precisamente
o contrário
do que
ela
pode fazer.
Tal
coisa
tornará os homens
esquecidos, pois
deixarão de cultivar
a memória;
confiando apenas
nos
livros
escritos,
só
se lembrarão de um
assunto
exteriormente
e por
meio
de sinais,
e não
em
si
mesmos.’
João vai em
busca
de ‘Logos’:
discernimento,
mimetismo,
afirmação , se assenhora da superfície
pelos
sentidos
das coisas
‘zumbidas’ e acaba por
extraviar-se na desrazão das sensações
‘irreproduzíveis’. João escapa
em
desvario
fanopaico do ‘ethos’ empírico-utilitarista de João Camargo, - João destrona
logos-Pai e parte
só
para
aventura
da escritura
entregue,
desesperadamente disponível,
desprovido
de síntese,
palavra
que
encerra
permeando,rumo
sem-sentido das imanências alumiadas e não-fixáveis : João condenado ao
ofício
literário
mesmo
indisposto
com
papel
impresso:
João é além
de Sísifo, Thoth e Prometeu acorrentado ao lascivo
‘lego’ da significação errante.
Diz Derrida: ‘’Distinguindo-se de seu
outro,
Thot também
o imita, torna-se seu
signo
e representante, obedece-lhe, ‘conforma-se’ a ele,
o substitui, quando
preciso,
por
violência.
Ele
é, pois,
o outro
do pai,
o pai
e o movimento
subversivo
da substituição.
O deus
da escritura
é portanto,
de uma só
vez,
seu
pai,
seu
filho
e ele
próprio.
Ele
não
deixa
assinalar
um
lugar
fixo
no jogo
das diferenças.
Astucioso,
inapreensível,
mascarado, conspirador, farsante,
como
Hermes, não
é nem
um
rei
nem
um
valete;
uma espécie
de ‘joker’, isso
sim,
um
significante
disponível,
uma carta
neutra,
dando jogo
ao jogo
(...) ele
é outro
que
o sol
e o mesmo
que
ele;
outro
que
o bem
e o mesmo
que
ele.
Tomando sempre
o lugar
que
não
é o seu,
e que
pode chamar
também
o lugar
do morto,
ele
não
tem lugar
nem
nome
próprios.’’
-
João
é esse
que
tenta
abarcar
o que
seja ‘mundo’
mesmo
resignado
‘conformar-se’ que
‘mundo’
seja ‘palavra’
– ‘’ sonora,
por
certo,
mas
ainda
sim
uma palavrinha de cinco
letras!
‘’
Não!
Thiago não
teoriza a linguagem,
a questiona arrebatando com
estilística
culta
que
caracteriza
a
retomada
da Alta
Literatura:
músico,
ator,
tem relação
assustadoramente
visceral com
as tradições
e as vanguardas:
é escritor
que
reenceta alinhavando o transmudado
o retecido. Leio ‘rumores’
feito
João e revejo preciosos
ecos
de Gogol, Mellville, O. Henry, Saki,
Pirandello,
Borges, Cortazar, Calvino e nossos
Campos
de Carvalho
e Samuel Rawett: fantástico
em
Picchi é o despercebido
pelos
não
acometidos pela
atordoante sensibilidade
exarcebada. O escritor
cria
situações
como
quem
manieta títeres
num laboratório
esmiuçando
o
inconsciente
desambientado: o livro
é casa
onde
o absurdo
estagia, aclimata, se concretiza enquanto
é o que
se formata. ‘’Rumores’’
são
imensidão:
concha
enviesada. Nenhum
arroubo
sintático,
paroxismo
experimental: o valor
de sua
trama
esta na originalíssima disponência conteudal de açambarcar
máximo
de efeito
recheado de profundo
resultado
intelectual
e percuciência ontológica.
‘’rumores’’
é o que
excede: além
dos constructos psicológicos
e ambientações prosaicas, Thiago nos
oferece elementos
metafísicos
atemporais
e arquétipos
além
do puramente
psicológico:
antecedentes
da consciência,
cosmogonias imbricadas no cotidiano,
aspectos
esquizóides travestidos de realidade
normativa e imersão
no onírico
silente e impressentido na vigília
atordoante dos acontecimentos
reduzidos à prosaica
funcionalidade. O escritor
é testemunha
do impossibilitado: refém
do inacontecido, inventariante
do refugo
descartado; João é sutil
e poderosamente
um
inadequado: ‘’Por
que
não
conseguia ser
como
João Camargo, que
jamais
se dispersava de seu
trabalho?
Por
que
não
conseguia pensar
em
apenas
uma coisa
de cada
vez,
de preferência
em
algo
que
fosse útil
para
a humanidade,
ou
pelo
menos
para
sua
realização
pessoal,
como
o projeto
da cadeira?
Mas
era
inútil
concentrar-se em
algo
construtivo.
‘’ O que
é útil?
o
que
é real-verdadeiro? o discurso
dessa escritura
porvir
é de novo
profetizado por
mestre
Derrida: ‘’ A verdade
desaparece como
presença,
o se furtar
da origem
presente
da presença
é a condição
de toda
(manifestação
de) verdade.
A não-verdade é a verdade.
A não
presença
é a presença
(...) o ente-presente se duplica desde
que
se apresenta e perde-se , dispersa-se, multiplica-se por
mimemas, ícones,
fantasmas,
simulacros’’
. A realidade,
o mundo
que
atemoriza tanto
de grande
e mundo
se corporifica é o universo
das não-essencialidades: mas
devir
sensível
da não-idealidade do Parque
Ermo,
das Esquinas
Questionadoras, atonalidades
no bordel
Ama-Zonas. ‘’Quem
precisa
de dúvidas?’’
num ‘’universo
das relativizações’’ se para
João e para
o
‘’
sujeito
que
a tudo
questiona, tanto
faz afirmar...’’
no
paradoxo
em
que
se instaura primado
de ambigüidades
, ‘’ João estava ávido
por
certezas
conciliadoras’’ , quando
Thiago revoga axiomas
e assertivas incorporando reinado
de assíndetos e oxímoros entre
paradigmas
fluídos crendo na ‘’organização
do acaso.’’
O autor
apresentou prosódia
particular
em
seu
primeiro
livro-solo ‘’O Papagaio
& Outras Músicas’’
e abre Obra-necessária apartir de efeito
duradouro
: ‘’rumores’’
é ‘’filosofia
da composição’’
(Põe) em
andamento
: ‘’ campo
semântico’’,
‘’ constelação
associativa’’ ou
‘’campo
nocional’’ para
destinatário
‘’impreciso’’
e ‘’ multiplicado’’ por
translações
conotativas que
se utiliza da ordem
aparente
para
reverberar
significados
de fecundidade
sonora
e provocação
imagética em
desaprumo,
dissolvência sem
diluição,
retenção
mínima
em
concretude do irreparável,
irreproduzível e do indissociável
ao movimento
implodindo causalidade e linearidade
na aparência
de uma estória
casual
e plausível
: João contratado desconstrói intenção
de ‘narratibilidade’ e convenção
comunicacional de Camargo: é lego versus
logos,
a instauração do ‘jogo-enquanto-o-que-se-joga’: o ganho
no que
se lança
em
enigmas
rumorosos
além-probabilidades iluminados pelo
não-senso da existência.
A vida
só
se realiza enquanto
‘artisticidade’, estetização do prosaico,
miraculosa
‘subjetivização’ dos objetos
em
transe
.
Thiago
investe contra
instaurado pelo
dito-escrito através
da insurgência
do ‘escriturável’ mesmo
que
ainda
não
‘escrevível’. ‘’Hoje
desisti, de bom
grado,
do oficio inútil
de escritor.
Nada
contra
a palavra
bruta,
sonora,
e sim
contra
a palavra
escrita.
Afortunadamente
testemunhei cenas
tão
sublimes,
que
nada
tinham a ver- por
mais
que
me
esforçasse -, com
essa representação
gráfica
chamada
escrita
(...) Mas
hoje
acordei ‘puro
e disposto
a subir
às estrelas.
Enquanto
estiver no Paraíso
Terrestre,
devo fazer
como
Beatriz, olhar
fixamente
para
o sol.
Preciso,
como
qualquer
um
que
almeje uma sabedoria
digna,
como
qualquer
um
que
almeje uma sabedoria
digna,
como
qualquer
ordinário
virtuoso,
cegar-me para
enxergar
de verdade.
Libertar-me dos rabiscos
das bulas
descritivas que
apenas
me
distraem e afastam Dele. Sol,
de hoje
em
diante
serei seu
adorador!
Na verdade,
contemplando-o diretamente
, todos
os dias,
não
espero me
cegar,
e sim,
adquirir
uma nova
capacidade
visual,
adequada ao meio
imaterial
feito
de pura
luz
onde
Ele
vive.’’ – A linguagem
descrevível haurida e virtualmente
‘contável’ advinda da transcendência
imantada no imanente
impercebido não
ser
pelo
cérebro-máquina de registrar
narrativas
tópicas perpassando epidérmica e animicamente sensacionismo de João transmutado
em
livro-livre-andante. A palavra
escrita
é staccatto , congelamento
de zilhões
de insights
que
se contam em
nano-manuscritos mentais
sem
rebubinagem e ‘deletações’ que
a folha
em
branco
preenchida defenestra para
inteligibilidade do fluxo
arrebatado do turbilhão
entrópico. João quer
além-livro e relato que
comprometa ‘’ a melodia
sublime
do vai-e-vem das ondas
surdas do oceano-mar’’.
Narrar
é fracasso
confessado pelo
descarte
que
a prática
narrativa
impõe à utilidade
do pouco-fixado do magma
difuso
de significações desde
subdivisão
de átomos
até
insurgência
de supernova
em
ritmo
de fótons.
‘’A
palavra
planos
– assim
mesmo,
no plural
– era
suspeita
e dava calafrios
em
João: mil
platôs,
soma
indiferenciada, presença
simultânea
de todos
sons,
signos
e urdiduras:
alheado das conversas,
os rumores
esgarçam
de mensagens
figurativas com
significado
unívoco
: João refunda certezas
desdobráveis em
dúvidas
que
vicejam no solo
pluripolar e polinizado de Vacaselva onde
‘’ havia uma árvore
para
cidadão’’.
Arte
e Vida
tem mesma
composição
de vísceras
e tessitura
duma galáxia,
dum buraco
negro
ou
dum gesto,
olhar
ou
cópula.
A mandala perceptiva
não
é circular
em
sua
regularidade, mas
fértil
em
‘caosmos’, nenhum-nada eloqüente
de significado
e encantação.
Mesmo
descrente
João não
prescinde da ‘escritura’
:
‘’Quando
li as anotações, tive a sensação
de ter
escrito,
criado,
uma ponte
que
ligava nada
a lugar
nenhum.
E
seria uma perda
de tempo
o leitor
caminhar
por
essa ponte? - Não
se ele
a utilizasse para
transpor
o mar
do inferno
do vazio.
‘’ Nomear
é abortar
liberdade
de entendimentos
além
do puramente
descrito: ‘’Quanto
mais
se escreve, vida,
menos
se descreve.’’ Silenciar
é
conceder
ao niilismo
, segredo
de João é abrir
o ‘jogo’
em
‘Obra
Aberta.’ Tudo
vai ao encontro
do possível
desde
que
aventado, intuído e fenomenologicamente apreendido
e validado. É agora
o que
ouve, rumina e regurgita compondo dialética
de detritos
compostos
e reembaralhados: regras,
peças
e o próprio
tabuleiro
são
móbiles
‘desfazidos’ e recompostos como
‘’se estivessem numa solitária
em
movimento’’.
O espaço
de João, do autor
e da escritura
é o da imensurável
criatividade
apartir dum jogo
restrito de dados
pela
razão
conflitada
pela
reinvenção que
se rebela contra
essa clausura
sem
veredas:
a objetividade
parcamente
circundada. João é prenhe
do desejo
de amalgamar-se ao fluxo,
ao inconsútil
gosto
deslimitado: o campo
da consciência
exagerada que
toma
ares
da consciência
das existências
sem
reflexo
que
não
sua
poetização panteísta:
‘’Tadinhas, pensou, as folhas
só
voam quando
morrem, e nem
sabem que
um
dia
voaram.’’ João ‘’ é ‘’ as folhas:
pela
linguagem
exacerbada na escritura
vivifica e adensa consciência
de nossa
precariedade. O romance
de Thiago me
toca
profundamente
por
dar
luz
ao experimento
da linguagem
na
tentativa
do ‘’irrealizável’’:
buscar
outro
de mim,
sair
da ‘’sozinhez’’ e perder-me na desterritorialização que
lança
além
do ‘’ labirinto
desta coisa
chamada
‘eu’
e desobrigar-me de ‘’ser
protagonista
o tempo
todo’’,
permitir-me
o inconcludente
reunindo-me ao ‘’nós’’
de uma ‘’utopia
que
não
se separa do movimento
infinito’’
Deleuze
explica Thiago: ‘’ Não
nos
falta
comunicação,
ao contrário,
nós
temos comunicação
demais,
falta-nos criação.
Falta-nos resistência
ao presente.
A criação
de conceitos
faz apelo
por
si
mesma
a uma forma
futura,
invoca uma nova
terra
e um
povo
que
não
existe ainda.
Não
são
autores
populistas, mas
os mais
aristocráticos que
exigem esse
porvir
(...) criar
é resistir:
puros
devires, puros
acontecimentos
sobre
um
plano
de imanência. ‘’
O
não-lugar é Vacaselva, João inventor
de sentidos
gozosos
erguidos por
rudimentos:
‘’De repente,
uma sombra,
um
soco
no âmago
(...) João, à beira
de um
rio,
sentindo contrações
na alma
(...) volta
para
casa
amargando gostos
telúricos
na boca.
Precisa
conversar
com
alguém.
É insuportável
ruminar
infinitos
‘’porquês’’
sozinho.’’ Em
seu
‘’Diário’’
, Tolstoi nos
oferta
suporte
para
entendimento:
‘’Eu
secava no quarto
e, fazendo uma volta,
aproximei-me do divã
e não
podia me
lembra se o havia secado ou
não.
Como
estes
movimentos
são
habituais
e inconscientes,
não
me
lembrava e sentia que
era
impossível
fazê-lo. Então,
se sequei e me
esqueci, isto
é, se agi inconscientemente,
era
exatamente
como
se não
o tivesse feito.
Se alguém
conscientemente
me
tivesse visto,
poder-se-ia reconstituir
o gesto.
Mas
se ninguém
o viu ou
se o viu inconscientemente
, se toda
a vida
complexa
de muita
gente
se desenrola inconscientemente
, então
é como
se esta vida
não
tivesse sido. ‘’ – Nota
de 28/02/1897 citada por
Chlovski em
‘’A Arte
como
Procedimento’’; citação
que
antecipa exigência
de uma Arte
que
diga da inexistência
, testemunhe o impercebido mesmo
quando
ao personagem
‘’ cada
fato
insignificante
ganhava um
peso
hediondo
na peça
de sua
vida’’
e relate ser
tudo
uma ‘’peça
onde
os atores
sabem desde
o primeiro
ensaio
que
desfecho
terão seus
personagens.
E ele
não
fazia idéia
de para
onde
ir.
Não
havia texto,
nem
rubrica,
nem
uma mísera
indicação
do autor.
Não
havia sequer
um
autor.
Tanto
fazia ir
para
frente
ou
para
trás
ou
ficar
estático.’’
A
tradição
de Bartebly, Cioran ou
Bernhardt e Kierkegaard por
Camus: ‘’O mais
seguro
dos mutismo
não
é calar-se , mas
falar.’’ Escriator: a Arte
de João é
‘’fingir
totalmente,
entrar
o mais
fundo
possível
em
vidas
que
não
são
as dele. Ao cabo
desse esforço
fica clara
sua
vocação:
aplicar-se de corpo
e alma
a não
ser
nada
ou
ser
muitos.
Quanto
mais
estreito
for o limite
que
lhe
é
dado
para
criar
seu
personagem,
mais
necessário
é seu
talento’’-
(Camus) O desafio
de Thiago Picchi é o grande
embate:
distender
ao máximo
impossibilitado os liames
da inteligibiliade e elevar
a linguagem
em
estilhaços
à um
nível
de contar-se, estar
nos
outros,
desculpar-se das culpas
do interdito
e da ausência
do inefável. Thiago perpetua linhagem
dos autores
que
como
Burton renovam ‘’As mil
e uma noites’’.
Borges, no conto
‘’O espelho
e a máscara’’,
coloca rei
e bardo
assim:
‘’Travada a batalha
de Clontarf, na qual
foi humilhado o norueguês, o Alto
Rei
falou com
o poeta
e disse:
-
‘’
As proezas
mais
ilustres
perdem seu
brilho
se não
se as valorizam em
palavras.
Quero que
cantes minha
vitória
e minha
loa.
Eu
serei Enéias; tu
serás meu
Virgílio. Acreditas que
serás capaz
de acontecer
essa empresa
que
nos
fará imortais
os dois?
‘’
-
-
Sim,
Rei
– disse o poeta.
– Eu
sou o Ollan. Durante
doze invernos
cursei as disciplinas
da métrica.
Sei de memória
as trezentas e sessenta fábulas
que
são
a base
da verdadeira poesia.
‘’ Ítalo Calvino no clássico
‘’Cidades
Invisíveis’’
também
visita
o arquétipo
agora
resgatado por
Thiago: ‘’Não
se sabe se Kublai Khan acredita em
tudo
o que
diz Marco
Polo quando
este
lhe
descreve as cidades
visitadas em
suas
missões
diplomáticas, mas
o imperador
dos tártaros
certamente
continua a ouvir
o jovem
veneziano
com
maior
curiosidade
e atenção
do que
a qualquer
outro
de seus
enviados
ou
exploradores.’’
Se em
‘’ rumores’’
João Camargo ‘’emudeceu com
a resposta
não
requisitada de João, e recomeçou a escrever
em
seu
caderno,
como
se tivesse encontrado nas palavras
do empregado
a única
verdade
do mundo
que
não
fosse relativa
– para
quem
é profundo,
nada
é superficial’’,
em
Calvino, o ‘’Grande
Khan tentava concentrar-se no jogo:
mas
agora
era
o porquê
do jogo
que
lhe
escapava.’’ João e Marco
Polo atordoam lúdico
hábito
de não
buscar
o prenhe,
o mano-molde, o encontradiço
resvalado aos não-iniciados na raridade
perceptiva.
É ao mestre
Deleuze que
recorro novamente:
‘’Pois
o que
é, em
excesso
de um
lado,
senão
um
lugar
vazio
extremamente
móvel?
E o que
está em
falta
do outro
lado
não
é um
objeto
muito
móvel,
ocupante
sem
lugar,
sempre
extranumerário e sempre
deslocado? Na verdade,
não
há elemento
mais
estranho
do que
esta coisa
de dupla
face,
de duas ‘’metades’’
desiguais
ou
ímpares.
Como
em
um
jogo,
assiste-se à combinação
da casa
vazia
e do deslocamento
perpétuo
duma peça.’’
– ‘’Lógica
do Sentido’’.
João para
Camargo, para
Haya, Joãos para
João, João diante
feminino
Pocahontas: ‘’Pensei em
fazer
uma história
( várias histórias
que
ligassem umas nas outras) baseada
nas conversas
dos outros,
que
ouvi e deixei de relatar
ao meu
irmão
que
não
podia sair
de casa.
Mas
o resultado
foi uma sucessão
de fragmentos
desconexos,
personagens
bidimensionais que
nem
foram desenvolvidos.’’
Não!
esse
romance
não
é um
manifesto
pós-estruturalista ou
de tese:
-
o
resenhista quem
curte ler
de modo
parisiense
por
estar
ainda
atônito
com
prazer
do texto,
capacidade
do autor
em
conectar
com
hipermodernidade que
ainda
mal
foi ficcionalizada nos
trópicos
e pela
polissemia de intencionalidades que
uma narrativa
genial
provoca desnorteando esse
João Camargo às avessas:
espelho
a quem
apetece contorcer-se para
contornar
o intransponível
: leio, foco,
agudizo em
solipsismos o que
me
foi ditado
em
código
que
se abre em
janelas
para
labirintos
refratados. Thiago e João e agora
Flávio arregalam olhos,
estagnam e seguem feito
Murilo Mendes : ‘’Viver
a poesia
é muito
mais
importante
que
escrevê-la.’’ Escrever
é ápice
dos ‘rumores
que
conversam alheios’
e que
tomamos do abismo.
João finge ‘findar’
o romance
assim
como
Murilo: ‘’É necessário
conhecer
o próprio
abismo
/ E polir
para
sempre
o candelabro
que
o esclarece.’’ João é moureja, nomadiza o encanto
das falsas insignificâncias,
João é judeu
errante:
tem relação
de êxodo com
realidade
que
lhe
foi imputada. Conhecer
seu
abismo
é primeira
grande
marca
do artista:
é preciso
ler
Thiago Picchi: pilhas
Duracell, a velhinha da
aveia
Quaker ou
design
dos frascos
de Yakult:
-
tudo
é matéria
‘cult-vável’. Thiago é apanhador de pérolas
: ‘’rumores’’
é buquê
de trevos
quadrifolhados
-
rejeita
olfato
dos que
rejeitam aroma
celeste
do inusitado.
Assim
como
ouço Jamiroquai, Schoenberg, vejo Jim Jarmusch e cultivo
quadros
de Egon Schiele em
minhas
retinas
mentais,
tenho campo
neural
onde
florescem contos
de Cortazar, poemas
de Renê Char e agora
‘rumores’
que
profetizam literatura
pós-impressa, literatura
vívida
na sensorialidade dum gosto,
gesto,
gota,
engasgo,
lágrima
ou
pensamento
eventualmente
sublimado pela
letra
diagramada que
denominarão ‘ palavra’
: trajeto
saído
do maravilhamento que
atalha
em
sons
de sonhos
formando linguagem-estrada. Comove ler
Blanchot sugestionando o que
Thiago realiza: ‘’ procurar
enfim
suprimir
a realidade
da existência
para
distendê-la entre
o possível
que
é sentido
e o não-sentido do impossível.’’
O autor
que
escreveu ‘’rumores’’
nos
deve mais
e mais
livros:
não
para
corroborar
o insuperável,
mas
pelo
vício
consentido do alhumbramento. ‘’
[‘’os
rumores
imprecisos
das conversas
alheias’’
Thiago
Picchi; lançado em
dezembro-2006
7
Letras
Editora]
Flávio
Viegas Amoreira
é escritor
e crítico
literário,
já
lançou 4 livros
entre
poesia
/ contos
e lança
em
abril
‘’Edoardo, o Ele
de Nós’’,
romance.
flavioamoreira@uol.com.br