Meiotom - resenha


 

CONTOS NEGREIROS DE MARCELINO FREIRE

FLÁVIO AMOREIRA

Jornal A União, PB, 23/11/07
 
Texto Sentido
 
André Ricardo Aguiar*
 
O novo livro de poemas de Lau Siqueira, Texto Sentido, é uma pergunta: com que intensidade vida e arte podem seguir adiante?  Também são outras coisas: inventário de espantos, armação de nuvens, legado, baú. Depois é uma resposta feliz. Está na cara, em cada página. Quando se é poeta, é e pronto. Sem teses, sem tribos, sem rótulos. O que o seu livro é, incontestável: trabalho consciente com a linguagem. O que não é: plataforma de estéreis discussões. O leitor pode ter cem olhos ou pode ser míope, pode enxergar uma paisagem ou uma fechadura. Mas o livro está aí. E Lau traz abertamente um diálogo com seus viventes, seu jeito de mirar e acertar o alvo. Quintana, Leminski, Bashô, Augusto, Gisnberg, Pessoa. Como um cubo mágico, o que se gira cria outros problemas, sugere infinitas soluções.
 
Vem daí que em Texto Sentido Lau alterna os pólos, ora soa mínimo e exato, ora derruba a taça e espraia versos, arriscando soar verboso – embora não soe, pois está senhor do ritmo. Em alguns momentos as metáforas dão conta da beleza – e se sustentam só por isso, sem indicar o caminho: “os ventos são algazarras/ do infinito/ em nossos (...)”
 
Se há um projeto visível neste livro é o da diversidade: aliás, não há melhor resposta para a “inutilidade” da poesia. Ela é ciência das coisas que não se capturam por lógica e classificação. “ vastidão é um [átomo”, vaticina o poeta. Sob este aspecto, mesmo que fosse um logro – e qual livro não vacila no fio que separa o joio do trigo? – Texto Sentido toca adiante suas dissonâncias e harmonias: “Estirando/ espinhos para o mundo/ um cacto resiste”.
 
Lau Siqueira tem uma trajetória pautada na resistência. Faz porque quer fazer, porque gosta e porque tem consciência de linguagem.  Namora com o texto solto, de grande fôlego enquanto pisca o olho para a noção espacial de que a página é uma arena que comporta funções. Faz dos poemas quartos de pensar, de ir seguindo em frente, de estruturar e decidir o que é relevo, o que é ranhura. Tudo faz mais sentido do que pedir licença para um ou para outro para exercer um rótulo. E isto Texto Sentido parece não aceitar. Daí soar honesto nas  qualidades e defeitos.
 
*André Ricardo Aguiar é jornalista e poeta e escreve às sextas-feiras para o jornal A União.



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"Não terei medo de dez milhares de pessoas que se puserem contra mim ao meu redor". Salmo 3