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POESIAS VENCEDORAS I CONCURSO A VOZ
DA POESIA
Primeiro Lugar:
DÁDIVA
Autora: Lílian Maial
Quisera
ofertar-te
o vôo dos pássaros,
o momento do nascimento,
o segundo antes do beijo,
o sonho que precede o adormecer.
Quisera entregar-te
os olhos baços,
o arrependimento,
o leite de cada seio,
o pôr-do-sol e o amanhecer.
Quisera dar-te
as quatro estações,
as cerimoniosas fases da lua,
a Vênus de Millus inteiramente nua,
a neve caindo ao alvorecer.
Quisera doar-me a ti por inteiro,
pela eternidade do instante,
colher-te os frutos,
semear-te os versos
e cantar-te o amor
[que sinto].
Quisera, apenas quisera,
acompanhar-te, em silêncio, pela vida,
calar as vozes que perturbam teu sono,
deitar-me à tua sombra
de frondoso tronco.
Quisera fazer-te brisa e flor do campo
e deixar que despertasses
com meu nome nos lábios
- única palavra em teu vernáculo -
a me sorrir,
presente.
Segundo Lugar:
ESPEREI POR TI
Autor: Alfonso Bruno António Serrano
Esperei por ti, mil noites... mil dias;
Percorri cem vezes os mesmos caminhos,
Procurei e estudei dez magias...
Na inquieta ânsia de ter um só dos teus carinhos...
Esperei por ti, como uma linda flor espera o sol
Como o mar espera seu rio...
Mas a esperança é humana, e também em noite decaiu!
Era noite escura todo o dia
Todo o céu se tornara repugnante,
Tudo o que a alma fascina perdera a alegria;
Tudo me afligia...caía... Afundando-me em meu estado errante!
Mas numa noite de luar
De novo vi luz, de novo me ergui...
Vieste! Voltaste! Ah... Estrela de mil cores!
Depois de tantas noites escuras em claro
Tantos sofredores suspiros em vão
Tu voltaste, agora para sempre, meu brilho
Que do céu fazes mar, que fazes da noite dia!
Tantos anos sem ti, tiraram-me tanta vida, tanta cor
Mas em ti ainda acho mais beleza.
Ah... Amor, vem... Mostra-me de novo o Mundo e toda a Natureza!
TERCEIRO LUGAR:
SILÊNCIO DAS PESSOAS
Autor: Paulo César Camilo Jorge
E é assim...
É no calar das vozes,
Que ouço o que quero ouvir.
É nesse silêncio de pessoas,
Que o meu sentimento se perpetua...
Sinto que preciso estar só,
Num vazio de vozes, num vazio de seres,
Repleto de uma paz calada...
Sem horas para determinar um tempo,
Sem vícios eletrônicos para ocultar um medo,
Sem cheiros para instigar a fome,
Sem beleza para provocar o desejo.
E é assim...
Que ouço o que quero ouvir.
É nesse silêncio de vozes,
Que a minha voz se perpetua...
Sinto que preciso falar para dentro,
E o meu interior repleto de mim...
Sem agenda para estipular horários,
Sem vitórias para não haver derrotas,
Sem variedades para não criar opções,
Sem títulos para impor posições.
E é assim...
É no calar das vozes,
Que ouço o que quero ouvir.
QUARTO
LUGAR:
O TEMPO EM QUE TOMÁVAMOS CAFÉ
Autor: Rúbio Rocha de Sousa
Lá, junto à
tangerineira,
Meu pai rachava lenha
Agachado, eu ficava absorvido
Com aquela destreza de
Levantar
E
Descer o machado: o corte preciso
Eu queria crescer, aprender aquela arte
Depois, meu pai encostava o machado
No tronco da pequena tangerineira
Eu levava os pauzinhos de lenha
Para a cozinha, um de cada vez: eu era pequeno
Minha avó, no velho fogão, arrumava os paus e gravetos,
Derramava um pouquinho de querosene
Um fósforo... Estava o fogo aceso!
Eu queria crescer, aprender aquela arte
Sobre a chapa, o bule. Dentro do bule, a água fervendo
Era só colocar algumas colheres de pó de café e açúcar
Depois, o café sendo coado...
A fumacinha esvaindo-se, as xícaras sobre a mesa
O bico do bule entornando o cafezinho fresco
Eu queria crescer, aprender aquela arte.
Tia Valdecira lavava a louça
E ficávamos conversando, rindo...
Meu avô, no canto, reclamava que o café estava muito doce
Lá na estrada, passavam, em seus jumentos, cavalos, burros
Outros camponeses: acenavam, davam bom-dia, boa-tarde...
Respondíamos todos a um mesmo tempo.
Ah, mas só hoje é que sinto a leveza dos pauzinhos de lenha
O sabor daquele café sem igual,
Só hoje é que vejo a fumacinha subindo da xícara
As pessoas passado na estrada e acenando,
Que ouço o crepitar dos paus e gravetos,
Aquelas velhas conversas à mesa, entre um gole e outro...
Mas hoje sou apenas um café frio na cafeteira
Ali no canto, há um banquinho imóvel e mudo
Não ouvimos mais as reclamações de meu avô
Minha tia não está mais aqui para lavar a louça
Já não há mais a velha tangerineira
Para se encostar o machado
Que também não existe mais
Nem tão pouco há mais bule e o fogão de lenha
Bebemos o café silenciosamente, calados
Esse café por mais doce, sempre amargo.
Às vezes, uma palavra ou outra
Para vomitarmos um pouco o silêncio que os engole.
E só hoje é que eu queria
Carregar os pauzinhos de lenha,
Um de cada vez.
QUINTO LUGAR:
ESSÊNCIA
Autor: Ronaldo Malta
Calarei a voz
Quando houver a razão
Abrirei as portas
Da verdade
Se o motivo for saudade
Guardarei no fundo a
Intimidade
E deixarei surgir
O amor
Adormecido na dor
Que ficará no mundo
E levarei apenas
A essência
Do que restou de um
Sonho. |