Meiotom - CONCURSO - RESULTADO

PRÊMIO OFF FLIP DIVULGA VENCEDORES
 

Estão definidos os seis vencedores do I Prêmio OFF FLIP de Literatura. O Inscreveram-se quase 200 autores de todas as regiões do país e também do exterior, estando representados 15 estados brasileiros. O gênero escolhido este ano foi poesia e os textos versaram sobre o tema: TERRA. O Prêmio será anual e conta com o apoio da Secretaria de Turismo e Cultura de Paraty.

Os poemas inscritos na categoria nacional foram avaliados por escritores de expressão no cenário literário brasileiro: Braulio Tavares (RJ), Fausto Fawcett (RJ) e Micheliny Verunschk (SP). Os inscritos na categoria local foram avaliados por cinco pessoas de destaque no contexto artístico-cultural de Paraty: Diuner Mello, Irma Zambrotti, Maria José Rameck, Maritza Bonn e Zezito Freire.

Para Ovídio Poli Junior, diretor da programação literária da OFF FLIP 2006, o prêmio nasce como importante referência no meio literário em virtude da representatividade da comissão julgadora e da grande visibilidade que a FLIP e a OFF FLIP oferecem:

“Em 2007 o gênero será conto e temos a intenção de estender as inscrições aos países lusófonos e a autores de qualquer nacionalidade que escrevam em língua portuguesa. É importante que o prêmio se consolide junto à comunidade lusófona. Amplia-se a abrangência do prêmio e abrem-se caminhos para que mais autores tenham oportunidade de expor o seu trabalho em um encontro internacional dedicado à literatura como é a FLIP e como este ano passou a ser também a OFF FLIP, que teve entre seus convidados dois escritores estrangeiros - Faïza Guène e Uzodinma Iweala, este último também convidado da FLIP. Outros três escritores convidados pela FLIP também estiveram na programação da OFF FLIP 2006: Alberto da Costa e Silva (membro da ABL), André Laurentino e Marcelino Freire (vencedor do Prêmio Jabuti deste ano na categoria conto)”, afirmou.

Os três poemas vencedores em cada categoria estão reproduzidos logo abaixo e serão publicados em uma antologia comemorativa aos 40 anos da Editora Nova Fronteira. Os três autores premiados na categoria nacional foram contemplados com estadia gratuita em Paraty entre 9 e 13 de agosto e os dez poemas finalistas foram expostos na sede da OFF FLIP durante o evento. A classificação final foi divulgada no dia 12 de agosto no Villas de Paraty Pousada e o primeiro colocado em cada categoria recebeu um prêmio surpresa durante a cerimônia de premiação - uma caixa com 40 livros da “Coleção 40 clássicos”, editada pela Nova Fronteira. A Biblioteca Municipal Fabio Villaboim de Paraty também recebeu uma coleção completa. No dia 13 houve um almoço com os seis premiados no restaurante Ilha Rasa, situado na baía de Paraty.

 
 

OS 10 FINALISTAS DO I PRÊMIO OFF FLIP DE LITERATURA

FINALISTAS CATEGORIA NACIONAL

 

Nome do autor

Título do poema

Cidade

UF

1

Edson Bueno de Camargo

De um fragmento

Mauá

SP

2

Sérgio Bernardo

Ciclo

Nova Friburgo

RJ

3

José Carlos Mendes Brandão

Bueno Brandão, MG

Bauru

SP

4

Jorge Gonçalves de Oliveira Jr [Jorge de Barros]

Há rostos como se fossem calcanhares

Mauá

SP

5

Marcos Pamplona

A sombra na terra

Curitiba

PR

6

Luiz Carlos de Moura Azevedo

O tamanho das formigas

São Paulo

SP

7

Maria Eneida Soares Coaracy

Olho de ciclone

Brasília

DF

FINALISTAS CATEGORIA LOCAL

 

Nome do autor

Título do poema

Cidade

UF

1

Jacira Angélica Teixeira [Jacira Diniz]

Ciclo

Paraty

RJ

2

Jorge Adolfo da Silva Cypriano

Terra

Paraty

RJ

3

Marcos Irine

Cidade à toa

Paraty

SP

 
 

VENCEDORES CATEGORIA NACIONAL

Edson Bueno de Camargo nasceu em Santo André (SP) em 24 de julho de 1962 e sempre morou em Mauá (SP). Publicou O mapa do abismo e outros poemas (Edições Tigre Azul/FAC Mauá, 2006), Poemas do Século Passado - 1982-2000 (edição de autor, 2002) e Cortinas, com poesias suas e de Cecília A. Bedeschi (1981). Participou da antologia “As cidades cantam o Tamanduateí que passa”  (editada pela Prefeitura do Município de Mauá) e também da coletânea Poesia Só Poesia (Editora Novas Letras). Junto com escritores e amigos da extinta Oficina Aberta da Palavra, grupo de Mauá-SP, edita o fanzine "Taba de Corumbê". Participa das oficinas da Escola Livre de Literatura de Santo André.

José Carlos Mendes Brandão nasceu em Dois Córregos (SP) em 28 de janeiro de 1947. Licenciou-se em Letras Vernáculas pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras do Sagrado Coração em Bauru (SP), cidade onde reside atualmente. Publicou quatro livros de poesia: O emparedado (1975), Exílio (1983), Presença da morte (1991); Poemas de amor (1999). Recebeu vários prêmios literários – como o “José Ermírio de Moraes” (promovido pelo Pen Centre de São Paulo) para melhor livro de poesia publicado em 1983-1984 e o da V Bienal Nestlé de Literatura Brasileira em 1991. Em 2000 recebeu o  1º lugar no Concurso Nacional de Literatura “Cidade de Belo Horizonte” (romance inédito). Tem inéditos três livros de poesia, um romance e um livro de contos.

Sérgio Bernardo nasceu no Rio de Janeiro em 30 de outubro de 1966. Jornalista e escritor, participa de academias de letras e associações culturais. Iniciou sua atividade literária em 1984. Recebeu prêmios no exterior (Portugal e Argentina) e no Brasil, como o Helena Kolody de Poesia e o Paulo Leminski de Contos. Tem textos publicados em antologias, jornais, revistas literárias e sites em vários países (Brasil, Portugal, Espanha e Suécia). Em Nova Friburgo (RJ), cidade onde mora, assina as colunas "Letra Livre" no jornal A Voz da Serra e "Expresso 2222" no jornal Alternativa. Colabora também nos jornais Folha do Catete (Rio de Janeiro) e Novo Tempo (Saquarema). Publicou em 2005 o livro Caverna dos signos (poemas e textos em prosa), patrocinado pela Secretaria de Cultura de Nova Friburgo.

 
 

VENCEDORES CATEGORIA LOCAL

Jacira Diniz nasceu em São Paulo e mora em Paraty há cerca de três anos. Escreve poesias esporadicamente e tem predileção em criar e contar histórias infanto-juvenis. Além disso, gosta de pintura. Agradece o incentivo de Gil Jorge, que também é poeta e a inseriu no mundo dos livros. Considera que a iniciativa da OFF FLIP em criar o Prêmio OFF FLIP de Literatura abre caminhos para que autores locais e de todo o Brasil mostrem seu trabalho literário. E isso justamente na semana em que as ruas da cidade  são tomadas pela literatura.

Jorge Adolfo da Silva Cypriano é carioca e mora em Paraty desde 1983. Tem textos e poemas publicados no Jornal de Paraty e participou de várias antologias editadas no Rio de Janeiro pela Editora Clarear. Participou do Cabaré Literário na OFF FLIP 2005, realizado no Teatro Espaço, tendo sido um dos autores premiados. Um dos fundadores da APAE em Paraty, trabalha como técnico reabilitador e é pioneiro neste tipo de atendimento na cidade. Foi um dos participantes da FLEC – Festa Literária Escolar do CIEP, encontro entre escritores e estudantes realizado em Paraty em 2005.

Marcos Irine nasceu em Anápolis (GO) e vive em Paraty desde 2003. É cenógrafo e artista plástico. Em São Paulo trabalhou na Cenarium, especializando-se em cenografia para teatro e televisão e trabalhando com grandes nomes da dramaturgia brasileira. Colaborou na montagem cenográfica das peças “Além da linha d’água”, dirigida por Ivaldo Bertazo, e “O Evangelho segundo Jesus Cristo”, dirigida por J. C. Cerrone e baseada na obra de José Saramago. Realizou em 2002 sua primeira exposição: “Urbana”, mostra de arte contemporânea em que mostrou também sua habilidade de poeta. Essa mostra lhe rendeu dois prêmios e duas obras suas integram o acervo cultural do estado de São Paulo, estando expostas no museu do Parlamento Paulista no Palácio 9 de Julho.

 
 

Depoimentos sobre o Prêmio OFF FLIP de Literatura

“Um bom autor nunca escreve pensando em qualquer premiação. Escreve porque a obra assim o determina, porque a obra assim o exige. Não há, no momento de criação, qualquer ruído que não seja aquele das palavras que exigem o real. Entretanto, há algo de bem-vindo na instituição de um prêmio literário, que é a oportunidade de que um ou mais leitores descubram um poema, um texto em prosa ou mais, um autor por trás do escrito. Desse modo, por essa qualidade de desvelamento, saúdo a OFF FLIP pela instituição e primeira edição de seu prêmio literário, assim como todos os autores que se inscreveram. Encontrei poemas surpreendentes inclusive entre os que não foram classificados. Será uma alegria encontrá-los nas próximas páginas”.
Micheliny Verunschk – integrante da comissão julgadora nacional do I Prêmio OFF FLIP de Literatura.

“Acho que criação do Prêmio OFF FLIP de Literatura vem fortalecer o outro extremo de uma escala importante, que vai dos autores mais bem-sucedidos até os principiantes. Digo "bem-sucedidos" em vez de "ricos e famosos" porque creio que o sucesso, na Literatura, é encontrar leitores atentos e dispostos ao diálogo incessante com as nossas obras. O Prêmio pode dar, principalmente a autores jovens ou ainda não-publicados, a sensação de que por fim este diálogo está acontecendo. Não devemos supervalorizar a premiação em si, até porque se fosse outro o júri, ou outros os concorrentes, talvez o "nosso" poema tivesse outra sorte. Encontrar leitores, no entanto, faz parte dos acasos da vida, e uma das funções da poesia é garantir que nunca se abolirá o Acaso”.
Braulio Tavares – integrante da comissão julgadora nacional do I Prêmio OFF FLIP de Literatura.

“A criação do Prêmio vem estimular a participação de talentos literários nacionais e locais. Considero admirável a iniciativa do Prêmio OFF FLIP - que, acima de tudo, funciona como um elo entre o muitas vezes distante ou mesmo inatingível universo do mercado editorial e o mundo algumas vezes pequeno e marginalizado a que ficam restritos alguns escritores por razões e dificuldades diversas. Através do Prêmio e no contexto de confraternização do evento, ampliam-se as oportunidades de integração e visibilidade desses talentos, alguns ainda desconhecidos, junto ao meio literário”.
Marília van Boekel Cheola – assessora de imprensa da OFF FLIP 2006

“Sinto-me feliz por ter apostado na idéia do Prêmio OFF FLIP de Literatura e privilegiada por ter sido a catalisadora da concretização deste importante projeto, de Ovídio Poli Junior, que também é escritor e apresenta um programa a ser desenvolvido em longo prazo, rico em desdobramentos. A partir dele, a OFF passa a cumprir melhor o seu papel de evento literário. E com o apoio da Prefeitura Municipal de Paraty, abraçando a responsabilidade pela realização da OFF – que, afinal, representa a participação da cidade na FLIP -, o Prêmio OFF FLIP tem tudo para amadurecer e se tornar permanente.”
Lia Capovilla – coordenadora da OFF FLIP 2006

 
 

OS POEMAS VENCEDORES

 

de um fragmento

1_

de um fragmento de osso produzir a agulha
para costurar as palavras no céu da boca
e com cuidado arrancar as estrelas
que insistem em ficar entre os dentes

desfiar o lóbulo da orelha
com estilhaços de vidro
e urdir uma escuta refinada com aço cirúrgico e ouro

2_

descobrir que a palavra desejo
não se agrega com pouco barro
e produzir o estrondo secular
das pernas traseiras dos grilos

colocar dois dedos na vagina
úmida e quente
e testar a temperatura das fogueiras
que queimaram o dom e o prazer do ser feminino

que ser homem é carregar a aspiração
de sempre retornar a úteros escuros
descer as mais profundas fendas e cavernas
e que morrer é se vestir de terra
para que uma mãe telúrica venha nos afagar os cabelos

3_

olha como choram os meninos apartados
como colam os dedos e arrancam a pele sem meditação
que arranham o couro do peito
feridos de tanto sal e sol

e retalham o horizonte com tesouras sensatas
e puxam fio a fio produzindo um novelo
recosendo o céu com agulhas de ossos humanos

Edson Bueno de Camargo
(Mauá – SP)

 
 
Ciclo

 

O menino
come terra
depois
a fome de sempre
e a terra
come o menino.

  

Sérgio Bernardo
(Nova Friburgo – RJ)

 
 

BUENO BRANDÃO, MG

 

                   Corujas, rãs, grilos
           e as estrelas.

Todas
as estrelas do mundo.

Um cachorro longe,
uma vaca mugindo
          na montanha, o leite
          da via-láctea.

A bilha quebrada, tanto
leite derramado
          sobre as estrelas.

No crepúsculo as nuvens
são pedras de sol.
         
As araucárias, a dança
das araucárias paradas
no horizonte.

Uma cerca entre
a terra e o céu
           e as nuvens com o sol
 dentro.
 
 Caem pedras vermelhas,
 são brasa e cinza viva.
                  
O monte verde,
                   o mundo verde.
                     
O verde veste o mundo
          ao sol da tarde.

As garças boiadeiras
sobre as vacas.

O mergulho branco
das garças
          entre as vacas
          no monte verde.

As siriemas bicam o dia
na porta
                                       da cozinha.


O menino Tales
          arregala os olhinhos.

E quando pinga a dor dos olhinhos
conta para a vaca Cá
e sara o dodói.
         
Soletra a terra
verde e a bezerra é a
    Cazinha.

As pedras na estrada,
o cristal de
quartzo rosa,
o sol, o céu, os
teus olhos
     líquidos nas pedras.      
           
Olhamos Bueno Brandão quieta
como um ninho,
aconchego de lareira íntima ao pé
da serra.
  
A igreja de São Bom Jesus da Pedra Fria
sentada com ar de família,
Jesus com os joelhos ossudos sentado                
           na pedra.

          Tudo é descanso e pedra
          neste lugar.

E como nos cansamos nas trilhas
verdes das cachoeiras.

          Pedras, águas,
          águas, pedras,
pedras, turbilhões
          de água nas pedras
em nós.
         
As pernas trêmulas de cansaço
subindo,
descendo as
trilhas verdes,
                       somos grandes.

O sol paira como um deus vermelho sobre a serra verde.

José Carlos Mendes Brandão
(Bauru – SP)

 
 

Ciclo

 

Num giro
Sou útero
que gera
gente
que gera
semente
que brota do solo
transpõe e caminha
Sou figueira
sou rosa
sou mato
sou planta enterrada
fincada
raiz
Sou areia
sereia
no fundo do mar
sedimento
sentimento
fluxo submerso
Sou bicho, larva
formiga
que migra
subsolo
abaixo, profundo
Sou lava
que sobe
explode, se lança
desce
devolve cinza
Sou fragmento
ânima
pedaço
que não parte
todo
se esvai
enterra essências
Sou o que se encerra
sem fim

 

Jacira Diniz
(Paraty)

 
 

TERRA

Bruta, competitiva,
De homens que se matam...
Bela, de águas profundas e florestas,
De homens que as matam...
Sutil, de voláteis ares,
Que se enfumaçam;
Buraco na camada de ozônio,
Que mata...
Terra;
Apaga rastros, engole corpos,
Cospe vulcões, maremotos, furacões,
Que matam...
Veste-se de flores, auroras, luares...
Nos dá tudo,
O belo, o bom e o verdadeiro...
Mãe,
Que acalenta, alimenta,
Põe-se sobre nós quando partimos,
Somos teus,
Somente teus...
Pó,
Pó...
Terra!

 

Jorge Adolfo
(Paraty)

 
 

Cidade À toa

 

Lá bem distante, distante do mar, terra das minas, minas de ouro a caminho do mar.

No meio as trilhas, em meio à mata, trilhas de terra, caminhos de pedra, pedras de ouro a caminho do mar.

No meio a vila forrada de pedras, rodeada de mata, de montes, de trilhas, trilhas de terra, caminhos de pedra, à beira do mar.

Lá vem o ouro, da terra distante, pra cidade de pedras do ciclo do ouro, ouro no silo, ouro na proa, proa ao mar.

Lá vai o ouro, O caminho, o mar, caminho de água, pra terra distante, além do mar, no mar a proa, na proa o ouro, ao longo caminho, terra de Caminha, terra de Camões.

E resiste a vila, vila quieta calçada de pedras à beira do mar, em meio às matas, montanhas, trilhas de terra, caminhos de pedra, estrada do ouro, que caminha pro mar, o mar que ecoa a cidade À toa.

 

Marcos Irine
(Paraty)