Natália Correia,
Sonetos Românticos.
Em
nome de uma mesma identidade literária, nós, o júri e a
direcção do Prémio Litterarius agradecemos a presença de
todos vós, nesta Cerimónia de Encerramento do Prémio
Litterarius 2007.
E estendemos os agradecimentos, também, aos nossos colegas
do Racal Clube - seus dirigentes e secretárias.
À Câmara Municipal de Silves e à Junta de Freguesia de
Silves.
À Caixa de Crédito Agrícola Mútuo de São Bartolomeu de
Messines e São Marcos da Serra.
E, sobretudo, porque os últimos são os primeiros, a todos
os Concorrentes do Prémio Litterarius 2007, Poetas,
Contadores e Desenhadores, sem rosto e sem nome, que nos
deixaram presos aos segredos das suas palavras e traços.
Foi assim que, ao longo de um mês, procurámos
deslumbrar-nos na linguagem dos Escritores e nos traços
dos Desenhadores que, nos trabalhos a concurso,
ofereceram-nos perpectivas, diferentes e variadas, sob o
signo do Conto, do Poema, da Banda Desenhada.
Foi um crescendo de descoberta. Foi a renovação do sentido
uno e primeiro da Língua Mãe que, este ano, se transformou
num uníssono canto, ao premiar
"Pastoreio", de José
Ribeiro Marto, 1º Prémio, Poesia
"A Cabra", de Ana
Mendes, menção honrosa, Conto,
"Fénix", de Cristina Néry, menção
honrosa, Poesia,
"Errar", de José Ribeiro Marto,
menção honrosa, Poesia, e,
"Primeira Comunhão", de Júlia Guarda
Ribeiro, menção honrosa, Conto.
Cantaram os Poetas e os Prosadores.
Solitários.
Solitários, porque a escrita é um acto sofrido em solidão
transformada em verdade, todavia, não absoluta, tecida nas
malhas da palavra.
E enquanto o Júri deliberava ( ouso
confessar-vos ) fui lendo, aqui e ali, algumas passagens
dos trabalhos a concurso...
Em "Pastoreio" abracei Pessoa. Em "Primeira Comunhão"
reencontrei a força da palavra/mulher, e, em "Fénix" e "A
Cabra", duas linguagens completamente diferentes (
prosa/poesia ), vi-me deliciosamente presa à subtil ironia
de Ana Mendes e à maturidade poética da jovem Cristina
Néry...
Não quero maçar-vos.
Muito menos, repetir-me.
Permitam-me, no entanto, que, brincando
com Herberto Hélder, homenageie todos os Criadores -
Poetas e Prosadores - a quem chamo
Amigos
e que enlouqueceram, completamente, quando ousaram
iniciar-se em Verbo, de olhos abertos ao infinito, com as
palavras a arder na ponta dos dedos.
São senhores de um talento doloroso e obscuro, com o qual,
diariamente, constroem um lugar de silêncio e de paixão -
A Escrita.
Parabéns, Amigos, e muito obrigada.

Júlia Guarda Ribeiro, ( na mesa ao centro ) lendo " Primeira
Comunhão"...
Ana Mendes, lendo-nos "A
Cabra"...
José Marto ( e família - Matilde e
Rita ), 1º Prémio,
autor de "Pastoreio"
A Direcção do Prémio Litterarius Racal Clube
convida Vª Excia e Família para assistir às seguintes
actividades a realizar no dia 26 de Maio de 2007
17h00
Sessão Solene de Encerramento
Edifício Racal Clube/Silves
21h30
Lançamento a nível nacional da Revista
Litterarius
Fui guardador de rebanhos sem
flauta, sem outeiro
com páginas colhidas nos livros a eito, em linhas altas
lidas
quando descansava o rebanho e a paisagem tinha escritas
árvores ao sol, frutos ardidos, poeira de brisa, manga
curta, camisa desfraldada
eu, na sombra recolhido.
Fui pastor de quase nada
no canto dos pardais revoadas, bicando o ar de linhas
curvas
nas largadas de pombos ao fim da tarde
ou das rolas sobrelançadas, furando o céu, na declinada
água ferida de redes, esvoaçando penas picavam linhas
cinzentas, mosquiteiras
sob o atarantado das borboletas vermelhas, verdes, azuis
na presa dos rendilhados,
desembaraçavam-se das grilhetas fechadas a puxão de
espera, magra caça.
Fui companheiro dos bichos que encontrava desirmanados em
fugas desajeitadas,
do lagarto escamado a verde e azul,
da cobra serpentina preta num
ápice engolida pelo feno,
da lebre fugitiva e astuta à
noite sob o trilo dos grilos
ou da batuta da campainha das
ovelhas.
Fui guardador do mundo no
chão das ovelhas
presas por linhas que nos
meus livros deixaram às vezes espaços de página em página,
onde eu me lia e guardava num
mundo lido alto; de tempo a tempos
a passagem dos comboios,
lentos, de horários certos, horas secretas
do calor dos dias, na
convocatória das madrugadas,
de quando um rio horas a fio
as alinhava,
as abria por dentro filtradas
a sol alto, baixo ou à ferida dos ventos,
da capa que me protegia da
água dos dias raros em que chovia.
Guardei ovelhas,
guardei as revoadas dos
pombos no meu coração.
Fiz as minhas viagens
directas abandonando o meu fôlego de bicicletas, ardendo
por
dentro dos livros, onde
recompunha escombros,
unindo amiúde as quebras do
mundo.
Guardei ovelhas não guardei
cabras,
como meu irmão já muito mais
velho Miguel Hernandez
que fez tantas descobertas em
horas tão incertas,
numa Espanha de tempos muito
antes dos meus.
Hernandez morreu no cárcere
sem ceder um traço na rebeldia dos versos
de puxar as palavras do
avesso
de se afastar do terço
de se irmanar com as cabras
que pastava em Orihuela.
Guardei ainda mais rebanhos,
guardei ainda mais ovelhas
sendo outras ou as mesmas,
quando os pastores fugiam em
debandada de noite
por sangrarem neles solidões
nos longes dias, nas longas
horas que havia no pastoreio do gado manso,
na rebeldia dos ocasos em que
o sol menos aquecia,
o gado aproveitava e comia,
o tempo em que andava pardo e
comia.
os pastores fugiam,
como se de prisões de guardar
do gado
levavam a flauta de Marília
ou de Elisa
voltavam em mangas brancas de
camisa
festejando aparecimento,
fazendo promessas:
juravam a água, o sol, os
frutos,
juravam afeiçoamento às
crias, pertencer à família
queriam-se nos rituais do
gado,
na separação, no aprisco
nos canjeirões de leite
no fazer do queijo, um fruto
nascido por suas interpostas mãos, liso, aceso,
milagre do coalho ardido nas
palmas árduas, nuas
juravam por fim as geadas aos
espelhos,
saudavam, cumprimentavam de
quem viesse a sua vaia mão apertar.
Mas fugiam às solidões dos
dias,
ao fumo das neblinas das
manhãs,
ou à intrépida chuva,
ao calor que a noite
amealhava,
ao pastoreio úbero logo no
Outono.
Corriam as estradas com
assombro,
iam as casas longínquas pedir
água,
veio o seio insinuado das
raparigas, pedir-lhes compromisso de guerra,
dos dias curtos de que
estavam à espera,
estudavam-lhes o cabelo,
viam-lhes o manear das ancas,
a escultura da perna.
Bebiam água pelo púcaro,
enchiam o cantil,
enquanto outros dobravam
assobios também à espera de uma madrinha mulher
uma fada de dias ilesos
que presos hoje ou presos
depois
se queixassem da condição
escondida das mais altas solidões.
eu fui pastor pequeno que
levava recados maravilhados
e trazia água, água,
a água dos Invernos ou dos
Verões que eles bebiam serenos.
Os momentos amenos, a sede
insegura, a água fresca, quase pura.
Naquelas horas sem batida
de relógio o coração a pulso,
eu compreendia aquele mister,
aquelas guardas de horas,
como se o cavalo do tempo ficasse suspenso nos ares
e a ele viessem pousar no
dorso uma chuva de borboletas.
Li-lhes as minhas letras de
livros,
alguns deles ouviam comovidos
com os cajados fincados no chão,
como se supensa ficassem a
página,
as surpresas, as desfeitas do
formigar do amor, a incompreensão dos dias.
A comunicação espalhada no
chão
onde laboravam formigas, o
milhafre sob arco as via a pino,
e em queda livre as devorava
no montículo.
Apenas uma ou outra ovelha se
sobressaltava,
soprava um ar de brisa
deslassado.
Alguns queriam ler, eram-lhes
fáceis,
as horas pediam-lhes
entretém,
jogavam pedras ao ar,
desfiavam a contar glórias
inúteis
à noite andavam horas e horas
a pé,
à procura do destino de um
café.
Juravam vinganças vindouras e
com vassouras exorcizavam os pés.
Eram eles, os pastores, os
pastores muito senhores de muita solidão,
os pastores de casa de meu
pai,
os pastores de quem meu pai
guardava distância de respeito consentido
que dava folga ao domingo e
me tirava as minhas corridas de bicicleta,
a bola entre pés,
os livros de página vincada,
a procura das minhas belas,
desejadas.
e me tornava pastor,
eu também era o pastor dos
domingos
eu era pastor de rebanhos de
domingo
como Miguel Hernandez muitos
anos antes foi pastor de solidões.
Eu não era pastor de
solidões,
eu tinha livros,
eu aprendia o ofício dos
dias,
o mais puro ofício dos dias,
a solidão de estar comigo.
Fui o pastor de meu pai
nas horas das aflições
em que feitas previsões se
dava o descanso aos pastores,
em que se fechavam de amores
inconfessáveis pelas madrinhas de guerra,
pelas suas gratas madrinhas
de guerra,
as madrinhas de guerra que
pensavam
ter solidões de muitas
esperas, agora as do gado,
depois com uma guerra, um
coração de mulher não se abria,
eles eram de outra natureza,
embora a integridade às vezes
tendesse à aspereza de uma palavra maldita,
e acudia a desculpa logo
aflita
não se abria o coração de
mulher com a promessa de uma guerra,
isso não tornava íntegra a
espera -
- dizia minha mãe aos
pastores que dispostos nos seus amores
lhe entregavam como penhor
os seus segredos,
- à guerra vais
- da guerra voltas
- não temas na incerteza
não se abre o coração de uma
mulher, com a promessa de uma guerra,
se assim for abre-se a porta
do medo.
Eu fui guardador de
rebanhos,
interroguei as coisas
simples:
o silvo das cobras,
o piar dos mochos à demanda
das noites,
a queda do sol nos pinhais,
o regresso dos pombos,
os pavões que só desferiam
grito aquela hora,
o zurro de um burro que
dividia o dia em duas partes.
Fui guardador de rebanhos
e interroguei as coisas
simples:
a ordem dos dias suspensos,
o labor dos pássaros,
as asas das borboletas,
bebi o leite a mojo úbere
a regalo dos pastores.
Um alimento exacto e
seguro
no contentamento puro dos
meus cinco anos
E a minha mãe dizia-lhes...
As mulheres dão-vos o
alimento pela colher,
acodem aos filhos a ralho,
acreditam no embalo das
sereias nas águas cativas do mar,
têm sempre as mãos cheias,
que mais delas se pode
imaginar.
José Domingos Marto (
Portugal ), modalidade Poesia, 1º Prémio.
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