Meiotom - resenha


 

A descoberta da palavra

 

 

 

 

Livro: A descoberta da palavra

A contista Carola Saavedra mostra seu valor no livro de estréia

[21/SET/2005]

Em meio a uma avalanche diária de lançamentos do mercado editorial, o escritor estreante, sobre o qual jamais se ouviu o mínimo rumor, sente-se inevitavelmente esmagado. Como proceder para que seu livro seja lido, resenhado, divulgado? Quais ações tomar para que emerja do anonimato rumo a um lugar nas vitrines das livrarias? Como fazer frente aos cânones, com os pés na imortalidade, cujos nomes já garantem a venda de suas obras? Bastam a competência narrativa, a edição bem-feita, um pomposo prêmio literário e o prefácio preparado por algum medalhão? Nem sempre. Excetuando-se esses blogueiros, que comercializam uma literatura temporã, de qualidade inversamente proporcional à enormidade de bobagens que perpetram de forma incansável, não se notam contistas ou poetas iniciantes sendo incensados pela mídia.

Carola Saavedra apresenta em seu livro de estréia, Do lado de fora, lançado recentemente pela 7Letras na coleção Rocinante, todas as qualidades necessárias para se tornar uma excelente escritora. Ainda está experimentando, mas realiza seus ensaios com a segurança de quem poderá vir a ser um dos nomes desta novíssima safra de contistas, que anda publicando por aí, de maneira pertinaz e competente, tentando formar seu público.

Os contos de Do lado de fora retratam a fragilidade dos relacionamentos em uma sociedade a cada segundo mais egocêntrica, centrada na perversidade, no arrivismo e na busca do prazer imediato. Carola apresenta, nas sessenta e poucas páginas de seu livro, um pequeno apanhado das incompatibilidades humanas, desfiando em ironias inteligentes a sua escritura talentosa.

Um sentimento de inevitabilidade permeia todo o livro, embora ainda possa ser entrevisto um resto de esperança, como se as personagens se envergonhassem da própria vilania. Há o culto ao corpo perfeito, os ícones da sociedade de consumo, as fugas corriqueiras e temporárias para lugar nenhum. Mas não há como escapar de si mesmo.

Carola Saavedra celebra neste seu livro a era pós-amor. E o faz com a aspereza que as palavras e a pontuação podem lhe proporcionar. Não se preocupa com a linearidade, um conto não deve necessariamente ter início, meio e fim. Não na literatura contemporânea. A narrativa curta atual conseguiu extrapolar os limites das regras herdadas do mestre Machado de Assis e é necessário que se esclareça que isto não significa perda de qualidade.

Este Do lado de fora provavelmente ainda não garantirá o resgate de Carola. Não imediatamente. Entretanto, se a contista perseverar, continuar a engendrar narrativas de indubitável qualidade, erguendo seu corpus literário, dificilmente passará despercebida por leitores mais cuidadosos, seja de agora ou do futuro. (Whisner Fraga)