Meiotom - Contos


 

O DIA F.

ROOSEVELT A. G. ARAUJO

O despertador acordou-me bruscamente com sua barulheira implicante e  desnecessária. Afinal de contas, era sábado! Isso antes de eu perceber que o calendário, que se encontrava a minha frente, era do mês anterior. Era quinta! E segundo meu amigo despertador, eu já estaria atrasado para a prova na Faculdade.

Já vi que irá ser um dia daquele. Se bem que em minha vida, todo dia é um dia daqueles. Mas  apesar de minha maré, contínua, de falta de sorte, não posso reclamar de uma coisa: Rotina.

Todo dia acontece algo diferente em minha vida. De certo que cinqüenta por cento dessas coisas são ruins. Mas existem os outros cinqüenta: Que são péssimos!

Naquele dia não poderia deixar de ser diferente.

Após uma pequena discussão com o maldito despertador, corri para o banheiro no intuito de tomar aquela deliciosa ducha quente. Chegando lá, o chuveiro estava queimado.

Não tinha importância, pelo menos eu não precisaria tomar banho. Mas não é disso que quero falar.

Continuando com minha “desrotineira” (acredito ter adicionado uma nova palavra ao “Novíssimo Dicionário dos Idiotas Metidos à Lingüistas”) passagem de dia, encaminhei-me ao elevador (data de fabricação: 12/01/1938) no intuito de chegar a tempo para fazer a tão esperada prova. Aliás, rege a lenda que no período passado, dois alunos saíram dela ( a prova) direto para a Colônia Juliano Moreira e outros quatro tentaram o suicídio. Mas eu acredito que o número seja bem maior.

Britanicamente, o elevador parou quatro palmas abaixo do seu real destino, como diariamente acontece. Mas como eu já estava acostumado com o mesmo, e ainda por cima atrasado para a prova, decidi fazer uma pequena escalada ao elevador.

O saldo final de minha aventura foi satisfatório: apenas uma calça branca completamente escurecida na região glútea. Acho que nada tão ruim quanto o grau de “amarrotamento” de minha camisa, já que minha mulher havia escondido a droga do ferro em algum lugar da casa para eu não causar um novo incêndio ( É incêndio! Mas isso eu conto em outra oportunidade) na mesma.

Após várias rezas de várias culturas e em várias línguas, cheguei ao destino sem ser lançado ao poço ( do elevador, é claro).

Fiquei  extremamente feliz, pois a portaria estava vazia. E eu, obviamente, não gostaria que meu vizinhos me vissem com a bunda preta e a camisa mais amassada que roupa de secretária após vinte minutos à sós com o patrão na sala dele. Mas meu estimado porteiro (data de fabricação: 01/03/1915) não deixaria isso passar em branco, e colaborou com o aparecimento de uma pequena multidão a minha volta: “ Meu Deus do céu! Menino, o que aconteceu contigo? Você caiu na “fossa”?

Olhando meu estado, realmente, até eu, fiquei na dúvida se caí ou não na tal fossa.

Nisso, uma pequeno grupo já vinha ao meu socorro.

“Quer que eu chame ambulância, meu filho?”- perguntou uma velhinha.

“Você está mal, cara!” – despejou um transeunte que, estranhamente, colou atrás de uma mulata, toda boa, que também apreciava meu “acidente”.

“Ele não está conseguindo se mexer; Acho que vai cair!”- informou um negão de dois metros que segurou-me pela cintura ( fiquei quase dois meses com dor de coluna por causa do negão) .

“Ele ta cagado!” – disse um moleque que morava no 1006, fazendo com que o negão me jogasse ao chão.

“Que merda! Acabei de limpar o chão.” – lamentou-se o faxineiro.

Após várias explicações e preciosos minutos perdidos, consegui me livrar daquela gente. E corri para atravessar a rua.

Para piorar as coisas, metade do material que estavam em minha bolsa caiu no meio da rua e eu não vi.  Entrei no ônibus acreditando que meu desespero havia terminado. Quando olhei para trás do veículo, percebi vários papéis voando em plena Presidente Vargas. Imaginei o que deveria conter naquele monte de papel e quem seria capaz de jogar tamanha quantidade de lixo no meio da rua.

“ É lamentável a falta de educação desse povo! Se a pessoa faz isso na rua, imagine como deve ser em casa .” – debati com um rapaz que sentou-se ao meu lado e também apreciava tal manifestação de falta de respeito. Só que o garoto começou a gargalhar e berrou quase sem conseguir respirar de tanto rir:           

“Senhor, aqueles papéis eram seus...” - minha vontade foi de matar o idiota, mas eu já tinha problemas demais naquele momento. Tive que ficar olhando horas e horas de material escrito por mim voando pala cidade.

“Não há de ser nada. Semana que vem eu tiro cópia do material com algum colega e pronto.” – indaguei comigo mesmo, para tentar amenizar tal situação. O ônibus já estava chegando, eu faria a prova, voltaria para minha casa e nunca mais me lembraria deste dia terrível.

Nesse momento a prova já havia começado a mais de meia hora e eu adentrei a sala em frangalhos: sujo, amarrotado, fedendo, suado, com um extremo mau humor e quase sem tempo para fazer a prova. Mas alguma coisa pareceu-me estranha.

Os colegas estavam com seus livros e apostilas sobre a mesa, e o pior, na frente da professora. Imaginei das duas uma: ou a turma fez um bom rateio e ofertou a ela. Para a mesma ficar “displicente” em sala de aula enquanto todos colavam, ou nossa a professora estaria fazendo uso de drogas pesadas em sala de aula.

“Que papelão, rapaz! Além de chegar atrasado, ainda se apresenta a um professor dessa forma.” – exclamou a educadora olhando-me de cima a baixo. “Eu não deveria permitir. Mas já que fiz com toda a turma, não seria justo excluí-lo desse benefício: vocês todos foram autorizados a consultar qualquer material de auxílio para fazer a prova. Porém, essa ajuda não mais será dada, entendeu?” – parecia que minha sorte finalmente mudara. Além de chegar a tempo de fazer a prova, ainda poderia consultar. “As coisas vão mudar em minha vida a partir de agora.”

Lentamente, sentei-me em uma carteira à frente da professora, (afinal de contas, o que poderia dar errado em uma prova com consulta) abri minha bolsa, com um enorme sorriso no rosto, e enfie a mão vagarosamente na mesma, talvez para mostrar ao mundo todo o domínio da situação, pelo menos uma vez na vida.

De repente, percebo que o material que caíra de minha bolsa, fora toda a matéria da prova. Não sobrara nem uma folha de resumo se quer.

Minha cabeça começou a rodar: imaginei o meu elevador, meu centenário porteiro, o garoto que ficou me sacaneando no ônibus, lembrei até de Dona Margarida (professora do primário que vivia dizendo que eu não seria nada na vida). Fiquei em transe! Minhas mãos não se mexiam e minha cabeça não respondia. As únicas coisa que me diferenciavam de uma porta, era que eu estava sujo e não servia para nada.

Esse bloqueio mental durou até o momento que a professora tirou a prova de minha mesa.

“Pronto minha gente, a prova acabou. Espero que todos tenham se saído bem. E lembrem-se. A próxima será chumbo grosso.” – nada falei, levantei da cadeira ( agora toda suja de preto), recolhi o que sobrou de meu material e fui para casa.

No caminho, achei uma moeda de um real. Peguei-a, parei no primeiro bar que avistei e pedi uma média com pão.

Saboreei o lanche como se fosse a melhor coisa do mundo. Mas só teve um problema ...

A refeição custou um real e vinte centavos. E eu lembrei que havia acabado de perder a carteira