Meiotom - Contos


 

A SEMENTE E A SÍNDROME

RUBENS DA CUNHA

“Eu queria tudo dele, até a doença”

Ernesto, personagem do filme “Le Fate Ignoranti” de Ferzan Ozpetek

 

 Tenho as solas dos pés embranquecidas, mofas, entre os dedos os fungos racham a carne. Os tornozelos redondos pelo inchaço. Tenho as panturrilhas, as canelas  cobertas de pêlos, faz tempo que não depilo as pernas. As rótulas dos joelhos estão saltadas, reflexo da magreza. Estranho, joelhos tão descarnados e tornozelos plenos da gordura aparente do inchaço. As coxas também estão com pêlos, moles, já foram rijas as coxas, já fui rija eu toda. Os quadris, este desaparecido, nádegas murchas, brancas, eu toda branca, sem a cor que o sol deixa na pele. Bronzeava-me nua, era toda ouro, eu e o sol. No entre as nádegas o ânus, defecando líquidos fétidos, já tive nele mais que fezes saindo sem controle, tive nele prazeres esvoaçantes. A frente, um tucho de  pêlos, cobrindo a boca inferior. Quanta alegria sem palavra deu-me esta boca. Quantas tardes mudas engoliu esta boca. Acima o ventre, a cicatriz a que chamam umbigo. Os músculos internos moldados para que o vento e as mãos do escolhido contornassem sem solavancos o abdômen. Hoje, duna desfeita, meu ventre é um recipiente de insônia. Os seios, curvatura de calor, lava encravada no peito, os seios lancinavam o futuro. Abriam-se exatos, curvos, à experiência tátil do escolhido. Prostraram-se meus seios, parece que fugiram para dentro de mim. O dorso,  campo de ametistas, no que era pele preciosa, hoje escaras. No que era violeta, hoje o encarnado das feridas. Tinha asas. Eu tinha asas no lugar dos braços e das mãos. Quantos vôos adornaram o corpo do escolhido. Galhos secos da árvore seca que sou. No colo, a face dele teve sono. Dormiu aninhado. Restam espinhos. A nuca, patrimônio da intimidade, se esfiapa inútil. Na cabeça, o centro da beleza que circunscrevia minha vida. Queixo. Boca. Nariz. Olhos. Sobrancelhas. Orelhas. Testa. Partes moldadas a serem chamariz do susto, da surpresa tanta dos muitos que me olhavam. O escolhido  chegou a mim pelo rosto. Não distinguiu o que o trouxe. Eu sei que foram meus cabelos. Da raiz às pontas eram réstias hipnóticas. Sumiram ralo abaixo. O que resta é a calvície desnatural em fêmea. Estou cinza. Sou um corpo cinza deitado numa cama de hospital esperando o fim das horas. Amei demais. Entreguei demais e não saí imune. De tanto amor, quis do escolhido até a doença. Por fora, frangalhos, palidez, quase morte. Por dentro, o vírus comeu os órgãos, entupiu os vasos sanguíneos, desarranjou os ossos. Adquiri a síndrome. A peste suicida. Foi por amor, este outro vírus. O escolhido chegou cavado em expectativas. Deslizou promessas, cumpriu o dito. Inventou subterfúgios aonde nos sacramentávamos santidade e perdição. Foram dias duráveis aqueles, em que o nascido separado juntava-se, regia o pedido: que se faça uma só carne. Entranhados estávamos até não haver respiração. Xifópagos. Foram dias duráveis aqueles. O escolhido chegou num sábado, encontrou-me arcaica, quase uma decoração na mesa de um bar. Disse o mesmo que os homens dizem. Mas os olhos. Nunca atribuí ao meu corpo o mito do amor à primeira vista. Tão habitante de romances, de novelas de televisão. Em mim a vida fez mais dúvidas que certezas. Não era mulher cerrada em traumas. Amei muito antes do escolhido. Fiz sexo sem amor. Amei sem sexo. Traduzi em mim as possibilidades várias que existiam. Mas foi no tempo da meia idade que encontrei o caos advindo não sei de onde. Sentou-se à minha mesa. Sentou-se em mim e nunca mais levantou. Sou até hoje cadeira para ele. Morreu já. A síndrome o pegou antes. Está por aqui espectrando meus dias já não tão duráveis. Gosto disso. Enquanto agüento viva, percebo o escolhido no desenho da infiltração no canto do quarto. Está também na gota do soro equilibrista que escorrega do recipiente até minha veia. O escolhido alimenta-me. Como será o nome disto? este espantalho ao meu lado doando-me seu sangue transparente. Brinca o escolhido no ventilador do teto. Foi meio criança nosso encontro. Brincávamos de sermos unos. Nos engatávamos, como fazem os cachorros e nos víamos como um humano de quatro pernas, quatro braços, dois troncos e duas cabeças. Um único genital. Respirávamos, digeríamos, pensávamos pelo nosso órgão único. Os corações transferidos para a pélvis. Era solidez o que se dava entre nós.  Escorregou sua semente para meu útero, garganta, reto, os buracos acessíveis ao falo. O escolhido catalisou partículas de afeto, lavrou como se devem meus terrenos. Fui feliz naqueles dias. Não trago a mancha do arrependimento. Na véspera de morrer, inválida nesta cama, não desperdiço lágrimas, a não ser as inevitáveis, vindas com a dor física desmesurada. Choro pelo corpo, tão afeito ao sêmen dele. O meu espírito: já desmanchei nas lembranças. Visitam-me alguns amigos. Trazem condolências estampadas nos gestos, uma quase ignara inveja. Mandam agarrar-me a Deus. Não preciso. Sei que a alma será enterrada com este corpo e que Deus, vida além da morte, céu ou inferno, são consolos, calmantes diante do escuro. Logo apago. Ficarei nas lembranças de alguns, até que a memória destes também se apague. Assim se dá com os vivos. O escolhido tinha uma vida dupla. Repartia a semente com outros homens, caminhava entre o feminino e o masculino. Imolava seu sexo nas carnes túmidas que presenteiam as madrugadas. Depois de dias me corroendo em amor, revelou-se dúbio. Carregava à mancheia atrações por homens e mulheres. Não tinha intenções à unicidade. Sabia que em mim se fertilizava mais. Mas quando antevia um masculino seu outro lhe exigia a presença nos lençóis daquele. Tinha fome de falo, tanto quanto se alimentava de minha boca inferior. Pediu a permanência neste estado. Me doaria o sentimento abstrato aliado ao gozo. Mas às vezes, alijaria sua natureza dentro de um homem. Permitiu a mim o mesmo. Não queria insetos entre nós: nos imunizamos do ciúme. Crivamos a bandeira liberdade no cume daqueles dias. Concedemos a animalidade a muitos. Enfiei-me até em outras mulheres. Tirei prazer do igual, do que difere, do estabelecido e do que se conserva clandestino. O escolhido vigiava minhas viagens com cuidados de pai. Pedia que a alegria do corpo não fosse contaminada com os percalços da mente. E exigência que o amor solicita para si: a vontade do nunca dividir, do nunca se atracar a outras caravanas, a linha reta, inócua da fidelidade, nada disso me impingiu torturas. Fui lavada em paraísos. Não tinha porque ceifar a sorte do cio com as ferramentas cegas da razão. Aplicam-me injeções. Reanimam-me. Foi quase hora de apagar. Ainda respiro, mesmo que por esta laringe de plástico. Falam em descanso os que estão na sala. Choram até. Se me vissem por dentro. Para além dos entulhos podres do corpo. Se vissem o que vai nas células responsáveis pela memória: o escolhido extasiando neurônios, eu relinchando cavala sobre seus glóbulos. Brancos. Vermelhos. Roxos de misericórdia com os que não soltaram as amarras. Parceiros dos que se doam em espécie, gênero e em  todos os graus viáveis dos festins licenciosos que foram aqueles dias. A síndrome. O escolhido alertou-me que foi abocanhado pelo vírus. Seria suicídio continuar. Teríamos que centrar um no outro e nos proteger. Acostumada que estava ao perigo não hesitei em pedir que me entranhasse a peste. Suicídio é a vida lenta dos que acompanham os padrões. Suicídio é a solidão advinda depois da morte do escolhido. Meu amor pediu sua doença. Retirou tudo dele, por que se eximiria da doença? desistiu de argumentos o escolhido. Como não tínhamos o direito sobre a vida dos outros, afastamos o resto das pessoas de nossa cama. Ficamos eu e ele, como nos primeiros dias, vivendo pelo nosso órgão único. Em pouco tempo adquiri a síndrome. Voltamos à felicidade. Éramos novamente feitos iguais. Apagam a luz do quarto. O escolhido sombreia atrás da cortina.  O amanhã não chegará em mim. Logo eu apago. Não dormirei. Cultivarei os fiapos de lembrança até que se rompam. Ele me assiste na asa do inseto minúsculo que se esbate na janela. A peste o atacou melhor. O corpo se esvaneceu. Cuidei dos desarranjos, das gripes, das feridas que enfeavam a pele. Nos acalentávamos diariamente. Foi tempo fraterno aquele. Saiu de mim a devassa prazerosa, entrou a santa que cuida dos enfermos. Nos seus ouvidos a música tenra do que éramos, na sua boca a sopa calma  de que a vida foi curta, porém funda de sentires. Teve delírios de crença, rogou perdões a mim, ao Deus. Arrependeu-se de morrer tão jovem. Foi acuado pela culpa. Rezei em seus olhos nada disso se faz verdade. Nada disso importa diante do que acaba, porém existiu. E quantos que acabam sem gota de loucura a mitigar-lhes a sede? e quantos que são pródigos em securas, na expectativa do mar lá em cima. Pelo menos já nos banhamos aqui. Se algo vier depois do apagar-se tanto melhor. Foram palavras que secaram seu suor, que tangeram em óleos suas feridas. Quando morreu estava em mim. Não como no tempo da rigidez em que eu toda penetrada expelia gritos e imprecações, mas com a suavidade dos frágeis. Seu falo encostado à minha boca inferior, meus seios tatuando de calor seus lábios. Morreu me amando. Tenho dificuldades para lembrar. Chega o quase fim. Lembro que quando não mais havia o escolhido na casa, pensei em apressar a morte. Depois, feito um ritual resolvi passar por tudo o que ele passou, cada dor, cada diarréia, cada vômito. Durante os dias duráveis eu só recebia dele. Concedi pouco àquele corpo, até mesmo por minha natureza de fêmea, feita para ser receptáculo da semente dos machos. No tempo em que incubei a peste, retribuí florescendo, frutificando, arvorescendo toda a semente que ele depositou em mim. Desistem. Anunciam a hora do óbito. Então é assim? ainda restam alguns momentos antes do esquecimento total. Ainda resta a percepção do que fazem com meu corpo, Tiram os canos do meu nariz, a agulha da veia, despem-me a roupa do hospital. Nua, ressequida, trânsfuga, desescuto os ruídos, as lamentações.  Fecho o tato, o paladar. Abandono os cheiros. Alguém passa as mãos sobre meus olhos: escureço.