| Meiotom - Contos |
|
|
À PRIMEIRA VISTA |
SÉRGIO BERNARDO |
|
|
|
Viram-se pela primeira vez com a sensação de que já haviam se visto antes. Era uma tarde de verão, a praça cheia, olhares perseguindo-se. Viram-se e se entenderam. Ela ainda tentou a manobra de se afastar par ter a certeza de que ele a seguiria. Não foi. Perderam-se um do outro. Ela voltou ao banco inicial. Ela sumira. Ela girou os olhos por todos os rumos e jurou que se o visse novamente não o deixaria escapar. Não daquela vez. Dentro dela um desejo voraz de amar alguém, sentir-se amada, namorar na praça, cinema e pipoca juntos, longos passeios a lugares paradisíacos, banhos de cachoeira, praias de areia morna, corpos nus estendidos ao sol, beijos, carícias, sexo... Tudo o que vivera tão pouco, por excesso de timidez ou falta de ousadia, quem sabe as duas coisas. Daquela vez tinha de ser diferente. De onde a impressão de já o ter visto em algum lugar? Talvez naquela mesma praça... Seu nome – que não sabia – estava escrito ao lado do seu em alguma estrela, tinha certeza. Qual o signo, o time do coração, o partido político? Ou seria fora do padrão, detestaria futebol, seria anarquista, "bicho grilo", devoto de um guru só conhecido por poucos "escolhidos"? De certo apenas a bolsa vermelha a tiracolo, a camisa pra fora das calças largas e com bolsos, a barba grossa por fazer, os cabelos desalinhados, um tipo que era o seu, aparentemente despojado, cabeça feita, humanista, espiritualizado, meio louco... Imaginou-o professor universitário, filósofo, poeta, apaixonado por livros, palestras, fóruns, eventos culturais de rua, peças teatrais, filmes cult, um aficionado pelo Cirque du Soleil como ela. Petista ou, no mínimo, eleitor do Lula, panfletador em época de eleição, fiscal de partido, agitador de comícios, quem sabe candidato a vereador pelo Partido verde, poucos mas sinceros votos, participante de movimentos grevistas, manifestações públicas, ONGs ambientalistas, marchas pela paz, pelos direitos humanos, a favor da ecologia... Imaginou-o acima de tudo romântico, bom, carinhoso, simples, apreciador de vinho em tapete junto à lareira, música new age, som de flauta peruana, mantras hindus, Zé Ramalho, Deep Forest, Janis Joplin, Elis... De repente o viu, dezenas de metros à esquerda. Reconheceu a cabeleira rebelde, os grandes olhos em sua direção, súplices mas incisivos. Também a estava procurando. Ele amara aqueles olhos pequenos, levemente amendoados, os cabelos castanhos claros de médio comprimento, a dentição perfeita e clara modelada num sorriso, a pele morena de aparência sedosa. Atraíra-o no mesmo instante. Não entendera por que o havia olhado com interesse e depois atravessado a rua, parece que fugindo. Seria casada, teria compromisso? Prestara atenção na mão esquerda. Não havia anel, mas isso não queria dizer muita coisa. Muitos não usam aliança, o que ele achava errado. Eram votos sagrados... quem sabe ela não tinha esquecido de por a sua na pressa? Muitas tiram os anéis para lavar roupa ou louça. Talvez fosse isso. No entanto, ele queria muito encontrar uma companheira e preferiu acreditar que ela fosse descomprometida Quando ela se afastou, tomou a direção da rodoviária, mas esta crença o fez voltar. Achou que ela também buscasse alguém, apenas ficara um pouco tímida ou insegura. Acreditou que ela voltaria. Parecia uma moça simples no vestido bege um pouco abaixo dos joelhos, nos pés sapatilhas vermelhas baratas, uma bolsa de crochê colorida no ombro. Não usava pintura, os lábios porém eram rosados e brilhavam ao sol da tarde, belos e atraentes. Desejara-os, mas com uma ponta de autocensura pelo ímpeto obsceno. Ela deveria ser uma moça de família, freqüentadora de missa aos domingos, quem sabe cultos evangélicos ou mesmo reuniões doutrinárias num centro kardecista, dada à leitura da Bíblia, revistas religiosas, jornais espíritas. Imaginou-a voluntária num abrigo de idosos, em orfanatos públicos, creches comunitárias, escolas especiais. Talvez fosse professora do jardim de infância, fizesse faculdade à noite, os pais complementando a mensalidade que o salário não cobria. Podia ser que nem tivesse tempo pra namoros, estudasse muito, perseguisse a custo boas notas, recusasse convites para festas e churrascos em família visando a um desempenho satisfatório no fim do bimestre. Uma moça sem vícios, que detestasse cigarro, cerveja com os amigos em barzinhos, almoços familiares regados a litros de vinho, drogas então nem pensar. Não teria amigas que fumassem um baseado, dessem liberdades aos namorados, usassem roupas ousadas, biquines cavados na praia, contassem piada sujas, falassem alto na rua. Mas deveria ser romântica, boa, carinhosa, simples, gostar de ver tevê ao lado do namorado, as mãos dadas como único contato físico, ouvir música sertaneja, talvez por influência da mãe as canções antigas do Roberto Carlos, algumas da Roberta Miranda, Elimar Santos, Wanessa Camargo entre as mais moderninhas, dos internacionais Sarah Brightman, Sade, o piano de Richard Clayderman... Viu-a de repente, dezenas de metros à distância. Reconheceu-lhe os cabelos finos partidos do lado, os pequenos olhos pousados nele, ao mesmo tempo incisivos e súplices. Algo explodiu no seu peito. Amor à primeira vista? Não, crer nisto era coisa para uma pessoa meio zen... Não para ele, um sujeito normal. Só que o impulso foi mais forte. Tomou coragem e se aproximou, resoluto, esperançoso, sério. Ela o viu chegando, teve certeza de que era mesmo ele, os astros o traziam para sua vida. Pensou nele à noite em sua cama. "Uma noite e meia de amor", dizia a canção. Ele cumprimentou-a formalmente. Ela achou isto estranho mas sorriu. Ele sorriu também e perguntou se poderia sentar-se no mesmo banco. Ela disse que sim. Começaram a conversar sobre tudo e sobre nada, como sempre acontece em situações assim. Falaram-se apenas uns poucos minutos, o suficiente para saberem a verdade: ele votara no Serra e ela bebia o santo daime. Despediram-se, e nenhum dos dois já sorria. Nunca mais se viram.
|
|
|