Meiotom - Crônicas


 

DEKASSEGUIS

Paschoalina Shimoda

Minha experiência por aqui é na mesma fábrica desde que cheguei. Trabalho em montagem de eletrônicos como filmadora, máquina digital, celular etc.

Dentro da fábrica, 70% são brasileiros, trabalho em linha de montagem de celular, conhecidas como células, onde as pessoas ficam uma ao lado da outra em bancadas que chegam a ter meio metro, trabalhamos colados um no outro, as peças começam a ser montadas no início da linha e no final saem  prontas para o consumidor.

Temos um líder, quase sempre descendente, que nos passa o que os japoneses querem, normalmente temos que soltar uma peça pronta a cada 28 segundos, pois temos cota a cumprir, e somos cobrados por isso. No final de 8 horas de trabalho devem estar prontas 900 peças. Nas horas extras são mais ou menos 230 peças. Jornada difícil, dá-se conta do recado ou se é excluído.

Meu serviço é fazer checagem do teclado do celular. Hoje já me acostumei, não sei se com o serviço ou com a dor no final do dia, são 29 botões que tenho que apertar duas vezes cada um e ainda passá-lo em uma outra máquina para testar o audio. Temos que aprender a pegar o tempo da máquina para conseguir passar uma peça no tempo certo – aqui se aprende que qualquer segundo é importante. São intermináveis 52.200 apertadas em botões só no horário normal, fora as horas extras que precisamos fazer pois na realidade são elas que nos dão uma folguinha para conseguir  guardar um dinheirinho, pois a vida aqui é caríssima. No começo voltava para casa com as mãos e os dedos duros, cheia de dor, mas com o tempo a gente vai ficando robotizada e se acostuma.

Na fábrica somos apenas mais uma máquina que enquanto funcionar serve, quando não, somos descartáveis. É muita injustiça, mais até de brasileiro para brasileiro. É a lei do mais forte. Muitas pessoas despreparadas sobem de cargo sem noção de administração, então, vira confusão, sentem-se superiores aos outros, querem bajulação, pisam nos mais simples, Neste tempo todo que estou trabalhando vi apenas dois chefes que nos viam como pessoas, tinham psicologia para lidar com as pessoas, sabiam conversar e liderar. Mas, ao mesmo tempo, entendo os outros, pois a cobrança é tanta para que se atinja a perfeição, que a coisa vem descendo até chegar nos robozinhos que agüentam a bronca final.

As pessoas vêm contratadas por empreiteiras que visam o lucro, daí quando o funcionário fica doente é descartado como coisa imprestável. Para aquela que trabalho, ela é tida como uma das mais humanas, graças a Deus. Eles impõem convênio médico, o que acho ótimo, aqui a medicina é caríssima, quando precisamos de médico eles nos acompanham, fazem tradução etc. Tudo isso é pago e não cobrado abertamente, está embutido no aluguel. Eles ganham uma porcentagem das horas trabalhadas, o que acho justo, pois ninguém trabalha de graça.

Na empresa em que trabalho o que pega mesmo são as horas em pé, ficamos o dia todo, às vezes 12 horas por dia, parados no mesmo lugar, mal podendo nos mexer, nossa bancada de serviço é pequena e com qualquer movimento trombamos como o colega ao lado, atrapalhando o andamento do serviço. Daí as dores terríveis pelo corpo, no pescoço, nas pernas, nas costas, vasos estouram por todos os lados nas pernas, o calcanhar perde a sensibilidade, isso acontece para a maioria das pessoas. A princípio eu pensava era mais pela idade e peso, hoje sei que não tem nada a ver, é igual para todos, independentemente de idade ou peso.

Trabalho com ar-condicionado, mas na maioria das fábricas as pessoas trabalham ou sob calor insuportável ou sob frio intenso, às vezes abaixo de zero grau. Sei que existem fábricas onde a pressão é maior, mas quando se ganha a confiança dos japoneses é melhor trabalhar com eles diretamente do que com brasileiros. Precisamos entrar no ritmo deles. É engraçado, eles também têm problemas de coluna, a maioria das pessoas vivem com adesivos para dor muscular.

Preciso dormir, amanhã tenho um dia bravo pela frente, como costumam dizer por aqui Só tô no pó da rabiola... Ufa! Que termo estranho... São coisas do Japão. Um beijo no coração. Sabe que tem me feito bem escrever? Até.

Paschoalina Shimoda