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Bosta Sofisticada

 

Me chamo Will, Will Cagliostro. Estou numa fila longa, atendimento médico público, por que hoje não estou disposto a trabalhar. Tenho um subemprego asqueroso na periferia. Que se fodam os que dependem de mim. Vão se passar horas até que eu seja atendido. Merecida folga extra... Com sorte, se minha interpretação teatral de dor for bem sucedida, eu consiga mais uns dias longe do meu algoz diário, calvário que me mantêm precariamente vivo. Sou insistente como todo miserável.

 

Chegando minha vez... Entrego documentos e assino papeis. Sento na rota semicircular de um dos ventiladores de parede para ser alcançado com um frequencia regular das suas rajadas mornas de vento que amenizam a sensação do mormaço. Fecho os olhos acomodado o melhor possível na cadeira de estofamento exposto. Não espirro. Felizmente a cadeira é inabitável até para os ácaros.

 

O ambiente é hostil não somente para os ácaros. Entretanto, com o tempo aprendemos a ser duros por necessidade. Talvez por isso, mais do que pela louca racionalidade humana, nos tornamos a espécie dominante do planeta. Desenvolvemos singularmente a capacidade de não ouvir e da indiferença, uma couraça de calos que envolvem o corpo e que se projeta para além dele, transcendendo limites interiores e exteriores. Somos deformados... Me conforto no prazer gratuito dos boquetes de minha putas imaginárias.

 

Nunca gozo com boquetes. Nem na minha imaginação. Já fui agraciado com as caricias bucais de muito alta qualidade, boquetes performáticos, boquetes profissionais do qual já me deram a medida exata da minha caceta através da profundidade alcançada na garganta. Obstinado em meus sonhos, não desistiria tão facilmente. Tenho fetiche por lésbicas. Se virgens, melhor. Mas elas nunca aceitam por nenhuma parte do meu corpo na boca. Principalmente meus bagos ou pau. Não se eu não usar a força.

 

Caralho, não se passaram nem 30 minutos. Tic, tac! Tic, tac! Tic, tac! Os ponteiros do relógio se movem ritmados embalados pelo tédio coletivo. Batidas cardíacas precisas em um mecanismo morto. Na sala de espera abafada entra uma mulher. Ela é alta demais e isso não me atrai, mas estou pronto para uma exceção mais uma vez. Sua anca larga delineada por sua calça excessivamente apertada desperta os sentidos dos homens enclausurados voluntariamente no vão frontal da clinica. Longa espera, tão ampla e longa quanto o desespero humano. Fichas esgotadas, não há mais vagas para o atendimento. Todos lamentamos sua partida pois compartilhávamos a certeza de que ela era o doce saber da cura, o remédio para a humanidade.

 

Recordo-me dos meus amigos, pessoas próximas e presentes em minha vida. Uma ex-mulher desequilibrada, mais louca que o comum, ofertou-me o aluguel de um apartamento a minha escolha para que eu não tivesse mais contato com eles. Eu poderia aceitar a proposta e fazer uma festa de boas vindas com eles para ela. Entretanto, eu estaria pondo em risco a vida deles. Minha morte era certa... Inútil pensar na morte agora. Estava me tornando grave, um falso doente tão enfermo quanto o doente imaginário de Molliere. A espera deixa todos aparentemente mais pensativos. Circunspeção forçada. Fruição estética do silêncio.

 

O silêncio ambiente é quebrado pelos ruídos cacofônicos de um bêbado disparatado que discute política solitariamente. Ele gestilucava, praguejava e gritava para seu adversário imaginário, o rival vencedor que sequer existia. Amigo íntimo do fracasso, o ébrio era seu companheiro inseparável. Focando a atenção nas conversas alheias ouvi alguém comentar a prisão do chinês comunista que fabricava coxinhas com carne humana, outro culpava o novo hormônio do peixe pelo crescimento do número de homossexuais no seu bairro, ele afirmava com absoluta certeza que o tal hormônio Omega 3 era uma criação dos ateus contra a igreja. Era uma espera longa que mal havia começado e que já era insuportável para todos, uma tortura psicológica, o inferno sartriano, um antídoto contra falsos necessitados. Ao mesmo tempo tudo era perfeito. A beleza do universo está na falta de sentido de todos seus componentes, no caos inerente a todas as coisas. Desorganização entrópica que tende incondicionalmente ao inanimado.

 

Histórias absurdas de uma realidade paralela... Ao meu lado um homem torto, Quasimodo pós-moderno, me diz que estava ali por conta de mais uma surra exagerada e sem motivo que levara da policia. Contou-me da primeira vez que ganhara cicatrizes por contar a verdade, respondeu à pergunta do policial "o que tem nos bolsos?". "Duas cebolas e um pé de coentro". Ele havia acabado de voltar da feira livre vizinha. Dessa vez perguntaram onde ficava a boca, ele respondeu que ficava logo abaixo do nariz. O homem mal podia ficar de pé. Nada respondi e ele permaneceu imóvel e sorridente, intocado pela náusea. Até que ponto aquilo era mentira ou verdade, não sei.

 

Por mim, tanto faz... Possibilidades. Em algum lugar do mundo o mendicante revoltado exige óbolos com a certeza que seus emolumentos nunca devem ser fruto de qualquer tipo de esforço. Ele não percebe o quão é ridículo ou vergonhoso. Ele não somente aceita tal situação caricata como ainda se nega a engendrar mudanças. A minha glande é rosa e as veias do meu pau são calibrosas e pulsantes. Conspícuos pelos pubianos fulvos. Não me atrase em meus caminhos. Foda-se.

 

Existem doentes mentais das mais diversas espécies e discutir com eles é sempre perda de tempo. Os idiotas se multiplicam pelo mundo e o mais saudável a fazer é evitá-los com todas as forças. Mais cedo ouvi a história de um homem que não se satisfazia sexualmente com mulheres ou outro homem que não ele próprio. Não era um narcisista. Era sensível apenas ao toque da sua mão direita, nem com a esquerda conseguia muita coisa. No banheiro coletivo do seu trabalho ele era visto diariamente nas primeiras horas da manhã, pés apontando para o céu, enquanto, encostado na parede abaixo do chuveiro, trabalhava duro em si mesmo, no seu membro enrijecido. Em completude, um homem auto-suficiente.

 

Em outro lugar do mundo, sei que existe gente como eu, oriunda do mesmo planeta, que compreende o que está dito e o que não está dito em cada fragmento de discurso atrofiado ou gesto feito ou ainda não feito por mim. Irmã astral incestuosa, cúmplice em pecados secretos. Somos absoluto amor intenso e autodestrutivo, absolvidos amalgamados, anulados e faiscantes em diferenças semelhantes, queimamos e ardemos forte em alguma manifestação de energia transcendental e pura. Força que nos alimenta para além dos alimentos e nos move em sintonia por bares, cafés, cinemas e estradas. Infinitas convergências no espaço infinito. Universo de super-corda.

 

Meu nome é Will, sou o Will Cagliostro e isso não significa ou vale nada. Sou mais um factotvm, grânulo insignificante, folha seca que vagueia incerta pelo espaço, expulso do lar por ventanias, um aborto mal sucedido, minha morada é a tempestade... Posso ser tudo, qualquer bosta sofisticada, mas permaneço aqui, mofando nessa sala de espera.

 

 

Sidney Fortes Summers

29/09/12