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Verdadeiro Mestre

Em um dado momento inexplicável ocorreu um afastamento radical, meu, da minha família. Não sei se esse é o tipo de coisa que acontece com todos depois de algum tempo. Convivência e tolerância são coisas extremamente difíceis e complicadas para qualquer humano médio, o que eu sou na melhor das hipóteses. Já supus que fosse por conta de um mínimo de educação adquira ao longo do tempo. Mas desfaço e invalido minha hipótese ao me recordar o quão sou mal-educado se comparado a maioria das pessoas que conheço. Elas até fazem uns comentários engraçados acerca dos meus arrotos estrondosos, dos meus maus modos, do meu comportamento à mesa, dos meus comentários indiscretos e uma série de outras coisas. Ah, esqueci da minha risada escandalosa... Eles apenas não conhecem as pessoas certas, é o que penso a cada nova crítica. Os ouço, numa esperança vã de mudar o que fora há muito arraigado.

Se me importasse com essa coisa que chamam de princípios éticos e morais, meu afastamento da família teria acontecido na tenra infância. Quando eu percebesse as primeiras trapaças nos jogos de cartas. Em vez disso aprendi todas e as uso com muita freqüência quando preciso de uma grana nas apostas feitas nos fundos de uma caixa de madeira virada, nossa mesa de jogos proibidos improvisada. Acho que esses foram os ensinamentos mais úteis que tive na vida. Quando eu ainda não tinha me tornado professor, pensei em instruir com eles os meus mais queridos pupilos. Depois, sabiamente, decidi não ampliar minha concorrência. Deu certo. Simplesmente as coisas acontecem quando tem que acontecer.

No banho lembro dessas pessoas que amo à distancia. Nada como o afastamento para transformar qualquer relação nas melhores. A cada encontro com minha ex-mulher fico mais convencido disso. A memória deixa as pessoas mais agradáveis e belas. Menos mesquinhas também. Ensaboando meu corpo toco no meu bago esquerdo. Contrariando a lógica e a gramática, sempre me esqueço do inesquecível. Meu bago esquerdo deve ser o maior da humanidade. De tão imensamente grande, acho que a órbita do planeta terra será alterada com minha morte. Talvez ele dê sentido à profecia maia. Me sinto um pouco culpado cada vez que ouço que o mundo terá fim em 2012. Mal sabem todos que o mal se esconde ridiculamente dentro de minha cueca. Que por sinal, deve estar furada. Uma pista das mais improváveis.

Com minha atual falta de tato parental e com um bago deformado crescente, era questão de tempo... Muito provavelmente não muito, mas era obvio. A solidão era algo inevitável. Não era necessário ser um oráculo para ler que no livro dos destinos havia a inscrição em letras garrafais e douradas sobre meu nome: Destinado a solidão.

Nem sempre é necessário estar sozinho para se sentir só. Me lembro do fim do meu casamento. Eu estava mais só ao lado da minha ex-mulher do que quando sozinho. E ainda há quem condene o divórcio. Acho que há uma inversão de atribuições de papeis. A cada dia estou mais certo que apenas o capeta poderia inventar o casamento e que apenas um anjo muito bom poderia ter uma idéia tão infinitamente magnânima e redentora quanto o divórcio. Mas isso é coisa que acontece muito frequentemente entre nós, basta comparar os salários dos advogados com o de professores.

Talvez tenha dado para perceber que sou um professor fudido. Na adolescência eu imaginava que eu poderia curtir as férias escolares e foder todas as garotinhas gostosas que me aparecessem na sala de aula. No início isso foi muito bom, confesso. Realmente fodi todas sem que nenhuma fodesse minha profissão. Mas o tempo passa e suas bocetas firmes já não combinam com um pênis murcho que mais parece uma tromba de elefante atrofiada. É duro ser motivo de chacota entre os seus amigos pervertidos nas mesas dos bares baratos dos lugares que voce freqüenta. É foda perceber que voce está nas suas ultimas moedas e que ainda lhe sobra uma vontade infinita de beber. E as recordações das suas adolescentes se tornam mais poéticas e perfeitas nas densas brumas mnemônicas. É hora de voltar para casa, esmagado entre odores, num ônibus lotado.

O ônibus é o veiculo mais comum entre meus colegas de trabalho. Salvo raras exceções, aqueles que chegaram a essa profissão oriundos de famílias abastadas e que tinham sonhos e ideais com o magistério. Esses podem se dar ao luxo de abandonar suas carreiras promissoras. Os que insistem normalmente acabam se transformando em neuróticos, histéricos e psicóticos. Esse é o tipo de gente que não tem colhões. Antes ser um pervertido que uma dessas criaturas desprezíveis como lesmas na salada.

Meu telefone toca. Uma aluna que não alcançou a quantidade mínima dos pontos necessários para ir a recuperação fala comigo carinhosa. Ela deve saber da minha fama. Ela tem apenas quinze anos, mas possui os quadris mais largos que o das professoras que já lhe deram aula. Tem cabelos longos. Seios formados. Uma boca que aparenta trabalhar bem. Talvez já tenha conseguido outras coisas com ela também. Aquela era a minha vez de usufruir o que ela tinha de melhor. A virgindade deixou de combinar com as secundaristas há tempos. O pudor também. Lhe disse como fazer para passar direto. Hoje, em breve, me orgulharei da minha profissão, um educador nato. Em algumas horas a solidão será afastada para um tempo e lugar provavelmente não muito distante. Não há como desprezá-la por completo ou apartá-la de si definitivamente. De qualquer forma, é um dia especial, até escovarei os dentes.