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Um Cigarro Faz Valer a Pena

Me diverte e me ajuda a esquecer do conforto habitual olhar as penas de passageiras. Escolho o melhor par e fico ali, me deliciando com a visão. Gosto de coxas carnudas e que aparentemente não sejam moles. Esqueci de dizer que faço isso em ônibus. Ônibus cheios. Não devo ser o único.

Os ônibus estão sempre lotados quando precisamos deles. Todos saem à mesma hora dos seus trabalhos e se aglomeram nas grandes caixas de alumínio ambulantes que circulam superando suas próprias dificuldades de locomoção pela cidade. Normalmente essa é a hora que o transito decide estagnar seus movimentos. Se voce tem um compromisso, se atrasará – muito. Se voce tinha uma foda, esqueça-a. Se voce tem uma mulher, me desculpe a notícia, voce é corno.

Qualquer um que tenha se dedicado a arte de observar belas coxas sabe quanta paz essa prática pode trazer. Um mantra cantado por olhos. Olhos dinâmicos e perspicazes capazes de conduzir a prazeres estáticos. Arte. Arte. Arte... Uma verdadeira arte. Arte para poucos. As melhores coxas dessa viagem são firmes e negras. Vejo a humana que a possui descer e as levar junto, melhor, ser levada de mim através do movimento das suas belas pernas suculentas. “A cisterna contem, a fonte transborda” – dizia Blake. Aquelas coxas eram fonte. Fonte de atração e de prazer. Até para quem somente as olha. Não perco tempo e me dedico a um novo par. Não são tão boas. Sua pele alva está desenhada com varizes. Ela tem algumas pequenas cicatrizes também. Não são perfeitas. Até diria que são um pouco estranhas. Agora elas pertencem aos meus olhos. Somos mais felizes quando nos conformamos com o que temos.

Sou arrancado do meu transe por uma criatura anacrônica, arrancado dos idos anos 70. Um projeto mal-acabado de hippie portador do transtorno obsessivo compulsivo mais estranho que tive notícias. A cada passageiro de pé por quem passava, comprimido entre seus corpos, cumprimentava com um “boa noite!” após tocar no seu ombro, pedia licença e se despedia agradecendo. Um louco ritual desprovido de sentido. O tipo de postura execrável que não cabe num ônibus lotado. Alguém precisava dizer isso para aquele sujeito. Mas não seria eu. Cansei das agressões originados de gente com distúrbios comportamentais. O fato é que esse ambiente, como todos os outros, exige um pouco de pose e algum estilo. Qualquer deslize e te confundem com um veado.

Peco de vista as pernas com varizes... A fluidez da troca pacífica (a maiorias das vezes. Eu torço para que sempre sejam), o fluxo natural e inequívoco da permuta de passageiros. Impermanência, tudo é passageiro num ônibus com excesso de tripulantes. Procuro novas pernas, os seios só ficam mais descobertos próximos a praia. Não é o caso. Encontro um garoto que move rápido as mãos e gira um cubo de seis faces coloridas. Nem tudo são pernas, meu caro. “Acabo de encontrar um completo retardado” – penso. Ele acelera ainda mais seus movimentos e em apenas mais três giros põe todas as cores nos seus devidos lugares. Sem nem mais olhar. “Encontrei um completo retardado” – tenho certeza.

A multidão apinhada se acotovela. Fica difícil de respirar. As imutáveis leis da física são desafiadas. Físicos deveriam aproveitar melhor os ônibus. Algo sobre a teoria quântica ou teorias das cordas poderia ser descoberto bem ali, no momento em que mais uma criatura com pressa e sem esperanças adentra em seu interior abafado. Creio que essa situação poderia ser convertida numa experiência de uma quarta dimensão. Não dá pra pensar muito. Me acertam em cheio, um golpe do qual não concebo a direção. Me falta ar. Minha carteira está bem protegida.

Não que eu seja adepto à prática de esportes. Não que eu pretenda algo mais que o repouso no lar. Não é coisa alguma. Só a rotina de mais uma vez descer bem antes do meu ponto e seguir a pé o caminho que me resta. Amanha e depois, e depois, e depois, será tudo igual. Me esquivando do carro que avança rápido quando fujo do lixo despejado na calçada, acendo um cigarro. Dou uma baforada das boas.