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Conto Anônimo

Eu sou capaz de atravessar a cidade para ver um amigo. Sou capaz de cruzar estados por um sorriso de um ser humano que valha a pena. Esso é o máximo alcançado pelo meu otimismo. Sei que a maioria das relações tem prazo de validade. Um prazo breve que deve ser respeitado, pois as más relações fazem tão mal quanto a comida estragada ou o remédio velho e inútil. É tipo de coisa capaz de matar um homem, por mais duro que ele seja.

Cruzo minha cidade como quem a vê pela primeira vez, nunca perco o encantamento por mais que o percurso seja rotineiro e diário. Perpasso múltiplas realidades. O velho mendigo que se esconde na parte mais obscura das sombras, um animal acuado em baixo do viaduto não deixa de me afetar, me chamar a atenção. Ele não é visto na luta diária dos combatentes cegos que pensam apenas em salvar seus próprios cus. Não os condeno. Sobreviver por si já é algo deveras complicado.

Vejo outdoors coloridos, extravagantes e chamativos através das janelas empoeiradas do ônibus. O transporte coletivo é sempre uma merda. Tenho sorte de estar sentado e me dar ao luxo de pensar livremente enquanto uma multidão se aperta ao meu lado. O calor é inclemente, mas todos já nos acostumamos com ele. Tomo cuidado com minha carteira, eu e somente eu sei o duro que ralei para recheá-la com as poucas notas e moedas que sobram após o pagamento de um endividamento mínimo que já é quase tudo necessário para me manter provisoriamente vivo.

Nos outdoors mulheres seminuas que se encaixam nos rigorosos padrões de beleza e estética impostos. Mais uma luta para as mulheres, alcançarem o sonho que não foi sonhado por elas, mais um desafio para os homens, conseguir um exemplar, ou alguma coisa que se aproxime, daqueles espécimes perfeitos. Perfeitos para quem? Ao meu lado uma mulher comum choraminga pedindo socorro. Um sujeito lhe esfrega a caceta sem pudores no ônibus lotado. Toda atenção masculina na mulher de papel que passa rápido na janela.

Eu particularmente não me assusto. Um tarado no ônibus lotado é inofensivo. Ainda que estivesse na mais aguda das suas crises libidinosas, suas mínimas condições de mobilidade minimizariam as conseqüências dos seus atos, por mais sórdidas que fossem suas intenções. Olho pela janela e um adolescente adamado e sem pelos no rosto me mostra seu dedo médio. Um dedo curto, curvo e semi-atrofiado que ele acha o máximo. Ele me manda tomar no cu e me chama de fracassado. É um dia de sorte... Consegui um admirador nas longas avenidas tristes que cortam a cidade e que separam suas áreas como carnes no açougue. Sorrio com o presente ofertado pelo acaso.

Fracassados ou vencedores jovem, todos nós caminhamos inevitavelmente a morte. O problema maior consiste no que fazer até lá. De que forma afastamos o tédio e o sofrimento, o famoso pêndulo de Schopenhauer, inerente a existência enquanto seres humanos. Me desculpe não poder retribuir seu gesto, estou ocupado demais com questões que dizem respeito a minha sobrevivência. Sou um sujeito capaz de trespassar a cidade num veiculo que se move numa chaga aberta no meu peito por um sorriso de quem quero bem. Vale a pena o abraço que me descortina, numa viagem rodoviária desconfortável, a angústia do mundo. Pouca coisa de importante sobra do mundo subjetivo, esvaziado pelas necessidades e agruras da vida, como o afeto. Não tornemos nossos corações duros como pedra, estaríamos mortos enquanto “gente”.

A cada ponto nos aglomeramos no espaço já apertado e reduzido de um ônibus comum em dia comum. Uma rotina proletária do meu povo. Entendo um pouco o quão difícil é ser gente, se sentir pleno no que concerne a tal. Excluo especulações metafísicas. O óleo quente e o combustível poluente que fazem funcionar o motor que empresta às rodas e pneus a força que faz movimentar o veiculo lotado é o tipo de coisa que deve habitar os meus pensamentos. O buzinaço dos carros particulares numa agitação hebefrênica anuncia que algum tempo a mais será perdido, um pouco de vida será deixada sobre o asfalto negro que não diz nada.

Acuado num canto como uma caça sem escapatória esperando pelo golpe final de um algoz frio, sem refúgio no mundo abstrato e onírico da mente, vejo meu reflexo distorcido na janela empoeirada, sem destaque sobre os demais. Um retrato de um observador mudo. Mais um entre as pessoas no mundo que é apenas mais um.

Sid Summers tem dois livros publicados (Ratos com Asas e Prazer, Sid!). Tem contos e crônicas publicados em diversas revistas nacionais e internacionais. Estudande do bacharelado interdisciplinar de artes da UFBA.