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Ratos na Despensa

I

Mais uma festinha de desconhecidos em que penetro sem ser notado. Bebo gratuitamente a bebida alheia usufruindo das benesses que não me foram destinadas. Desfilam em frente a meus olhos uma miríade de rostos desconhecidos, rostos barbeados, rostos limpos. Significam patavina, bulhufas. O exercito de pedra de Terracota em movimento. Um pouco menos frios, um pouco menos pétreos.

Dentre todas aquelas faces barbeadas e marmóreas, um rosto conhecido. Nossos olhares se cruzam. Ele não me diz coisa alguma. Estendo minha mão. Ele me cumprimenta. Começamos a nos falar.

- Te conheço de algum lugar, meu velho.

- Foi de um aniversário que voce estava, mas ninguém te conhecia.

- Realmente eu não conhecia ninguém ali.

- Era o comentário geral.

- Mas tenho a impressão que realmente te conheço.

- Sim. Teve uma vez que voce tentou beijar minha mulher à força.

Eu realmente não fazia a mínima idéia de quem era a mulher daquele cara. Como não costumo desconfiar desnecessariamente das pessoas, acreditei em suas palavras, como o evangélico fanático na sua bíblia. A descrição minuciosa não ajudou, mas descobri que eles eram noivos e se amavam verdadeiramente e com uma profundidade sem igual. Essa ultima parte, eu confesso, supus ser um exagero. Pedi desculpas. Ele era um cara legal. Nos despedimos. Era chegada novamente a hora de procurar mais alguma coisa alcoólica para beber.

 

II

Carmem era um anjo. Literalmente um anjo, um anjo puro, verdadeiramente angelical, num corpo de mulher. Um lindo corpo de mulher. Soube disso desde nosso primeiro contato. Quando a conheci, em mais uma festa de desconhecidos onde se pode beber em paz e de graça, a arrastei para o primeiro banheiro que vi. Quebrei um caco de planta pelo caminho. Era a comemoração do aniversário de algum adolescente imberbe e afeminado em que não perdoei nenhuma das suas amigas. Era como brincar de bonecas. Bulinei com meus dedos rápidos e habilidosos a maioria das garotas que forcei e entrada comigo no banheiro. Algumas delas ainda guardavam fortes traços da sua infância, quadris ainda não desenvolvidos, seios não formados. Compreendi com profundidade Nabokov e imaginei quem fora a sua Lolita.

Expus para garotinhas que nunca tinham visto um pau, uma caceta de verdade, um membro rijo, rico em veias volumosas e latejantes, ávido por penetrar em seus corpinhos virginais. Uma por uma ou todas de uma vez. Olhei nos olhos de Carmem a primeira vez num desses banheiros. Mas nada aconteceu. Eu a beijei. Soube que ela era mais de 10 anos mais jovem que eu. No mesmo instante soube que eu estava fudido. Eu estava apaixonado.

Dessa vez desfilamos de braços dados por todos os cômodos em que estivemos juntos. Ela me encontrou bêbado no sofá taciturno e fabricou risos verdadeiros na minha face castigada pelo tempo. Fomos até a escada de emergência, para o caso de um incêndio imprevisto, e nos agarramos como dois canibais famélicos. Eu sentia em mim sua respiração ofegante. Apertava seu sexo casto na minha mão maculada pela vida. Eu me senti purificado, depurado do mundo material como arúspice romano. Tudo seria perfeito se Carmem não precisasse voltar para casa, para o conforto do lar e a proteção dos seus pais. Ela vestiu a farda da escola e aquilo... Aquilo mexeu comigo, tocou meu coração de verdade. Ela sorriu para mim. Carmem se foi.

 

III

Os convivas bebem suas bebidas finas em taças largas, tão largas quanto o meu desejo por Carmem. Ela não está comigo, ela se foi, não sei se voltarei a vê-la algum dia. Eu bebo. Outras pessoas bebem devassando a brancura obscena dos seus dentes em sorrisos desnecessários. Vejo dependurado numa parede um quadro, uma pintura da imagem que as pessoas tem de Jesus Cristo, um tipo europeu meio hippie de olhos azuis. Finalmente o compreendo, finalmente sua mensagem faz sentido para mim. O álcool une os homens. Esse foi o motivo dele multiplicar o pão e o vinho. Alimento para o corpo e alimento para alma. Retire essas coisas de um homem e ele estará arruinado. O álcool... O álcool desperta bons sentimentos.

Volto a realidade, me reconhecendo perdido em divagações metafísicas. Ao meu lado reencontro o homem do qual tentei furtar-lhe temporariamente a noiva. Fui sincero e tentei em sua frente o que sua noiva só faria pela suas costas, não importa. Ele me deixa inteirado sobre os motivos de mais uma dessas festas supérfluas, me diz tudo o que está acontecendo. Eu tenho um bom faro, eu sabia que aquele era um sujeito legal. Devia apenas ser egoísta, como a maioria de nós é. Um humano médio, não havia mais o que exigir. Aquilo já era até demais. Ele estica seu braço na direção de uma mulher vestida num vestido apertado e curto.

- Aquela é a aniversariante.

- Ela é uma gostosa.

- Tá entrando em seu quarto.

- Eu poderia estar com ela.

- Tá cansada. Já deve ir dormir.

- Quem vai comê-la?

- Estou com a Pierina, não posso.

Pego mais uma das garrafas de cerveja cheia que aquece sobre a mesa. Algum idiota tentou desperdiçar cerveja. Não na minha frente. Bebo seu conteúdo de uma única vez. Sinto os filetes de bebida que escorrem pelos cantos da minha boca e que refresca o meu peito ossudo. Seria uma cena demasiado simiesca para eles, mas para me julgarem, precisariam não estar tão alcoolizados. Eles ainda não sabem o que é resistência ao álcool.

Eu sou Will. O velho Will não tem tempo a perder. O velho Will já perdeu tempo demais lutando para sobreviver. Mas nem por isso o velho Will se esquece dos amigos, ele não tem um coração empedernido como a maioria da humanidade.

- Vamos homem. Me acompanhe. Vamos nessa!

Ele hesita. Sua hesitação dura alguns segundos, mas passa. Ele caminha um pouco atrás de mim. Mantemos nossos passos firmes. Empurramos os imbecis que estorvam nosso caminho. Entramos no quarto. A aniversariante esta tombada na cama, a sua cara maquiada enfiada no travesseiro ocultando seus traços delicados. Meu amigo tranca a porta. Realmente estou convencido de que tenho faro. Ele é mesmo um bom garoto. Ele está começando a sacar como a vida funciona. Está um passo à frente da maioria. Eu tiro meu cinto e abro minha bermuda preparando meu presente. Ela não ira se esquecer do Will. Veja a sua calcinha que está à mostra. Parte do seu rabo também. Ela é deliciosa. Certamente há uma puta potencial oculta ali. Talvez ela esteja evidente como um lago cristalino. Agradeço ao meu amigo por ter fechado a porta. Reconheço um homem que faz bem o seu trabalho. Ainda que ela estivesse com a boca livre e pudesse gritar histericamente, não poderia ser ouvida. Era impossível correr ou fugir de nós. O som estava alto, mas não tanto quanto nossas cacetas.

 

Sidney Fortes Summers

03/11/12