Meiotom - Contos


 

aqueles olhos da cor do céu

silas corrêa leite

"Respeito muito minhas lágrimas/De perto ninguém

é normal..."

 

(Caetano Veloso – Vaca Profana)

-Quando tive o prazer de conhecê-la, era uma aluna especial na matéria de Filosofia do Curso Supletivo do Colégio Galileu. Aliás, a bem dizer, era a mais bela da classe, do colégio. O tempo todo admirada, homens e mulheres solícitos, quando não no encalço. Mas a beldade sempre na sua, esguia, como uma garça com pose de estrela - e pés de bailarina. Eu, todo trancham, estava caidinho mas segurava um desdizer.

-Quinze anos mais nova, morena com tez alva, alta, só de pernas um metro e meio, cabelos pretíssimos, lisos, seios de manga-rosa. Um sorriso que lia butins dentro da alma da gente. No entanto, confesso, aqueles olhos, já nem dava para saber direito se, como na canção de Tim Maia, eram azuis da cor do mar, ou se havia um pouco de ceús e santerias neles. Encantei-me, mas fiquei na minha. Discreto, mas apreciando o desmonte íntimo. Feição de Burt Lancaster depois da malária.

-Durante o curso de ano e meio, com a classe lotada, difícil de controlar, fomos ficando dependentes (na química indizível dos amantes disfarçados - ah a libido!) e amigos de mala e cuia, sem tirar nem por. Eu era casado, mais ou menos feliz (o tédio da relação mata, e a rotina espandonga a intimidade nua e crua), e ela era apenas uma aluna encantadora, pois, além de tudo era extremamente gentil, meiga, fina, doce, feminina, delicada. Um dia até, confesso, comentei com ela que, se não fosse casado naquela hora, dia, mês e ano, eu me casaria com ela sem pestanejar. Falei e ia puxar outro papo-aranha, mas um silêncio de areal marcou a amarra do diálogo fincado em poses de lado a lado.

-Vi que seus belos olhos azuis – da cor do mar ou do céu, já nem sei mais o que posso dizer agora – brilharam, como se lendo além dos véus de minha alma carente. Ela era do signo de Peixes e eu de Leão. Ficou nisso o, vamos dizer, gume da conversa fiada, sem mais nem menos.

-Um dia até, numa explanação sobre o Mito da Caverna de Platão, entre umas seriedades filosóficas e outras, depois uns gracejos - porque também ninguém é de ferro - falando de diálogo, dialética; comentando sobre as interpelações de amantes quando querem se declarar à alguma musa ou ocasional ninfeta, cooptar a bendita pretendida, fazendo tipo, machista com pose de galã babaquara, dando um exemplo chinfrim de técnica de conquista, olhei-a nos olhos maravilhosos e, inventando na hora, cacei de dizer:

-Você quando vai dormir, guarda esses belos olhos no porta-jóias?

-Ficou nisso o meu tácito brincar de assédio dissimulado. Uma aventura vernacular querendo tâmaras, sândalos, e oásis de encalhe.

-Nem bem a pouco meses ao final do curso – ela era boa em todas as matérias, menos em matemática (como eu – acho que tínhamos tantas coisas em comum) – um dia ela me procurou ao final da aula, sexta-feira de outono, lua cheia feito um belo cisne (pendurada pelo Burle Marx no céu de Itararé), e, com aqueles olhos sedutores me disse, algo grude, feição de amorosidade pegajenta: "- Professor querido, eu nem ligo pelo fato do senhor ser casado. Acho que não tem nada a ver. Ando tão sozinha..."

-Tóim! Fuzilo no meu coração de poeta aleijado por dentro. Que disparou um bólido incrível, e veio subindo das entranhas pela garganta acima. Acho que fiquei vermelho como peroba-brava, tive febre de outono, gesticulei o indizível, só sei que, curto e grosso, a bem dizer, em horas estávamos num barzinho conversando sobre trivialidades, tomando chope entre confidências. Falando de sonhos, esperanças, a solidão-albatroz, o cárcere da tentativa, o espetáculo visto da montanha azul, pássaros na linha do horizonte, a estrada de tijolos amarelos, essas coisas que amarram diálogos e assinam insistências em nosotros que acreditamos que a carne é fraca; que é o espírito que ama o espírito, que toda paixão imprudente é louca, e que todos temos o direito da felicidade a qualquer custo, a qualquer preço. No porto-vinagre das paixões não crescem violetas?. A volúpia do sexo não segura andaimes delicados. Eu e a minha metralhadora cheia de lágrimas...

-Enrolamos uns tempos, nos telefonamos, amor e flor, tardes de sol, blues do Djavan, um Domingo de Ramos coincidiu de jantarmos fora. Até que o jogo de sedução finalmente prevaleceu, e mesmo com alguma certa resistência - o apelo da carne tocando altos fios de tensões secretas - acabamos nos entregando á luxúria, ao prazer. Ao frugal amor clandestino dos irresponsáveis, na arquitetura dos dias que tecem teias, montam armadilhas e vislumbres de loucura no afeto correspondido e sem breque.

-Ainda levamos o arroz-com-feijão do romance na toada do permitido e no manejo do tempero discreto. Paralelamente às havências, o meu casamento de décadas desandou como maionese feita às pressas, foi pro vinagre. Nem bem um ano e eu estava separado e irreconhecível. Era outro. Meu mundo-sombra tinha iluminuras e matizes. Na prazeirança com viço namoramos mais dois anos e meio, e, quando Clara engravidou sem planejarmos uma amizade colorida, acabei marcando de irmos morar juntos. Logo mais, em dois meses nos casamos de papel passado e tudo, e assim reinamos, eu, um poeta loucamente apaixonado, ela, a mulher ideal, a musa amada, um raio de luz na minha vida. Cresci com ela. Tornei-me doce e terno. Revicei, jovial assobiei as baladas jovens que ela gostava. E ela aprendeu a cozinhar comigo. Passou a curtir Borges, Neruda, Garcia Lorca, Fernando Pessoa, Joan Baez. Depois começou a ter posições políticas mais definidas. Meus familiares viam-na como um anjo azul em minha vida. O clã dela elogiou que, comigo, ela, finalmente sossegara o facho. Tornara-se segura, sociável, com diálogos prudentes. Enfim, o balaio e a tampa iam juntos levando a pendenga da vida, que na verdade é uma grande festa para a qual tivemos a honra de ser convidados. Sim, era a esposa ideal, a companheira-talismã, a mulher definitiva de minha vida. Quando alguns indagaram a loucura do relacionamento apressado, defendi-a, defendi-me, afinal, conjecturei, tenho que buscar a felicidade e ponto pacífico. Não tinha que dar satisfações a ninguém. Nem me lembrei direito dos amores loucos narrados com maestria por Shakespeere.

-Isabelinha nasceu e era a menina mais bonita do mundo. Herdara toda a beleza da mãe. Só que as os meus castanhos olhos tristes de poeta sem lenço e sem documento, como se um atestado de jardins e encantários.

-Vivi os três anos mais felizes da minha vida. Quem ama, voa? Dei importância total ao verbo EXISTIR. Mudei hábitos, cortei o sal, o açúcar, a cerveja preta, o macarrão cortadinho número dois, os bolinhos de arroz-agulhinha que aprendera com minha mãe, o cuque salgado de minha irmã. Cuidei de mim, fiquei vaidoso de novo, tornei-me corajoso, larguei a fauna da boemia, sensato e caprichoso batia cartão de ponto todo santo dia em casa, no favo da convivência salutar e grude. Não há sensações no esquecimento.

-Minha irmã passou a vir ajudar em casa. Engomava roupas, limpava as janelas, dava alpiste para os pássaros das gaiolas amarelas, punha esterco nas dálias e nos lírios de São José, passava meio dia conosco. Cobrei que Clara fizesse uma faculdade. Ela até arrumou um belo trabalho de secretária em uma multinacional - por tráfico de influências minhas - e assim éramos um lar-doce-lar muito feliz. Eu estava encantado com a Clara que era mesmo uma jóia em meu mundo alumbrado. Com ela eu me sentia dentro do meu próprio coração.

-Certa feita ela chegou do médico dizendo que estava grávida novamente, e foi um outro dia mais feliz de minha vida. Enternurada ela disse até que tinha certeza de que era um menino – o Júnior, o Júnior - e nesse dia eu lhe dei rosas amarelas importadas, um cedê de clássicos do Frank Sinatra, um jantar francês à luz de vela, e nos amamos apaixonadíssimos da silva, como nunca.

-Dezenas de dias depois, se me lembro bem, Endoenças, ela saiu cedo para trabalhar, como de costume rotineiro. Era um dia de vento silvestre gracioso no ar, e eu, depois de levar nossa primogênita filha para a Creche Arco-íris, fui todo garboso para as minhas aulinhas de francês. Foi lá que começou o inferno. Será o impossível?

-No celular recebi o telefonema frio de um tal Doutor Isac Norton. Que dizia falar em nome da mulher de minha vida, e que estava em caráter peremptório postulando o divórcio. E esclareceu rançoso que sua cliente não voltaria atrás, era definitivo; que ela não queria mais viver comigo, como se isso fosse realmente possível. Caí em mim e começou o embate nojento, a peleja entre o ódio e o amor, a felicidade e o dezelo íntimo. O infinito e o abismal.

-Virei um bicho. Foi uma loucura. Horrores, devaneios, punhal de groselha preta no íntimo transido. Nem que eu escrevesse mil livros iria me dispor de tanta dor, tanta tristice, tanta loucura de irrazão corroendo meu corpo, minha alma, meu coração pisado. Como explicar o inadmissível? Como ser chuva e deserto? Pedi ajuda. Inventariei orfandades, naufrágios e partilhas. Provoquei ações judiciais cabíveis, acionei amigos autoridades, rasguei virtudes e limites, rebusquei vícios, tentando de todas as formas possíveis resgatá-la de sua depressão, de sua insanidade temporã ou coisa que o valha. Vivi o curtume dos dias para recuperá-la, na decantação dos infelizes, purgando a dor, sempre tentando fazê-la enxergar a relação estimada, forçando que ela retornasse ao nosso recanto amado. Usei de todos os artifícios, até querendo julgá-la imputável, insana, inclusive para interná-la na marra, sob meus carinhos de cuidados terminais. Tudo em vão. Falhei nisso também. Foi uma desgraça.

-Deus sabe o quanto tentei transformar-me em dez, guerreiro, anjo, detetive, amante, rastreador, peneira, céu, parede, grilhão, vigia, galã, nuvem, sol, desmundo, catamarã, mas foi tudo impossível. Em vão. Ela finalmente foi morar longe da cidade, com uns tios húngaros. Nunca mais falou comigo, jamais coincidiu de estarmos cara a cara, frente a frente, lado a lado, nem no escritório de advocacia do dr Isac. Bem ou mal, felizmente, o máximo de vantagem que consegui, se posso dizer assim, foi que nossa filha Isabela ficou com a minha guarda. Eu tinha posses e parecia de confiança. Nem acreditei nessa sorte entre tantas sofrências ruins. Como pode o cristal quebrar e nem termos sequer um resíduo da luz dele?

-Desesperado, inseguro, completamente perdido, comecei a beber. E nunca escrevi tanta poesia cheia de mágoas em minha vida, como se uma exposição de angústia-vívere. Minha irmã viúva, Edna Maria, veio morar definitivamente comigo, ajudando-me a cuidar do que restou em mim daqueles olhos do azul mais bonito. Não sei onde errei, se errei, não sei qual foi o problema, nem tampouco sei que falha de parte a parte causou tudo aquilo. Só sei que, do mesmo modo que Clara entrou em minha vida, como se pela porta dos fundos do coração, um dia também deu no pira, foi morar num puxadinho da saudade insustentável.

-Inseguro, infeliz, amargo, pela nossa filha, pela honra de meu sangue, tentei recomeçar reconstruir paulatinamente a minha vida de bicho bem administrado nas aparências, como se isso fosse inteiramente possível. Passaram-se os anos, como se séculos. Envelheci como um maracujá murcho. Clara, sempre rendida em casa, reclusa em seu labirinto de insatisfações, com os familiares desacorçoados. Eles tinham pena de mim, me adoravam, mas não podiam fazer nada. Não se pode transformar um muro em nuvem.

-Muito tempo depois, feridas lixando memórias, amargura ganhando a manteiga do tempo que é o melhor juiz, eis que recebo um telefonema desesperado de minha irmã caçula, dizendo que Clara tinha levado Isabela para tomar um sorvete de limão, num dia feio, de chuva, em data não prevista pelo juiz, e nem tampouco eu ter sido consultado a respeito, de forma prévia, ou consentido de papel passado, como era o acordo firmado em juízo.

-Quando eu soube já era a tragédia consumada, já era o abismal, já era o corte profundo da faca cega da dor. Tarde demais.

-No quarto da casa dos tios que estavam viajando, aonde morava, a policia acionada localizou Clara com os pulsos cortados, e os de minha única filha também. Já agonizavam exangues. O quadro tétrico, o horror, a mixórdia de neuras e resultantes. Quedei-me aturdido, berrando o pranto dos inválidos.

-Minha menina pura estava pálida. O rostinho murcho. Toda mole. Sem qualquer chance de ser salva. Tentaram o impossível. Queria morrer ali, se não me acudissem.

-Os olhos de Clara - com alguns meses de gravidez de nosso segundo filho - já não eram azuis. Esbugalhados, pareciam ser o desmonte de todo um vislumbre apenas imaginário, um alicate de sombra vulgar apontando para o tétrico em mim, quase que uma mira. Era a angústia-vivere, a toleima, a alma oxinegando seixos dolorosos na emoção cainha. O céu por testemunha.

-Como fui cego, disse para meu pai que me ofereceu o largo ombro amigo, o afeto demorado com seus braços longos. Nunca vai vou amar alguém na vida, completei, depauperado. Nunca mais confiarei em quem quer que seja, tentei justificar ao meu velho. Que olhou-me nos olhos e concordou com uma tristeza tácita. Isso era ponto pacífico, pensei comigo mesmo, procurando orquídea murcha numa saída de emergência.

-Pior era ver no chão do quartinho cheio de sangue com nódoa, as lentes de contatos daquela desvairada que eu amei tanto feito um coió.

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FIM

Silas Corrêa Leite – Professor, poeta e ficcionista premiado. Sites Pessoais:

www.silaspoeta2222.kit.net – www.poetasilas.hpg.com.br

E-mail: poesilas@terra.com.br