Meiotom - Crônicas


 

CELULAR

silas corrêa leite

Para quem sobrevive incólume a Um






"Para que serve tanto CELULAR - Com tanta falta do que falar?..."



Ninguém nunca liga mais pra ninguém...Todo mundo tem medo e vergonha de
ficar sem...Ansiedade, solidão, carência, medo...E a cabeça vazia inventa um
reles torpedo. O patriarca não quer assumir as correntes do filho...Não há
mais nas relações de trocas qualquer brilho. A mãe moderna não tem mais nada
a exemplificar para a filha...Porque acabou o tempo do diálogo, do afeto, da
compreensão, vazou  a pilha.

Todos desejam ardentemente um minúsculo e exótico aparelho celular...Porque
já não mais agüentam os verbos viver & amar. Ninguém liga pra saber como
você vai ou não vai...Nem o sobrinho, nem o afilhado, nem o patrão, o amante
ou o pai. Faltam conteúdos vivenciais nas relações...Ou são burocráticas
broncas, ou são potes de regras, ou  simples traumas e inaptidões.

Como é vazio o altar da santa televisão...O entretenimento é falso, só
agressividades saindo pelo ladrão. A Internet é um frio cada um por si e
muito cinismo... Andamos sozinhos em bandos, no beco do consumismo... Um
inútil aparelho que deveria ser de comunicar...É cheio de símbolos
universais, mas nada de realmente identificar.

Um aparelho sonoro tem controle remoto, seguro e vibração...Um outro tijolo
de desuso tem defeito de fabricação.  Um novinho em folha ilumina uma
espécie de Pelo-sinal...Mas nenhum é intimo, perfeito, interessante,  útil,
presencial. É celular em um de seu mais profundo vazio ser & estar... E
tanta falta de amor, de convívio, de se tocar.

Por falta de diálogo todo mundo tem um seu personalizado aparelho...Mesmo
que no seu próprio núcleo de abandono vegete o dezelo. É um escapismo sem
sonho, filosofia, direitos humanos, mérito ou fim...E na verdade ninguém é
CLARO, ninguém é VIVO, ninguém é top TIM...

A solidão-carcaça é explícita na carga da bateria...E o celular é colorido
por falta de conquistada companhia. Ninguém se encontra exatamente onde
está...Porque falta de ética e visão plural-comunitária é o que há. Se
manque, ninguém liga pra dizer alguma coisa que sirva ou pra prestigiar
você...Um foge na viagem, outro se esconde ou sublima, outro viaja, outro se
dopa, outro lê...

O pai com pós-graduação dá um moderníssimo celular pro júnior
herdeiro...Talvez pra livrar a consciência de ver nele dentro em breve um
hospedeiro. Um outro ganha um celular com bip, cheiro químico (e sem beijo)
no natal...Mas fica só o vazio da mensagem anônima por engano na caixa
postal. São ridículas as trocas de inócuas e programadas mensagens...Jogos
ridículos, campainhas, toques de recolher, miragens...

A vida é dura, triste, angustiosa, solenemente amarga... Mas a sensação de
se ser sozinho repõe e eterna carga. O aparelho digita, recebe cálculos,
estatísticas, reduz a emoção... Como se cada um estivesse atado a ele como
âncora de ocultação. Muitos aparelhos com alta tecnologia são facilmente
clonados...Como cincerros revelando o gado vacum nos currais
pré-determinados. Cada aparelho por si mesmo é um ridículo falso lixo...Do
pobre resto de ser humano com baixa tarifa de preço fixo.

A vida é barra pesada, sedentária, insensível, cega...Mas no final do dia só
o aparelho por si só se carrega. Criamos a dor, a resignação, o chip da
ruga...Mas o celular ocupado sempre identifica o grito de socorro que pluga.
Afinal, todo mundo tem o seu vistoso aparelho celular...Mas ninguém nunca
tem algo interessante a declarar.

Você paga o aparelhinho brega em cem suaves prestações...Mas o espiritual
atribulado não taxa código de área em precárias desligações. Ninguém liga,
ninguém quer saber, ninguém mais chama...Porque ninguém mais o seu  ser
ausente na dura sobrevivência ama.

É cada um por si, Deus por todos e ninguém nos escuta...E a decodificação de
senha secreta é despistar a conduta. E, se por engano, alguém um qualquer
nunca ligar...É uma eterna falta de dentro despistada a se revelar.

Se, de noitinha, madrugada a dentro o seu aparelho tocar...Pode ser você
mesmo querendo se encontrar. Ou fazendo um contato pela insegurança de se
restar a sós...Ligando pra secretária eletrônica querendo ouvir a sua
própria voz. Ou você, carente, insegura, de próprio íntimo dano...Querendo
pedir socorro mas desligar depressa gritando "Foi Engano..."

Pode ser seu coração querendo respirar paixão, dizendo "Me ame, por favor"
....Mas você tem medo de amar e o seu aparelho celular é o seu cajado ou
cetro condutor. Porque você se perdeu no labirinto da posse de seu
instrumento celular...Ninguém liga pra você e você começou a se faltar.

Deixe o seu aparelho celular no guarda-comida...Para você ir procurar elo
existencial pra sua vida. Deixe seu aparelho intrometido num criado-mudo...E
solte as amarras pra sair e viver intensamente tudo. Deixe o seu aparelho no
conserto e nunca lembre de ir buscar... E viva intensamente como se cada dia
fosse único e singular.

Deixe o seu bendito aparelho desligado...E vá se apresentar pro vizinho da
barraca de camping do lado. Por que, assim, com tanta falta do que
falar...Você deve jogar fora o seu celular. Não há livro de auto-ajuda se
uma ajuda mútua vai melhorar...E tudo é uma busca, um olival, um coração
humano, um desejo de se encontrar...

Você é uma pirâmide, um deserto,  ou uma enorme tenda...Ligue-se:
desligue-se, saque o lance, aprenda. Você está fora de área se não conseguir
se encontrar...E se não tem nada a dizer, por que então um aparelho celular?

Pessoas fora do prazo de validade...Sem Deus, sem Amor, sem a fina flor da
sensibilidade...


Mas não me responda nada, nem fique perdida ou triste...Porque se você me
ligar pra dialogar... Uma gravação dirá em tom solene e peculiar:

 Esse Número Não Existe!

-0-


(Texto da Série: É Preciso Humanizar o Ser Urbano)





Silas Corrêa Leite
E-mail: poesilas@terra.com.br
Site pessoal: www.itarare.com.br/silas.htm
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