| Meiotom - Contos |
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efeito colateral |
SILAS CORREIA LEITE |
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Nelson
Coelho era pegador mesmo. Apesar de bem casado com uma peituda ruiva
argentina de olhos de amêndoas e lábios de mel, ele não era de fritar
bolinhos, o tranqueira infiel. Chefe do Departamento Pessoal da multinacional
Orion S/A, catava as minas pedaçudas que dessem mole, no dizer dele, que
marcassem bobeira, porque com ele, que era fera, era uma no cravo e uma na
ferradura, por assim dizer. A
tipinha, inocente ou não, bobeava, e ele, lábia farta, handicap de
paqueras, saliva de romântico de ocasião, faturava e depois tiau, bença,
fui. Nem te ligo. Era uma caipora lazarento de galinha, tá sabendo? Tinha
estilo, claro. Tinha charme, o porqueira. Sabia o favo das circunstancias que
coincidiam a seu favor nas estratégias das técnicas de sedução. Roupas de
bailes, festins de parabéns, cesta básica, amigo secreto, e, quando se via,
tóim, mais uma zinha pro eu acervo oral com riquezas de detalhes. Se
cobravam que ele era bem casado, ele fazia tipo solidário, e dizia que a
patroinha estava com câncer no seio e já nem dava mais no couro com ele, de
insensível e frígida que se restava, tadinha dela. Sabia
muito bem as fraquezas femininas, e, no flanco, com delicadeza e know-how, o
estrupício triscava de bandeja. As, ponhamos, seduzidas e encantadas, ou
ficavam quietinhas e tudo se restava por isso mesmo depois do desfrute, ou,
dando com a língua nos dentes, iam cantar noutra freguesia, demitidas que
eram. E elas sempre precisavam do emprego, moralismos à parte. A
maioria das coitadas engoliam a seco o desfrute a que se quedaram, odiavam
para sempre o traste, mas ficavam esperando e torcendo para que ele, um dia,
pegasse uma doença fatal, engravidasse uma filhinha de papai valente, ou
desse de-assim com os burros nágua. Se uma tipa babaquara engravidasse por
acidente de percurso em situação ilícita, ele prontamente pagava o aborto,
que até forçava que fizesse na marra. Se era virgem sem tirar nem pôr, ele
se prevenia que era cabra rodado, macaco velho nas patifarias. Que tipo. Mas,
um dia, e sempre tem um dia nas havências do reino do “era uma vez”,
aconteceu o improvável dentro das leis das improbabilidades mágicas. O céu
por testemunha. A estagiária de direito que entrou no Setor Contencioso do
Jurídico da firma era muito bonita e, a bem dizer, não era flor que se
cheire. Nem por força. Quando
Nelson Coelho a viu, ficou boquiaberto, foi um desbunde geral nos seus
sentidos e presunções, um desboque nas suas estruturas até psicossomáticas.
A mina, loura oxigenada, nome Nanci Estrela, lábios carnudos, pernas na Vera
Fisher, olhos tristes de songa-monga, era, digamos, um monumento de pedaçuda
de corpo, uma cavala mesmo, só que dura na queda, resistente pra mais de
metro, não era próprio dela os deslizes, muito menos se aventurou em
gracezas ou entregas, nem por causa de galanteios ou conversas fiadas pra boa
bisca dormir. Quanto
mais ele, o Nelson Coelho, investia nos trâmites da falsa paixão a primeira
vista com bregas retóricas de elogios, querendo tirar uma casquinha, ainda
mais ela, a Nanci Estrela, punha empecilhos e não se mostrava com eventuais
derretimentos por ele. E ainda se vangloriava, claro, na dela: era virgem,
era crente, tinha namorado de
aliança compromissada, era direitinha, não queria saber de má intenção,
assédio, muito menos aventuras banais. Foi por aí o desmanche das aproximações
como jogo de cena de retorno. Só por Deus. Nelson Coelho ficou pirado. Não
acreditava. Ficou quase louco. Será o impossível? Onde já se viu aquilo,
um homão com a experiência toda posta a prova? Tem cabimento? Coração molóide
ou pantomina de novo estilo? Vá saber. Queria faturar a mina vinte anos mais
nova, era questão de desafio, orgulho, nunca ninguém tinha ousado tanto, em
resistir. Estaria perdendo as estribeiras ou ficando feio, vaidoso que era?
Benza-Deus. Até
que a pretendida bobeou feio na área. Pisou na maionese. Brigou com o
namorado almofadinha, baixou a guarda da defensiva, quando Nelson Coelho
sacou aqueles olhos murchos, tristes, de butuca captou algo no ar, caiu com
uma nova falácia de “ombro amigo; um beijo, um abraço, um aperto de mão”,
e, abrindo a perspectiva de um novo diálogo, panca de urutu querendo armar o
bote, fazendo-se de puro e inocentinho, “amigos para sempre”, convidou-a
para um jantar a luz de velas num restaurante italiano caro e chiquérrimo.
Ela não deveria ter concordado. Ele prometeu largar a patroa, pediria divórcio,
ainda deu um par de brincos de imitação de platina de presente, prometeu
ainda casar direitinho com ela de véu e grinalda, essas birutas cantadas de
burrezas pegajentas, que as mulheres, carentes, com cicatrizes, frágeis, às
vezes engolem de mão beijada. Foi na fiúza a Nanci Estrela, que
estava como se querendo provar alguma coisa pra si mesma, se vingar,
se agredir, punindo-se por causa de alguma fala exagerada do noivinho com
conversinha rastaquara fora de propósito que a tinha magoado muito. Tudo
pela auto-estima revisitada?. Jantaram
fora o prato fino, louças de cristal. Drinques, lagosta, cedê do Sinatra de
presente, juras de amor. Dançaram com o rosto coladinho. Ele, todo galã,
emperiquitado, fazendo tipo, pacote pronto, kit básico em último estilo, na
linha de frente pro bote cascavel, o calhorda. Ela, meio na defensiva, meio
no ofício de entrega, algo jururu, carecida, ainda mais encharcada de vinho
do Porto, mal grunhiu um possível sim de forma tácita talvez aceitando a
inevitável cantada de “uma prova
de amor” e lá foram pro Motel Maitê, ela prontinha para entregar os píncaros
do hormônio atiçado em montada ocasião de risco. Lá
chegando, ele não perdeu tempo, claro, vai que ali perde a imediata
acessibilidade do romantismo etílico. Foi indo depressinha que ela estava no
ponto, no altar dos sacrifícios. Antes das preliminares pro objetivo final
propriamente dito, a pretexto de dar uma desaguada, tirar água do joelho,
ele tomou pela primeira vez uma dose especial do milagroso Viagra. Não
queria fazer feio, nunca se sabe, numa hora daquelas. Iria deixar para sempre
a sua marca na gata dura na queda. Valeria a pena. Era assim, o babaquara. Girou
nos calcanhares e voltou incontinente pra cama da presa acuada e rendida,
ainda etilicamente derrubada em corpórea sensual bem convidativa, já na
fase dos beijos e amassos pouco correspondidos, sentiu a barriga refugar uma
espécie de vulcão Etna e não quis nem pensar em correr riscos desnecessários.
Pediu licencinha benzinho, volto já amor, fique calminha aí querida, e se
dirigiu assoviando uma balada do Fábio Júnior pro W.C. Foi um esparramo só.
Desandou o intestino carregado. A lasanha? O uísque? O peixe? A salada de
frutas asiáticas? Alguma química a partir de algum problema neural ou
insegurança freudiana? Nem pensou em nada. A flora intestinal desarranjou-se
toda. Nelson
Coelho fez-se chuveirinho, vaidoso como ele só,
e, saindo amarelo, voltou à carga. Tirou a parte de cima da roupa da
fêmea, mal estava ali no chove e não molhe que ele era sistemático e
preciosista, e o desarranjo de novo avisou que tinha havido um desboque
generalizado, e ele podia correr o risco de não se segurar no côncavo e
convexo da peleja corpo a corpo. Mal-e-mal desidratado, se lavando com raiva,
perdeu hora no banheiro, tendo que limpar também todo o hall do ambiente
chique e caro, tal o seu ocasional problema de desinteria daquelas bravas, um
piriri feroz. Pois foi e voltou várias vezes. Diarréia mesmo, quem diria.
Uma noite e madrugada lazarenta de inesquecível. No
bem bom, aqui e ali, quase entradas e bandeiras, o mesmo problema sem parar:
ou traçava a minha ou se borrava todo nela. Foi mal. Foi um pandareco. Em várias
tentativas sofridas, desacorçoado, passado de sono e desmanche fisiológico,
madrugada ganhando o betume das sofrências, lá pelas tantas retornou e a
pobre coitadinha, cansada de tanta espera dependente, sem as roupas de cima,
só com as peças íntima inferiores, tinha, de bode, desmaiado num sono
profundo sem retorno. Deu no que deu. Então
o Nelson Coelho concluiu que não agüentava mais, estava frito, e capitulou,
rendido as evidências, fraco como uma maria-mole de coco queimado, quase
fora de si de tanto sacrifício. Estava até meio tonto e com vômitos, tal a
virose que fosse em inusitada síndrome. Dormiu feito uma múmia. Um
condenado antes da consumação do crime. Quando
finalmente se viu mal-refeito, o sol ardia a primeira manhã, a tipa, incólume
tinha dado no pira que não era bobinha sempre, e ele ali, pálido, esquálido
como um coió, precisando tomar chá de cortiça de rolha porque desaguava
feito um pote de vísceras. Crime e castigo. Jamais esqueceria a tragédia
daquela aventura desastrada onde apostara muito e gastara alta grana
inutilmente. Passara em branco. Segunda-feira,
dia de batente, lá estava o Nelson Coelho tomando soro e remédios para a
recuperação devida, voltando à rotina, todo frustrado por não ter
conseguido seu intento contumaz. Que fora. A
bela gata, por ali, indo e vindo emperiquitada, rodeando, desfilando ainda
mais seu charme, a sua mais nova implicância de futura improbabilidade,
porque, de algum modo se safara, não cedera, resistira sim. Estava
arrependida e nunca mais agiria daquele modo, censurando-se pelo quase pecado
que afinal não se consumou. Também pudera. Ele,
o Nelson Coelho, coitado, contando-me depauperado todas essas acontecências
com riquezas de detalhes, mal se cabendo em si de vergonha, ainda se sente
uma canalha, mas, quando ocasionalmente encontra a Nanci de pertinho entre a
área contábil e o almoxarifado, olha-a nos olhos, e pensa, ao admirá-la
loucamente: -Tesão! Mas
ele não sabe, o caipora, que ela, mal se contendo na fé e na fidelidade,
ainda o desacredita e, de forma concomitantemente ao vê-lo, disfarçando
interiormente o descrédito, toda segura de si ao mesmo jocosa refutando
pensa: -Cagão! -0- Silas
Corrêa Leite – Conto da Série “Beer-Man, O Homem Que Virou Cerveja” E-mail:
poesilas@terra.com.br
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