Meiotom - poesia


 

 

Felipe Stefani

 

Morrerei rompendo o mar,
sobre meus ossos recém naufragados,
o silêncio brotará
como um azul de tom inconciliável.

Tão longe estarei
das pálpebras dormentes dos astros,
nesse ultimo ato,
que nem o sol
indagará a idade do meu naufrágio,
meu ultimo nome.

No reflexo de um itinerário indivisível,
ressoarei no instante das ondas,
e na simplicidade sem fins ou ternura,
já não serei nem espuma, nem barca,

e não estarei sonhando.
 


E eu que amava o sonho dos pássaros,
dizia às vozes imprevisíveis
que dormiam no mar:

Como posso sonhar,
se a exatidão em que navegam as aves
é maior que a própria vida?

E as sombras do silêncio repetiam:

"É preciso cantar para invadir o segredo".
 


Acolhimento.

 
A chuva
cai sobre o corpo que é oco,
e abriga o dia.
Cinza é o dia.

Brisa,
infinito que corta o vão do labirinto,
e ecoam trovões
às portas do exílio.

Desvãos.
A tarde entende o vulto silente,
de um silêncio maior que o mundo.
Ressoam as sombras desses muros,

pausadamente.

Tarde cinza.
Vem a brisa,
arde pelo cárcere,
larga sinfonia.

Talvez o corpo abrigasse
as fugas da melodia.

 

On The Train


Janelas, portas de aço,
desencontrados passos,
vielas.

Olhares atentos,
desatentos à vida.

Vento e trilhos
lidam com o tempo.

Segmentos e partidas.
Malas, mulheres, estações.

Passam as horas,
ficam senões.

Corredores e escadas,
para cima, para baixo,
junto a nada.

No céu um faixo,
na morte de um Sol.

Next stop,
Ton Hall.

Um rosto de mulher
balança ao lado,
no outro vagão.

Portas de aço,
vago olhar de chumbo.
Nesta estação
um vagar profundo.

E tudo passa
na fumaça do mundo.
 


Perpetuum Mobile.

 
Sou a Ode dos meus dias.
Indiferente ao ocaso,
a mão do meu carrasco,
e sem o corpo
o olhar flutua,
em sua própria bruma.

Escafandrista
de imemoráveis ruínas,
a escrita, em sua sina escapa,
maculada e irrestrita,
pela guerra de seu vulto.

Num divagar oculto,
contra o estourar das espumas,
que dilaceran-se nas margens do mar,
abre-se em imagens de inumeráveis
mortes póstumas.

Eis as apostas.
O norte em meu vagar.

Sou a Ode dos meus dias.
Indiferente ao ocaso,
a mão do meu carrasco,
e sem o corpo
o olhar flutua,
em sua própria bruma.

Felipe Stefani
e-mail: felipe.stefani@uol.com.br
Blog: http://cultuar.blogspot.com